Boas festas para quem?

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Em que fim de mundo é esse em que viemos parar?

O contraste das maravilhas contemporâneas embutidas nas novas tecnologias e nos bens de consumo, contrastadas com um planeta onde boa parte das pessoas não tem água, terra, casa e acesso a condições minimamente razoáveis de vida.

Nesta Terra Brasilis em que se plantando, tudo dá – ou daria -, temos vivido perdas e danos. Há quatro anos, é difícil respirar.

Desabrigados no olho do furacão de uma crise econômica, associados a um governo ilegítimo que repercute em todas as instâncias, enlameados pela cólera que vai do vizinho da rede antissocial ao bandido que, outrora, batia a carteira e agora atira na cara, para destruir. Ou de propostas estapafúrdias como a de há pouco, onde se pretende que boa parte dos brasileiros morra sem ter recebido aposentadoria. Ou da cegueira conveniente que não vê problema entre relações de intimidade explícita entre um multi delatado pela Operação Lava Jato e aquele que, em tese, deveria julgá-lo.

Há muitos Brasis num só. E em vários deles, ninguém tem a menor ideia do que está realmente acontecendo. Boa parte dos brasileiros instalados nas metrópoles e capitais passa por situações humilhantes, trabalhos exploratórios, remunerações indignas e pena até para se deslocar, dado que os transportes de massa geralmente são bosta. Depois de horas em pé num ônibus ou trem lotado, o que resta é tomar um banho e desabar na cama – se cama houver – para algumas horas de sono alucinógeno até começar o maldito dia seguinte, torcendo para que a sexta ou o sábado cheguem logo, de modo que a vida tenha algum mínimo sentido lúdico.

Vender o ticket, contar as moedas, pagar as contas com sorte. Alguns serão entorpecidos pelo mundo da fantasia do Jornal Nacional e só.

Mais uma vez, somos vítimas de uma elite poderosa, mas ignara, incapaz de respeitar o próximo e de qualquer sentimento de nacionalidade, disfarçado com as camisas da CBF, com todo o ridículo contido nisso.

Eu poderia estar feliz porque tenho um emprego razoável, trabalho numa sala confortável e refrigerada, consigo fazer minhas refeições prediletos diariamente, compro alguma parte dos livros e discos que me interessam, vivo bem com minha namorada e rimos muito, meu hobby de escritor alegra algumas pessoas e, até onde penso, estou em boas condições de saúde. É, isso me bastaria se eu fosse um idiota egoísta que só pensasse em mim o tempo inteiro. Mas cresci com a lição de que o homem é um ser gregário; logo, não posso achar normal olhar para a calçada da esquina e ver crianças esfomeadas, abandonadas, drogadas. Nem espiar o que ainda resta das bancas de jornal e ver a estupidez da violência por todos os lados – você pode escolher as versões local, nacional ou estrangeira. Tudo isso enquanto a lista nacional de milionários brasileiros aumenta. Na crise? Pois é.

Não falei nem falarei de gente passando por cima da lei, políticos corruptos, cidadãos corruptos, gente inescrupulosa e mais uma antiga lista telefônica inteira de vícios e defeitos.

Já me senti um verdadeiro brasileiro. Hoje, sou um inquilino do fim do mundo.

O Brasil está cada vez mais podre, vitimado por senhores de engenho do século XXI.

E pelo que se lê pelaí, dar o fora não melhora muito a coisa. Um bombardeiozinho, uma guerra, um atentado, uma explosão racista, outra homofóbica.

Desemprego, muito desemprego. Engraçado como odiavam e comemoravam o “fim do comunismo”, mas agora silenciam diante do evidente perfil falimentar da “livre iniciativa” (que nunca foi livre de verdade).

Cresci ouvindo dizer que éramos um país em desenvolvimento. Já se foram quarenta anos. Quando tudo parecia dizer que daríamos um salto à frente, recuamos trinta anos no tempo. Só falta o AI-5 para estorricar tudo de vez.

Dá para falar de Rio de Janeiro? Estado implodido e a Cidade Maravilhosa com suas bombas explodindo no coração do Centro em plena hora de almoço? Pelo menos parece que a turma das facadas deu no pé. Mas que ninguém se iluda: a barra é pesadíssima.

Boas festas para quem?

Mais um novo feriado

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É CLARO QUE já estamos no clima do grande feriado. No coração da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, o fog carioca é uma realidade – e carioca, todos sabem, espera a primeira nuvem gris para colocar casaco, gorro, luvas e cachecol, sem a menor necessidade.

Está frio. Frio mesmo, porque parece que o ano sequer começou. Estamos parados em algum lugar entre o indizível, o nada e o inútil.

O caos do Brasil é tão grande que, entre o golpismo e o disfarce, é possível se deparar com situações hilárias, tal como as piadas advindas do áudio do Senador Jucá, dizendo que o Senador Aécio seria o próximo a ser comido.

O povo não resiste a piadinhas de duplo sentido. E aqui termina qualquer vestígio de graça.

Se o país fosse sério, provavelmente Jucá seria preso da mesma forma que aconteceu com Delcídio do Amaral, o senador cassado recentemente e que, noutros sufrágios eleitorais, obteve grandes êxitos porque as mulheres diziam que ele era um “gato”. Percebem como nada é sério nesta joça de lugar?

Horas atrás, um possível romance gay terminou de forma trágica. Um suposto casal, depois de trocas de facadas, caiu da janela do nono andar do edifício número 598 da rua Figueiredo Magalhães, sistema nervoso central de Copacabana. Poucos sujeitos conhecem tão bem o passado deste respeitável prédio quanto eu: entre 1977 e 1992, nele estive em 363 dos 365 (ou 366) dias de cada ano. Lá morava meu grande amigo Fred; em sua casa fizemos nosso quartel general da adolescência, com direito a ingresso nessa abominável vida adulta – era com demais escutar discos, lanchar sanduíches, jogar cartas, rir e aprender – um amigo usava cocaína – o outro, marijuana – lá passávamos todas as tardes, no décimo terceiro andar. Mas é feriado e logo esta terrível notícia servirá para forrar a gaiola do papagaio ou de um outro parente alado – ou ainda embrulhar ovos na feira.

As pessoas não estão nem aí com a dor do outro. O que importa é a viagem.

Golpe? Crise?

Desemprego? Violência?

