Tchau, Alfa

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Não fui propriamente um cliente assíduo do sensacional Alfa – a cada dia que passa, eu sou cada vez menos assíduo a qualquer coisa. A minha vida estava deslocada para o outro lado do que chamam de “A cidade”. Mas a cada três meses eu ia e batia meu ponto, geralmente em grandes conversas com Mauricio Nascentes, meu amigo há 20 anos (o tempo passa rápido demais). Nas férias era certo, já que em todas elas um dos meus passatempos é flanar pelo Centro, visitando os centros culturais, as ruas, conversando com os amigos, as coisas normais que a vida dentro do escritório não permite em boa parte do ano. Um dos grandes endereços do Centro do Rio, inclusive citado em meu próximo livro a ser lançado daqui a pouco mais de um mês, quando a casa terá cerrado suas portas.

Alfa de Al Farabi, não o grande matemático mas o seu nome emprestado ao sebo que virou point de gastronomia e boa música encravado na Rua do Rosário.

Em todas as vezes que lá estive, o Alfa foi uma espécie de versão dub remix de outro grande espaço da cidade, a Livraria Berinjela, que frequentei por muitos anos e, claro, também estará no livrinho.

Escolhi o Alfa para ser o local de lançamento do meu livro mais dark sobre futebol, ao lado de Zeh Augusto Catalano: “2014 – O espírito da Copa”. Pouca gente teve a ousadia de contar toda a história cotidiana do Mundial de 2014, por motivos óbvios. Mas não estávamos nem aí. A capa dizia tudo: dois garotinhos com a camisa 10 da Seleção jogando bola na rua dez minutos depois dos 7 a 1. Não há bandido travestido de dirigente que mate o futebol brasileiro, por mais que alguns possam se esforçar neste sentido. Fomos muito bem recebidos, a noite foi um barato e eu esperava colocar lá outros lançamentos mais à frente. Não vai dar. Uma pena. O livro me dá muito orgulho e o Alfa foi o grande palco dele.

Que novas trilhas sejam abertas, que novos caminhos sejam cruzados, mas fica para mim certo gosto amargo de uma cidade que cada vez dá mais passos para trás. O Rio de Janeiro da conversa fiada e rica, das cervejas, dos livros, dos discos e de tantas coisas mais, parece dar vez a uma Gotham City sem Batman, dominada pelo capital especulativo e de origem nem um pouco maravilhosa. O Comissário Gordon deu o fora e o resto que se dane. Esta cidade foi construída com boemia, camaradagem, picardia e muitas trocas de ideias, o que definitivamente não cabe em “curti ai” e figurinhas de sorrisos como linguagem profunda. Os cinemas, o Maracanã, os sebos, as livrarias, os bares camaradas, tudo vai dando adeus para os espaços bonitinhos, assépticos e de gente arrumadinha, isso quando os engravatados de Deus não vêm à calçada captar alguém pelo braço.

Tudo muito diferente do que eu pensava encontrar quando chegasse aos 50 anos de idade, que já estão à porta.

Fico com meu João Saldanha de cabeceira: “Vida que segue”.

Em algum lugar do meu coração há 25 anos

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Onde eu estava há 25 anos? Em muitos lugares, com muitas pessoas e sozinho demais. Era diferente demais em tantas coisas, mas tão igual em outras.

O coração do meu Rio de janeiro em 1991 tinha três pilares principais: Copacabana, Centro e Maracanã.

Aquela batalha absurda por emprego quando você tem 22 anos de idade e pensa que é hora de definir o resto da sua vida, quando há vidas e vidas a seguir. Estágio, qualquer coisa que ajudasse em casa e provasse aos seus pais que esforço deles não tinha sido em vão. E que você se esforçou muito também. A cara do coração da cidade.

