Tchau, Alfa

al-farabi-mesa

Não fui propriamente um cliente assíduo do sensacional Alfa – a cada dia que passa, eu sou cada vez menos assíduo a qualquer coisa. A minha vida estava deslocada para o outro lado do que chamam de “A cidade”. Mas a cada três meses eu ia e batia meu ponto, geralmente em grandes conversas com Mauricio Nascentes, meu amigo há 20 anos (o tempo passa rápido demais). Nas férias era certo, já que em todas elas um dos meus passatempos é flanar pelo Centro, visitando os centros culturais, as ruas, conversando com os amigos, as coisas normais que a vida dentro do escritório não permite em boa parte do ano. Um dos grandes endereços do Centro do Rio, inclusive citado em meu próximo livro a ser lançado daqui a pouco mais de um mês, quando a casa terá cerrado suas portas.

Alfa de Al Farabi, não o grande matemático mas o seu nome emprestado ao sebo que virou point de gastronomia e boa música encravado na Rua do Rosário.

Em todas as vezes que lá estive, o Alfa foi uma espécie de versão dub remix de outro grande espaço da cidade, a Livraria Berinjela, que frequentei por muitos anos e, claro, também estará no livrinho.

Escolhi o Alfa para ser o local de lançamento do meu livro mais dark sobre futebol, ao lado de Zeh Augusto Catalano: “2014 – O espírito da Copa”. Pouca gente teve a ousadia de contar toda a história cotidiana do Mundial de 2014, por motivos óbvios. Mas não estávamos nem aí. A capa dizia tudo: dois garotinhos com a camisa 10 da Seleção jogando bola na rua dez minutos depois dos 7 a 1. Não há bandido travestido de dirigente que mate o futebol brasileiro, por mais que alguns possam se esforçar neste sentido. Fomos muito bem recebidos, a noite foi um barato e eu esperava colocar lá outros lançamentos mais à frente. Não vai dar. Uma pena. O livro me dá muito orgulho e o Alfa foi o grande palco dele.

Que novas trilhas sejam abertas, que novos caminhos sejam cruzados, mas fica para mim certo gosto amargo de uma cidade que cada vez dá mais passos para trás. O Rio de Janeiro da conversa fiada e rica, das cervejas, dos livros, dos discos e de tantas coisas mais, parece dar vez a uma Gotham City sem Batman, dominada pelo capital especulativo e de origem nem um pouco maravilhosa. O Comissário Gordon deu o fora e o resto que se dane. Esta cidade foi construída com boemia, camaradagem, picardia e muitas trocas de ideias, o que definitivamente não cabe em “curti ai” e figurinhas de sorrisos como linguagem profunda. Os cinemas, o Maracanã, os sebos, as livrarias, os bares camaradas, tudo vai dando adeus para os espaços bonitinhos, assépticos e de gente arrumadinha, isso quando os engravatados de Deus não vêm à calçada captar alguém pelo braço.

Tudo muito diferente do que eu pensava encontrar quando chegasse aos 50 anos de idade, que já estão à porta.

Fico com meu João Saldanha de cabeceira: “Vida que segue”.

Boas festas para quem?

centro-do-rio-preto-e-branco

Em que fim de mundo é esse em que viemos parar?

O contraste das maravilhas contemporâneas embutidas nas novas tecnologias e nos bens de consumo, contrastadas com um planeta onde boa parte das pessoas não tem água, terra, casa e acesso a condições minimamente razoáveis de vida.

Nesta Terra Brasilis em que se plantando, tudo dá – ou daria -, temos vivido perdas e danos. Há quatro anos, é difícil respirar.

Desabrigados no olho do furacão de uma crise econômica, associados a um governo ilegítimo que repercute em todas as instâncias, enlameados pela cólera que vai do vizinho da rede antissocial ao bandido que, outrora, batia a carteira e agora atira na cara, para destruir. Ou de propostas estapafúrdias como a de há pouco, onde se pretende que boa parte dos brasileiros morra sem ter recebido aposentadoria. Ou da cegueira conveniente que não vê problema entre relações de intimidade explícita entre um multi delatado pela Operação Lava Jato e aquele que, em tese, deveria julgá-lo.

Há muitos Brasis num só. E em vários deles, ninguém tem a menor ideia do que está realmente acontecendo. Boa parte dos brasileiros instalados nas metrópoles e capitais passa por situações humilhantes, trabalhos exploratórios, remunerações indignas e pena até para se deslocar, dado que os transportes de massa geralmente são bosta. Depois de horas em pé num ônibus ou trem lotado, o que resta é tomar um banho e desabar na cama – se cama houver – para algumas horas de sono alucinógeno até começar o maldito dia seguinte, torcendo para que a sexta ou o sábado cheguem logo, de modo que a vida tenha algum mínimo sentido lúdico.

Vender o ticket, contar as moedas, pagar as contas com sorte. Alguns serão entorpecidos pelo mundo da fantasia do Jornal Nacional e só.

Mais uma vez, somos vítimas de uma elite poderosa, mas ignara, incapaz de respeitar o próximo e de qualquer sentimento de nacionalidade, disfarçado com as camisas da CBF, com todo o ridículo contido nisso.

