Sorria, meu bem! Sorria!

sorria manipulado

A FARSA

Você acreditou na redenção de um país, na pátria livre, no fim da impunidade e da livre corrupção.

E também acreditou que o Brasil já tinha sido bem melhor no passado, com seus castelos de honestidade e praças da apoteose libertária.

Imagino o que tenha sentido nos últimos dias.

O domingo acabou, a segunda passou, a terça continuou e tudo foi ficando cada vez mais claro.

Em nome de Deus e da família, nazistas urraram, safados sorriram e aí foi mais fácil entender o que se passa numa casa de picaretagens.

Talvez você tenha olhado de forma até assustada, embora indevidamente: tudo que aconteceu estava muito claro, bastava querer ver e ouvir.

Dia 21 de abril, feriado de Tiradentes, as pessoas estão mais quietas porque vem um grande feriado na republiqueta, a que nos transformaram nos jornais do mundo todo enquanto aqui, de maneira quase psicodélica, as manchetes ainda tentam criar ilusões que não resistem a trinta segundos de raciocínio isento.

De tanto fazer piadas sobre o Paraguai, o Brasil acabou levando um golpe igualzinho.

Os que lutaram contra a farsa estão muito tristes.

Muitos dos que a apoiaram, conscientemente ou não, agora militam pelo silêncio, o silêncio da vergonha, do constrangimento.

Perceberam que algo de muito errado estava acontecendo. Se havia crime, não seria possível combatê-lo com um sindicato de ladrões. Se havia um mar de erros, a solução não passaria por um exército de gente que tem erros em arrobas.

Se havia o mal, não seria possível combater com o pior.

“Olho por olho, dente por dente” não é algo que funcione para as pessoas de bem.

O filme ainda não acabou, mas os espectadores estão com um tremendo gosto de farsa na boca. Muitos parecem maridos traídos, refletindo silenciosamente onde erraram ou, claro, apontando a própria mulher como uma “vagabunda”. Ecos de pensamentos limitados a 45 graus.

As próximas cenas prometem ser cada vez piores.

E deve ser difícil perceber que se foi passado para trás.

Combater corrupção? Que piada. Alguns dos maiores corruptos do Brasil continuarão livres e com mandato, ou disputando eleições.

Meu amigo, minha amiga, você foi vítima de uma tremenda manipulação!

E tudo isso poderia ter sido diferente se o Brasil tivesse se libertado da Casa Grande,  da escravatura, das ilhas nos shoppings, dos livros em vez da TV.

Agora, a gente não se encontra por aqui.

Querelas do Brasil

QUERELAS DO BRASIL

Não importa mais o que vai acontecer no próximo domingo em Brasília.

Independentemente das visões pessoais sobre o que se convencionou chamar de os dois lados da questão, o Brasil está derrotado.

Qualquer pessoa que tenha noções elementares da História do Brasil sabe de antemão que, odiando ou apoiando o atual Governo Federal, a presidenta Dilma não cometeu crime de responsabilidade que a levasse a um processo de impeachment. E se tiver as mesmas noções, sabe da desgraça que pode ser a inauguração de um governo orquestrado pelo sr. Michel Temer.

Mas a derrota não está aí. Ela vai muito além do que se pode chamar de impeachment legal ou golpe, conforme as divergência.

A verdadeira derrota mora no ódio que explodiu de vez entre os brasileiros. Dividido, o pais está desde sempre entre pobres (99%) e ricos (1%). Todo o resto é atendimento à esta proporção.

Acabou a farsa da cordialidade.

O brasileiro médio (dentro dos 1% ou perto) é hipócrita, mesquinho, egoísta, misturando os piores sentimentos do corporativismo yuppie aos defeitos que se poderia ver numa versão deturpada do caboclo. Tem raiva do pobre. Tem raiva do negro, do veado, do cearense e, se pudesse, mandaria explodir todas as favelas para “limpar o Brasil”. Como não pode, torce ardorosamente para que o Governo pare de “sustentar os pobres de merda”.

Aqui trato do brasileiro médio, não o comum.

O médio é o dos shoppings, dos aviões, dos hotéis, da orla “higienizada”, com horror aos trens lotados, aos centros de comércio, às calçadas cheias de crianças pobres e mendigos, ao Nordeste, às palafitas do Norte.