Copacabana, deusa da noite, com seus errantes, incompreendidos e inusitados cidadãos. A noite dos bares, das deliciosas mulheres de jogo, dos salões cheios de fumaça e, para os mais ousados, da irreverência dos travestis na Avenida Atlântica e do que sobrara da Galeria Alaska. Era um tempo em que eu voltava para casa basicamente para dormir ou papear com meu velho e inesquecível amigo Fred.

Pegar o ônibus às seis horas da manhã na Rua Figueiredo Magalhães e viajar até a UERJ. Ou 434 ou 435. O primeiro tinha o caminho mais charmoso dos transportes coletivos do Rio; o segundo era cartesiano, pragmático.

No último ponto antes do Maracanã, em frente ao Cefet, o fiscal que nós, garotos bobos, apelidamos de “o velhinho mala” – e ele era mesmo. Trancava o coletivo e levava uma semana para anotar os dados da roleta. Nós estávamos ali cheios de vida, loucos para descer na universidade e fazer um monte de coisas, inclusive estudar, enquanto ele trancava tudo. Mas também era um bom amigo: graças a ele, em dias de cansaço e cochilo, ninguém perdia o ponto e passava direto. Demorava tanto que as reclamações do ônibus cheio acordavam qualquer sonolento.

Antes de fincar bandeira no hall da faculdade, você podia contar seus tostões e lanchar em duas cantinas preferidas, da fome, baratas: a do terceiro andar, com seu pão com ovo e salada, ou a do nono, com recheios espertos. Conforme o caso, subia ou descia até o sexto andar.

Querendo alguma aula, quase sempre havia. Caso contrário, podia aprender coisas no grande saguão de bancos amarelos e mesas brancas, acrílicas.

As garotas eram lindas, sorridentes e adoravam quando alguém falava algo diferente naquele Brasil contraditoriamente libertário e careta do começo dos anos 1990: a promessa de futuro econômico que não se alinhava com a realidade do cotidiano. Todo mundo duro. Era o Brasil sem Cazuza mas com Renato Russo ainda voando baixo.

Ficávamos amigos dos calouros após os trotes, ou até antes. Fazíamos festas baratas com música e bebida, o pessoal dançava, ficar era o máximo. Mas nossa especialidade era a conversa fiada: horas, horas e horas falando sobre qualquer assunto legal. Ok, também éramos politicamente incorretíssimos, mas sem a menor maldade no coração. Os nossos piores reacionários nem reacionários eram direito.

Eu, que era diferente de todos os animais da minha espécie, ouvia jazz no walkman. E Kraftwerk também.

Não tínhamos um tostão e batalhávamos, mas ríamos de gol contra, anúncio de obituário publicado por engano, até mesmo um senhor esquisitão que passasse por nós e tivesse o mesmo cabelo desgrenhado que um amigo ali sentado.

Alguém vibrava com a queda do Muro de Berlim, mas nem tinha ideia de que o mundo teria vários muros para sempre.

Uns iam para casa na hora do almoço, outros para seus estágios e empregos. De noite, quase todo mundo voltava porque as reprovações nas disciplinas exigiam turno duplo. Se o Maracanã abrigasse um jogo maneiro, era só descer, ir à bilheteria e em minutos você entrava no verdadeiro maior estádio do mundo.

As festas no DCE eram muito concorridas. Nossas amigas chamadas “Amazonas do Apocalipse” estavam sempre por lá, sedutoras e divertidas. Shows fantásticos e gratuitos na concha acústica e no inacabado teatrão.

Lá pelas onze da noite, eu voltava a Copacabana. Tinha que esquentar a janta, falar baixinho, talvez assistir um pouco de TV. O Jô Soares era fantástico. E sentia uma alegria enorme quando via meus pais vivos, roncando, mesmo com todos os problemas que tínhamos. Dormir já pensando em acordar.

No dia seguinte, tudo outra vez.

Eu acreditava na felicidade coletiva e até na minha particular.

O Brasil ia dar certo e se tornar um dos grandes países do mundo, muito além do nosso maravilhoso futebol, da música, das artes em geral, a arquitetura, muita coisa. Seríamos presença certa na Praça da Apoteose das nações.