Eu poderia estar feliz porque tenho um emprego razoável, trabalho numa sala confortável e refrigerada, consigo fazer minhas refeições prediletos diariamente, compro alguma parte dos livros e discos que me interessam, vivo bem com minha namorada e rimos muito, meu hobby de escritor alegra algumas pessoas e, até onde penso, estou em boas condições de saúde. É, isso me bastaria se eu fosse um idiota egoísta que só pensasse em mim o tempo inteiro. Mas cresci com a lição de que o homem é um ser gregário; logo, não posso achar normal olhar para a calçada da esquina e ver crianças esfomeadas, abandonadas, drogadas. Nem espiar o que ainda resta das bancas de jornal e ver a estupidez da violência por todos os lados – você pode escolher as versões local, nacional ou estrangeira. Tudo isso enquanto a lista nacional de milionários brasileiros aumenta. Na crise? Pois é.

Não falei nem falarei de gente passando por cima da lei, políticos corruptos, cidadãos corruptos, gente inescrupulosa e mais uma antiga lista telefônica inteira de vícios e defeitos.

Já me senti um verdadeiro brasileiro. Hoje, sou um inquilino do fim do mundo.

O Brasil está cada vez mais podre, vitimado por senhores de engenho do século XXI.

E pelo que se lê pelaí, dar o fora não melhora muito a coisa. Um bombardeiozinho, uma guerra, um atentado, uma explosão racista, outra homofóbica.

Desemprego, muito desemprego. Engraçado como odiavam e comemoravam o “fim do comunismo”, mas agora silenciam diante do evidente perfil falimentar da “livre iniciativa” (que nunca foi livre de verdade).

Cresci ouvindo dizer que éramos um país em desenvolvimento. Já se foram quarenta anos. Quando tudo parecia dizer que daríamos um salto à frente, recuamos trinta anos no tempo. Só falta o AI-5 para estorricar tudo de vez.

Dá para falar de Rio de Janeiro? Estado implodido e a Cidade Maravilhosa com suas bombas explodindo no coração do Centro em plena hora de almoço? Pelo menos parece que a turma das facadas deu no pé. Mas que ninguém se iluda: a barra é pesadíssima.

Boas festas para quem?

Que fim levou?

cenas-do-centro-do-rio-blue

Que fim levou aquele velho chope de sexta-feira com os amigos da faculdade? Hoje estão todos muito ocupados demais, seja por conta da grande vida corporativa, a falta de tempo, os contas, os filhos, as mulheres e principalmente as desculpas esfarrapadas nestes dias de oi e tchau pelo smartphone.

O coração da cidade parece mais vazio e abandonado. Falam da crise mas, pensando bem, em boa parte da sua existência o Brasil esteve em crises e as ruas eram mais cheias.

Polícia não há. Tiros, balas perdidas e cada vez mais negros pobres presos para livrar o Brasil do mundo do tráfico.

Numa grande capital de um país desnorteado por golpistas de meia tigela, vai chegando quatro e meia da tarde e o caminho é ir para casa, descansar, gastar as horas, ver o futebol – sim, inventaram o futebol às sextas-feiras! – e, se der, uma cerveja razoável no bar perto de casa.

Éramos mais solidários. Gostávamos mais de estar uns próximos aos outros. A internet bosteou tudo. Não que não seja um fantástico invento, mas precisamos de gente de verdade por perto.

As relações ficaram mais distantes e frias.

Quem vai nos ouvir quando estivermos tristes, sufocados, precisando de um desabafo?

Ninguém.

Só agora entendo as atitudes de isolamento praticadas pelo meu pai há 25 anos. Ele tinha 5o anos de idade. Hoje eu tenho 48 e agora entendo tudo muito bem.

Diziam que o homem é um ser gregário. Pode ser, mas basicamente quando jovem. A maturidade parece fazer aflorar certo individualismo, ou até egoísmo.

Nas ruas temos pequenos e grandes assaltos, miséria, exclusão e tudo o que aí está porque há uma crise. Crise.

Éramos mais solidários. Se não soubemos nem consertar uma mesa de bar, o que fazer da cidade, do país, da vida?

Desculpem o amargor. É tudo coisa de uma sala fechada, refrigerada, hermética, num respeitável ambiente de trabalho justamente quando o expediente acabou de encerrar e as pessoas saem correndo feito loucas para não perderem um segundo do que acreditam, bem, acreditam ser a liberdade.

Daqui a pouco tem o Natal, o Ano Novo, o Carnaval e tudo fica para trás. Antes disso, mais uma eleição de mentira.

@pauloandel

Agosto

o golpe final

AGOSTO de dias frios e corações duros, ao menos em sua maioria. Se assim não fosse, o que poderia explicar o que vivemos mundo afora, continente afora, país idem, estado e esta bela e maravilhosa cidade, agora já esmaecida com o fim das Olimpíadas e o deprimente desprezo às Paraolimpíadas que estão à vista?