O brasileiro médio da meritocracia bancada pelos pais, mesmo que depois dos 30 ou 40 anos de idade. É preciso ensinar a pescar em vez de dar o peixe, mas se não der certo, papai paga.

O que se considera “culto” e “inteligente” porque acompanha os produtos da Rede Globo-Time-Life, mantendo distância regulamentar de livros e discos.

O brasileiro médio reclama dos altos impostos, mas naturalmente não os paga. A sonegação está aí a perder de vista.

O brasileiro médio pratica a negação de tudo que não lhe convém, e por isso tem sido chamado de fascista. Propaga ódio, extermínio, exclusão. Acredita piamente que o país pode ser resumido à sua vila, praia ou os centros de consumo que tanto admira.

Em nome da ética contra a corrupção, o brasileiro médio aplaude a impunidade de Eduardo Cunha e outros, delicadamente escondidos das manchetes por ora.

Aconteça o que acontecer, o Brasil está derrotado.

Somos menos injustos com boa parte da população miserável do país se olharmos para meio século atrás, é fato. A tecnologia está ao alcance de muitos. A expectativa de vida subiu, é inquestionável.

No entanto, também somos mais agressivos, beligerantes, desrespeitosos, intolerantes e hostis do que em 1966.

A farsa do “gente boa” já era. Cinco minutos de redes sociais e é possível ler e ver coisas que espantariam até membros da SS.

O Brasil não merece o Brazyl.

O progresso veio, mas a brasilidade está sepultada para sempre.

Voltamos a 1954, com a mesma sociedade indigente de informação e análise crítica, mas nenhuma Bossa Nova, Cinema Novo, TBC, Concretismo, Pelé ou Garrincha voltará para nos redimir.

Nem o Google salva.

E é só.

QUERELAS DO BRASIL

O Brazyl não conhece o Brasil
O Brasil nunca foi ao Brazyl
Tapir, jabuti, liana, alamandra, alialaúde
Piau, ururau, aqui, ataúde
Piá, carioca, porecramecrã
Jobim akarore Jobim-açu
Oh, oh, oh

Pererê, câmara, tororó, olererê
Piriri, ratatá, karatê, olará

O Brazyl não merece o Brasil
O Brazyl ta matando o Brasil
Jereba, saci, caandrades
Cunhãs, ariranha, aranha
Sertões, Guimarães, bachianas, águas
E Marionaíma, ariraribóia,
Na aura das mãos do Jobim-açu
Oh, oh, oh

Jererê, sarará, cururu, olerê
Blablablá, bafafá, sururu, olará

Do Brasil, SOS ao Brasil
Do Brasil, SOS ao Brasil
Do Brasil, SOS ao Brasil

Tinhorão, urutu, sucuri
O Jobim, sabiá, bem-te-vi
Cabuçu, Cordovil, Cachambi, olerê
Madureira, Olaria e Bangu, olará
Cascadura, Água Santa, Acari, olerê
Ipanema e Nova Iguaçu, olará

(Aldir Blanc – Maurício Tapajós)

@pauloandel

Nós, os escrotos

os escrotos negativo

Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais.

A todo custo queremos mudanças, exceto aquelas que façam do Brasil um país na acepção da palavra.

Atendendo aos nossos anseios, fodam-se a democracia, as leis, as regras, a ética e as contradições. Eu não tenho nada “haver” com o problema do outro.

No fim das contas, o que nos incomoda não é a corrupção; afinal, qual de nós já não pecou muito? Essa tal corrupção nos olhos dos outros é refresco.

Inaceitável mesmo é ver um sujeito com cara de pobre, de criado, de empregadinho, mandando nos outros e dizendo o que deve ou não ser feito.

O pobre é nojento.

Ninguém tem culpa de termos miséria nas ruas.

Quem manda serem vagabundos? Se trabalhassem e estudassem não estariam nessa situação.

Imagine gente com a cara destas pessoas mandando no Brasil. Ou andando em avião, meu Deus! Já não basta empestearem o BarraShopping com chinelos de dedo e bermudas velhas?

Pobre só serve para depredar equipamentos públicos porque os traficantem mandam.

