Boas festas para quem?

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Em que fim de mundo é esse em que viemos parar?

O contraste das maravilhas contemporâneas embutidas nas novas tecnologias e nos bens de consumo, contrastadas com um planeta onde boa parte das pessoas não tem água, terra, casa e acesso a condições minimamente razoáveis de vida.

Nesta Terra Brasilis em que se plantando, tudo dá – ou daria -, temos vivido perdas e danos. Há quatro anos, é difícil respirar.

Desabrigados no olho do furacão de uma crise econômica, associados a um governo ilegítimo que repercute em todas as instâncias, enlameados pela cólera que vai do vizinho da rede antissocial ao bandido que, outrora, batia a carteira e agora atira na cara, para destruir. Ou de propostas estapafúrdias como a de há pouco, onde se pretende que boa parte dos brasileiros morra sem ter recebido aposentadoria. Ou da cegueira conveniente que não vê problema entre relações de intimidade explícita entre um multi delatado pela Operação Lava Jato e aquele que, em tese, deveria julgá-lo.

Há muitos Brasis num só. E em vários deles, ninguém tem a menor ideia do que está realmente acontecendo. Boa parte dos brasileiros instalados nas metrópoles e capitais passa por situações humilhantes, trabalhos exploratórios, remunerações indignas e pena até para se deslocar, dado que os transportes de massa geralmente são bosta. Depois de horas em pé num ônibus ou trem lotado, o que resta é tomar um banho e desabar na cama – se cama houver – para algumas horas de sono alucinógeno até começar o maldito dia seguinte, torcendo para que a sexta ou o sábado cheguem logo, de modo que a vida tenha algum mínimo sentido lúdico.

Vender o ticket, contar as moedas, pagar as contas com sorte. Alguns serão entorpecidos pelo mundo da fantasia do Jornal Nacional e só.

Mais uma vez, somos vítimas de uma elite poderosa, mas ignara, incapaz de respeitar o próximo e de qualquer sentimento de nacionalidade, disfarçado com as camisas da CBF, com todo o ridículo contido nisso.

Eu poderia estar feliz porque tenho um emprego razoável, trabalho numa sala confortável e refrigerada, consigo fazer minhas refeições prediletos diariamente, compro alguma parte dos livros e discos que me interessam, vivo bem com minha namorada e rimos muito, meu hobby de escritor alegra algumas pessoas e, até onde penso, estou em boas condições de saúde. É, isso me bastaria se eu fosse um idiota egoísta que só pensasse em mim o tempo inteiro. Mas cresci com a lição de que o homem é um ser gregário; logo, não posso achar normal olhar para a calçada da esquina e ver crianças esfomeadas, abandonadas, drogadas. Nem espiar o que ainda resta das bancas de jornal e ver a estupidez da violência por todos os lados – você pode escolher as versões local, nacional ou estrangeira. Tudo isso enquanto a lista nacional de milionários brasileiros aumenta. Na crise? Pois é.

Não falei nem falarei de gente passando por cima da lei, políticos corruptos, cidadãos corruptos, gente inescrupulosa e mais uma antiga lista telefônica inteira de vícios e defeitos.

Já me senti um verdadeiro brasileiro. Hoje, sou um inquilino do fim do mundo.

O Brasil está cada vez mais podre, vitimado por senhores de engenho do século XXI.

E pelo que se lê pelaí, dar o fora não melhora muito a coisa. Um bombardeiozinho, uma guerra, um atentado, uma explosão racista, outra homofóbica.

Desemprego, muito desemprego. Engraçado como odiavam e comemoravam o “fim do comunismo”, mas agora silenciam diante do evidente perfil falimentar da “livre iniciativa” (que nunca foi livre de verdade).

Cresci ouvindo dizer que éramos um país em desenvolvimento. Já se foram quarenta anos. Quando tudo parecia dizer que daríamos um salto à frente, recuamos trinta anos no tempo. Só falta o AI-5 para estorricar tudo de vez.

Dá para falar de Rio de Janeiro? Estado implodido e a Cidade Maravilhosa com suas bombas explodindo no coração do Centro em plena hora de almoço? Pelo menos parece que a turma das facadas deu no pé. Mas que ninguém se iluda: a barra é pesadíssima.

Boas festas para quem?