Bastou que a Globo aliviasse a campanha em prol de seus interesses particulares – está até o pescoço em dívidas e depende de um governo federal, digamos, mais compreensivo, para que milhões de cordeirinhos colonizados deixassem de lado seus discursos coléricos.

A barra já tinha ficado pesada desde que vimos o show de horrores da Câmara dos Deputados ao vivo por um dia inteiro – foi o suficiente para que ali se estampasse todo o anseio coletivo pela escrotidão adotada por considerável parte dos brasileiros.

Dado o golpe, deram de ombros. O importante era que “acabassem com aquela corrupção”; essa aí de agora, de hoje, quase véspera do feriado, ainda “precisa ser investigada”.  Bonequinhos da velha imprensa calhorda a serviço de grandes interesses econômicos, nem um pouco preocupados com os destinos desta linda e castigada terra um dia chamada de Pindorama.

As ruas estão vazias nas calçadas. As pessoas têm medo. A moda é buscar refúgio nos shoppings recheados de “pessoas brancas de bem”. Céus!

Os aeroportos estão cheios. Não dava para tirar aquela “paraibada” dali?

Toda quarta-feira à noite tem um sonífero na tevê intitulado futebol. Quem consegue ver um jogo inteiro em casa sem dormir é praticamente um herói contemporâneo. Maracanã? Acabou, amigos: é um bananão, é um trombolho erguido no lugar daquele outro estádio que tinha alma, paixão, história, drama, gente. Esse tem visitantes e selfies.

O Rio é uma cidade fantasmagórica às vésperas dos propalados Jogos Olímpicos. Gangues de assaltantes de rua fazem arrastões em vários bairros. Muitas vezes você não vê tais notícias porque a televisão prioriza a cidade de São Paulo, onde você pode ver novos crimes na promoção com um sotaque especial – e todo o reacionarismo de um Datena saltando à tela.

Na entrada principal das grandes magazines do entretenimento, livros-jabá: a editora para para estarem ali, ora por interesse próprio, ora bancada por terceiros. Vale quanto propaga.

Os cafés deram lugares aos bares arrumadinhos, moderninhos, onde as pessoas enchem a cara sem qualquer conversa, troca de ideias ou algo que sugira princípios de fraternidade. No máximo, pegação.

Jornal nas bancas para quê? A internet resolve.

Era Rio, São Paulo e Brasil, mas poderia ser um monte de outros lugares neste mundo cada vez mais excludente, egoísta, cínico e hipócroto, um neologismo que define a fusão das palavras “hipócrita” e “escroto”.

Vamos vivendo. Vamos descansar desta selva, porque ela já volta.

Vem aí um novo feriado. Por que mesmo?

Os mortos nas estradas, contamos depois.

@pauloandel

Nunca fomos tão brasileiros

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A ÚLTIMA vez em que fomos tão brasileiros, eu não sei dizer. Talvez quando um presidente sorriu na televisão e promoveu o preço do quilo do frango a um real. Talvez quando, em plena ditadura, muitos comemoravam que chegasse o dia 15 de novembro no meio de semana, não por causa de eleições, mas para poder aproveitar o feriado. Às vezes somos brasileiros demais quando há festa no Carnaval, nos raros estádios lotados, nas Paradas Gays em São Paulo, na decisão do programa Big Brother Brasil, na final da Copa (não essa última, é claro). Também no Dia de Finados, quando todos parecem consternados demais, ao contrário do resto do ano onde a grande onda é chamar a todos de vagabundos, especialmente os funcionários públicos – e muitos deles próprios assim se definem, numa estranha contradição entre o declamar e o viver.

Temos sido brasileiros demais quando alguém afirmou que o Brasil tem sido um país comunista, com todo o ridículo possível contido nesta sentença. Somos brasileiros demais quando algum fanfarrão prepotente vem com aquela bravata mofada de que nunca se roubou tanto nesse país, supondo que todos os interlocutores sejam suficientemente distraídos ou até mesmo boçais para não saberem expressões como “Coroa Brastel”, “Abi Ackel”, “Ronald Levinsohn”, “Salvatore Cacciola”, “Daniel Dantas”, “Delfin” e outros menos cotados. Somos brasileiros demais quando não sabemos distinguir milhões de bilhões – e então alguém grita: “O DEMAIS É QUANDO JÁ ESQUECEMOS DE CONTAR”.

Ultimamente temos sido muitos brasileiros. Os lamentáveis incidentes que cercam o país de uma ponta a outra não deixam dúvidas: temos um Brasil de muito suor, trabalho, proletariado, trem lotado, amendoim e paçoca, de linha 2 e parador, viajando em pé, esforçado pra caralho e outro, supostamente sofisticado mas sem recheio, supostamente elegante mas brega na essência, delivery, iphônico, excludente, metido a elitista sem qualquer atributo que não seja o dinheiro geralmente herdado, food trucking, sonhando com Miami, almejando os eletrônicos da Fnac – livro pra quê? -, linha 1 (em apenas parte dela e quando necessário), sentado, asséptico. E aí somos brasileiros pra caralho quando a linha 1 dá de cara com a linha 2 numa mesma estação.

Somos brasileiros demais quando achamos que os lobões e rógeres da vida fazem frente a um Tristão de Athayde, a um Nelson Rodrigues – VALHA-ME O DIABO QUEM INSISTE EM IMITAR ESTE HOMEM SEM TER PERDIDO A VIRGINDADE -, a um Paulo Francis. Ou quando caímos na esparrela de que Neymar vai ser maior do que Pelé, ou que Chico Buarque é um vendido. Somos brasileiros demais quando encaramos aquele velho disco do Tom Zé e somos incapazes de perceber toda a denúncia ali contida. Quando rilhamos os dentes contra o comunismo assassino de Cuba e da Venezuela – por favor, os mais letrados não riam! – enquanto o progresso do Brasil está na democracia das garotas de quatorze anos que são retiradas dos barracos porque algum traficante deseja fazer sexo com elas, enquanto os pais morrem de dor e vergonha – e quando se encher, pode colocá-las fazendo programa ou queimá-las vivas em pneus encharcados de gasolina. Somos brasileiros demais quando navegamos na internet e, nas redes sociais, encontramos dezenas de quilômetros de erros de Português, frases sem sentido, discursos verborrágicos continentais, ódio, rancor, inveja, subcelebridades e outros recalcados alimentando toda a tristeza porque jamais serão o que sonhavam, mesmo sem terem feito nada de útil para alimentar o sonho.