No Rio, vivemos dias de felicidade por conta dos Jogos. Houve relativa paz (relativa mesmo!). Por três semanas, deixamos de lado os noticiários sangrentos e a barbárie cotidiana que temos vivido. Festa, shows, esportes, novidades no cenário. Inegavelmente a cidade teve melhoras: aí estão o Boulevard Olímpico e o Metrô Barra que não me deixam mentir. Muita gente gostou e isso pode ser a promessa de mais turismo. Excelente.

Mas não merecíamos mais do que isso depois de tantos anos de espera?

E o que dizer das transações que cercaram a Rio 2016, com um papagaio de centenas de milhões de reais a serem cobertos (possivelmente pelos contribuintes)?

Dentro de uma semana, teremos a consolidação de um golpe sujo, consagrando de vez um presidente sem votos e poupado pelas grandes operações de combate à corrupção. É desnecessário falar da pior Câmara dos Deputados que já tivemos, em todos os sentidos.

Os Jogos se foram, aos poucos vamos voltando ao que se chama de normalidade e nela, não há fadas madrinhas nem varinhas de condão.

Os absurdos, antes abafados pelas grandes manchetes olímpicas, borbulham. Da supressão de direitos decenais dos trabalhadores, passando pela gentrificação e até mesmo pela censura enrustida do filme “Aquarius”, de Kleber Mendonça Filho, que acabou de receber a classificação indicativa para maiores de 18 anos. Segundo o Ministério da Justiça, o filme teria “uma situação sexual complexa”. Ninguém é tão ingênuo a ponto de acreditar numa bobagem dessas: a verdadeira razão está nos protestos políticos feitos pelos atores do filme no Festival de Cannes. No economicamente combalido cinema brasileiro, restringir a presença de menores é a maneira de esvaziar a bilheteria, tudo em nome da retaliação.

Enquanto isso, os turistas ainda podem se refestelar pela policiada Cinelândia, diferente demais de outrora. A região ganhou vida nova, também ajudada pela integração VLT-Metrô. Sábado passado mesmo, eu saí por volta de nove e meia da noite da Caixa Cultural, esquina de Rio Branco com Almirante Barroso, quando me deparei com um monte de gente caminhando tranquilamente, muitos voltando do Maracanã por ocasião da disputa do ouro olímpico no futebol. Será que isso vai durar muito?

Quanto àquilo, que vá para o inferno de uma vez.

Mais um novo feriado

engarrafamento

É CLARO QUE já estamos no clima do grande feriado. No coração da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, o fog carioca é uma realidade – e carioca, todos sabem, espera a primeira nuvem gris para colocar casaco, gorro, luvas e cachecol, sem a menor necessidade.

Está frio. Frio mesmo, porque parece que o ano sequer começou. Estamos parados em algum lugar entre o indizível, o nada e o inútil.

O caos do Brasil é tão grande que, entre o golpismo e o disfarce, é possível se deparar com situações hilárias, tal como as piadas advindas do áudio do Senador Jucá, dizendo que o Senador Aécio seria o próximo a ser comido.

O povo não resiste a piadinhas de duplo sentido. E aqui termina qualquer vestígio de graça.

Se o país fosse sério, provavelmente Jucá seria preso da mesma forma que aconteceu com Delcídio do Amaral, o senador cassado recentemente e que, noutros sufrágios eleitorais, obteve grandes êxitos porque as mulheres diziam que ele era um “gato”. Percebem como nada é sério nesta joça de lugar?

Horas atrás, um possível romance gay terminou de forma trágica. Um suposto casal, depois de trocas de facadas, caiu da janela do nono andar do edifício número 598 da rua Figueiredo Magalhães, sistema nervoso central de Copacabana. Poucos sujeitos conhecem tão bem o passado deste respeitável prédio quanto eu: entre 1977 e 1992, nele estive em 363 dos 365 (ou 366) dias de cada ano. Lá morava meu grande amigo Fred; em sua casa fizemos nosso quartel general da adolescência, com direito a ingresso nessa abominável vida adulta – era com demais escutar discos, lanchar sanduíches, jogar cartas, rir e aprender – um amigo usava cocaína – o outro, marijuana – lá passávamos todas as tardes, no décimo terceiro andar. Mas é feriado e logo esta terrível notícia servirá para forrar a gaiola do papagaio ou de um outro parente alado – ou ainda embrulhar ovos na feira.

As pessoas não estão nem aí com a dor do outro. O que importa é a viagem.

Golpe? Crise?

Desemprego? Violência?

Bastou que a Globo aliviasse a campanha em prol de seus interesses particulares – está até o pescoço em dívidas e depende de um governo federal, digamos, mais compreensivo, para que milhões de cordeirinhos colonizados deixassem de lado seus discursos coléricos.

A barra já tinha ficado pesada desde que vimos o show de horrores da Câmara dos Deputados ao vivo por um dia inteiro – foi o suficiente para que ali se estampasse todo o anseio coletivo pela escrotidão adotada por considerável parte dos brasileiros.

Dado o golpe, deram de ombros. O importante era que “acabassem com aquela corrupção”; essa aí de agora, de hoje, quase véspera do feriado, ainda “precisa ser investigada”.  Bonequinhos da velha imprensa calhorda a serviço de grandes interesses econômicos, nem um pouco preocupados com os destinos desta linda e castigada terra um dia chamada de Pindorama.

