Agosto

o golpe final

AGOSTO de dias frios e corações duros, ao menos em sua maioria. Se assim não fosse, o que poderia explicar o que vivemos mundo afora, continente afora, país idem, estado e esta bela e maravilhosa cidade, agora já esmaecida com o fim das Olimpíadas e o deprimente desprezo às Paraolimpíadas que estão à vista?

No Rio, vivemos dias de felicidade por conta dos Jogos. Houve relativa paz (relativa mesmo!). Por três semanas, deixamos de lado os noticiários sangrentos e a barbárie cotidiana que temos vivido. Festa, shows, esportes, novidades no cenário. Inegavelmente a cidade teve melhoras: aí estão o Boulevard Olímpico e o Metrô Barra que não me deixam mentir. Muita gente gostou e isso pode ser a promessa de mais turismo. Excelente.

Mas não merecíamos mais do que isso depois de tantos anos de espera?

E o que dizer das transações que cercaram a Rio 2016, com um papagaio de centenas de milhões de reais a serem cobertos (possivelmente pelos contribuintes)?

Dentro de uma semana, teremos a consolidação de um golpe sujo, consagrando de vez um presidente sem votos e poupado pelas grandes operações de combate à corrupção. É desnecessário falar da pior Câmara dos Deputados que já tivemos, em todos os sentidos.

Os Jogos se foram, aos poucos vamos voltando ao que se chama de normalidade e nela, não há fadas madrinhas nem varinhas de condão.

Os absurdos, antes abafados pelas grandes manchetes olímpicas, borbulham. Da supressão de direitos decenais dos trabalhadores, passando pela gentrificação e até mesmo pela censura enrustida do filme “Aquarius”, de Kleber Mendonça Filho, que acabou de receber a classificação indicativa para maiores de 18 anos. Segundo o Ministério da Justiça, o filme teria “uma situação sexual complexa”. Ninguém é tão ingênuo a ponto de acreditar numa bobagem dessas: a verdadeira razão está nos protestos políticos feitos pelos atores do filme no Festival de Cannes. No economicamente combalido cinema brasileiro, restringir a presença de menores é a maneira de esvaziar a bilheteria, tudo em nome da retaliação.

Enquanto isso, os turistas ainda podem se refestelar pela policiada Cinelândia, diferente demais de outrora. A região ganhou vida nova, também ajudada pela integração VLT-Metrô. Sábado passado mesmo, eu saí por volta de nove e meia da noite da Caixa Cultural, esquina de Rio Branco com Almirante Barroso, quando me deparei com um monte de gente caminhando tranquilamente, muitos voltando do Maracanã por ocasião da disputa do ouro olímpico no futebol. Será que isso vai durar muito?

Quanto àquilo, que vá para o inferno de uma vez.