Que fim levou?

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Que fim levou aquele velho chope de sexta-feira com os amigos da faculdade? Hoje estão todos muito ocupados demais, seja por conta da grande vida corporativa, a falta de tempo, os contas, os filhos, as mulheres e principalmente as desculpas esfarrapadas nestes dias de oi e tchau pelo smartphone.

O coração da cidade parece mais vazio e abandonado. Falam da crise mas, pensando bem, em boa parte da sua existência o Brasil esteve em crises e as ruas eram mais cheias.

Polícia não há. Tiros, balas perdidas e cada vez mais negros pobres presos para livrar o Brasil do mundo do tráfico.

Numa grande capital de um país desnorteado por golpistas de meia tigela, vai chegando quatro e meia da tarde e o caminho é ir para casa, descansar, gastar as horas, ver o futebol – sim, inventaram o futebol às sextas-feiras! – e, se der, uma cerveja razoável no bar perto de casa.

Éramos mais solidários. Gostávamos mais de estar uns próximos aos outros. A internet bosteou tudo. Não que não seja um fantástico invento, mas precisamos de gente de verdade por perto.

As relações ficaram mais distantes e frias.

Quem vai nos ouvir quando estivermos tristes, sufocados, precisando de um desabafo?

Ninguém.

Só agora entendo as atitudes de isolamento praticadas pelo meu pai há 25 anos. Ele tinha 5o anos de idade. Hoje eu tenho 48 e agora entendo tudo muito bem.

Diziam que o homem é um ser gregário. Pode ser, mas basicamente quando jovem. A maturidade parece fazer aflorar certo individualismo, ou até egoísmo.

Nas ruas temos pequenos e grandes assaltos, miséria, exclusão e tudo o que aí está porque há uma crise. Crise.

Éramos mais solidários. Se não soubemos nem consertar uma mesa de bar, o que fazer da cidade, do país, da vida?

Desculpem o amargor. É tudo coisa de uma sala fechada, refrigerada, hermética, num respeitável ambiente de trabalho justamente quando o expediente acabou de encerrar e as pessoas saem correndo feito loucas para não perderem um segundo do que acreditam, bem, acreditam ser a liberdade.

Daqui a pouco tem o Natal, o Ano Novo, o Carnaval e tudo fica para trás. Antes disso, mais uma eleição de mentira.

@pauloandel

Romano, Vieira, eu e a paz

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Ontem à noite, depois de uma longa temporada, pude me reencontrar com meu amigo Luiz Vieira, atualmente morando em Sergipe e numa turnê de férias pelo Brasil. Ele fez uma breve passagem pelo Rio de Janeiro. Aproveitei o momento para convidar nosso velho amigo de escola Floriano Romano, hoje um artista consagrado.

Tivemos como ponto de reunião a livraria Cultura da Senador Dantas. Em vários momentos ficamos espantados com o tamanho daquela loja, que um dia abrigou o esplendor do Cine Vitória, primeiro com seus filmes infanto-juvenis e, mais tarde, um paraíso da filmografia erótica.

Na última vez em que estivemos os três juntos, o Brasil ainda vivia uma ditadura, a inflação era de 80% ao mês e o melhor futebol do mundo era nosso. Vida que segue.

Com o café da Cultura cheio, rumamos para o Spaghettilândia, decano restaurante nos arredores, símbolo de pratos baratos depois das velhas manifestações políticas, quando isso não significava odiar o oponente.

À mesa, falamos da alegria de uma conversa de bar, do mundo que tem parecido cada vez mais injusto e vil, do egoísmo, da indiferença, de coisas que os garotos dos anos 1980 tanto sonhavam para um país e um mundo melhores. Futebol, política, cotidiano, chopes derrubados indevidamente. E também tivemos uma breve aula do Romano sobre as diferenças entre a arte moderna e a contemporânea. Enfim, de tudo. Mas o importante mesmo foi podermos passar duas horas de excelente conversas e até alguns risos, entrecortando as mazelas do cotidiano.

Uma pena que precisasse ser tão rápido. Era o jeito, mas pudemos aproveitar o melhor de nós como amigos, fraternos camaradas dos tempos de escola, quando ainda tínhamos Elis Regina e até Garrincha.

O final da conta foi antológico: o Vieira saiu correndo para pagar a conta no caixa, enquanto nós o perseguimos para impedir que assumisse a despesa sozinho. Definitivamente, não era uma mesa comum no coração da cidade que tem tantas maravilhas naturais – e muita superficialidade nas relações humanas também, infelizmente.

Na saída, deixamos o Vieirinha na porta da estação Cinelândia. Trocamos nossos abraços fraternais. Depois, eu e Romano pegamos um táxi para o outro lado do Centro. No carro, o que mais falamos era como o Vieira tem uma aura boa, de paz, a mesma dos tempos de criança, algo tão raro nesse mundo de violência, covardias e solidão. E como é bom saber que, passados tantos anos, temos um amigo que nos passa bons sentimentos à primeira vista.

Quando Romano desceu do carro, aí foi a minha vez de pensar sozinho: um dos craques das artes de hoje no Brasil é meu amigo dos tempos de jogo de botão, no corredor de um grande prédio de Copacabana.

Lembrando do belo letreiro em neon no salão do Spaghettilândia, tricolor por sinal, num súbito penso agora em como é bom ter amigos que são boas pessoas de verdade, intelectualizadas, críticas desta sociedade hipócrita em que vivemos.

Foi uma grande noite. No meio da selva de pedra sentimental, meus dois amigos me permitiram voltar no tempo a ponto de ter todo o mundo à frente, em forma de futuro. Os anos passaram, mas ainda estamos muito vivos e isso é bom.

Em nenhum momento falamos de dinheiro, posses e bens, donde se depreende o caráter dos cavalheiros presentes. Gente que faz bem, que emana arte e paz. O mundo anda carente disso.

@pauloandel