Camisas pretas, choques de ordem, prisões sem justificativa, disciplina: é o que precisamos para um país melhor, sem gentalhas, com brasileiros de verdade. Um país de todos, decente e honesto, que nem nos tempos da Revolução: aquilo sim é que era bom. E esses comunistas de merda mentem dizendo que havia tortura nos quartéis, que as piranhas de faculdade foram estupradas, que havia roubalheira. Pilantras! Nunca fomos tão honestos. Havia ordem. Bom mesmo era saber que a censura não deixava passar essas putarias na televisão que a gente vê hoje.

Aqui estamos nessa vergonha, nessa roubalheira sem tamanho, e nada nos resta a não ser restabelecer a ética e a moral que são os pilares do Brasil. Fora PT! Fora, corrupção!

Se for para tirar esses vagabundos e acabar com essa mamata de pobres, que mal tem em usarmos Cunhas, Temeres e Aécios? Se eles tiveram uma manchinha ou outra, não interessa: são homens honrados, de Deus, pela família, gente que tem a humildade de reconhecer que do pó veio e para o pó voltará.

Ainda somos os mesmos.

Ninguém pode ter a cara de pau de comparar nossos favores a esses corruptos do PT. Nossos financiamentos, nossas declarações de renda, tudo é feito dentro do respeito e da ética.

Por que devo dar dinheiro para o Governo? Eu que trabalhei, é do meu suor. Se é para eles roubarem, roubo eu.

Fiz faculdade pública financiada com o dinheiro dos meus impostos (…), quero dizer, meu pai pagou. Ou talvez tenha pago. Dane-se: eu sou especial e o Estado tem obrigação de me dar educação grátis. Eu não sou um qualquer.

Tem que acabar com esses hospitais de pobre. Custa muito dinheiro. Quem quiser que pague seu plano de saúde como eu. Quero dizer, que a empresa paga. Quero dizer, que meu pai paga aos empregados – e eu não sou um empregado qualquer, mas o filho do dono.

Tenho vergonha dessa crise, que é a maior de todos os tempos. Não dá para comparar com os anos 1970, 80 e 90. Onde já se viu essa vergonha de inflação de 1% ao mês? Isso é o fim do mundo.

Tinha que tacar uma bomba nessas favelas. Ia resolver muitos problemas do Brasil. Remover tudo. Eu não tenho culpa de que nasceram pobres. Que aprendam a pescar em vez de ganharem o peixe na boca. Aquele monte de gente preta, ou então esses paraíbas de balcão de botequim.

Acabar com essa vagabundagem do serviço público. Só tem vagabundo encostado. A minha mulher está lá, mas ela trabalha todo dia de 14 às 16 horas. Ela faz a diferença.

A gente tem que acabar com todos os corruptos, mas primeiro vamos exterminar essa merda desse PT, esses comunistas de merda, que querem tomar nossos apartamentos que nem em 1989.

Depois a gente vê o que faz.

Isso é inaceitável.

Chega desses ladrões!

Para acabar com essa corrupção, e daí que o juiz passe por cima da lei? Ele pode, é juiz!

Se o Cunha roubou, o importante é que está com a gente. O Temer também.

Se o Aécio está enrolado, pelo menos está com a gente. Tem que fortalecer.

E qual o problema do Bolsonaro? Ele defende a família, a pátria, os valores. Tem que acabar com esses viadinhos mesmo.

Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais.

Nós, que rimos dessa gente nojenta que quis ocupar o nosso lugar. Quem eles pensam que são? Gente sem nome, sem sobrenome, sem berço, um bando de Silvas, Souzas, Severinos, Marias, Josés.

Nós, os bastiões supremos da ética e da moral por um Brasil melhor.

Espero que, até aqui, tenha sido possível disfarçar toda a nossa hipocrisia.

Queremos nosso Brasil de volta. Cada macaco no seu galho.

Aqui estamos nós, os escrotos.

Diarreia mental

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– “A diarréia incomoda muita gente! Com repoflor, já não incomoda maais…”

– Hã?

– “A diarréia incomoda muita gente! Com repoflor, já não incomoda maais…”

– De onde você tirou isso, Manu? O que que é diarreia?

– Não sei, pai, mas com repoflor não incomoda mais.

– Tá bom, mas onde você ouviu isso?

– Na tv, papai. Já vi um monte de vezes.

