Em algum lugar do meu coração há 25 anos

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Onde eu estava há 25 anos? Em muitos lugares, com muitas pessoas e sozinho demais. Era diferente demais em tantas coisas, mas tão igual em outras.

O coração do meu Rio de janeiro em 1991 tinha três pilares principais: Copacabana, Centro e Maracanã.

Aquela batalha absurda por emprego quando você tem 22 anos de idade e pensa que é hora de definir o resto da sua vida, quando há vidas e vidas a seguir. Estágio, qualquer coisa que ajudasse em casa e provasse aos seus pais que esforço deles não tinha sido em vão. E que você se esforçou muito também. A cara do coração da cidade.

Copacabana, deusa da noite, com seus errantes, incompreendidos e inusitados cidadãos. A noite dos bares, das deliciosas mulheres de jogo, dos salões cheios de fumaça e, para os mais ousados, da irreverência dos travestis na Avenida Atlântica e do que sobrara da Galeria Alaska. Era um tempo em que eu voltava para casa basicamente para dormir ou papear com meu velho e inesquecível amigo Fred.

Pegar o ônibus às seis horas da manhã na Rua Figueiredo Magalhães e viajar até a UERJ. Ou 434 ou 435. O primeiro tinha o caminho mais charmoso dos transportes coletivos do Rio; o segundo era cartesiano, pragmático.

No último ponto antes do Maracanã, em frente ao Cefet, o fiscal que nós, garotos bobos, apelidamos de “o velhinho mala” – e ele era mesmo. Trancava o coletivo e levava uma semana para anotar os dados da roleta. Nós estávamos ali cheios de vida, loucos para descer na universidade e fazer um monte de coisas, inclusive estudar, enquanto ele trancava tudo. Mas também era um bom amigo: graças a ele, em dias de cansaço e cochilo, ninguém perdia o ponto e passava direto. Demorava tanto que as reclamações do ônibus cheio acordavam qualquer sonolento.

Antes de fincar bandeira no hall da faculdade, você podia contar seus tostões e lanchar em duas cantinas preferidas, da fome, baratas: a do terceiro andar, com seu pão com ovo e salada, ou a do nono, com recheios espertos. Conforme o caso, subia ou descia até o sexto andar.

Querendo alguma aula, quase sempre havia. Caso contrário, podia aprender coisas no grande saguão de bancos amarelos e mesas brancas, acrílicas.

As garotas eram lindas, sorridentes e adoravam quando alguém falava algo diferente naquele Brasil contraditoriamente libertário e careta do começo dos anos 1990: a promessa de futuro econômico que não se alinhava com a realidade do cotidiano. Todo mundo duro. Era o Brasil sem Cazuza mas com Renato Russo ainda voando baixo.

Ficávamos amigos dos calouros após os trotes, ou até antes. Fazíamos festas baratas com música e bebida, o pessoal dançava, ficar era o máximo. Mas nossa especialidade era a conversa fiada: horas, horas e horas falando sobre qualquer assunto legal. Ok, também éramos politicamente incorretíssimos, mas sem a menor maldade no coração. Os nossos piores reacionários nem reacionários eram direito.

Eu, que era diferente de todos os animais da minha espécie, ouvia jazz no walkman. E Kraftwerk também.

Não tínhamos um tostão e batalhávamos, mas ríamos de gol contra, anúncio de obituário publicado por engano, até mesmo um senhor esquisitão que passasse por nós e tivesse o mesmo cabelo desgrenhado que um amigo ali sentado.

Alguém vibrava com a queda do Muro de Berlim, mas nem tinha ideia de que o mundo teria vários muros para sempre.

Uns iam para casa na hora do almoço, outros para seus estágios e empregos. De noite, quase todo mundo voltava porque as reprovações nas disciplinas exigiam turno duplo. Se o Maracanã abrigasse um jogo maneiro, era só descer, ir à bilheteria e em minutos você entrava no verdadeiro maior estádio do mundo.

As festas no DCE eram muito concorridas. Nossas amigas chamadas “Amazonas do Apocalipse” estavam sempre por lá, sedutoras e divertidas. Shows fantásticos e gratuitos na concha acústica e no inacabado teatrão.