As pessoas simples

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As pessoas simples. Ah, aquelas que passam uma expressão de tranquilidade no rosto, sem dissabores, sem mágoas, talvez com certa melancolia, mas absolutamente conscientes de que não somos nada neste muito de merda, cheio de empáfia, tiranos, explorações, genocídios, doenças e miséria, miséria demais. Qual o sentido da arrogância? Nenhum. Os cemitérios abrigam milhões de esqueletos que já carregaram corpos e mentes de pessoas absolutamente perdidas na vaidade oca, no preconceito, na insistência em diminuir o próximo por causa de seus bens – ou da falta deles -, títulos, posses e o diabo a quatro.

Poderia ser o moço da borracharia comprando quatro pães e oito fatias de mortadela às seis da tarde, na padaria que fica bem ao lado do novo prédio da Petrobras no centro do Rio de Janeiro. Vestido com roupas simples, um homem simples à espera da refeição enquanto o rapaz do balcão, também simples, fala alguma coisa da derrota do Flamengo e outro rapaz do balcão, também simples, sorri brevemente. Os trabalhadores em pé desde o começo da manhã, lutando por um salário mínimo, ainda se divertem em meio ao cansaço, horas antes de longas viagens de trem ou ônibus, para um pequeno descanso e o recomeçar antes do sol nascer. O moço da borracharia pede tudo com calma e educação. É um lorde do coração da capital.  Bem perto, uma garota simples saboreia um pão na chapa, barato e gostoso, silenciosa e com ar pensativo.

As pessoas simples que ainda dão bom dia à rua ou no elevador, em tempos de repulsa coletiva. Que se preocupam quando veem alguém passando com a testa franzida ou carregando alguma dor elegante, daquela tão bem cantada por Itamar Assumpção. Que ficam realmente tristes quando veem as notícias ruins na TV, preocupadas com os semelhantes que sofrem pelo mundo afora.

Os garotos simples, com suas caixas de engraxate, atravessando a cidade de uma ponta a outra, torcendo para que homens nobres com sapatos elegantes precisem de um trato e ali esteja garantida a chance de um lanche, pelo menos.

Antigamente, era fácil encontrar muita gente simples. Bastava ir ao Maracanã. Em todos os setores do estádio, principalmente a geral, que ficava em volta do campo e onde os torcedores assistiam aos jogos de pé. Na verdade, em qualquer estádio brasileiro, antes do processo de gourmetização do futebol. Com alguns trocados, comprava-se um ingresso. Hoje mudou tudo, o Maracanã morreu também, vivemos abomináveis tempos modernos.

Domingo de manhã, a rua fechada para ser área de lazer – bem mais barato do que construir e manter parques -, os meninos ainda correm atrás da bola dente de leite, já bem gasta, enquanto os pares de chinelos humildes são as traves. Correm, gritam, sonham com aquele estádio que foi assassinado, sonham com histórias de craques que nunca chegaram a ver em campo – Pelé, Garrincha, Sócrates -, sonham com a felicidade efêmera das brincadeiras dos tempos de garoto.

Há muito tempo atrás, um senhor passava com um carrinho e sua buzina vendendo empadinhas perto do meu local de trabalho. Conversava com as pessoas, era solícito e percebia-se que não fazia aquilo apenas para vender o produto, era seu jeito de lidar com o próximo. Perto de casa, dizíamos que ele era o Seu Empadinha. Sempre que podia, eu comprava para ajudá-lo; já era um aposentado. Um dia, o carrinho nunca mais passou. A vida ficou bem mais pobre.

Paulo, meu xará, é um dos melhores funcionários de todos os prédios onde já trabalhei e morei. Senta praça no condomínio onde resido. Volta e meia rimos e falamos amenidades quando passo pela portaria, mas nem sempre foi assim: ele foi uma das pessoas a carregar o corpo de minha mãe até o carro da funerária. Algo que jamais esquecerei. Ele está sempre rindo, tranquilo, com voz mansa. Fizemos piada dia desses, quando uma moradora queria proibir os beijos entre os casais no jardim da entrada. Patético, mas não menos do que o que me disse: “Paulão, você é um dos poucos moradores que conversam com a gente”.

O mundo está errado demais. Faltam gentileza, cortesia, apreço e outras coisas mais, todas simples.

@pauloandel

Mais um novo feriado

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É CLARO QUE já estamos no clima do grande feriado. No coração da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, o fog carioca é uma realidade – e carioca, todos sabem, espera a primeira nuvem gris para colocar casaco, gorro, luvas e cachecol, sem a menor necessidade.