Sim, agora lembro a última vez em que fomos brasileiros demais: exatamente ontem. Cinco de maio. Quando o Supremo Tribunal Federal suspendeu temporariamente o mandato do deputado Cosentino, esse mesmo que está afundado até o nariz em transações, digamos, exóticas, fizemos um mar de silêncio. Durante dois anos, muitos de nós gritamos ardorosamente contra a corrupção, a roubalheira, os comunistas, os vermelhos, os que queriam impor uma ditadura (?) ao Brasil e, finalmente, quando veio a grande virada pelo fim de toda a corrupção, houve um constrangimento. Afinal, era uma farsa na qual só os doutorandos em ingenuidade poderiam cair.

Descobrimos que nossos 26 anos de democracia consolidaram uma Câmara dos Deputados com parlamentares sem voto, divididos em bancadas econômicas, completamente alheios às prioridades do Brasil e da maioria do povo, muitas vezes chefiados por velhos coronéis da política nacional, aqueles mesmos que cansamos de ver em sentido figurado nas novelas de Dias Gomes. Depois, quando o grande objetivo era tirar a “corja” do poder – e você acreditou feito um pato -, houve quem aplaudisse seu “bandido predileto”. O problema é que ele é muito mais bandido do que se possa pensar.  E quem decide isso é gente que teve meia tonelada de cocaína dentro de casa sem querer, gente que recebeu um bilhão na mão para vender o pato dos outros – e você também foi um pato -, gente que chega ao ponto de declarar homofobia e ocultar a própria homoafetividade – fundadores de movimentos de direitos gays inclusive.

Tudo isso e muito mais desaguou ontem na sessão de caça à cabeça do deputado Cosentino, este com vasta experiência nas citações criminais. Se não fôssemos brasileiros, mesmo que tudo seja apenas ilusão, teríamos comemorado como se fosse a conquista do hexa, soltado fogos, desfraldado bandeiras, berrado em tabernas. Quem mané panela porra nenhuma! Fizemos foi um silêncio do caralho. Não por causa dos atos, dos homens, de seus crimes, mas por causa desse elemento imprescindível à vida moderna nas grandes regiões metropolitanas brasileiras: a hipocrisia. Um silêncio constrangedor, porque muitos de nós não tiveram coragem de se olhar diante do espelho e gritar: EU SOU UM MERDA! EU DEFENDI UM BANDO DE MERDAS! EU BATI PANELA SEM PASSAR FOME PORQUE SOU UM IDIOTA DOMINADO PELA TV, QUE MANDA EM MIM E NA MINHA FAMÍLIA HÁ MEIO SÉCULO!

E agora o silêncio que pareceu hipocrisia pode ser também covardia. Semana que vem teremos um novo governo, já corrupto em seu cordão umbilical que vem de 30 anos atrás. Os nomes, os delatores e os processos deixam que todos mintam.

Pra frente, Brasil! Se a ponte para o futuro for igual à Rio-Niterói, não faltará espuma de sangue a brilhar enquanto um transeunte numa noite qualquer perto da praça XV, que nada tem a ver com a figura do bailarino homossexual Claudio Werner Polila – o “Jiló”-, há de cantarolar: “Há muito tempo nas águas da Guanabara/ O dragão no mar reapareceu/ Na figura de um bravo feiticeiro/ A quem a história não esqueceu”. E que não desabe por acidente feito o Paulo de Frontin.

Ontem fomos vergonhosamente brasileiros ao extremo. A punição ao deputado Cosentino é nossa carta de alforria. Agora podemos ser uma sociedade escrota de verdade, a valer! Estamos livres para toda sorte de safadezas, pois tudo é lícito: às favas com os escrúpulos!

Todos juntos vamos. Pelo menos não somos todos iguais. Seria estúpido demais. Vivamos o silêncio hipócrita da noite de ontem sem um arranhão sequer da caridade de quem nos detesta.

Que horas ela volta?

que horas ela volta

Durante duas horas, em TV aberta, o Brasil olhou para o quarto de empregada. Depois voltou para sua programação normal. Nas redes sociais, os brasileiros de classe média e alta postaram algumas frases de efeito em “defesa” daquelas mulheres que cuidaram do seu lar desde que se entendem por gente, mas em 2013 reclamaram da Proposta de Emenda à Constituição que deu direitos às empregadas domésticas. O verdadeiro quartinho ficou escondido no mesmo lugar de sempre.

“Que Horas Ela Volta?” no horário nobre da TV teve uma importância política e educacional, mesmo que esta não tenha sido a intenção da emissora. O filme premiado internacionalmente e com uma das apresentadoras e atrizes mais famosas do país como protagonista, fez com que a exibição de um filme nacional virasse um evento. Com tantas questões sociais envolvidas, teve um papel importante na discussão sobre a vida das empregadas domésticas. Faltou tratar da questão racial, sinto informar.

Elas vêm de longe. Do interior dos estados, das regiões mais pobres do país, das periferias das grandes cidades. Acham que elas vêm em busca de um sonho? Não há espaço para sonho na vida de quem teve apenas a força dos braços e pernas para sobreviver. Sustentar a família é a motivação. Dar a eles a chance de quebrar a barreira que as impediu de sonhar.

Em sua grande maioria negras. Muitas mulheres negras abandonadas pelos pais dos filhos. Muitas mulheres negras rejeitadas. Muitas deixaram suas cidades. Muitas deixaram suas famílias.

“É quase da família”. Pode habitar o mesmo teto, mas come em local e horário diferente, só entra em determinados lugares para limpar e arrumar, faz hora extra “de graça”, tem alimentos na geladeira que não estão ao seu alcance. Primeira a acordar e última a dormir. Café pronto. Casa limpa. Comida na mesa. Cama arrumada. Roupa cheirosa. Faz aquilo que ninguém quis fazer. Sobrou para ela. Esse “quase” faz toda a diferença.

Quantas foram abusadas dentro do ambiente de trabalho? Quantas enfrentam mais de 4 horas no trânsito diariamente? Quantas deixaram de acompanhar o crescimento dos próprios filhos e criaram os dos patrões?

Em 2015 eram 1,3 milhões de empregadas domésticas trabalhando com carteira assinada. Apenas 20% do total, formado por 6,4 milhões de trabalhadores. O número pode ter aumentado após a regulamentação dos direitos trabalhistas das domésticas no Senado, em maio do ano passado. A manifestação dos empregadores contra a PEC das domésticas apenas evidenciou o que já acreditávamos: a cultura de Casa Grande e Senzala permanece forte. Por que não queriam dar direitos trabalhistas básicos a elas? Muitos vociferaram que haveria demissão em massa, mas nada disso aconteceu. Era apenas o grito de quem não quer ceder um pouco de seus privilégios.