Lá pelas onze da noite, eu voltava a Copacabana. Tinha que esquentar a janta, falar baixinho, talvez assistir um pouco de TV. O Jô Soares era fantástico. E sentia uma alegria enorme quando via meus pais vivos, roncando, mesmo com todos os problemas que tínhamos. Dormir já pensando em acordar.

No dia seguinte, tudo outra vez.

Eu acreditava na felicidade coletiva e até na minha particular.

O Brasil ia dar certo e se tornar um dos grandes países do mundo, muito além do nosso maravilhoso futebol, da música, das artes em geral, a arquitetura, muita coisa. Seríamos presença certa na Praça da Apoteose das nações.

Tudo passou tão rápido que talvez nem dê tempo de lamentar o que correu mundo, mas onde ele foi desaguar.

Há muito tempo não converso de graça com tantas pessoas legais numa manhã ou noite. Ou combino viagens sinistras na sexta à tarde para partir à noite.

De toda forma, o smartphone e a internet são grandes avanços. O problema, como sempre, está nas pessoas, onde me incluo. O que foi feito de nós mesmos?

Não havia raiva, ódio, rancor, inveja, futilidades consumistas, autopromoção.

Ainda é cedo?

Nunca mais.

@pauloandel

Mais um novo feriado

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É CLARO QUE já estamos no clima do grande feriado. No coração da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, o fog carioca é uma realidade – e carioca, todos sabem, espera a primeira nuvem gris para colocar casaco, gorro, luvas e cachecol, sem a menor necessidade.

Está frio. Frio mesmo, porque parece que o ano sequer começou. Estamos parados em algum lugar entre o indizível, o nada e o inútil.

O caos do Brasil é tão grande que, entre o golpismo e o disfarce, é possível se deparar com situações hilárias, tal como as piadas advindas do áudio do Senador Jucá, dizendo que o Senador Aécio seria o próximo a ser comido.

O povo não resiste a piadinhas de duplo sentido. E aqui termina qualquer vestígio de graça.

Se o país fosse sério, provavelmente Jucá seria preso da mesma forma que aconteceu com Delcídio do Amaral, o senador cassado recentemente e que, noutros sufrágios eleitorais, obteve grandes êxitos porque as mulheres diziam que ele era um “gato”. Percebem como nada é sério nesta joça de lugar?

Horas atrás, um possível romance gay terminou de forma trágica. Um suposto casal, depois de trocas de facadas, caiu da janela do nono andar do edifício número 598 da rua Figueiredo Magalhães, sistema nervoso central de Copacabana. Poucos sujeitos conhecem tão bem o passado deste respeitável prédio quanto eu: entre 1977 e 1992, nele estive em 363 dos 365 (ou 366) dias de cada ano. Lá morava meu grande amigo Fred; em sua casa fizemos nosso quartel general da adolescência, com direito a ingresso nessa abominável vida adulta – era com demais escutar discos, lanchar sanduíches, jogar cartas, rir e aprender – um amigo usava cocaína – o outro, marijuana – lá passávamos todas as tardes, no décimo terceiro andar. Mas é feriado e logo esta terrível notícia servirá para forrar a gaiola do papagaio ou de um outro parente alado – ou ainda embrulhar ovos na feira.

As pessoas não estão nem aí com a dor do outro. O que importa é a viagem.

Golpe? Crise?

Desemprego? Violência?

Bastou que a Globo aliviasse a campanha em prol de seus interesses particulares – está até o pescoço em dívidas e depende de um governo federal, digamos, mais compreensivo, para que milhões de cordeirinhos colonizados deixassem de lado seus discursos coléricos.

A barra já tinha ficado pesada desde que vimos o show de horrores da Câmara dos Deputados ao vivo por um dia inteiro – foi o suficiente para que ali se estampasse todo o anseio coletivo pela escrotidão adotada por considerável parte dos brasileiros.

Dado o golpe, deram de ombros. O importante era que “acabassem com aquela corrupção”; essa aí de agora, de hoje, quase véspera do feriado, ainda “precisa ser investigada”.  Bonequinhos da velha imprensa calhorda a serviço de grandes interesses econômicos, nem um pouco preocupados com os destinos desta linda e castigada terra um dia chamada de Pindorama.