Está frio. Frio mesmo, porque parece que o ano sequer começou. Estamos parados em algum lugar entre o indizível, o nada e o inútil.

O caos do Brasil é tão grande que, entre o golpismo e o disfarce, é possível se deparar com situações hilárias, tal como as piadas advindas do áudio do Senador Jucá, dizendo que o Senador Aécio seria o próximo a ser comido.

O povo não resiste a piadinhas de duplo sentido. E aqui termina qualquer vestígio de graça.

Se o país fosse sério, provavelmente Jucá seria preso da mesma forma que aconteceu com Delcídio do Amaral, o senador cassado recentemente e que, noutros sufrágios eleitorais, obteve grandes êxitos porque as mulheres diziam que ele era um “gato”. Percebem como nada é sério nesta joça de lugar?

Horas atrás, um possível romance gay terminou de forma trágica. Um suposto casal, depois de trocas de facadas, caiu da janela do nono andar do edifício número 598 da rua Figueiredo Magalhães, sistema nervoso central de Copacabana. Poucos sujeitos conhecem tão bem o passado deste respeitável prédio quanto eu: entre 1977 e 1992, nele estive em 363 dos 365 (ou 366) dias de cada ano. Lá morava meu grande amigo Fred; em sua casa fizemos nosso quartel general da adolescência, com direito a ingresso nessa abominável vida adulta – era com demais escutar discos, lanchar sanduíches, jogar cartas, rir e aprender – um amigo usava cocaína – o outro, marijuana – lá passávamos todas as tardes, no décimo terceiro andar. Mas é feriado e logo esta terrível notícia servirá para forrar a gaiola do papagaio ou de um outro parente alado – ou ainda embrulhar ovos na feira.

As pessoas não estão nem aí com a dor do outro. O que importa é a viagem.

Golpe? Crise?

Desemprego? Violência?

Bastou que a Globo aliviasse a campanha em prol de seus interesses particulares – está até o pescoço em dívidas e depende de um governo federal, digamos, mais compreensivo, para que milhões de cordeirinhos colonizados deixassem de lado seus discursos coléricos.

A barra já tinha ficado pesada desde que vimos o show de horrores da Câmara dos Deputados ao vivo por um dia inteiro – foi o suficiente para que ali se estampasse todo o anseio coletivo pela escrotidão adotada por considerável parte dos brasileiros.

Dado o golpe, deram de ombros. O importante era que “acabassem com aquela corrupção”; essa aí de agora, de hoje, quase véspera do feriado, ainda “precisa ser investigada”.  Bonequinhos da velha imprensa calhorda a serviço de grandes interesses econômicos, nem um pouco preocupados com os destinos desta linda e castigada terra um dia chamada de Pindorama.

As ruas estão vazias nas calçadas. As pessoas têm medo. A moda é buscar refúgio nos shoppings recheados de “pessoas brancas de bem”. Céus!

Os aeroportos estão cheios. Não dava para tirar aquela “paraibada” dali?

Toda quarta-feira à noite tem um sonífero na tevê intitulado futebol. Quem consegue ver um jogo inteiro em casa sem dormir é praticamente um herói contemporâneo. Maracanã? Acabou, amigos: é um bananão, é um trombolho erguido no lugar daquele outro estádio que tinha alma, paixão, história, drama, gente. Esse tem visitantes e selfies.

O Rio é uma cidade fantasmagórica às vésperas dos propalados Jogos Olímpicos. Gangues de assaltantes de rua fazem arrastões em vários bairros. Muitas vezes você não vê tais notícias porque a televisão prioriza a cidade de São Paulo, onde você pode ver novos crimes na promoção com um sotaque especial – e todo o reacionarismo de um Datena saltando à tela.

Na entrada principal das grandes magazines do entretenimento, livros-jabá: a editora para para estarem ali, ora por interesse próprio, ora bancada por terceiros. Vale quanto propaga.

Os cafés deram lugares aos bares arrumadinhos, moderninhos, onde as pessoas enchem a cara sem qualquer conversa, troca de ideias ou algo que sugira princípios de fraternidade. No máximo, pegação.

Jornal nas bancas para quê? A internet resolve.

Era Rio, São Paulo e Brasil, mas poderia ser um monte de outros lugares neste mundo cada vez mais excludente, egoísta, cínico e hipócroto, um neologismo que define a fusão das palavras “hipócrita” e “escroto”.