Tudo passou tão rápido que talvez nem dê tempo de lamentar o que correu mundo, mas onde ele foi desaguar.

Há muito tempo não converso de graça com tantas pessoas legais numa manhã ou noite. Ou combino viagens sinistras na sexta à tarde para partir à noite.

De toda forma, o smartphone e a internet são grandes avanços. O problema, como sempre, está nas pessoas, onde me incluo. O que foi feito de nós mesmos?

Não havia raiva, ódio, rancor, inveja, futilidades consumistas, autopromoção.

Ainda é cedo?

Nunca mais.

@pauloandel

Que fim levou?

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Que fim levou aquele velho chope de sexta-feira com os amigos da faculdade? Hoje estão todos muito ocupados demais, seja por conta da grande vida corporativa, a falta de tempo, os contas, os filhos, as mulheres e principalmente as desculpas esfarrapadas nestes dias de oi e tchau pelo smartphone.

O coração da cidade parece mais vazio e abandonado. Falam da crise mas, pensando bem, em boa parte da sua existência o Brasil esteve em crises e as ruas eram mais cheias.

Polícia não há. Tiros, balas perdidas e cada vez mais negros pobres presos para livrar o Brasil do mundo do tráfico.

Numa grande capital de um país desnorteado por golpistas de meia tigela, vai chegando quatro e meia da tarde e o caminho é ir para casa, descansar, gastar as horas, ver o futebol – sim, inventaram o futebol às sextas-feiras! – e, se der, uma cerveja razoável no bar perto de casa.

Éramos mais solidários. Gostávamos mais de estar uns próximos aos outros. A internet bosteou tudo. Não que não seja um fantástico invento, mas precisamos de gente de verdade por perto.

As relações ficaram mais distantes e frias.

Quem vai nos ouvir quando estivermos tristes, sufocados, precisando de um desabafo?

Ninguém.

Só agora entendo as atitudes de isolamento praticadas pelo meu pai há 25 anos. Ele tinha 5o anos de idade. Hoje eu tenho 48 e agora entendo tudo muito bem.

Diziam que o homem é um ser gregário. Pode ser, mas basicamente quando jovem. A maturidade parece fazer aflorar certo individualismo, ou até egoísmo.

Nas ruas temos pequenos e grandes assaltos, miséria, exclusão e tudo o que aí está porque há uma crise. Crise.

Éramos mais solidários. Se não soubemos nem consertar uma mesa de bar, o que fazer da cidade, do país, da vida?

Desculpem o amargor. É tudo coisa de uma sala fechada, refrigerada, hermética, num respeitável ambiente de trabalho justamente quando o expediente acabou de encerrar e as pessoas saem correndo feito loucas para não perderem um segundo do que acreditam, bem, acreditam ser a liberdade.

Daqui a pouco tem o Natal, o Ano Novo, o Carnaval e tudo fica para trás. Antes disso, mais uma eleição de mentira.

@pauloandel

Cidade maravilhosa, inútil paisagem

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No centro da cidade olímpica, moderna e cheia de ameaçadores delinquentes sub-18 no Largo da Carioca, perto do Forum na avenida Antonio Carlos e em qualquer shopping center dos furtos e roubos, anoitece. Talvez perto de dez da noite. Perto da Cruz Vermelha, a tia do açaí atende a diversos clientes ávidos por energia e talvez calorias. O que acontece perto da praça da República é para poucos destemidos.

Num aprazível condomínio da região, um casal de namorados ri enquanto ela vê uma série de TV estadunidense e ele escreve algumas páginas de um livro em atraso, enquanto pensa e reflete de maneira bastante abstrata sobre as mazelas do mundo, que podem ser as de qualquer um.