As ruas estão vazias nas calçadas. As pessoas têm medo. A moda é buscar refúgio nos shoppings recheados de “pessoas brancas de bem”. Céus!

Os aeroportos estão cheios. Não dava para tirar aquela “paraibada” dali?

Toda quarta-feira à noite tem um sonífero na tevê intitulado futebol. Quem consegue ver um jogo inteiro em casa sem dormir é praticamente um herói contemporâneo. Maracanã? Acabou, amigos: é um bananão, é um trombolho erguido no lugar daquele outro estádio que tinha alma, paixão, história, drama, gente. Esse tem visitantes e selfies.

O Rio é uma cidade fantasmagórica às vésperas dos propalados Jogos Olímpicos. Gangues de assaltantes de rua fazem arrastões em vários bairros. Muitas vezes você não vê tais notícias porque a televisão prioriza a cidade de São Paulo, onde você pode ver novos crimes na promoção com um sotaque especial – e todo o reacionarismo de um Datena saltando à tela.

Na entrada principal das grandes magazines do entretenimento, livros-jabá: a editora para para estarem ali, ora por interesse próprio, ora bancada por terceiros. Vale quanto propaga.

Os cafés deram lugares aos bares arrumadinhos, moderninhos, onde as pessoas enchem a cara sem qualquer conversa, troca de ideias ou algo que sugira princípios de fraternidade. No máximo, pegação.

Jornal nas bancas para quê? A internet resolve.

Era Rio, São Paulo e Brasil, mas poderia ser um monte de outros lugares neste mundo cada vez mais excludente, egoísta, cínico e hipócroto, um neologismo que define a fusão das palavras “hipócrita” e “escroto”.

Vamos vivendo. Vamos descansar desta selva, porque ela já volta.

Vem aí um novo feriado. Por que mesmo?

Os mortos nas estradas, contamos depois.

@pauloandel

Cidade maravilhosa, inútil paisagem

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No centro da cidade olímpica, moderna e cheia de ameaçadores delinquentes sub-18 no Largo da Carioca, perto do Forum na avenida Antonio Carlos e em qualquer shopping center dos furtos e roubos, anoitece. Talvez perto de dez da noite. Perto da Cruz Vermelha, a tia do açaí atende a diversos clientes ávidos por energia e talvez calorias. O que acontece perto da praça da República é para poucos destemidos.

Num aprazível condomínio da região, um casal de namorados ri enquanto ela vê uma série de TV estadunidense e ele escreve algumas páginas de um livro em atraso, enquanto pensa e reflete de maneira bastante abstrata sobre as mazelas do mundo, que podem ser as de qualquer um.

Um amigo em apuros, outro em festa, uma breve espiada nas redes sociais – arquipélago dos pedantes e academia brasileira dos pernósticos – mas existe salvação, humor, até amizade – o homem em sua estúpida competição em inúteis devaneios de superioridade, quando todos sabemos que o futuro é a morte e o cheiro podre da carne decomposta, onde moram a ganância e a arrogância de cada um, os outros predicados também.

Os cariocas debaixo de governos de merda, golpistas ou não, enquanto precisam ostentar felicidade porque esta cidade é belíssima e atrairá os olhares do mundo – PARA QUÊ? – não sejamos hipócrotos em repetir os mantras corporativos de paz e amor do empreendimento Rock in Rio.

A admirável decadência humana colide contra as façanhas das grandes corporações, que fazem de tudo a beleza e só os mais ignorantes acreditam num mundo melhor onde o lucro é a exploração.
Fugindo do centro e partindo para o Oeste: o escritor e ator Ernesto Xavier pensando em novas maneiras de combater as barbaridades que testemunhando nessa república abaixo da linha do Equador. Os negros ainda são incrivelmente discriminados como se nunca tivéssemos saído do século XIX.

Zona Norte: o escritor e jornalista Fagner Torres com dores no corpo, provavelmente fruto dessas doenças de mosquito que o Estado desprezou por três décadas. Barulhos na Tijuca tensa com policiais por todos os lados.