Vamos vivendo. Vamos descansar desta selva, porque ela já volta.

Vem aí um novo feriado. Por que mesmo?

Os mortos nas estradas, contamos depois.

@pauloandel

O verdadeiro último dia do ano

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VIVEMOS uma manhã de domingo, cinzenta, de calor moderado. Acabou o ano de 2015, veio um final de semana pela emenda, hoje é um dia de ressaca mental e, com exceção dos estudantes que gozam férias maravilhosas, segunda-feira será dia de trabalhar, ou procurar emprego, e viver o recomeçar na vida na matemática secular de 365 (ou 366) dias, estes geralmente rápidos demais. Muitos trabalhadores também estarão de férias, o que significa ter praias mais cheias e escritórios mais vazios.

Chegou o meio de dezembro e as pessoas estão com seus relógios biológicos botando a língua para fora. Então pedimos arrego, cantamos por um mundo melhor, bebemos drinks e, em algumas oportunidades, os sorrisos felizes das fotografias que vemos não representam a melancolia dos corações imperfeitos. O que parece amor é, na verdade, angústia. Noutros casos, as pessoas mais importantes não estão em qualquer foto.

Depois deste domingo de folga, amanhã teremos a volta ao batente com todas as suas representações: stress, engarrafamentos, arrastões, zumbis de crack, falta de tempo, impessoalidade, terríveis notícias jornalísticas. O país a penar, o Estado a penar e esta bela Guanabara com todas as suas mazelas varridas para debaixo do tapete, porque o que importa são os equipamentos urbanos, a festa olímpica e as aparências.

Tomara que aqui, e em outros lugares do Brasil – do mundo também -, role menos egoísmo e indiferença. Menos violência, menos mortes estúpidas, menos desamor. Que a vida, essa arte do desencontro, contrarie sua própria essência – que as pessoas se encontrem. Mas é claro que isso é apenas um desabafo, porque todos sabemos a distância entre o nosso sonho de paz e a realidade das ruas.

O último dia do ano é hoje. Amanhã voltamos à vida. Por enquanto, o noticiário desta manhã de domingo fala de um policial assassinado com oito tiros numa pizzaria em São Paulo. E de um rapaz que morreu vítima de um raio em Angra dos Reis. O pensamento positivo já começa golpeado, mas vamos tentando.

Quem quer falar de amor? Quem quer mudar, arriscar, investir? Quem quer aprender ou ensinar? Quem quer deixar seu pequeno mundo secreto mais bonito do que ele foi ano passado? Quem quer mais amizades reais e menos likes? Quem quer as boas sensações da vida real em vez dos títulos de capitalização que muitos veem nas religiões? Quem quer o hoje em vez do incerto amanhã? Quem quer palavras materializadas em vez de apenas lançadas ao vento?

Muitas vezes ouvimos na escola: “O homem é um ser gregário”. Tomara que a fantasia tome o lugar da realidade.

Feliz 2016. Sem likes.

@pauloandel

Cidade maravilhosa!

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DIANTE DESTE belo cenário intitulado vida, aqui estamos a acompanhar as cousas do Brasil como se tudo fosse uma novelinha entre o bem e o mal, parecendo a mais rasa das análises que se possa fazer.

Esta grande capital, que um dia foi mãe da República, é abarrotada pela brava gente brasileira, a mesma que sua, trabalha, luta com toda dignidade e é exposta a violências, estupros, roubos, assassinatos, canetadas políticas, imprensada em coletivos cheios, vagões malcheirosos, estradas sem fim. Sempre explorados, agredidos na alma, chicoteados.

Outra gente ladra, uiva, ameaça, expõe seus preconceitos mais nojentos, sua sede interminável de poder e fascismo, o autoritarismo nas alturas. Sem entenderem um pingo de livros e discos, sorriem quando o poeta canta “os guardanapos estão sempre limpos/ as empregadas uniformizadas/ são caboclos querendo ser ingleses”. Então desfraldam a bandeira da ignorância absoluta.

Soldadinhos de merda escrevem nos jornais, vociferam nas televisões, gritam nos microfones das rádios. Não lhes basta viagens para Miami, os passeios fúteis pelo Village Mall, o traje esporte fino no Teatro Municipal sonhando com um Teatro Nacional.

FAZENDO das redes sociais o esgoto da alma. Perseguir deficientes, pretos, gordos, pobres e não tem a menor importância se um carro com jovens pretos é fuzilado porque eles estavam perto de uma favela, e aqui é assim mesmo.