Um amigo em apuros, outro em festa, uma breve espiada nas redes sociais – arquipélago dos pedantes e academia brasileira dos pernósticos – mas existe salvação, humor, até amizade – o homem em sua estúpida competição em inúteis devaneios de superioridade, quando todos sabemos que o futuro é a morte e o cheiro podre da carne decomposta, onde moram a ganância e a arrogância de cada um, os outros predicados também.

Os cariocas debaixo de governos de merda, golpistas ou não, enquanto precisam ostentar felicidade porque esta cidade é belíssima e atrairá os olhares do mundo – PARA QUÊ? – não sejamos hipócrotos em repetir os mantras corporativos de paz e amor do empreendimento Rock in Rio.

A admirável decadência humana colide contra as façanhas das grandes corporações, que fazem de tudo a beleza e só os mais ignorantes acreditam num mundo melhor onde o lucro é a exploração.
Fugindo do centro e partindo para o Oeste: o escritor e ator Ernesto Xavier pensando em novas maneiras de combater as barbaridades que testemunhando nessa república abaixo da linha do Equador. Os negros ainda são incrivelmente discriminados como se nunca tivéssemos saído do século XIX.

Zona Norte: o escritor e jornalista Fagner Torres com dores no corpo, provavelmente fruto dessas doenças de mosquito que o Estado desprezou por três décadas. Barulhos na Tijuca tensa com policiais por todos os lados.

Nada de perder tempo com o programa jornalístico, claramente manipulado para ecoar a voz de seu dono. É melhor perseguir pequenas diversões eletrônicas. Qualquer Tijuca, qualquer Copacabana, enquanto os mais jovens não têm a menor ideia sobre Vieira Fazenda.

Em qualquer canto do fracassado principado olímpico, grandes obras e outras largadas, muitas pessoas com fome e trêmulas com o chão gélido das calçadas em vários bairros, gente sonhando com um improvável mundo melhor, ninguém muito preocupado com livros, quase todos já sonhando com o feriado da semana que vem e o resto, amigos, o resto é o intervalo entre as flores e o espaço de tempo para fumar e beijar seu noivo, do jeito que Otto – o grande artista pernambucano – gravou em seu primeiro álbum.

Ditaduras, democracias e golpes à solta depois, o certo é que temos smartphones demais, eletrodomésticos e carros demais, merchandising demais, mas ainda continuamos com sérios atrasos no que tivemos de melhor: cortesia, fidalguia, solidariedade. Foi tudo em vão: que grande irmão há de nos amparar? Somos egoístas demais, prepotentes demais, somos os melhores do mundo da insignificância. Um dia seremos todos inúteis, sem exceções. Nenhuma arrogância escapará da putrefação.

@pauloandel

Cine Vitória (ou Livraria Cultura)

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Talvez SETE E MEIA da noite quando paguei a corrida para o simpático taxista e saltei na Senador Dantas para entrar no velho Cine Vitória – ali assisti a “Se meu Fusca falasse” quando meu pai me puxava pela mão, o futuro estava todo à  frente e nada estava irremediavelmente perdido. Deveria ter chegado horas antes para entregar dois livros ao meu amigo Fábio, mas tivemos que desmarcar: à última hora, fui chamado para uma reunião na Barra da Tijuca, o outro lado do Rio, desmarcada no meio do caminho em pleno engarrafamento. Não voltei a tempo, mas pelo menos o suficiente para espairecer um pouco. Que tal deixar de lado as dores do mundo, da alma, do amor e do corpo por uma ou duas horas, gastando pouco dinheiro num lojão cool, quase vazio, sem perturbações?

DE CARA, toda a poesia de Paulo Leminski no livro de capa emblemática com seu bigodão enorme. Livros caros de João Antônio, o cronista maldito, também.  Muitos livros, claro que sem os tesouros dos grandes sebos do mundo, mas com boas oportunidades também.

Tento procurar os lugares do cinema nos cantos da memória, mas tudo está tão longe que fica quase impossível. Foi outro dia mesmo e já tem quarenta anos. Tempo, senhor imperdoável e implacável das razões e engamos.