As ruas estão vazias nas calçadas. As pessoas têm medo. A moda é buscar refúgio nos shoppings recheados de “pessoas brancas de bem”. Céus!

Os aeroportos estão cheios. Não dava para tirar aquela “paraibada” dali?

Toda quarta-feira à noite tem um sonífero na tevê intitulado futebol. Quem consegue ver um jogo inteiro em casa sem dormir é praticamente um herói contemporâneo. Maracanã? Acabou, amigos: é um bananão, é um trombolho erguido no lugar daquele outro estádio que tinha alma, paixão, história, drama, gente. Esse tem visitantes e selfies.

O Rio é uma cidade fantasmagórica às vésperas dos propalados Jogos Olímpicos. Gangues de assaltantes de rua fazem arrastões em vários bairros. Muitas vezes você não vê tais notícias porque a televisão prioriza a cidade de São Paulo, onde você pode ver novos crimes na promoção com um sotaque especial – e todo o reacionarismo de um Datena saltando à tela.

Na entrada principal das grandes magazines do entretenimento, livros-jabá: a editora para para estarem ali, ora por interesse próprio, ora bancada por terceiros. Vale quanto propaga.

Os cafés deram lugares aos bares arrumadinhos, moderninhos, onde as pessoas enchem a cara sem qualquer conversa, troca de ideias ou algo que sugira princípios de fraternidade. No máximo, pegação.

Jornal nas bancas para quê? A internet resolve.

Era Rio, São Paulo e Brasil, mas poderia ser um monte de outros lugares neste mundo cada vez mais excludente, egoísta, cínico e hipócroto, um neologismo que define a fusão das palavras “hipócrita” e “escroto”.

Vamos vivendo. Vamos descansar desta selva, porque ela já volta.

Vem aí um novo feriado. Por que mesmo?

Os mortos nas estradas, contamos depois.

@pauloandel

Cidade maravilhosa, inútil paisagem

IMG_20151115_092119

No centro da cidade olímpica, moderna e cheia de ameaçadores delinquentes sub-18 no Largo da Carioca, perto do Forum na avenida Antonio Carlos e em qualquer shopping center dos furtos e roubos, anoitece. Talvez perto de dez da noite. Perto da Cruz Vermelha, a tia do açaí atende a diversos clientes ávidos por energia e talvez calorias. O que acontece perto da praça da República é para poucos destemidos.

Num aprazível condomínio da região, um casal de namorados ri enquanto ela vê uma série de TV estadunidense e ele escreve algumas páginas de um livro em atraso, enquanto pensa e reflete de maneira bastante abstrata sobre as mazelas do mundo, que podem ser as de qualquer um.

Um amigo em apuros, outro em festa, uma breve espiada nas redes sociais – arquipélago dos pedantes e academia brasileira dos pernósticos – mas existe salvação, humor, até amizade – o homem em sua estúpida competição em inúteis devaneios de superioridade, quando todos sabemos que o futuro é a morte e o cheiro podre da carne decomposta, onde moram a ganância e a arrogância de cada um, os outros predicados também.

Os cariocas debaixo de governos de merda, golpistas ou não, enquanto precisam ostentar felicidade porque esta cidade é belíssima e atrairá os olhares do mundo – PARA QUÊ? – não sejamos hipócrotos em repetir os mantras corporativos de paz e amor do empreendimento Rock in Rio.

A admirável decadência humana colide contra as façanhas das grandes corporações, que fazem de tudo a beleza e só os mais ignorantes acreditam num mundo melhor onde o lucro é a exploração.
Fugindo do centro e partindo para o Oeste: o escritor e ator Ernesto Xavier pensando em novas maneiras de combater as barbaridades que testemunhando nessa república abaixo da linha do Equador. Os negros ainda são incrivelmente discriminados como se nunca tivéssemos saído do século XIX.

Zona Norte: o escritor e jornalista Fagner Torres com dores no corpo, provavelmente fruto dessas doenças de mosquito que o Estado desprezou por três décadas. Barulhos na Tijuca tensa com policiais por todos os lados.

Nada de perder tempo com o programa jornalístico, claramente manipulado para ecoar a voz de seu dono. É melhor perseguir pequenas diversões eletrônicas. Qualquer Tijuca, qualquer Copacabana, enquanto os mais jovens não têm a menor ideia sobre Vieira Fazenda.

Em qualquer canto do fracassado principado olímpico, grandes obras e outras largadas, muitas pessoas com fome e trêmulas com o chão gélido das calçadas em vários bairros, gente sonhando com um improvável mundo melhor, ninguém muito preocupado com livros, quase todos já sonhando com o feriado da semana que vem e o resto, amigos, o resto é o intervalo entre as flores e o espaço de tempo para fumar e beijar seu noivo, do jeito que Otto – o grande artista pernambucano – gravou em seu primeiro álbum.

Ditaduras, democracias e golpes à solta depois, o certo é que temos smartphones demais, eletrodomésticos e carros demais, merchandising demais, mas ainda continuamos com sérios atrasos no que tivemos de melhor: cortesia, fidalguia, solidariedade. Foi tudo em vão: que grande irmão há de nos amparar? Somos egoístas demais, prepotentes demais, somos os melhores do mundo da insignificância. Um dia seremos todos inúteis, sem exceções. Nenhuma arrogância escapará da putrefação.