O filme de Anna Muylaert jogou luzes sobre a questão. Pretendeu falar das milhares de mulheres que migram do nordeste do Brasil para trabalharem em casas de famílias de classe alta no Sudeste e no Sul. Apenas pretendeu. A atuação de Regina Casé merece todos os prêmios. Assim como Camila Márdila (Jéssica) e Karine Teles (Barbara). A qualidade do roteiro e da fotografia não estão em discussão.

O que me intriga é: Onde estão as empregadas negras representadas? O enredo seria diferente, com certeza. Fosse Jéssica negra, assim como as tantas filhas de empregadas domésticas brasileiras, teria o quarto de hóspedes para dormir? Quando a empregada não tem importância na trama, ela é negra. Quando ela é o centro da trama, ela tem a pele clara. Perderam a grande oportunidade de mexer na ferida. Falar do assunto como ele realmente é. Ainda assim os espectadores ficaram chocados com o tratamento da patroa (Barbara) em relação à filha da empregada. “Tão bonita a menina…como fazem assim com ela?” Onde lemos “beleza”, poderíamos ler “pele clara”, ok?

Nos fundos da casa ou do apartamento jaz um cômodo incômodo de dimensões minúsculas. Cabe uma cama de solteiro, que provavelmente teve dificuldade de entrar pela porta. Armário? Um amontoado de roupas. Um porta-retratos, talvez. Nele estará um pouco do que deixou para trás. Foi a forma que encontrou e lhe ofereceram para que sustentasse a vida. Seu nome passou a ser Resignação. Abdicar de quem é, do que ama, de quem queria por perto. Tentar suportar a dor do afastamento. A motivação é a subsistência daquele que está distante. Todo quartinho de empregada tem um pouco de senzala.

Ernesto Xavier

@nestoxavier

http://afrocarioca.blogspot.com.br/

Esquecidos

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O pequeno Aylan foi encontrado morto em uma praia na Turquia. Era mais uma vítima da fuga do terror da guerra. Um refugiado de apenas 3 anos. O mundo chorou. Refugiados na Alemanha e aqui também.

Então veio a lama. Invadiu a cidade de Mariana, em Minas Gerais. Alguns lamentaram, outros ignoraram, os órgãos públicos ficaram imóveis, o Rio Doce morreu.

Aí tivemos um atentado em Paris. Colocaram bandeiras nos perfis do Facebook. A solidariedade tomou conta das redes sociais. Allez le bleu! Esqueceram de Mariana, dos moradores sem água, do Rio Doce, dos índios, da Vale, da lama.

Depois policiais mataram cinco meninos no Rio de Janeiro com 111 tiros. Tentaram forjar auto de resistência. As evidências derrubaram a tese. Tentaram incriminar os garotos. Caiu por terra. Alguns lamentaram, outros ignoraram, os órgãos públicos ficaram imóveis, 111 tiros tiraram 5 jovens negros deste mundo. Panelas não tilintaram nas janelas dos prédios.

Então veio o pedido de Impeachment da presidente. Não falaram mais da lama. Não falaram mais dos meninos. Um deputado corrupto manobrou em causa própria para desafiar o governo.

Em São Paulo surgiu uma garotada de periferia consciente ocupando escolas públicas e pedindo para que não as fechassem. Porrada da PM na molecada. Eles resistindo e ocupando cada vez mais. O governador mandando bater e a galera ocupando. Até que o governador teve que ceder. Saíram do noticiário. E o governador? “Melhor xingar a presidente”.

Aí surgiu uma carta. Em tempos de e-mails, enviaram uma carta. Não falaram do Rio Doce. Não havia Samarco, Vale, BHP, nada. “Garotos? Que garotos?”

Foi assim que chegamos novamente ao deputado. Aquele corrupto que manobrou em causa própria, lembram? Eu sei que lembram. Ele mesmo, com contas na Suíça e Ferrari em nome de Jesus. E os refugiados? “Não sei”. E Minas? Como ficou Minas? “Também não sei”. E Paris? “Putz, esqueci de tirar aquela bandeira do meu perfil. Acho que ficou bonitinha, deixa pra lá”. E aqueles estudantes? “Oi?!” E os garotos fuzilados? “Garotos? Que garotos?” E o impeachment? “Ah tá. Disso eu sei. Fora PT”. Ok.

No fim, basta ser pobre para ser esquecido. O resto a gente lembra com facilidade.

@nestoxavier

Luz

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Em tempos de desesperança, são os alunos paulistas que me trazem algum alento sobre o futuro. Duzentas escolas ocupadas. São milhares de jovens que acreditam na educação como uma forma de evolução, melhoria, ascensão, cidadania, crescimento. São crianças e adolescentes mobilizados, conscientes e dotados do espírito revolucionário, há tanto tempo apagado.

A primeira fagulha de que a juventude brasileira ainda respirava a transformação foi em junho de 2013. Aquelas garotas e garotos que se espalharam pelas ruas do Brasil inteiro reivindicando dignidade foram uma amostra de que não estamos mortos. Ainda há esperança, caros amigos.

Se alguns desses, que hoje se mobilizam, estiverem nos cargos de liderança no futuro, então poderemos acreditar em um lugar melhor para viver. Esse é o medo das lideranças conservadoras atuais. Medo de que esses meninos pobres, porém conscientes, cheguem ao poder de forma legítima.

Manifestações populares lutam por direitos usualmente usurpados. Manifestações burguesas pleiteiam a manutenção de privilégios. Existem por falta de empatia e compaixão. Caso contrário, estariam unidas aos jovens pobres e de classe média baixa que estão se apoderando de um espaço que é deles, para que a força contra o governo paulista fosse ainda maior. Onde estão os alunos das escolas particulares de São Paulo? A escola pública é deles também, mas não sentem dessa forma. Deveriam lutar juntos. Sabemos que os políticos só querem atender as demandas das elites.

Imaginem essas crianças quando forem adultos. Eles vão olhar para trás e verão pelo que lutaram, que ideais os trouxeram até ali e talvez entendam que não haverá outra forma de caminhar, senão por novas estradas. Não podemos perder essa geração. Não podemos. Onde foram parar os jovens de 1992? Quem são hoje os revolucionários de 1968?