Uma mulher de voz firme canta que veio do fim do mundo. E é o fim do mundo mesmo.

Enquanto isso, o desaparecimento das vigas da Perimetral celebra aniversário. Com direito a bolo, festa e velinhas. Ninguém se lembra de Silveirinha, nem Jorge Mirândola – em Brasília -, nem a morte de Leon Eliachar. NÓS NÃO LEMBRAMOS DE NADA! A vida é para se viver, não propriamente pensar. Quem fim levou Hildebrando, o assassino da serra elétrica?

A explosão do restaurante na Praça Tiradentes com os cadáveres em pleno voo da morte? Os últimos acenos da mão decomposta à janela do edifício Andorinha, rua Almirante Barroso – o país parou para ver seus mortos de fogo -, que virou um grande prédio do petróleo – e alguns funcionários juram que já ouviram gritos e uivos no elevador.

A pútrida gente há meio século é lacaia da Rede Globo e de seus interesses que vão pela contramão do povo brasileiro. Há os remunerados, os que querem ser remunerados e os voluntários otários, naturalmente. Ninguém percebe a distância de Paulo Francis e Tristão de Athayde, Nelson Rodrigues e outros para estes Mainardis, Jabores e outras porcarias de ocasião.

Tem música, mas não escutamos. Bons livros, não lemos. A conversa de bar, aprendizado de vida, está resumida a tiroteios verbais pelo Facebook.

Em 2015 ainda somos ameaçados pelo racismo, pela homofobia, pela escassez de água, de luz, de reflexão e pensamento. Uma semana depois e Mariana não tem a menor importância. O atentado de Paris também. Vamos falar do Rio, o Rio é que importa, ele está fodido!

Você passa pela Avenida das Américas e num muro branco vê um pouco de capim à frente da pintura com tinta outrora vermelha, agora desbotadíssima, onde se lê “Associação dos Adquirentes da Torre H”.  Bem antes disso, no belo caminho para o Joá, o motel Vip´s tem uma das vistas mais belas da Terra – e ninguém pode entender o que passou na cabeça de um louco para jogar Leila Cravo pela janela.

O Rio ainda tem oxigênio nos poucos botequins que sobraram, na leveza do Bairro Peixoto e dessa garotada corajosa que, depois de ficar por anos e anos a fio sofrendo a vergonha de esmolar dinheiro para o ensino, ocupou a querida UERJ. Quando foi preciso invadir a Assembleia Legislativa em 1989 para garantir o repasse de 6% da verba do Estado, eu era um garoto cheio de sonhos: taquei pedra, explodiram bombas de gás lacrimogêneo e minha mãe jamais desconfiou de que eu pudesse ter sido um terroristazinho de meia pataca, nem que fosse por um dia, para honrar a história do meu tio, que lutou para este lugar ser livre da ditadura, mas acabou morrendo no exílio. De toda forma, pagaram os 6% por algum tempo.

E, se chegou até aqui sem se indignar com a derrocada do Rio, o fuzilamento dos garotos, Mariana, Paris, a esmola da UERJ, os garotos feito zumbis do crack nas ruas, a morte do garotinho do Alemão e outras pitadas, que tal você dar o fora daqui? QUE TAL VOCÊ DAR O FORA DAQUI? Eu não quero monstros, apenas passarinhos voando numa praça sem grades, vendedores de pó e malfeitores.

Queria mesmo era voltar no tempo. Mas é impossível. A vida deixa escorrer suas lágrimas de fracasso. Cidade Maravilhosa!

Privilégios

preto no chão

Eu devia ter uns 12 anos apenas. Fui ao apartamento de um tio, que é branco, em um bairro nobre da Zona Sul carioca. Era aniversário dele e minha avó tinha pedido para levar um bolo de presente. Fui de carro com o motorista. Ao entrar no prédio o porteiro perguntou aonde eu ia. Normal. Disse a ele o apartamento e com quem desejaria falar. Fui autorizado a subir. Já tinha estado naquele prédio outra vez, só que acompanhado da família. Ao me dirigir para o elevador fui interpelado pelo porteiro, que disse que eu não deveria subir por ali, já que ‘o seu elevador é o outro, o de serviço’.