Manu não assiste tv desacompanhada. Assistiu este anúncio provavelmente junto com a gente, durante o café da manhã ou almoço, durante os quais assistimos normalmente aos noticiários. À noite, na copa, durante o jantar, a avó assiste a novela.

Engana se quem pensa que estes serezinhos não estão prestando atenção ao que se passa ao seu redor. Desenvolvemos uma capacidade de abstrair os anúncios, o que nos provoca a perigosa situação de não ver e ouvir o que as crianças estão bebendo. A gente tenta amenizar e evitar que ela veja a violência dos fatos, mostrar crimes violentos, atentados, mas a propaganda passa despercebida. Curiosamente, na outra ocasião em que ela comentou de uma propaganda, foi de activia. Provavelmente a figurinha não terá problemas intestinais nunca.

Essa outra ocasião foi mais perigosa. Ela era muito mais nova que hoje e não tínhamos entendido de onde ela tinha tirado aquilo. A resposta veio dias depois. Do youtube. Mais do que controlar a tv, controlo internet. Youtube principalmente. Pra minha surpresa, um vídeo de desenho animado, talvez da Monica, trazia a propaganda, que fazia menção ao fato de que a prisão de ventre tira o apetite sexual. Confesso que não lembro exatamente o que ela disse no dia, mas se referia exatamente ao lado sexual (ou não) da coisa, ainda que ela não entendesse o que aquilo significava. Como as propagandas são feitas por termos de busca ou referência, isso pode acontecer. Um exemplo (fictício): Um frigorífico patrocinar o termo de busca “porco” e a propaganda aparecer num desenho dos três porquinhos, por exemplo. Ao fazer a propaganda, você tem como escolher canais nos quais a propaganda vai aparecer. Mas isso dá um trabalho brutal pra ser feito, de forma na maioria das vezes que a palavra é usada direto mesmo.

Ou seja: necessidade completa de supervisão na internet E tevê. É ingenuidade pensar que só o programa está sendo assistido. Qualquer intervalo, produto, anúncio de outro programa ou filme está sendo gravado pela mente do seu filho. O buraco é muito mais embaixo. Largar seu filho vendo um canalzinho inocente do youtube ou um programinha de tv pode não ter bons resultados.

O preço da liberdade é a eterna vigilância.

Ah, a imagem das flores, deste post, é em homenagem à nossa flora intestinal.

As sombras de Moro

Colaboração de Felipe Fleury

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Tenho lido, da parte dos detratores do governo, que Sergio Moro, ao liberar o teor das escutas telefônicas interceptadas, tornando pública a conversa entre o ex-presidente Lula e a presidente Dilma, agiu como um grande estrategista.

Muitos desses detratores reconhecem a ilegalidade de sua conduta (outros tantos não, como o próprio Moro), mas enaltecem o seu sentimento republicano de, ao perceber que perderia o controle da investigação, teria agido com o nobre fim de alertar o STF, para onde seria encaminhado o procedimento investigatório contra o ex-presidente após sua nomeação como Ministro de Estado.

Dá para se perceber que, exceto por parcas vozes da direita que reconhecem o excesso da medida, a imensa maioria reconheceu na sua conduta uma verdadeira jogada de mestre contra Lula e o PT. Para essa gente, os fins justificam os meios.

Moro incendiou o país com sua decisão. Uma decisão despropositada, ilegal (porque viola a Lei de Interceptação Telefônica – Lei 9296/96, artigos 8º. e 10º.) e inconstitucional (porque viola a competência do STF para se manifestar em assuntos que digam respeito à presidente da República, notadamente quando identificadas no bojo de investigações criminais).

O juiz de Curitiba, ao cientificar-se do teor da conversa captada, deveria imediatamente lacrar o seu conteúdo e enviá-lo ao STF, instância constitucional competente. Ao contrário, porém, movido por um sentimento de vingança pessoal, abjeto, partidário entregou-o à Rede Globo para divulgação em âmbito nacional.

Moro sabia da ilegalidade de sua conduta. Procurou justificá-la ponderando o interesse público superior à privacidade e à competência privativa da presidente Dilma, fazendo, inclusive, alusão ao caso do presidente norte-americano Nixon. Comparação absolutamente despropositada, diga-se de passagem.