O grande medo de quem hoje detém o poder é ter uma massa pensante e com coragem de agir. Os alienados que bradam na internet sem noção do que falam, apenas para espalhar ódio, tornam-se ridículos diante de quem sabe pelo que luta. Estes alienados são fruto da banalização da ignorância que os governantes tanto prezam. São seus eleitores e apoiadores. Os defendem como se fossem seus filhos.

A Educação morre sempre que é tratada como moeda de troca.

Quem se manifesta? Por que manifesta? O que motiva milhares de adolescentes a permanecerem 24 horas por dia em suas escolas? O que motiva aqueles que os apoiam?

É o sentido de pertencimento, de que podem mudar algo que os incomoda diariamente, que o descaso com a coisa pública é o mesmo que feri-los. Quando tomamos consciência de que o “público” se refere a nós e não ao governo, entendemos que cada escola, rua, hospital, ônibus, praça, praia, rio, tudo é nosso. A vigilância é nossa. Nós também somos o bem público.

Aos alunos que ocupam suas escolas unem-se às mulheres que denunciam os abusos sofridos ao longo da vida, aos negros que tomam seus espaços de direito, aos gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros que vivem seu amor, que adotam, se casam e caminham livremente, são os jovens de periferia e seus rolezinhos. É o Brasil que se despe das vestes velhas e assume seu próprio corpo nu e belo.

A suspensão da “reorganização escolar” é a primeira vitória de um movimento legítimo e inédito em nosso país. Quem imaginaria? O povo que ouvia calado as ordens das autoridades, agora os enfrenta de cabeça em pé.

O governador que validou a violência contra estudantes passou a dizer que irá dialogar escola à escola em 2016 para que o processo de “reorganização” seja feito da forma correta (se for). A mudança de postura aconteceu no mesmo dia em que a aprovação de seu governo caiu para apenas 28%. Revisão de conceitos ou jogada de marketing?

Durante 20 anos o partido do atual governador construiu 53 novos presídios, com previsão de mais 20 até o final do mandato. Ao passo que iria, em apenas um ano, fechar 93 escolas e transformá-las em “não-se-sabe-o-que”. Que equação louca, não? Uma escola que foi feita para levar o pobre diretamente para a cadeia, de onde ele irá entrar e sair, em um ciclo que perdurará até o seu fim. Fim este, que costuma ser breve.

A escola precisa de uma reorganização dentro de si mesma. Isso não acontecerá remanejando alunos, unindo ciclos ou fechando espaços. São necessárias mudanças estruturais que visem a formação adequada do indivíduo, da sua transformação em cidadão, da sua visão como ser humano, do seu poder de inserção no mundo. Modernização dos métodos de ensino, humanização dos pensamentos, valorização do professor…é possível? Sim, é.

Quem atira bombas e bate em estudantes e professores mostra que tipo de lição quer dar. Àqueles que estão decidindo os rumos do ensino no maior estado do país fica um aviso:

Estes jovens têm muito a nos ensinar. Calem-se e ouçam. O recado é claro, fácil de compreender. Com menos de duas décadas nas costas, eles sim têm algo a dizer sobre EDUCAÇÃO.

Ernesto Xavier

@nestoxavier

Privilégios

preto no chão

Eu devia ter uns 12 anos apenas. Fui ao apartamento de um tio, que é branco, em um bairro nobre da Zona Sul carioca. Era aniversário dele e minha avó tinha pedido para levar um bolo de presente. Fui de carro com o motorista. Ao entrar no prédio o porteiro perguntou aonde eu ia. Normal. Disse a ele o apartamento e com quem desejaria falar. Fui autorizado a subir. Já tinha estado naquele prédio outra vez, só que acompanhado da família. Ao me dirigir para o elevador fui interpelado pelo porteiro, que disse que eu não deveria subir por ali, já que ‘o seu elevador é o outro, o de serviço’.

Com meus 12 anos fiquei sem reação. Era isso mesmo? O que estava acontecendo ali era o que tinham me alertado a vida inteira? Subi e meu tio, que já me esperava com a porta aberta, me viu saindo do elevador de serviço, quis saber porque fui por ali e não pelo social. Contei a história. Ele ficou revoltado e queria resolver o problema na hora. Era seu aniversário, eu não queria atrapalhar. Ele ficou muito chateado com o que aconteceu e nem sabia como se desculpar. A culpa não era dele, quis falar. A culpa era da ignorância. Não era vergonha servir alguém. Ser empregado de alguém é totalmente digno. A questão era mais profunda. Usam a separação dos elevadores como um aviso: você não é bem-vindo aqui. Você só pode usufruir deste espaço na condição de serviçal. Gente como você nunca poderá ser morador. Não só o porteiro, mas o sistema já faz essa separação.

Aí me dizem: ‘Agora você só sabe falar disso?’. Na verdade, não. Falo da minha vida, do que vejo, do que sinto. E isso está presente em muitos momentos. ‘Você vê racismo em tudo?’ Também não. Vejo onde ele existe. Vejo em quem o pratica. E quando vejo eu falo, denuncio, abro a boca.

Quando na faculdade eu tive que brigar com um professor que me deu nota muito menor do que todos os outros, sendo que eu tinha feito trabalho semelhante aos outros, fui até a coordenação do curso de comunicação e protestei. Minha nota foi revista e a má fé do professor constatada. Resultado: ele foi afastado do curso. Eu já tinha 19 anos e as porradas que havia tomado até ali me fizeram saber que rumo seguir.

A menina que só ficou comigo porque queria saber como era um preto na cama.

O motorista de táxi que não parou pra mim por medo.

O rapaz da loja que disse que a garrafa de vinho que eu queria comprar era muito cara.

Os policiais que em um espaço de 2 meses me pararam 10 vezes em blitz da Lei Seca, fora as habituais.

O comercial de tv que eu não fiz porque ‘tinha os traços finos e eles precisavam de alguém com cara de pobre’.

As moças caridosas que me deram bolo e salgados para que eu ‘levasse para dividir com meus amiguinhos na rua’.

O policial argentino que em uma fila com mais de 50 pessoas parou apenas a mim e outro rapaz negro para revistar e fazer perguntas ameaçadoras.

Outro policial, só que no Brasil, que insistia que eu era morador da favela, sendo que eu não era. Ele insistia e eu negava. Ele dizia que me conhecia e eu negava.