Você sobe a escada rolante que fica à esquerda de quem entra e rapidamente está no setor de música. Há novidades, em sua maioria um pouco – ou muito – caras. O novo álbum de David Gilmour é um espanto de bom, “Rattle that lock”.  Peguei Vanusa 2015 para escutar. Preciso de contraprova para uma avaliação mais adequada. Rush, “Time Machine”, 2011, em promoção; foi da canção “The Spirit or Radio” que tirei a inspiração do título de meu livro mais recente, “2014: O espírito da Copa”, ao lado de maravilhosos coautores.

Duas garotas bonitas, uma delas tão bonita que até parece uma bailarina que conheci certa vez, conversavam alegremente pelo hall, enquanto um dos vendedores oferecia generoso olhar às formosuras. Uma delas com o CD de Eric Clapton à mão, um luxo. O mundo ainda resiste à barbárie de alguma forma, por alguns instantes. Nem tudo é felicidade: ao procurar no balcão por “Publikation”, a trajetória do Kraftwerk em livro, vejo que foi substituída no pedaço pela biografia de Luan Santana. Nenhum problema quanto ao rapaz, mas isso já dava livro?

A segunda escada rolante, as garotas bonitas riem e sobem. Parecem tão felizes que são capazes de contagiar os corações mais tristes. Um senhor perto do leitor de preços, respeitável, provavelmente abonado do ponto de vista financeiro, passando todos os produtos para conferir a despesa e, claro, não conseguindo porque boa parte dos itens não está cadastrada.

Que tal subir a escada?

No café, algumas pessoas conversam delicadamente às mesas. Eu não reconheço nenhum amigo. Sem Marina, Catalano e Luiz, quem me acompanharia lá? O Leo, algumas vezes. O Zé, se pudesse. A Juliana, talvez um dia. Kátia. Ernesto. Mais ninguém. O mundo lá fora e cruel, com as pessoas saudando suas boas mortes em horas e horas de Facebook e Twitter inúteis por excelência: ódio, rancor e desconstrução.  Conversar é melhor que agredir, mas parte do mundo se perdeu para sempre em desamores, desencontros e violência. Vejo algumas outras pessoas sorridentes também, mas nenhuma é minha amiga e resolvo não sentar sozinho mesmo para um simples cafezinho. Torradas não: dão câncer. O mundo é um câncer. “O Brasil é uma república federativa cheia de árvores e gente dizendo adeus”, segundo a genialidade de Oswald de Andrade. “É função do artista estuprar”, Glauber Rocha. “O que faço é música”, Helio Oiticica.

Passar para o outro lado e você pode descer a charmosa rampa em caracol da Cultura, que no Rio de Janeiro só é superada pela da Siqueira Campos, 143, hoje o Shopping dos Antiquários, antigamente o Super Shopping Center de Copacabana, onde uma termas vivia em excelente vizinhança com dois teatros, seis blocos de apartamentos e uma igreja.

Descer lentamente. Espiar os títulos. Tem muita bobagem, como em qualquer lugar. Algumas nunca vão sair das prateleiras, mas lá estão com chamadas agressivas, reducionistas. Há muitos livros admiráveis também, um contraponto. Descer lentamente, fazer com que os pés sorvam toda a pequena caminhada em declive circular. Que diabos Fernando Henrique Cardoso faz na seção de Economia? Lucidez, por favor.

Um livro interessante na seção de Estatística: “O andar do bêbado”, escrito pelo superfísico Leonard Mlodinow, que se utiliza de exemplos reais para provar como o ser humano não está preparado para lidar com o aleatório, muitas vezes não sabendo nem mesmo reconhecê-lo. Coautor de “A brevíssima história do tempo” ao lado de Stephen Hawking. Comprei. Mlodinow é também um sobrevivente do World Trade Center em 11 de setembro de 2001. O que dizer?