O magistrado considerou apenas o seu sentimento pessoal para entender que o teor daquela conversação seria de relevante interesse público a sobrepujar a mais alta lei deste país, a Constituição da República. Uma decisão subjetiva e sem qualquer amparo legal.

Não há desculpas para a sua decisão, por mais que se deseje encontrá-las em paradigmas do direito internacional. E é por isso que o governo deve agir para responsabilizá-lo pela condução temerária dessa investigação criminal, que começou com um objetivo e foi, ao longo do tempo, transmudando-se para um viés absolutamente parcial, partidário e antidemocrático.

O Brasil não é um tabuleiro de “War” para o juiz Moro exercitar suas estratégias. Um juiz, mais do que todos, deve se ater à legalidade, à ordem jurídica e, sobretudo, à Constituição da República. Condutas temerárias e ilegais como essa, e também como foi a condução coercitiva por ele determinada contra o ex-presidente Lula, podem conflagrar as ruas, e isso é gravíssimo.

O país não pode se sujeitar ao poder arbitrário de um magistrado que exercita seus desejos mais obscuros à revelia das leis e em nome de um clamor social forjado pela imprensa panfletária.

Moro, fã da “Operação Mãos Limpas” – aquela mesma que alçou ao poder na Itália o primeiro-ministro Sílvio Berlusconi, por quase doze anos – precisa tratar de lavar as suas próprias mãos para cuidar de uma investigação tão relevante para os interesses da nação, mas que por sua obra tem se desvirtuado para um instrumento eficaz de combate ao atual governo.

Isso não se chama independência, chama-se subserviência.

Resta saber se o corporativismo da magistratura permitirá que Moro seja punido por seus malfeitos e impedirá que cometa outros. Quem viver, verá.

@FFleury

Respeito.

É comum nos dias de hoje achar que o que une as p essoas é a comunhão de ideias e pensamentos. O raciocínio parte da ideia de que eu, que sou conservador, vascaíno, de direita e católico, terei amigos que comungam das minhas ideias e dogmas.

Acontece que o cara que é meu melhor amigo, sócio em um monte de projetos e a pessoa mais confiável que conheço é ateu, tricolor e esquerdista. Brizolista, pra piorar um pouco e pra ser mais exato.

Na linha de raciocínio de 95% da internet atual, eu deveria ser inimigo figadal desse sujeito e viver às turras com ele, e vice versa. Não concordo com ele em assuntos-chave do momento, então como conviver?

Simples: embora não concorde com suas posições políticas, acredito piamente em sua boa-fé e em sua honestidade. São valores muito mais básicos do que suas posições políticas e religiosas. No seu ateísmo, se comporta de forma muito mais caridosa do que muitos dos católicos praticantes que vão a Missas que eu conheço.

Jamais conseguirei convencê-lo da maioria dos meus dogmas. Ele tampouco. Discutimos eventualmente sobre esses assuntos polêmicos e as pessoas que vêem acham que nos odiamos.

Acontece que discordamos em praticamente tudo, mas não consideramos o outro um imbecil por discordar daquilo que pensamos.

E é isso que vemos por ai. Você é petista? Idiota, Eleitor de corruptos. Não é? Votou no Aécio? Coxinha. Reaça. Defensor de FHC.

Respeite quem pensa diferente de você. Você tem todo o direito de achar uma palhaçada a manifestação de amanhã. Eu tenho o direito de ir e de pensar que isso é o melhor pro meu país. Sem ser chamado de idiota.

O mesmo vale para o outro lado. Alguns dos maiores bobalhões que eu conheço, com comportamento inaceitável, compartilham, infelizmente, das mesmas opções políticas que eu. Algumas de suas postagens me causam constrangimento. Mais que isso, me fazem refletir se estou errado, tal a agressividade e a virulência de seus ataques aos “não iluminados”.

Sendo assim, respeite para ser respeitado. Aceite e ouça o contraditório. Estude. Contra argumente. E esqueça suas ofensas em casa. Elas pegam mal pra você.