@pauloandel

Esquecidos

delete

O pequeno Aylan foi encontrado morto em uma praia na Turquia. Era mais uma vítima da fuga do terror da guerra. Um refugiado de apenas 3 anos. O mundo chorou. Refugiados na Alemanha e aqui também.

Então veio a lama. Invadiu a cidade de Mariana, em Minas Gerais. Alguns lamentaram, outros ignoraram, os órgãos públicos ficaram imóveis, o Rio Doce morreu.

Aí tivemos um atentado em Paris. Colocaram bandeiras nos perfis do Facebook. A solidariedade tomou conta das redes sociais. Allez le bleu! Esqueceram de Mariana, dos moradores sem água, do Rio Doce, dos índios, da Vale, da lama.

Depois policiais mataram cinco meninos no Rio de Janeiro com 111 tiros. Tentaram forjar auto de resistência. As evidências derrubaram a tese. Tentaram incriminar os garotos. Caiu por terra. Alguns lamentaram, outros ignoraram, os órgãos públicos ficaram imóveis, 111 tiros tiraram 5 jovens negros deste mundo. Panelas não tilintaram nas janelas dos prédios.

Então veio o pedido de Impeachment da presidente. Não falaram mais da lama. Não falaram mais dos meninos. Um deputado corrupto manobrou em causa própria para desafiar o governo.

Em São Paulo surgiu uma garotada de periferia consciente ocupando escolas públicas e pedindo para que não as fechassem. Porrada da PM na molecada. Eles resistindo e ocupando cada vez mais. O governador mandando bater e a galera ocupando. Até que o governador teve que ceder. Saíram do noticiário. E o governador? “Melhor xingar a presidente”.

Aí surgiu uma carta. Em tempos de e-mails, enviaram uma carta. Não falaram do Rio Doce. Não havia Samarco, Vale, BHP, nada. “Garotos? Que garotos?”

Foi assim que chegamos novamente ao deputado. Aquele corrupto que manobrou em causa própria, lembram? Eu sei que lembram. Ele mesmo, com contas na Suíça e Ferrari em nome de Jesus. E os refugiados? “Não sei”. E Minas? Como ficou Minas? “Também não sei”. E Paris? “Putz, esqueci de tirar aquela bandeira do meu perfil. Acho que ficou bonitinha, deixa pra lá”. E aqueles estudantes? “Oi?!” E os garotos fuzilados? “Garotos? Que garotos?” E o impeachment? “Ah tá. Disso eu sei. Fora PT”. Ok.

No fim, basta ser pobre para ser esquecido. O resto a gente lembra com facilidade.

@nestoxavier

Cidade maravilhosa!

torre H

DIANTE DESTE belo cenário intitulado vida, aqui estamos a acompanhar as cousas do Brasil como se tudo fosse uma novelinha entre o bem e o mal, parecendo a mais rasa das análises que se possa fazer.

Esta grande capital, que um dia foi mãe da República, é abarrotada pela brava gente brasileira, a mesma que sua, trabalha, luta com toda dignidade e é exposta a violências, estupros, roubos, assassinatos, canetadas políticas, imprensada em coletivos cheios, vagões malcheirosos, estradas sem fim. Sempre explorados, agredidos na alma, chicoteados.

Outra gente ladra, uiva, ameaça, expõe seus preconceitos mais nojentos, sua sede interminável de poder e fascismo, o autoritarismo nas alturas. Sem entenderem um pingo de livros e discos, sorriem quando o poeta canta “os guardanapos estão sempre limpos/ as empregadas uniformizadas/ são caboclos querendo ser ingleses”. Então desfraldam a bandeira da ignorância absoluta.

Soldadinhos de merda escrevem nos jornais, vociferam nas televisões, gritam nos microfones das rádios. Não lhes basta viagens para Miami, os passeios fúteis pelo Village Mall, o traje esporte fino no Teatro Municipal sonhando com um Teatro Nacional.

FAZENDO das redes sociais o esgoto da alma. Perseguir deficientes, pretos, gordos, pobres e não tem a menor importância se um carro com jovens pretos é fuzilado porque eles estavam perto de uma favela, e aqui é assim mesmo.

Uma mulher de voz firme canta que veio do fim do mundo. E é o fim do mundo mesmo.

Enquanto isso, o desaparecimento das vigas da Perimetral celebra aniversário. Com direito a bolo, festa e velinhas. Ninguém se lembra de Silveirinha, nem Jorge Mirândola – em Brasília -, nem a morte de Leon Eliachar. NÓS NÃO LEMBRAMOS DE NADA! A vida é para se viver, não propriamente pensar. Quem fim levou Hildebrando, o assassino da serra elétrica?

A explosão do restaurante na Praça Tiradentes com os cadáveres em pleno voo da morte? Os últimos acenos da mão decomposta à janela do edifício Andorinha, rua Almirante Barroso – o país parou para ver seus mortos de fogo -, que virou um grande prédio do petróleo – e alguns funcionários juram que já ouviram gritos e uivos no elevador.