Eu ainda estou vivo. Não moro no Alemão ou na Maré. Não tenho tanque de guerra na porta da minha casa. Não tenho incursão policial diariamente no meu bairro. Não tenho tráfico de drogas na esquina, nem troca de tiros dia sim e outro também. Não tive meu carro fuzilado. Tive “sorte”. No meio de tantos absurdos tenho que comemorar o fato de ser um “privilegiado”. Pude estudar em bons colégios, fiz línguas, fiz faculdade, viajei, li bons livros, tive orientação familiar, tive um teto. Tive o que a maioria dos meus irmãos não tiveram. Ainda assim o racismo veio me dar boas-vindas. Quando alguém vem me dizer que o problema é muito mais social do que racial, lembro de tudo o que me aconteceu e isso para mim já basta como resposta.

Cinco jovens negros perderam a vida por serem jovens, negros e pobres. Cinco jovens que não ficarão mais do que dois dias nas notícias de jornal. Cinco jovens que comemoravam a conquista de um deles. Cinco pobres a menos. Cinco pretos a menos. Eram negros, pobre, favelados, quem se importa?

Eu poderia não estar mais aqui. Porém ainda tenho como contar a minha história e ajudar outros a falarem das suas. Neste país louco sou um privilegiado.

Quem apenas senta nos próprios privilégios e não olha para outros consegue dormir tranquilamente?

Ernesto Xavier

IG: @ernestoxavier

Aqui está a representação da lógica policial:

Afinal, nunca se sabe…

afinal nunca se sabe

 

Colaboração de H. Leão Dutra para esta ENCEFÁLICA

NESTE momento, está acontecendo uma confusão do cacete no Brasil. Quero dizer, há onze meses. Quero dizer, há cinco anos. Na verdade, dez.

Desde que o então deputado federal Roberto Jefferson empreendeu a Cruzada 8.986 contra a corrupção no país, chamada de Mensalão, não se teve paz nesta terra.

Afinal, como o Brasil vinha de um período da mais absoluta democracia, semeado nos anos 1950 até germinar em 1964 e florescer em 1968, é claro que a corrupção não existia.

Ela só começou a mostrar suas garras a partir de 2003 – e olhe que 2002 foi AQUELE ano para o Brasil: fomos campeões mundiais de novo, a inflação estava zerada, o emprego abundava em todas as capitais e, para celebrar a festa, só faltou narcer artisticamente um João Gilberto. Ou um Glauber Rocha.

Depois, nos perdemos. Inédita na terra brasillis, a corrupção dominou o Brasil. Os maus atos cresceram de forma tamanha que os brasileiros, contaminados pelo Governo, passaram a fazer de tudo: roubar, matar, estuprar, trair, agredir, sonegar impostos, furar filas, dar calote e mais uma série de atos condenáveis jamais vistos nesta pátria mãe gentil. Até pum alto em público, amigos!

Atualmente o Brasil está paralisado. A situação não consegue governar, a oposição quer a derrubada da situação por não aceitar a derrota em 2014, os jornais falam de corrupção, a TV fala em corrupção e 99% dos brasileiros recebem uma tijolada de informações diariamente a respeito – excetuando-se os trinta milhões de seres sem casa, água, comida e, no caso de Mariana, qualquer outra coisa.

O mais novo escândalo do país foi a prisão do senador Delcídio Amaral, o Delcídio do Amaral, efetuada pela Polícia Federal, sob a acusação de tentar influir na condução dos processos da Operação Lava Jato, tentando meios para que Nestor Serveró, preso, funcionário de carreira da Petrobras por quatro DÉCADAS, não citasse fatos envolvendo o nome do político por ocasião de uma delação premiada.

No mesmo dia, foi preso André Esteves, banqueiro bilionário, acusado de auxiliar Delcídio nas intervenções para que Cerveró não, digamos, “falasse demais”.

Anteontem, foi preso o pecuarista – e homem de múltiplos negócios – José Carlos Dumlai, também citado na Operação Lava Jato e midiaticamente apresentado como amigo do ex-presidente Lula.

Delcídio, Esteves e Dumlai.

Uma rápida curiosidade pode ser saciada em breve espiada no Google, um verdadeiro amigo dos amigos. Afinal, quem são estes três personagens que fizeram Pindorama tremer?

Delcídio tem 60 anos. É engenheiro eletricista. Foi executivo da Shell. Depois dirigiu a estatal Eletrosul. Ministro das Minas e Energia no governo Itamar Franco. Diretor da Petrobras no governo Fernando Henrique de 1998 a 2001. Supostamente foi filiado ao PSDB, fato contestado. Presidiu a CPI dos Correios, nos primórdios do dito Mensalão. Em 2006, elegeu-se senador pelo PT. Tornou-se líder do governo em abril de 2015.

André Esteves tem 47 anos. Formado pela UFRJ, oriundo de classe média, iniciou sua carreira no Banco Pactual em 1989. Quatro anos depois, era um dos sócios. Em 2009, consolidou o banco de investimentos BTG, que hoje controla 306,8 bilhões  de reais em ativos, com mais de 3.000 funcionários. Laureadíssimo com prêmios pelo Brasil e mundo afora, apoiou causas como a Universidade de São Paulo, o Hospital do Câncer de Barretos (SP) e o Museu de Arte Moderna de São Paulo.

José Carlos Bumlai, de idade ignorada, é oficialmente pecuarista, embora já tenha tido um sem-número de atividades empresariais. Supostamente conheceu Lula em 2002, quando já era um dos maiores investidores em gado do país. Olhares mais rasos o tratariam como um beneficiário de tenebrosas transações nacionais, mas é interessante perceber o rol de seus parceiros e sócios ou ex-sócios: Galvão Bueno (na rede de fast food Burger King), ao lado de nomes como o do ex-prefeito de Santos e atual deputado federal Beto Mansur (ex-PSDB, ex-PP e atualmente no PRB) e do piloto de Fórmula Indy Hélio Castro Neves. João Carlos Saad, dono da TV Bandeirantes, foi sócio de Bumlai na TV Terraviva, dedicada ao agronegócio, que também teve como sócio o também empresário Jovelino Mineiro, que por sua vez, foi sócio do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso na fazenda Córrego da Ponte, no município mineiro de Buritis. Bumlai é também ligado a empresários de porte da bancada ruralista: o ex-governador de Mato Grosso e atual senador Blairo Maggi (PMDB-MT); o presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, Jorge Picciani (PMDB-RJ), criador de gado; Jonas Barcelos (ex-dono de freeshops em aeroportos e ligado ao ex-senador Jorge Bornhausen (PSD-SC), também criador de gado. E se aproximou de petistas antes de Lula chegar à presidência, no período em que o PT governou Mato Grosso, sua terra. Ah, e trabalhou 30 anos com o “rei da soja” Olacyr de Moraes, boa parte do tempo em cargos de direção do Grupo Itamaraty, que tinha a empreiteira Constran e o extinto Banco Itamaraty. Com Olacyr, Bumlai introduziu o cultivo de cana em Mato Grosso do Sul e a produção de etanol.