Com meus 12 anos fiquei sem reação. Era isso mesmo? O que estava acontecendo ali era o que tinham me alertado a vida inteira? Subi e meu tio, que já me esperava com a porta aberta, me viu saindo do elevador de serviço, quis saber porque fui por ali e não pelo social. Contei a história. Ele ficou revoltado e queria resolver o problema na hora. Era seu aniversário, eu não queria atrapalhar. Ele ficou muito chateado com o que aconteceu e nem sabia como se desculpar. A culpa não era dele, quis falar. A culpa era da ignorância. Não era vergonha servir alguém. Ser empregado de alguém é totalmente digno. A questão era mais profunda. Usam a separação dos elevadores como um aviso: você não é bem-vindo aqui. Você só pode usufruir deste espaço na condição de serviçal. Gente como você nunca poderá ser morador. Não só o porteiro, mas o sistema já faz essa separação.

Aí me dizem: ‘Agora você só sabe falar disso?’. Na verdade, não. Falo da minha vida, do que vejo, do que sinto. E isso está presente em muitos momentos. ‘Você vê racismo em tudo?’ Também não. Vejo onde ele existe. Vejo em quem o pratica. E quando vejo eu falo, denuncio, abro a boca.

Quando na faculdade eu tive que brigar com um professor que me deu nota muito menor do que todos os outros, sendo que eu tinha feito trabalho semelhante aos outros, fui até a coordenação do curso de comunicação e protestei. Minha nota foi revista e a má fé do professor constatada. Resultado: ele foi afastado do curso. Eu já tinha 19 anos e as porradas que havia tomado até ali me fizeram saber que rumo seguir.

A menina que só ficou comigo porque queria saber como era um preto na cama.

O motorista de táxi que não parou pra mim por medo.

O rapaz da loja que disse que a garrafa de vinho que eu queria comprar era muito cara.

Os policiais que em um espaço de 2 meses me pararam 10 vezes em blitz da Lei Seca, fora as habituais.

O comercial de tv que eu não fiz porque ‘tinha os traços finos e eles precisavam de alguém com cara de pobre’.

As moças caridosas que me deram bolo e salgados para que eu ‘levasse para dividir com meus amiguinhos na rua’.

O policial argentino que em uma fila com mais de 50 pessoas parou apenas a mim e outro rapaz negro para revistar e fazer perguntas ameaçadoras.

Outro policial, só que no Brasil, que insistia que eu era morador da favela, sendo que eu não era. Ele insistia e eu negava. Ele dizia que me conhecia e eu negava.

Eu ainda estou vivo. Não moro no Alemão ou na Maré. Não tenho tanque de guerra na porta da minha casa. Não tenho incursão policial diariamente no meu bairro. Não tenho tráfico de drogas na esquina, nem troca de tiros dia sim e outro também. Não tive meu carro fuzilado. Tive “sorte”. No meio de tantos absurdos tenho que comemorar o fato de ser um “privilegiado”. Pude estudar em bons colégios, fiz línguas, fiz faculdade, viajei, li bons livros, tive orientação familiar, tive um teto. Tive o que a maioria dos meus irmãos não tiveram. Ainda assim o racismo veio me dar boas-vindas. Quando alguém vem me dizer que o problema é muito mais social do que racial, lembro de tudo o que me aconteceu e isso para mim já basta como resposta.

Cinco jovens negros perderam a vida por serem jovens, negros e pobres. Cinco jovens que não ficarão mais do que dois dias nas notícias de jornal. Cinco jovens que comemoravam a conquista de um deles. Cinco pobres a menos. Cinco pretos a menos. Eram negros, pobre, favelados, quem se importa?

Eu poderia não estar mais aqui. Porém ainda tenho como contar a minha história e ajudar outros a falarem das suas. Neste país louco sou um privilegiado.

Quem apenas senta nos próprios privilégios e não olha para outros consegue dormir tranquilamente?

Ernesto Xavier

IG: @ernestoxavier

Aqui está a representação da lógica policial:

Arrastões

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O primeiro arrastão do Rio de Janeiro quem fez foi o então prefeito Pereira Passos, em 1903, com o Bota-Abaixo, que demoliu casas, abriu avenidas e com a escassez de moradia aliada ao aumento dos aluguéis, expulsou os pobres das regiões centrais da cidade. A crise habitacional estava instaurada no Rio.

Quero voltar um pouco no tempo: Em 1888 os escravos foram libertados e sem casa, educação, trabalho, saem a procura de um lugar para morar. O Morro da Providência, que também foi ocupado pelos ex-combatentes da Guerra de Canudos, acaba recebendo a multidão de ex-escravos que chegavam na cidade vindo de todo o Estado.