A pútrida gente há meio século é lacaia da Rede Globo e de seus interesses que vão pela contramão do povo brasileiro. Há os remunerados, os que querem ser remunerados e os voluntários otários, naturalmente. Ninguém percebe a distância de Paulo Francis e Tristão de Athayde, Nelson Rodrigues e outros para estes Mainardis, Jabores e outras porcarias de ocasião.

Tem música, mas não escutamos. Bons livros, não lemos. A conversa de bar, aprendizado de vida, está resumida a tiroteios verbais pelo Facebook.

Em 2015 ainda somos ameaçados pelo racismo, pela homofobia, pela escassez de água, de luz, de reflexão e pensamento. Uma semana depois e Mariana não tem a menor importância. O atentado de Paris também. Vamos falar do Rio, o Rio é que importa, ele está fodido!

Você passa pela Avenida das Américas e num muro branco vê um pouco de capim à frente da pintura com tinta outrora vermelha, agora desbotadíssima, onde se lê “Associação dos Adquirentes da Torre H”.  Bem antes disso, no belo caminho para o Joá, o motel Vip´s tem uma das vistas mais belas da Terra – e ninguém pode entender o que passou na cabeça de um louco para jogar Leila Cravo pela janela.

O Rio ainda tem oxigênio nos poucos botequins que sobraram, na leveza do Bairro Peixoto e dessa garotada corajosa que, depois de ficar por anos e anos a fio sofrendo a vergonha de esmolar dinheiro para o ensino, ocupou a querida UERJ. Quando foi preciso invadir a Assembleia Legislativa em 1989 para garantir o repasse de 6% da verba do Estado, eu era um garoto cheio de sonhos: taquei pedra, explodiram bombas de gás lacrimogêneo e minha mãe jamais desconfiou de que eu pudesse ter sido um terroristazinho de meia pataca, nem que fosse por um dia, para honrar a história do meu tio, que lutou para este lugar ser livre da ditadura, mas acabou morrendo no exílio. De toda forma, pagaram os 6% por algum tempo.

E, se chegou até aqui sem se indignar com a derrocada do Rio, o fuzilamento dos garotos, Mariana, Paris, a esmola da UERJ, os garotos feito zumbis do crack nas ruas, a morte do garotinho do Alemão e outras pitadas, que tal você dar o fora daqui? QUE TAL VOCÊ DAR O FORA DAQUI? Eu não quero monstros, apenas passarinhos voando numa praça sem grades, vendedores de pó e malfeitores.

Queria mesmo era voltar no tempo. Mas é impossível. A vida deixa escorrer suas lágrimas de fracasso. Cidade Maravilhosa!

Privilégios

preto no chão

Eu devia ter uns 12 anos apenas. Fui ao apartamento de um tio, que é branco, em um bairro nobre da Zona Sul carioca. Era aniversário dele e minha avó tinha pedido para levar um bolo de presente. Fui de carro com o motorista. Ao entrar no prédio o porteiro perguntou aonde eu ia. Normal. Disse a ele o apartamento e com quem desejaria falar. Fui autorizado a subir. Já tinha estado naquele prédio outra vez, só que acompanhado da família. Ao me dirigir para o elevador fui interpelado pelo porteiro, que disse que eu não deveria subir por ali, já que ‘o seu elevador é o outro, o de serviço’.

Com meus 12 anos fiquei sem reação. Era isso mesmo? O que estava acontecendo ali era o que tinham me alertado a vida inteira? Subi e meu tio, que já me esperava com a porta aberta, me viu saindo do elevador de serviço, quis saber porque fui por ali e não pelo social. Contei a história. Ele ficou revoltado e queria resolver o problema na hora. Era seu aniversário, eu não queria atrapalhar. Ele ficou muito chateado com o que aconteceu e nem sabia como se desculpar. A culpa não era dele, quis falar. A culpa era da ignorância. Não era vergonha servir alguém. Ser empregado de alguém é totalmente digno. A questão era mais profunda. Usam a separação dos elevadores como um aviso: você não é bem-vindo aqui. Você só pode usufruir deste espaço na condição de serviçal. Gente como você nunca poderá ser morador. Não só o porteiro, mas o sistema já faz essa separação.

Aí me dizem: ‘Agora você só sabe falar disso?’. Na verdade, não. Falo da minha vida, do que vejo, do que sinto. E isso está presente em muitos momentos. ‘Você vê racismo em tudo?’ Também não. Vejo onde ele existe. Vejo em quem o pratica. E quando vejo eu falo, denuncio, abro a boca.

Quando na faculdade eu tive que brigar com um professor que me deu nota muito menor do que todos os outros, sendo que eu tinha feito trabalho semelhante aos outros, fui até a coordenação do curso de comunicação e protestei. Minha nota foi revista e a má fé do professor constatada. Resultado: ele foi afastado do curso. Eu já tinha 19 anos e as porradas que havia tomado até ali me fizeram saber que rumo seguir.

A menina que só ficou comigo porque queria saber como era um preto na cama.

O motorista de táxi que não parou pra mim por medo.