Nos porões

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Neste momento alguns protestam. Talvez nem saibam muito bem o motivo. Sempre foi assim: todos sendo guiados como gado pelo quarto poder. Eles acreditam em tudo que ouvem. Não leem mais do que duas linhas. Dois parágrafos é “textão”. Pensar cansa. Pensar é démodé. A tevê berra. Aceitam sem contextualizar. Contextualizar? O que é isso? “Eu quero ela na rua!”. “Eu quero ele atrás das grades”. Domingo é dia de Fla-Flu político. Ter opinião contrária nos coloca em trincheiras diferentes. A guerra civil está perto de ser declarada…é isso? Para quem vive na periferia, a guerra começou há uns 60 anos. Mas aconteceu na favela. Quem se importa? Vamos beber Veuve Clicquot no camarote da boate e esquecer isso. Na saída é só pegar a chave da Pajero blindada e voltar para casa.

Enquanto isso professores estão sem salários, alunos sem aula, colégio sem merenda, carro da polícia sem combustível, preto levando tiro nos becos, gay tomando porrada na esquina, mulher sendo estuprada e levando a culpa. “Não é problema meu”. O que se passa além dos limites da porta do seu apartamento não lhe importa, não é mesmo?

“O dólar está caro e esse ano vai ficar apertado ir à Nova Iorque. Terei que trocar por Porto de Galinhas. Shit!”

A elite se movimenta quando atingem seus privilégios. Ninguém deu importância para séculos de miséria e servidão. Ninguém levantou do sofá para batalhar por melhor educação pública. O filho estuda no caro colégio de padres, que usufrui da isenção fiscal, mas onde preto e pobre só entra se for pra fazer faxina. Quem tem privilégio é o cotista, dizem.

Enquanto sonho com o exame de DNA que pode me dizer de que lugar da África meus ancestrais vieram, bastam alguns documentos para que brancos ganhem seus passaportes europeus e possam vislumbrar uma vida mais digna acima da Linha do Equador. Uns vieram para “limpar” o sangue brasileiro. Os meus vieram nos porões sem direito a nada. Onde está meu privilégio? Ainda não o achei.

Seguem gritando palavras de ordem na Avenida Atlântica e na Paulista. Os gritos não são ouvidos na Maré ou em Itaquera. E no sertão do Cariri? No Vale do Jequitinhonha? O Brasil não conhece o brasileiro. O Brasil crê que o brasileiro é o mesmo da novela das 21h. O dilema do falso brasileiro da novela é saber se a mocinha estará na praia deserta a sua espera no último capítulo. Não preciso dizer que essa mocinha é branca. O mocinho? Branco também. Só os brancos dizem “eu te amo” no horário nobre. Preto e pobre só bate palma e dá sorriso. É o que resta. Sorrir e aplaudir. Não lhe dão voz para dizer se está realmente gostando. Não lhe dão voz para declarar seu amor…ou ódio.

Aqui da janela não vejo camisas da CBF. Mas na TV eles estão aos montes, tirando selfies com os homens de farda. Tiram foto com qualquer pessoa que porte uma arma: um policial, um militar, o Bolsonaro. É importante registrar o momento. Sem selfie quer dizer que não aconteceu. Põe hashtag pra ter mais likes. É cool ir à micareta e achar que está indo defender o país. Está indo pelo umbigo. Umbigos feitos pelo bisturi das clínicas de cirurgia plástica em abdomens lipoaspirados.

O doente na porta do hospital público não tem forças para ir protestar. Ele teria motivos. Nem o aluno que está passando por mais uma greve foi à rua. Por que será? Talvez porque no dia em que saiu às ruas para lutar por seu direito garantido na Constituição, o Estado veio com cassetete, gás de pimenta e bala de borracha. Ninguém ali está para lutar por ele. Ele sabe disso. Cada um no seu quadrado. “Meu filho estuda no São Bento. Você é um vagabundo que quer tirar a vaga dele com cota”.

Não querem a universalização da educação de qualidade. O barco está afundando. Não querem o SUS funcionando para todos. A água está subindo nos porões. Não querem o pobre no aeroporto, na universidade pública, nas praias de área nobre. A água chegou ao convés. Querem a elite no poder. Querem o FMI, a ponte aérea Rio/São Paulo – Miami, mais cadeias, menos faculdades.

Nessa guerra não há santos ou demônios. Nem mocinhos ou vilões. Estamos todos no mesmo barco. Ok. Uns limpando o convés e outros nas cabines, mas mesmo assim no mesmo barco. Quase todos afundarão. Alguns poderão ter o “privilégio” de serem salvos pelos botes limitados do Titanic. Não é difícil prever quem entrará no bote.