Os cortiços foram a outra opção. O livro de Aluísio de Azevedo mostra bem essa realidade. Mas o nosso “querido” prefeito, citado acima, queria modernizar a cidade, transforma-la em uma metrópole internacional, com cara de Paris. Lá se foram os cortiços… Os moradores dessas demolições ocuparam também os morros da Providência e de Santo Antônio, as primeiras favelas do Rio.

Depois de Passos, Getúlio Vargas removeu pessoas para lugares mais distantes com seus Programas de Transferência, a partir de 1937. Carlos Lacerda intensificou o movimento, removendo 27 favelas, com mais de 40 mil pessoas indo viver longe de seus trabalhos, em conjuntos habitacionais. O processo teve seu auge no Regime Militar. Arrastões…

Quem precisava morar perto do trabalho por causa da limitação dos transportes ocupou as favelas da Zona Sul e do Centro.

O político jogava para longe e não ía lá para mais nada. Deixava o espaço aberto para que criassem as próprias leis e costumes. De tempos em tempos apareciam para pedir votos.

Essa breve história serve para mostrar como a população pobre foi expulsa de suas moradias e jogadas para longe. Aos governantes nunca interessou tratar o problema. Todos largados à própria sorte. Só quem visita as favelas são caveirões, carros de polícia e “gente de bem” para comprar drogas nas bocas de fumo.

Por que incomoda tanto a presença da população do subúrbio na Zona Sul?

Pobre, preto e do subúrbio só pode ir à praia para vender picolé, queijo coalho, amendoim, mate ou uniformizado (de branco) levando as crianças dos patrões para passear.

O morro desce quando quer ser ouvido. Há momentos em que o asfalto o recebe de tapete vermelho: no carnaval. Há outro em que o asfalto o repele: quando querem dividir o mesmo espaço de lazer ou conhecimento.

Assim aumentaram os preços de ingresso em estádios, elitizando o futebol e acabando com a geral. Assim condenaram os rolezinhos. Assim não querem dividir as praias da Zona Sul e da Barra. Assim vociferam contra a política de cotas raciais em universidades.

O jovem que responde com violência foi criado em um ambiente violento, com som de tiros, medo de bala perdida, toque de recolher, lei do mais forte, tanque de guerra na entrada da favela, batida policial diária, proibição de baile funk, tráfico a céu aberto, a televisão mostrando a família rica do Leblon na novela do Manoel Carlos, os comerciais de margarina e ele com a geladeira (se tiver) vazia. E querem dele o que? Flores? A grande maioria não segue a lógica da violência. Porém, quando se recebeu porrada a vida toda, fica difícil retribuir com um sorriso.

Se as redes de televisão dessem a mesma importância às invasões arbitrárias das comunidades pela força policial ao que dão para os arrastões nas praias de bairros nobre, talvez tivéssemos um equilíbrio e então entenderíamos que do outro lado do túnel tem gente sofrendo com receio de perder um amigo, um filho ou a própria vida. Veriam que toda vida conta. Veriam que as mortes do médico Jaime Gold ou do menino Herinaldo Vinícius, de 11 anos, assassinado por um policial, no Complexo do Caju, apenas por que corria, têm o mesmo valor.

A favela quer falar e a mídia, definitivamente, não é o seu porta-voz. O desabafo do morro desce amargo pela garganta.

Quem ameaça também pede socorro.

@nestoxavier

Ser livre é…

João não tem pai. As lembranças que tem dele talvez sejam apenas uma criação de sua mente fértil. São em pensamentos que ele viaja pelo mundo.

João acordou cedo, mas não foi pra escola. Tem que ajudar a mãe. Não teve o que comer pela manhã. Talvez tivesse à tarde. João poderia querer ser doutor, se soubesse o que isso significa, mas João só quer ver a mãe e os irmãos bem. Como fará isso? “Trabalhando, uai”. João já apanhou muito e não foi da mãe. Quase sempre pelas mãos de um tal Juvêncio, que tem mania de chama-lo de preto preguiçoso. João tem 11 anos, mas não chora. Aprendeu a ser forte com a vida. João quer crescer e sair dali. Sonha em levar a família para onde conseguir ir. Só não sabe pra onde. Quer ficar grande e dar uma surra em Juvêncio.

João vive em 1832, mas poderia ser em 2015.

A quem foi dado o direito à liberdade?

