As pessoas simples

pao-na-chapa

As pessoas simples. Ah, aquelas que passam uma expressão de tranquilidade no rosto, sem dissabores, sem mágoas, talvez com certa melancolia, mas absolutamente conscientes de que não somos nada neste muito de merda, cheio de empáfia, tiranos, explorações, genocídios, doenças e miséria, miséria demais. Qual o sentido da arrogância? Nenhum. Os cemitérios abrigam milhões de esqueletos que já carregaram corpos e mentes de pessoas absolutamente perdidas na vaidade oca, no preconceito, na insistência em diminuir o próximo por causa de seus bens – ou da falta deles -, títulos, posses e o diabo a quatro.

Poderia ser o moço da borracharia comprando quatro pães e oito fatias de mortadela às seis da tarde, na padaria que fica bem ao lado do novo prédio da Petrobras no centro do Rio de Janeiro. Vestido com roupas simples, um homem simples à espera da refeição enquanto o rapaz do balcão, também simples, fala alguma coisa da derrota do Flamengo e outro rapaz do balcão, também simples, sorri brevemente. Os trabalhadores em pé desde o começo da manhã, lutando por um salário mínimo, ainda se divertem em meio ao cansaço, horas antes de longas viagens de trem ou ônibus, para um pequeno descanso e o recomeçar antes do sol nascer. O moço da borracharia pede tudo com calma e educação. É um lorde do coração da capital.  Bem perto, uma garota simples saboreia um pão na chapa, barato e gostoso, silenciosa e com ar pensativo.

As pessoas simples que ainda dão bom dia à rua ou no elevador, em tempos de repulsa coletiva. Que se preocupam quando veem alguém passando com a testa franzida ou carregando alguma dor elegante, daquela tão bem cantada por Itamar Assumpção. Que ficam realmente tristes quando veem as notícias ruins na TV, preocupadas com os semelhantes que sofrem pelo mundo afora.

Os garotos simples, com suas caixas de engraxate, atravessando a cidade de uma ponta a outra, torcendo para que homens nobres com sapatos elegantes precisem de um trato e ali esteja garantida a chance de um lanche, pelo menos.

Antigamente, era fácil encontrar muita gente simples. Bastava ir ao Maracanã. Em todos os setores do estádio, principalmente a geral, que ficava em volta do campo e onde os torcedores assistiam aos jogos de pé. Na verdade, em qualquer estádio brasileiro, antes do processo de gourmetização do futebol. Com alguns trocados, comprava-se um ingresso. Hoje mudou tudo, o Maracanã morreu também, vivemos abomináveis tempos modernos.

Domingo de manhã, a rua fechada para ser área de lazer – bem mais barato do que construir e manter parques -, os meninos ainda correm atrás da bola dente de leite, já bem gasta, enquanto os pares de chinelos humildes são as traves. Correm, gritam, sonham com aquele estádio que foi assassinado, sonham com histórias de craques que nunca chegaram a ver em campo – Pelé, Garrincha, Sócrates -, sonham com a felicidade efêmera das brincadeiras dos tempos de garoto.

Há muito tempo atrás, um senhor passava com um carrinho e sua buzina vendendo empadinhas perto do meu local de trabalho. Conversava com as pessoas, era solícito e percebia-se que não fazia aquilo apenas para vender o produto, era seu jeito de lidar com o próximo. Perto de casa, dizíamos que ele era o Seu Empadinha. Sempre que podia, eu comprava para ajudá-lo; já era um aposentado. Um dia, o carrinho nunca mais passou. A vida ficou bem mais pobre.

Paulo, meu xará, é um dos melhores funcionários de todos os prédios onde já trabalhei e morei. Senta praça no condomínio onde resido. Volta e meia rimos e falamos amenidades quando passo pela portaria, mas nem sempre foi assim: ele foi uma das pessoas a carregar o corpo de minha mãe até o carro da funerária. Algo que jamais esquecerei. Ele está sempre rindo, tranquilo, com voz mansa. Fizemos piada dia desses, quando uma moradora queria proibir os beijos entre os casais no jardim da entrada. Patético, mas não menos do que o que me disse: “Paulão, você é um dos poucos moradores que conversam com a gente”.

O mundo está errado demais. Faltam gentileza, cortesia, apreço e outras coisas mais, todas simples.

@pauloandel

As pessoas simples

feira livre

Desde garoto, sempre gostei das pessoas mais simples. Fui facilitado por ser filho de dois perfeitos exemplares desta espécie cada vez mais rara na tierra onde restaurante virou gastronomia e você paga quatro vezes mais por uma salada de frutas no chopicênti, tudo em nome da sofisticação (sic).