No final vão se juntar apenas para garantir seus privilégios, como sempre fizeram desde Cabral. Para nós estarão ainda reservados os mesmos porões inundados.

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Ernesto Xavier

Encefálica

 

 

Lê?

livros empilhados

As palavras estão por toda parte. Anúncios comerciais, manchetes estrambóticas, matérias com cara de ficção, ensaios, artigos.

Redes sociais em particular, internet em geral, jornais mofados, revistas.

As bancas de jornais são abarrotadas de publicações. Imagine a Livraria da Travessa da Barra, mar concreto de letras – e também de futilidades elementares. Pilhas e pilhas.

Resumo: tem coisa para ser lida por todo lado. Estão sobrando toneladas e hectolitros de palavras nas comunicações.

Metade do dia com os celular em off, você o liga e vem aquele turbilhão de bips com trocentas notificações de whatsapp, foicebúqui e tuíter.

Tem tudo, tudo mesmo, do melhor e do pior.

Pergunta-se: quem lê?

Na acepção clássica da palavra mesmo: percorrer com a visão (palavra, frase, texto), decifrando-o por uma relação estabelecida entre as sequências dos sinais gráficos escritos e os significados próprios de uma língua natural.

É o que a gente faz por aí mesmo?

Modéstia à parte e com a pequeníssima importância que me cabe nesta terra incerta e injusta, tenho lá as minhas duvidazinhas.

Já fui publicado algumas vezes por editoras diferentes. Certa vez, antecipei uma crônica de futebol para um amigo querido, recebendo a seguinte resposta por e-mail: “Cara, esse texto é do Nelson Rodrigues? Eu já li noutro lugar”. Expliquei que não.

Embora meus livros lançados sejam de futebol e quase todos sobre o meu time, o Fluminense, não consigo enxergar absolutamente nada da monumental importância de Nelson, o maior dramaturgo brasileiro, no que eu escrevo. Nunca enxerguei.

Falando nisso, estilo literário: você consegue identificar o jeito de escrever de um autor, de modo a não confundi-lo com outros?

Dois sujeitos começam a discutir numa postagem de Facebook. Um sujeito comentando o escrito do outro sem ter lido…:

– Mas eu não escrevi nada disso do que você está falando! Onde você leu isso?

– O que importa é que você está completamente errado. Você não sabe de nada, brother!

A porradaria verbal come.

Nestes dias de golpismo e rancor, até a grave crise política tem seus dias de Febeapá: o tal procurador camisa preta (esse pessoal gosta, hein?) pediu a prisão de Lula fazendo uma incrível citação onde o homônimo de Engels era… Hegel.

Na semana passada, um capoteiro homônimo foi convocado a depor por vídeo ao juiz Sergio Moro, numa das cenas mais constrangedoras de 2016: o depoimento acabou em segundos, quando o magistrado deu conta da barbeiragem ali feita.

Maluf vai para a televisão e defende a honradez e a dignidade do governo acusado da fraude na merenda.

Paulinho da Força aparece na televisão pedindo a derrubada do Governo. Mais sujo do que pau de galinheiro.

O governador do Rio, chamado de Pezão, posterga os pagamentos do funcionalismo, mas antecipa verbas para concessionárias e grandes empresas do Estado.

Você lê mesmo sobre o que está acontecendo ou apenas faz papel de retransmissão humana das grandes corporações midiáticas?

Você já leu que, durante décadas, a inflação mensal brasileira ultrapassava 30, 40, 50 ou até 70 por cento ao mês?

E que o Maracanã ficou fechado três anos para reformas visando à Copa do Mundo de 2014, e agora é novamente isolado para as intervenções olímpicas? Aproveitando o tema, você já leu coisas que te fizeram pensar sobre o que já foi o Brasil do futebol e o que ele é hoje?

Já parou para ler como acontece uma das nossas maiores tragédias, que é a violência pela disputa do tráfico de drogas?

Você já leu algum relatório trimestral do IBGE sobre o Produto Interno Bruto, simpaticamente chamado por PIB?

Ou o interesse dos grandes jornais a favor do candidato X, do partido Y e da eleição Z?

Já leu poesia, letras de música, pequenas prosas, textos marginais, escritores underground, craques consagrados? Se o tiver feito, como isso é?