Apresentados os protagonistas, é interessante perceber alguns nomes de alcance nacional que, de alguma forma, estão próximos dos três.

Delcídio é PT, mas sempre teve excelente diálogo parlamentar e entrada em vários partidos, inclusive no PSDB – onde foi peça importante nos anos 1990, filiado ou não. É amigo pessoal de José Serra e indicou Nestor Cerveró para o alto comando da Petrobras, assim como Paulo Roberto Costa, também preso.

André Esteves é ligado a Delcídio Amaral, tem fortes ligações com Aécio Neves – inclusive com o BTG financiando a lua de mel do político em Nova York, e é sócio de Persio Arida.

Persio Arida foi presidente do Banco Central na era FHC, ex-sócio do banqueiro Daniel Dantas (Opportunity), foi casado com Elena Landau e é sócio de Guilherme Paes.

Elena Landau foi diretora do BNDES de 1994 a 1996, no primeiro governo FHC.

Guilherme Paes vem a ser o irmão do prefeito da cidade do Rio de Janeiro, Eduardo Paes.

Nestor Cerveró, preso, acabou de aceitar delação premiada. Ingressou na Petrobras em 1975, mas segundo os jornais manteve-se impoluto até 2003, quando começou o governo Lula, e então mergulhou no underground.

Daniel Dantas é verbete de 5.435 consultas no Google. Dono do banco Opportunity, é irmão de Verônica Dantas, e esta, por sua vez, é (ou foi, ou não) sócia de Verônica Serra, a filha de José Serra, considerada um gênio das finanças: entre os 25 e os 30 anos de idade, passou de bolsista de um curso de MBA em Harvard para representante de investimentos multimilionários. Verônica também é (ou foi, ou não) sócia de Jorge Paulo Lehmann e Marcel Telles, leia-se Ambev.

Em três páginas, seria impossível explicar a crise brasileira. Caso você seja um fã de jornais convencionais, que fazem imprensa apenas por filantropia, sem qualquer tipo de ligação a interesses corporativos, é bem provável que já tenha lido que a culpa do bafafá de ontem é de Lula. Ou de Dilma. Mas não deixa ser curiosa a proximidade dos nomes dos presos com alguns personagens marcantes da nossa terra.

Claro, amizades e até sociedade não podem servir como indício de qualquer culpa de terceiros. Longe disso

Mas, se os três forem realmente elementos periculosos e dignos de condenação judicial com prolongada restrição de liberdade, no mínimo os importantes brasileiros aqui citados precisam ter mais cuidado com suas companhias. Ou, pelo menos, um pouco mais de informações a respeito de com quem se anda.

Afinal, nunca se sabe…

NOTA: o colaborador H. Leão agradece ao leitor andmar pela correção do nome de Bumlai, publicado erradamente nesta coluna como Dumlai.

 

Aqui e lá

Luaty

Você conhece Luaty Beirão?

O rapper angolano trouxe para nós a luz de que Angola e Brasil tem mais semelhanças do que apenas a língua oficial. Ao se submeter a uma greve de fome que durou 36 dias, um número emblemático, já que representam os anos que o presidente José Eduardo do Santos está no poder, Luaty espalhou pelo mundo a absurda realidade de um povo que viveu sob a guerra civil, que tenta se reconstruir, reinventar, re-significar.

Eram 13 ativistas reunidos em uma livraria discutindo a obra do autor americano Gene Sharp, que escreveu “Da ditadura à democracia”, sobre a ação política de resistência pacífica. Leram bem? Pacífica. Estas pessoas foram acusadas de tramar contra o governo, ou seja, tentar um golpe de Estado. Repito: 13 pessoas desarmadas, um livro, uma ideologia de não-violência. Estes são os “conspiradores” angolanos.

No dia 11 de novembro serão celebrados os 40 anos de Independência de Angola. Aos menos o presidente José Eduardo dos Santos, no poder desde 1979, vai comemorar ao lado de seus confrades.

Aproximadamente 7550 kilômetros separam Brasil e Angola pelo Oceano Atlântico. Pois lá e cá somos mais parecidos do que imaginamos. A começar pela enorme quantidade de negros oriundos da região que foram trazidos para cá, cerca de 1 milhão e cem mil apenas no século XVIII. As duas ex-colônias portuguesas mantém uma aproximação tímida frente ao histórico tão parecido.

Daqui não nos sensibilizamos com as mazelas de lá. Agimos como se fosse um povo desconhecido para nós. E não são. Aqui e lá temos presos políticos e censura. O Brasil tenta disfarçar sua repressão, enquanto Angola escancara para que todos vejam e ainda ri do povo. Difícil dizer qual o pior.

Luaty estudou engenharia na Inglaterra e economia na França. É filho de um ex-aliado do presidente. Cresceu próximo ao governo, mas sempre o contestou. Tornou-se rapper e através de sua música denunciou as arbitrariedades do governo angolano.

Lá um presidente assumiu 4 anos após a independência e é o comandante de uma ditadura que ultrapassa três décadas. Aqui nos tornamos independentes de Portugal para que o príncipe português assumisse o governo, mantendo o sistema monarquista. Aqui, após a ditadura, ainda temos diversos políticos ligados à mesma no poder e um movimento na sociedade que pede o retorno do período de repressão.