Nada de perder tempo com o programa jornalístico, claramente manipulado para ecoar a voz de seu dono. É melhor perseguir pequenas diversões eletrônicas. Qualquer Tijuca, qualquer Copacabana, enquanto os mais jovens não têm a menor ideia sobre Vieira Fazenda.

Em qualquer canto do fracassado principado olímpico, grandes obras e outras largadas, muitas pessoas com fome e trêmulas com o chão gélido das calçadas em vários bairros, gente sonhando com um improvável mundo melhor, ninguém muito preocupado com livros, quase todos já sonhando com o feriado da semana que vem e o resto, amigos, o resto é o intervalo entre as flores e o espaço de tempo para fumar e beijar seu noivo, do jeito que Otto – o grande artista pernambucano – gravou em seu primeiro álbum.

Ditaduras, democracias e golpes à solta depois, o certo é que temos smartphones demais, eletrodomésticos e carros demais, merchandising demais, mas ainda continuamos com sérios atrasos no que tivemos de melhor: cortesia, fidalguia, solidariedade. Foi tudo em vão: que grande irmão há de nos amparar? Somos egoístas demais, prepotentes demais, somos os melhores do mundo da insignificância. Um dia seremos todos inúteis, sem exceções. Nenhuma arrogância escapará da putrefação.

@pauloandel

Adeus, Cirandinha

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Vão caminhando os dias em passos absurdos, tortos e desconexos. Na véspera de um golpe anunciado, a internet é um pombo-correio: alguém te marca, você corre para ver uma informação e se depara com a perda.

Faleceu o Cirandinha, um dos ícones de Copacabana, ao menos bem depois do Bonino’s. Era uma espécie de xodó dos mais velhos do bairro, que nele reviam momentos da adolescência e até da juventude, levados por seus pais.

Sua fama sempre foi a de uma casa de chá. Por isso, a vida inteira teve a frequência de simpáticas senhoras que, em suas mesas, também pediam waffles. Tinha uma pizza espetacular, salgadinhos fabulosos, todo o cardápio era uma ida às nuvens.

Teve como vizinhos a elegante Casa Barbosa Freitas, a Casa Sloper, o cine Art Copacabana e o impecável Metro Copacabana, com seu letreiro de Broadway e um sistema de ar condicionado tão forte que alguns veteranos são capazes de jurar: ao término de uma sessão e a saída dos frequentadores, muitos sentiam a massa de vento refrescante vinda da sala de exibição do outro lado da rua! (exatamente onde ficava a Sloper).

Seu endereço era Avenida Copacabana 719, onde nasceu em 1957. Eu, que cheguei uma década depois, fui lá muitas vezes, mesmo depois de ter deixado Copacabana como morador para sempre – e digo sempre porque, com os preços aviltantes e muitos imóveis claramente fechados em função da lavagem de dinheiro, dificilmente terei como voltar. De toda forma, a vida é um galpão de jogos de azar.

Em certa oportunidade, em 1992, lá estive num começo da noite de domingo com meu amigo Gomão. Tinha voltado da Barra, um tanto desapontado: a mulher da minha vida naquela época estava namorando um outro sujeito. Pedimos uma pizza, refrigerante e o mundo ficou bem. Já trabalhávamos, ganhávamos pouco, mas era o suficiente para ter momentos de desabafo numa das melhores casas da história de Copacabana. Nada como a passagem das épocas para vermos que as verdades de outrora acabam sendo dissipadas pelo vento – os amores passam, passam, tudo passa. O mundo urrava com passeatas de combate à corrupção. Às vezes é bom envelhecer; noutras oportunidades, não.

Mais de vinte anos depois, entre idas e vindas, o Cirandinha foi o local que escolhi para ir com Marina, minha atual namorada, bem no começo da história. Aquele clima de charme, de antigamente, de mesinhas com toalhas brancas impecáveis, hambúrgueres de fino trato. Na entrada, o balcão estilo americano que logo dava o tom do local.