Hoje, milhares de jovens estão fora da escola. Não por preguiça, mas por circunstâncias que a grande maioria da população letrada e “de bem” talvez nem saiba classificar. Tiroteio na porta de casa diariamente, falta de alimento na panela (muito menos na geladeira), escolas mal equipadas, falta de professores e o principal deles: falta de incentivo.

Qual a motivação de um aluno que vive em regiões miseráveis do país para estudar? Que exemplos ele tem em casa ou próximo a ele que o fariam vislumbrar um futuro decente a partir da educação?

A realidade deste jovem é feita a princípio por meio da imagem da violência. Violência que passa a fazer parte de uma cultura enraizada.

O “preto e pobre” não vê corpos cravejados de bala na televisão. Ele vê ao vivo. Ele tem receio de que o próximo possa ser ele. Ao passo que apenas agora o carioca de classe média alta tem este medo, e mesmo assim de uma forma bem mais branda, o morador da periferia aprende a se defender do fogo cruzado, a pensar na bala perdida, a temer a força policial e a bandidagem desde que nasce.

Segundo dados cedidos pelas Secretarias de Segurança Pública em 22 estados (outros 4 estados e o DF não disponibilizaram informações), em média 7 pessoas morreram por dia pela mão da polícia militar no Brasil em 2014. Esse são dados oficiais. Nem quero discutir os extraoficiais, pois se nem os números da Ditadura, que acabou há mais de 30 anos, são precisos, porque os dados que poderiam incriminar policiais na ativa seriam?

Essa pesquisa poderia ser ainda mais precisa. Quantas dessas 2.526 mortes foram em combate? Quantas de menores de 30 anos? E de menores de idade? E de inocentes? Quantas de negros e pardos? Quantas em legítima defesa? Quantas foram apuradas, investigadas?

A escravidão foi abolida por lei, mas a figura do capataz continua nas ruas. Os quilombos perderam sua real necessidade, mas afastar o negro e o pobre dos olhos da sociedade economicamente ativa e dos turistas continua sendo uma prática. Por que os moradores da Vila Autódromo serão jogados para longe? Antes o local não tinha interesse imobiliário. Agora não. Vai virar área nobre. Vai ser cartão postal da cidade durante os Jogos Olímpicos. E beleza não combina com pobreza. “Vão já procurar outro quilombo”!

Preto e pobre para ter direito a andar nas áreas nobres tem que estar de uniforme. Tem que estar a serviço. Serviçal. Roupa branca pra cuidar do filho do bacana. A eles nem foi dado o direito de sonhar com o uniforme branco do doutor. “Você não se esforçou. É vagabundo. Se tivesse estudado, hoje seria doutor”.

A quem foi dado o direito à liberdade?

Quem pode sair da favela? Quem ousa ir contra o status quo ?

Preto é parado na blitz. “Como você conseguiu esse carro”? Mão na cabeça. Arma apontada na sua direção. Revista o bolso, revista o carro, “tá indo pra onde?”, “tá vindo de onde?”.

Foram 388 anos de escravidão. A princesa assinou os papéis e depois lavou suas mãos. Não era mais problema dela e nem de quem os manteve em cativeiro. “Aqui tinham comida, moradia…agora que se virem. Estão livres”.

Alguém sabe realmente o que significa liberdade?

Ser livre é poder sonhar em ser doutor e fazer disso uma escolha. Ser livre é ter escolha. É não ter medo de voltar tarde pra casa por causa da guerra do tráfico ou da “pacificação”. Ser livre é chegar a escola alimentado. Ser livre é viver em uma casa decente. Ser livre é não ter medo de ser despejado pelo Estado. Ser livre é ter o mesmo julgamento pro favelado e pro filho do Eike Batista. Ser livre é não precisar de rolézinho pra entrar no Fashion Mall. Ser livre é escolher se você quer entrar no Fashion Mall. Ser livre é saber que o museu, o teatro e o cinema são lugares para você. Ser livre é frequentar a faculdade, o curso técnico, a praia, o clube, o parque, o estádio.

É triste ter que discutir a liberdade. Em um país que discute tanto os andamentos do Legislativo, porque algo que está garantido na Constituição ainda está tão longe de ser cumprido.

O que diria João ao ver a vida de um semelhante nos dias de hoje?

“Não serei livre enquanto meus irmãos continuarem a ser vistos como escravos”.

Para quem serve essa liberdade?