O rapaz da loja que disse que a garrafa de vinho que eu queria comprar era muito cara.

Os policiais que em um espaço de 2 meses me pararam 10 vezes em blitz da Lei Seca, fora as habituais.

O comercial de tv que eu não fiz porque ‘tinha os traços finos e eles precisavam de alguém com cara de pobre’.

As moças caridosas que me deram bolo e salgados para que eu ‘levasse para dividir com meus amiguinhos na rua’.

O policial argentino que em uma fila com mais de 50 pessoas parou apenas a mim e outro rapaz negro para revistar e fazer perguntas ameaçadoras.

Outro policial, só que no Brasil, que insistia que eu era morador da favela, sendo que eu não era. Ele insistia e eu negava. Ele dizia que me conhecia e eu negava.

Eu ainda estou vivo. Não moro no Alemão ou na Maré. Não tenho tanque de guerra na porta da minha casa. Não tenho incursão policial diariamente no meu bairro. Não tenho tráfico de drogas na esquina, nem troca de tiros dia sim e outro também. Não tive meu carro fuzilado. Tive “sorte”. No meio de tantos absurdos tenho que comemorar o fato de ser um “privilegiado”. Pude estudar em bons colégios, fiz línguas, fiz faculdade, viajei, li bons livros, tive orientação familiar, tive um teto. Tive o que a maioria dos meus irmãos não tiveram. Ainda assim o racismo veio me dar boas-vindas. Quando alguém vem me dizer que o problema é muito mais social do que racial, lembro de tudo o que me aconteceu e isso para mim já basta como resposta.

Cinco jovens negros perderam a vida por serem jovens, negros e pobres. Cinco jovens que não ficarão mais do que dois dias nas notícias de jornal. Cinco jovens que comemoravam a conquista de um deles. Cinco pobres a menos. Cinco pretos a menos. Eram negros, pobre, favelados, quem se importa?

Eu poderia não estar mais aqui. Porém ainda tenho como contar a minha história e ajudar outros a falarem das suas. Neste país louco sou um privilegiado.

Quem apenas senta nos próprios privilégios e não olha para outros consegue dormir tranquilamente?

Ernesto Xavier

IG: @ernestoxavier

Aqui está a representação da lógica policial:

Cine Vitória (ou Livraria Cultura)

fachada livraria cultura

Talvez SETE E MEIA da noite quando paguei a corrida para o simpático taxista e saltei na Senador Dantas para entrar no velho Cine Vitória – ali assisti a “Se meu Fusca falasse” quando meu pai me puxava pela mão, o futuro estava todo à  frente e nada estava irremediavelmente perdido. Deveria ter chegado horas antes para entregar dois livros ao meu amigo Fábio, mas tivemos que desmarcar: à última hora, fui chamado para uma reunião na Barra da Tijuca, o outro lado do Rio, desmarcada no meio do caminho em pleno engarrafamento. Não voltei a tempo, mas pelo menos o suficiente para espairecer um pouco. Que tal deixar de lado as dores do mundo, da alma, do amor e do corpo por uma ou duas horas, gastando pouco dinheiro num lojão cool, quase vazio, sem perturbações?

DE CARA, toda a poesia de Paulo Leminski no livro de capa emblemática com seu bigodão enorme. Livros caros de João Antônio, o cronista maldito, também.  Muitos livros, claro que sem os tesouros dos grandes sebos do mundo, mas com boas oportunidades também.

Tento procurar os lugares do cinema nos cantos da memória, mas tudo está tão longe que fica quase impossível. Foi outro dia mesmo e já tem quarenta anos. Tempo, senhor imperdoável e implacável das razões e engamos.

Você sobe a escada rolante que fica à esquerda de quem entra e rapidamente está no setor de música. Há novidades, em sua maioria um pouco – ou muito – caras. O novo álbum de David Gilmour é um espanto de bom, “Rattle that lock”.  Peguei Vanusa 2015 para escutar. Preciso de contraprova para uma avaliação mais adequada. Rush, “Time Machine”, 2011, em promoção; foi da canção “The Spirit or Radio” que tirei a inspiração do título de meu livro mais recente, “2014: O espírito da Copa”, ao lado de maravilhosos coautores.

Duas garotas bonitas, uma delas tão bonita que até parece uma bailarina que conheci certa vez, conversavam alegremente pelo hall, enquanto um dos vendedores oferecia generoso olhar às formosuras. Uma delas com o CD de Eric Clapton à mão, um luxo. O mundo ainda resiste à barbárie de alguma forma, por alguns instantes. Nem tudo é felicidade: ao procurar no balcão por “Publikation”, a trajetória do Kraftwerk em livro, vejo que foi substituída no pedaço pela biografia de Luan Santana. Nenhum problema quanto ao rapaz, mas isso já dava livro?

A segunda escada rolante, as garotas bonitas riem e sobem. Parecem tão felizes que são capazes de contagiar os corações mais tristes. Um senhor perto do leitor de preços, respeitável, provavelmente abonado do ponto de vista financeiro, passando todos os produtos para conferir a despesa e, claro, não conseguindo porque boa parte dos itens não está cadastrada.