Os mais apressados vão dizer que o Cirandinha morreu exclusivamente por causa da crise, que é mundial e os oportunistas insistem em apontar como exclusivamente brasileira. Nada disso. Acontece que o restaurante sempre foi elegante, tradicional, delicado, ideal para conversas amenas, moderadas e fraternas. Aos poucos, o tempo foi ceifando a amabilidade, o prazer das conversas educativas, a boa sensação gregária e tudo passou a ser apenas futebol – que adoro – e BBB para atrair clientes em todos os bares, tabernas e restaurantes. A elegância – que não precisa andar de mãos dadas com a riqueza pessoal – deu o fora. Nestes anos todos, vi o público do Cirandinha amadurecendo cada vez mais, a ponto de um dos acontecimentos jovens que lá testemunhei ter sido o encontro de meus colegas de ginásio, da Escola Cícero Penna, em 2007 – quando todos estavam às vésperas dos quarenta anos. Numa reunião, percebemos que formávamos a mesa mais jovem do recinto. O mundo mudou, os adultos tornaram-se idosos, as pessoas passaram a sair menos de casa e tomar chá virou quase uma excentricidade. Pior para os tempos.

O Cirandinha, que sobreviveu a tantos percalços da vida brasileira, não resistiu a 2016, que na verdade é um 2015 que ainda não começou, exceto pela visão de inferno que se avizinha e não parece ter fim no horizonte. Eu queria levar Marina lá outra vez. Não será possível.

Um Cirandinha dali, um Teixeira Heizer de lá, Massas Suprema, Rick’s, a lanchonete de rua das Lojas Americanas na Figueiredo Magalhães, o Cine Condor. A Help, o Coruja Bar. Gordon e seu enorme canguru na porta. Tudo passa.

Ainda bem que o Cine Joia, na galeria dos peixinhos, sobreviveu para contar a história.

Louvadas sejam a Galeria Menescal e a Charutaria Lolló.

Copacabana resiste, sabe-se lá até quando.

@pauloandel

Amor de adolescência

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ANTIGAMENTE mas não muito, paixão de adolescente era medida pela fila do orelhão. Explicando aos mais jovens: telefone público. Bastava comprar fichas para ligar. Cada uma delas dava direito a quatro minutos de conversa. Copacabana ou qualquer outro bairro.

Os orelhões funcionavam. Eram bem cuidados. Bem público, muito longe de qualquer comunismo que passe pela cabeça de um lunático ensandecido.

Falar não era tão fácil. Telefone residencial era patrimônio. Diziam que no tempo da ditadura não havia corrupção. Piada. Então as pessoas iam para as filas, os jovens buscando sinais vitais de amor: a conversa, o convite para ir à praia, a confirmação para o acampamento escoteiro, a matinê na Help ainda virgem de garotas de programa. Quer dizer, mais ou menos.

Juntar dinheiro para mandar flores para a garota amada. Sacrifício de sanduíches, botões, uma bola oficial de couro novinha. Precisava também comprar um belo cartão nas Americanas ou na Casa Mattos.

Com um golpe de sorte, a garota aceitava descer de casa e continuar a conversa pessoalmente. Normalmente ficava para uma próxima oportunidade.

Um dia, os orelhões se tornaram obsoletos. Era preciso um novo Brasil de modernos telefones móveis. Eles vieram, às custas de uma das maiores tarifas médias do mundo. Aos poucos, os velhos telefones públicos foram sendo abandonados por seus titulares. Viraram pequenos outdoors de travestis.

O mundo mudou, o romance acabou, ter ficou mais importante do que ser, aparência acima de tudo: estética, sentimental, até física.

Nos transportes de massa abarrotados, as pessoas cabisbaixas e silenciosas vidradas nas telas dos smartphones: Tinder, Facebook, Twitter, Whatsapp. Neste último, ainda uma réstia de esperança: esperar a linda garota dizer olá, bom dia, como vai? O toque do aparelho sugere o tilintar das fichas naquela velha caixa de fala e escuta.

Os adolescentes, mesmo depois de estourarem a faixa etária em 500%, ainda ficam com seus olhos arregalados só em pensar na nudez estonteante de Natalie Wood em muita carne e alguns ossos.

Aqui houve o foco de homem e mulher. Mas podia ter sido sobre dois homens ou duas mulheres. Tudo sempre esteve aí naturalmente. Fingíamos que não víamos o óbvio. Viva e deixe viver. O olhar de Natalie justifica tudo. No Whatsapp então…

@pauloandel