Lobão, esse sujeito que um dia foi roqueiro e agora é colunista de frivolidades da defunta revista Veja, acaba de lançar um novo livro. A orelha é a piada do dia: tratado como a pessoa que sofreu a maior “Simonalização” do Brasil atual.

Chega o fim da rampa. Tomo a pequeníssima fila do caixa. A simpática funcionária morena escuta diversas perguntas do cliente em busca de emprego na casa. Alguma coisa me aflige na situação, mas é melhor deixar para lá. Pago rapidamente, uma nota de 50 reais sem troco.

Nove da noite, a Senador Dantas é um deserto. Do outro lado da rua, as pessoas sofridas só têm a marquise como bem de consumo. O Bob’s, moderninho, está cheio. Peço um táxi. Entro com dificuldades no carro, por causa das dores de coluna, sento  no banco de trás.

Uma corrida breve até a Cruz Vermelha, geralmente detestada pelos taxistas. O sujeito me diz que depois irá buscar uma passageira, senhorinha, no supermercado 2001 e levá-la até a Saúde, numa ladeira complicada. Pergunto que mercado é esse e recebo uma resposta curiosa:

– Ali perto da Embratel. Acho que o senhor é paulista. Mora no Rio e não conhece o supermercado 2001?

– Não, não sou paulista, mas seria tranquilamente. Meu falecido pai nasceu em São Paulo.  Gostaria de entender o que desconhecer o endereço deste supermercado tem a vez com o fato de ser paulista ou não. E por que diabos eu teria que saber onde fica a Embratel? O taxista é você, não eu.

(Silêncio constrangedor)

Cinco minutos de corrida, chego à portaria do prédio, um deserto de gente. Pago a tarifa. O taxista dá boa noite.

– Parabéns! Você é um carioca completo. Boa ida ao supermercado 2001 que fica perto da Embratel.

Tomo o elevador e penso nos encontros mensais que terei com Fagner, Tiba, Ernesto e Luiz Paulo para conversamos sobre a sociedade e a vida.

Lembro das garotas sorridentes e felizes da Cultura, lembro da linda bailarina e de tanta coisa que infelizmente ficou para trás porque talvez tivesse que ser tudo desse jeito mesmo – buscamos perfeições e felicidades impossíveis que, às vezes, só existem em nossos próprios  sonhos.

O disco do Rush se chama “Time Machine”: máquina do tempo.

A vida é quase isso, ao menos para nós, privilegiados, que temos computador, comida, água, lugar para morar e alguma proteção diante de atentados terroristas – quanto aos traficantes, nem tanto assim.

Marina fala de seu dia para mim no Whatsapp e a noite fica melhor. The Police na televisão, coisa de sete anos atrás, banda em grande momento e o Leo vibra pela mensagem do celular. “Time machine”, máquina do tempo.

Tempo, mano velho.

@pauloandel

Paladino e outros caminhos

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O RIO DE JANEIRO, belo e impagável com suas facadas, gangues, bandidos, pó e utensílios diversos, é provavelmente a única cidade do mundo onde o táxi não funciona exatamente como táxi no Centro – e aqui não posso deixar de pensar no mitológico MC Magalhães em seu Rap do Trabalhador, cantando “Quebrou a firma, César Maia”. Mas apenas uma breve lembrança divertida, sem outras conotações.

O coração da Guanabara está de pernas para o ar. A modernidade do VLT – Veículo leve sobre trilhos – é o remake do bonde. Então N ruas foram interditadas, perderam a mão, ganharam mão tripla, não ganharam nada. Some-se a isso o natural caos urbano, os engarrafamentos que desafiam tempos de crise, o ir e vir das multidões como se tudo fosse um gigantesco ex-Maracanã e… experimente fazer uma simples corrida de táxi da Cruz Vermelha até a rua Marechal Floriano. Só será possível chegar até o começo da avenida Passos: o resto é interditado em nome da Cidade Olímpica.