Que tal subir a escada?

No café, algumas pessoas conversam delicadamente às mesas. Eu não reconheço nenhum amigo. Sem Marina, Catalano e Luiz, quem me acompanharia lá? O Leo, algumas vezes. O Zé, se pudesse. A Juliana, talvez um dia. Kátia. Ernesto. Mais ninguém. O mundo lá fora e cruel, com as pessoas saudando suas boas mortes em horas e horas de Facebook e Twitter inúteis por excelência: ódio, rancor e desconstrução.  Conversar é melhor que agredir, mas parte do mundo se perdeu para sempre em desamores, desencontros e violência. Vejo algumas outras pessoas sorridentes também, mas nenhuma é minha amiga e resolvo não sentar sozinho mesmo para um simples cafezinho. Torradas não: dão câncer. O mundo é um câncer. “O Brasil é uma república federativa cheia de árvores e gente dizendo adeus”, segundo a genialidade de Oswald de Andrade. “É função do artista estuprar”, Glauber Rocha. “O que faço é música”, Helio Oiticica.

Passar para o outro lado e você pode descer a charmosa rampa em caracol da Cultura, que no Rio de Janeiro só é superada pela da Siqueira Campos, 143, hoje o Shopping dos Antiquários, antigamente o Super Shopping Center de Copacabana, onde uma termas vivia em excelente vizinhança com dois teatros, seis blocos de apartamentos e uma igreja.

Descer lentamente. Espiar os títulos. Tem muita bobagem, como em qualquer lugar. Algumas nunca vão sair das prateleiras, mas lá estão com chamadas agressivas, reducionistas. Há muitos livros admiráveis também, um contraponto. Descer lentamente, fazer com que os pés sorvam toda a pequena caminhada em declive circular. Que diabos Fernando Henrique Cardoso faz na seção de Economia? Lucidez, por favor.

Um livro interessante na seção de Estatística: “O andar do bêbado”, escrito pelo superfísico Leonard Mlodinow, que se utiliza de exemplos reais para provar como o ser humano não está preparado para lidar com o aleatório, muitas vezes não sabendo nem mesmo reconhecê-lo. Coautor de “A brevíssima história do tempo” ao lado de Stephen Hawking. Comprei. Mlodinow é também um sobrevivente do World Trade Center em 11 de setembro de 2001. O que dizer?

Lobão, esse sujeito que um dia foi roqueiro e agora é colunista de frivolidades da defunta revista Veja, acaba de lançar um novo livro. A orelha é a piada do dia: tratado como a pessoa que sofreu a maior “Simonalização” do Brasil atual.

Chega o fim da rampa. Tomo a pequeníssima fila do caixa. A simpática funcionária morena escuta diversas perguntas do cliente em busca de emprego na casa. Alguma coisa me aflige na situação, mas é melhor deixar para lá. Pago rapidamente, uma nota de 50 reais sem troco.

Nove da noite, a Senador Dantas é um deserto. Do outro lado da rua, as pessoas sofridas só têm a marquise como bem de consumo. O Bob’s, moderninho, está cheio. Peço um táxi. Entro com dificuldades no carro, por causa das dores de coluna, sento  no banco de trás.

Uma corrida breve até a Cruz Vermelha, geralmente detestada pelos taxistas. O sujeito me diz que depois irá buscar uma passageira, senhorinha, no supermercado 2001 e levá-la até a Saúde, numa ladeira complicada. Pergunto que mercado é esse e recebo uma resposta curiosa:

– Ali perto da Embratel. Acho que o senhor é paulista. Mora no Rio e não conhece o supermercado 2001?

– Não, não sou paulista, mas seria tranquilamente. Meu falecido pai nasceu em São Paulo.  Gostaria de entender o que desconhecer o endereço deste supermercado tem a vez com o fato de ser paulista ou não. E por que diabos eu teria que saber onde fica a Embratel? O taxista é você, não eu.

(Silêncio constrangedor)

Cinco minutos de corrida, chego à portaria do prédio, um deserto de gente. Pago a tarifa. O taxista dá boa noite.

– Parabéns! Você é um carioca completo. Boa ida ao supermercado 2001 que fica perto da Embratel.

Tomo o elevador e penso nos encontros mensais que terei com Fagner, Tiba, Ernesto e Luiz Paulo para conversamos sobre a sociedade e a vida.

Lembro das garotas sorridentes e felizes da Cultura, lembro da linda bailarina e de tanta coisa que infelizmente ficou para trás porque talvez tivesse que ser tudo desse jeito mesmo – buscamos perfeições e felicidades impossíveis que, às vezes, só existem em nossos próprios  sonhos.

O disco do Rush se chama “Time Machine”: máquina do tempo.

A vida é quase isso, ao menos para nós, privilegiados, que temos computador, comida, água, lugar para morar e alguma proteção diante de atentados terroristas – quanto aos traficantes, nem tanto assim.

Marina fala de seu dia para mim no Whatsapp e a noite fica melhor. The Police na televisão, coisa de sete anos atrás, banda em grande momento e o Leo vibra pela mensagem do celular. “Time machine”, máquina do tempo.

Tempo, mano velho.

@pauloandel