O porteiro, o moço da feira, da banca de jornais, da padaria. O camelô. O moço do conserto da geladeira, o pintor. A moça da lanchonete. O entregador de bebidas.

Pouca gente presta atenção na importância destas pessoas em qualquer país, ainda mais no nosso, cheio de doutores, pessoas cheias de dedos para quaisquer assuntos e o velho chavão VOCÊS SABEM COM QUEM ESTÁ FALANDO?

Nos tempos da UERJ, meu ídolo era o Carlinhos, ascensorista querido, com voz e jeito peculiares, sempre muito religioso e simpático, tratando bem a todos. Havia também um senhora, portuguesa, que vendia salgadinhos nos corredores para ajudar a pagar o tratamento do filho. Era a “Salgadins”, com sotaque lusitano. Trabalhadora, digna, dedicada, às vezes era vista nos corredores da universidade às seis e meia da manhã.

E de tanto gostar das pessoas e coisas simples, nunca dei muita atenção para o dinheiro, até porque o tenho em pequenas quantidades, mas suficientes para uma vida confortável antes que a velhice me tome de vez. Nunca me preocupei com luxo algum, visito lugares simples, gosto de bares simples, gente simples. Meus gastos são poucos: livros, discos, chopes. Às vezes, de três em três anos, compro um lote de roupas para os próximos sete ou oito seguintes. Um par de tênis por ano. Nenhuma marca, por favor. Ah, um bermudão da Taco por ano também.

Não tenho carro, casa própria, computador, nenhum bem. Não tenho joias, relógios caros, objetos requintados, nada. Minha casa é uma bagunça, mas limpinha: quatro mil CDs – ou três – num espaço de mil e quinhentos. Sobras da minha loja que acabou e mais uma coisinhas que compro a cinco ou três reais. Meu último luxo foi um celular que comprei em 2013, agora já acabado e velhíssimo, que eu uso para conversar com as pessoas que insistem em ser distantes e escrever – meu livro mais recente foi todo escrito nele. Há vinte anos corto o cabelo com minha própria máquina, eu mesmo testando a simetria no espelho, devo economizar uns 30 reais por mês. Sete mil e duzentos mangos de poupança, devidamente gasta em coisas que não sei dizer mas desconfio.

De folga, invariavelmente uso chinelos de dedos, camisa larga e bermuda. Folga é toda vez que estou fora do escritório. Alguns taxistas não me aceitam como passageiro: um deles explicou que os demais não gostam de pegar passageiros de… chinelos.

Apesar de ter passado por quatro faculdades e um mestrado, só concluí um único curso superior, às custas de muito sacrifício e ajuda dos meus pais – o resto ficou pela metade, o mestrado não tinha bolsa na grande era FHC e eu precisava trabalhar para comer e pagar aluguel. Felizmente, tempos depois comecei a ganhar um bom salário e pude ajudar o pai e a mãe também. Morri de rir outro dia de um rapaz, desses, deslumbrados, ostentando seu MBA (pago). O sujeito que se acha superior porque tem dinheiro para pagar um curso. O que que é essa gente tem na cabeça que não seja caldo Knorr estragado? E o que adianta cursar um MBA se você não consegue escrever um único parágrafo com quatro linhas minimamente legível, coerente e SEM erros de português?

Enquanto estiver por aqui, quero é fazer o bem, ver as pessoas simples, torcer para que o mundo seja menos filhadaputa com quem mais sofre pelos arredores. Quando somos crianças, qualquer bolinha já deixa uma criança feliz. O cão de estimação fica louco com um novo brinquedo barato. Por que pensamos tanto em dinheiro, poder, vaidade e pose? É tudo tão inútil na hora das exumações.

Daqui a pouco eu vou desligar o computador do trabalho e sair. O rapaz da banca de frutas estará empacotando as coisas para terminar o expediente. A menina da banca de jornais, grávida, descendo o portão. O pessoal da padaria é sempre simpático. Ao chegar à portaria, o Paulo vai me tratar bem demais – ele foi uma das pessoas que ajudou a tirar o corpo da minha mãe de casa, o que mais posso dizer?

Perdemos tempo demais com aparências, posses, egoísmos, derrubar governos rasgando a lei, roubar, matar, ter poder, enquanto o mundo só pode ser sorvido de verdade quando prestamos atenção nas coisas e pessoas simples. Pesquisem sobre a vida de Pixinguinha pra ver.

@pauloandel