Antes de chegar à esquina para saltar e caminhar até chegar ao objetivo final, o decano Armazém Paladino – orgulho carioca desde os tempos da rua Guanabara e do VLT do começo do século XX – várias vezes campeão carioca de bares -, espiei o movimento das ruas.

Perto do Campo de Santana, a turma da faca andando de um lado para o outro. A Polícia nem liga. Ministério do Exército, as velhas linhas da arquitetura alemã dos anos 1930, sombria, pesada.

Uma garota tão linda, perto do restaurante onde eu e Caldeira almoçamos algumas vezes, que parecia Juliana. Outra, negra fantástica com cabelo esperto black power atravessando a rua entre os carros. Os motoristas nervosinhos tiveram alguns segundos de boa contemplação.

Bacana o taxista, boa praça, pediu desculpas por não poder me levar até o fim. Paguei, saltei do carro confortável.

O caos na esquina da Passos: gente, carros, quase tudo em cima da calçada.

Acabou o velho Bob´s. Eu era um garoto em 1983, procurando naquela rua uma boa mochila para os acampamentos escoteiros, a Marechal Floriano era uma referência nesse sentido. Depois era lanchar e se divertir. Acabou. A grana vai destruindo os memoriais das pequenas grandes histórias.

Cinco minutos depois, Catalano à espera na mesa tradicional do armazém decano.

Sanduíche triplo de copa e omelete de bacalhau.

Chope.

Falar da vida, dos amores, nos times do coração tão vilipendiados pela vaidade e pela ignorância.

Dinheiro. Falta de dinheiro.

As inutilidades do poder. Um país fagocitando a si mesmo. Gente que não tem o menor senso de lida política.

Os livros que faremos.

Outra omelete. Sem cebola nem salsa. Quando você tem um amigo heterossexual, mas tecnicamente fresco – não gay, entendam! -, é nisso que dá.

Numa mesa vizinha, uma aluna dos tempos de faculdade. O obsessivo tacou os olhões em cima. Não dei trela. Nunca foi simpática nem cumprimentava ninguém. Tenho mais o que escrever.

O Paladino nem tão cheio assim, mas chopes dourados flanando pelas mesas e sorrisos à espera da primavera.

Uma hora e meia, a conta e a hora do tchau. Vamos à caminhada. A maravilhosa vida cotidiana limita o prazer da boa e velha conversa fiada por horas. Tudo é corrido.

Adiante, o calor infernal da rua Uruguaiana bem em frente ao camelódromo. Gente carregando coisas normais e estranhas. Nenhum policial, nenhuma gangue da faca.

Duzentos metros até as Lojas Americanas, onde mesmo sem comprar nada você pode aproveitar o ar condicionado (ou seria refrigerado?). Catalano ia comprar um brinquedo para Manu, sua filha.

Uma quadra antes, as pessoas rindo e colaborando com o caixinha de uma das mais sensacionais estátuas humanas da história dessa cidade: baixinho, amputado, negro, o ator trabalhava como um SACI. É sério. Criatividade, uma das marcas do que restou do povo carioca.

Catalano dando tchau, imediatamente chego à rua Sete de Setembro, na loja de discos que tem muitas promoções, mas também gato por lebre: é preciso conhecer do assunto, se é que me entendem. Bom, dois CDs novinhos, lacrados, da Jane Duboc – uma de nossas grandes cantoras brasileiras -, mais outro da Célia – outro talento típico da metrópole da Pauliceia. Bloc Party também. Tudo por vinte reais. Tempos de crise.

Calor, pouco vento, a reta da rua do Senado, garotas da Petrobras também caminhando, a loja de bandeiras de futebol com a porta arriada e a volta ao escritório refrigerado. Por que estão trocando o nome de todos os motéis nas redondezas?

Depois de algumas horas de contas, chegou o fim do expediente. Ainda nem tão escuro no céu, o rush das dezoito horas possuía um engarrafamento enorme.

Seria bom estar no Paladino novamente. Um sentimento de vida.

O que resta é a modernidade dos congestionamentos. A pé.

@pauloandel