Lá mantém presos e em silêncio 15 ativistas além do tempo permitido por lei. Aqui começam a censurar páginas do Facebook e blogs que defendem o feminismo, o movimento negro, a causa LGBT. Os casos recentes de bloqueio de páginas como Jout Jout Prazer e Stephanie Ribeiro a partir de campanhas organizadas por grupos sexistas, homofóbicos e racistas só mostra como um movimento de intolerância vem tomando conta do país. Protestos de professores são tratados com bombas de efeito moral, tiros de bala de borracha, cassetetes. Estudantes que fazem protesto pacífico em São Paulo são presos e acusados de iniciar confusão, mesmo que todos os vídeos mostrem o contrário. Um palhaço é preso por policiais militares enquanto se apresentava para adultos e crianças em uma praça apenas porque falava comicamente da realidade de sua cidade. Ao mesmo tempo que a manifestação em prol do impeachment da presidente é televisionada e protegida pelos agentes policiais (que respondem ao Governo do Estado). Para que voltemos ao regime de censura, violência e prisões arbitrárias das décadas de 60 e 70 não levará muito tempo. Um movimento de ultra-direita, semelhante ao crescimento de políticos com Le Pen, na França, vem crescendo no Brasil. Representantes de ideias fascistas começam a ganhar status de pop stars.

Talvez não conheçamos tanto Luaty e suas ideias, pois estas poderiam soar muito reais para nós. E a quem interessaria um movimento de união massiva pela liberdade de expressão nesse país? A greve de fome é um suicídio lento diante dos espectadores, é o choque entre manter um ideal e perder a vida. Há quem morreria por algo que acredita, como ele, mas para o povo angolano a vida dele é mais importante, pois vivo poderá continuar a falar.

O que Luaty Beirão tem a nos ensinar é que não podemos permanecer impávidos diante do absurdo. Enquanto nos mantemos calados e inertes, a nuvem densa da censura, da tortura, da mordaça e linchamento vai tomando conta de todo espaço. Entre Angola e Brasil temos mais semelhanças que diferenças. Lá e cá apanhamos diariamente. Lá e cá precisamos falar e sermos ouvidos. Lá e cá nos calam.

A liberdade segue sendo um dos mistérios da humanidade.

Ernesto Xavier

“Isso não existe”

transfobia

“Eu até tenho um amigo gay”.

“Já fiquei com menina negra”.

“Com uma roupa daquele tamanho ela só podia estar provocando, né?”.

Como um mantra, todos preconceituosos falam para si mesmos querendo acreditar que são pessoas boas, perfeitas, que aquele defeito que consideram o pior de todos não habita eles.

“Não existe machismo. Isso é ‘coitadismo’ das mulheres que não sabem se portar como uma mulher direita. Querem ser homens”.

De acordo com a ONU, 7 em cada 10 mulheres no mundo já foram ou serão violentadas em algum momento da vida: abuso verbal, diversos tipos de abuso emocional, violência física ou sexual. O feminicídio em grande parte envolve o assassinato intencional de mulheres apenas por serem mulheres. Mais de 35% dos assassinatos de mulheres no mundo são cometidos por um parceiro íntimo. Crimes em nome da “honra”, para não “manchar o nome da família” são mais comuns do que se imagina.

Na Índia, 48% das mulheres ainda são trocadas por dotes, 65% em Bangladesh, 76% no Níger e 100 milhões de meninas poderão ser vítimas de casamento forçado em todo mundo na próxima década.

“Não tenho preconceito, mas meus filhos não precisam ver beijo gay na novela”.

A cada 28 horas ocorre uma morte motivada pela homofobia no Brasil. Em 2013 foram 312 homicídios, mortes e suicídios de gays, travestis, lésbicas e transexuais. Neste mesmo ano um menino de 16 anos, no Maranhão, se enforcou dentro de casa, pois “seus pais não aceitavam sua condição homossexual”.

“Não existe homofobia. Isso é frescura de viado”.

Percebe-se que esconder essa discussão da vida das crianças e dos jovens faz com que eles não tenham conhecimento para lidar com a própria homossexualidade ou a de pessoas próximas. A orientação homossexual passa a ser considerado algo anormal, um problema. O jovem se vê deslocado do convívio social, passa a se achar castigado por “Deus” no caso dos religiosos, traidor da confiança dos pais, sujo, mau caráter. Lutam contra os próprios desejos, pensamentos e sentimentos.

“Não existe racismo. Isso é vitimização dos negros”.

O percentual de negros assassinados no Brasil é 132% maior do que o de brancos. O racismo se aplica a 80% das mortes de negros no país, segundo o Ipea.

O racismo atinge cada um de forma distinta. Há quem reaja com a determinação de superar as dificuldades e assim consegue estudar, crescer, trabalhar, totalmente motivado pela vitória sobre a adversidade. Há quem se revolte e devolva a violência com mais violência. Há quem chore. Há quem negue, pois assim crê fazer desaparecer o fato. Há que assuma papel de predador. Há quem não se aceite como negro. Se o racismo não existisse, seriam apenas pessoas vivendo as lutas do cotidiano. Então saberíamos quem realmente são e não o que deles sobrou a partir da influência nociva do racismo.

Todo agressor é um covarde. Ele se utiliza da força e poder para agir. Só age quando está em vantagem. Só age quando está protegido: em insultos escritos em portas de banheiros públicos, violentando em locais escondidos, difamando atrás da tela do computador. Ele nega, mas sabe que está errado.

É triste ter de reproduzir estatísticas que tem como base números relativos a homicídios. Infelizmente a realidade brasileira é baseada na violência. E esta atinge principalmente mulheres, negros e homossexuais. A morte está sempre à espreita para aqueles que são colocados em posições vulneráveis.

O Brasil é o lugar onde esconder as mazelas é considerado uma forma de “tratar” o assunto. É como se um médico diagnosticasse câncer em um paciente, mas falasse para ele ignorar a doença, pois dessa forma ela seria curada.

Mecanismos invisíveis (e outros nem tanto) impedem a ascensão e inserção social das minorias. É comum ver negros nas faculdades de medicina e engenharia? É comum ver mulheres presidindo uma empresa? É comum ver um/a transexual trabalhando em contato com o público ou na cadeira da escola? É comum ver um gay sendo representado sem estereótipos nas novelas?

A hipocrisia caminha de mãos dadas com a ignorância. Por isso não paro de falar. A insistência quase militar de tentar desvalorizar a luta contra o preconceito é a prova de que o racismo, a homofobia e o machismo estão impregnados na nossa cultura. Quem me chama de vitimista na verdade tem medo de admitir que dentro de si bate um coração recheado de preconceitos.

Só para finalizar: o Brasil é o país que mais mata transexuais no mundo, alcançando um número quatro vezes maior do que o México, segundo colocado.

Não culpe a vítima. O preconceito mata, entende? Quer que eu desenhe?

Ernesto Xavier