Algum filósofo grego – ou quase todos?

Autores traduzidos, bastiões dos países de língua portuguesa, poetas de calçada?

Afinal, você lê o texto ou apenas o significado de cada palavra?

Deixe seu recado após o sinal gráfico.

Espíritos no mundo material

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DUAS garotas chegam a ficar arrepiadas, enquanto olhavam um ovão de Páscoa nas prateleiras intermináveis das Lojas Americanas. Disparou um som potente das caixas perto da seção de música e um senhor, perto de seus sessenta anos, cravejou o clima: “Isso é Led Zeppelin! Jimmy Page!”. Eu, que não sou bobo, aproveitei uma palhinha de “Thank you”.

Nestes dias de crise e tentativas de golpe, tendo a velha Rede Globo como escudo de sempre, um bom lugar para se entender as coisas e pessoas é o shopping center – sim, estamos em crise, há desemprego, mas todos continuam comprando, ainda que alguns o façam exclusivamente por falta de melhores opções intelectuais durante o lazer.

As pessoas olham, compram, apenas admiram, passam como zumbis do comércio pelos corredores refrigerados, pequenos pedintes abordam as mesas da praça de alimentação – ninguém liga.

Num mundo e numa cidade onde dificilmente se vê três cartazes seguidos, páginas de jornais ou postagens do Facebook sem erros de Português, espiar a única loja da Fnac no Rio de Janeiro pode ser uma boa. Livros e discos. A impressão que dá é que os moradores da Barra ficam amontoados na seção de eletrônicos, enquanto os “turistas” ou haoles folheiam páginas e escutam canções – e isso explica muito do Brasil de hoje, creiam.

Olhar os outros depois de um cansativo trabalho em cálculos que ultrapassaram a faixa dos 20 milhões de reais. Hum. Interessante notar que mesmo num estabelecimento dirigido a populares com potencial senso artístico e literário apurado, volta e meia alguém para indevidamente no estreito corredor entre as gôndolas, travando a passagem de terceiros e resmungando quando alguém pede licença. Espíritos no mundo material.

Um monte de discos fora do lugar perto dos fones que permitem as audições. Não custava muito escutar e colocar no lugar, mas sempre haverá um monumental idiota a dizer “Eu deixo para que o funcionário da loja não perca seu emprego. Ele arruma e trabalho”. A pobreza de tal argumento poderia nos fazer crer que o crime é um acontecimento econômico importante: “quando bandidos matam inocentes ou policiais ou qualquer um durante a tentativa de assalto, é um incremento para funerárias, cursos preparatórios para ingresso na PMERJ ou PCRJ; aumenta o consumo de armas e munição, estimula a formação de médicos legistas etc.” – carajo!

Há compensações: antigamente o Barrashopping era era o Olimpo dos deslumbrados e emergentes, loucos para se sentir na fina flor da breguice em Miami. Só que veio a Linha Amarela, a Rocinha passou a ter um PIB maior do que 70% das cidades brasileiras e passou a dar muito Belford Roxo, Nilópolis e Caxias no pedaço (ÓTIMO!). Andar de chinelos no templo das compras virou coisa até normal. Então, os viscondes e barões mandaram fazer o Village Mall, bem ao lado, e pediram asilo político por lá numa loja de joias – livraria não há.

Geraldo Vandré e Novos Bahianos comprados, Dostoievski admirado, a caixa nunca tem troco seja qual for o valor da compra. Os dois discos explicam muito do Brasil de hoje, mas nada igual a você pegar um ônibus refrigerado, devidamente valorizado pelo prefeito, e se deparar com a imagem que ilustra esta página – e aí sim o Braza (aka Fagner Torres) é devidamente dissecado.

Não tem a ver com protesto, revolução, combate à corrupção, reivindicação de direitos, denúncia, absolutamente nada. Não.

Parece mais com certas manchetes de jornais impressos e chamadas na televisão.

Mais do que o entreguismo, o casuísmo, o atendimento a causas pessoais acima da coletiva, está o primordial: um desejo insaciável de ser filhadaputa.

Em suma, gente sem credibilidade, que só grita contra ladrões para defender seus traficantes e lavadores de dinheiro preferidos; que condena em terceiros as práticas que repete constantemente; que ostenta a cada dia o desfraldar da bandeira da hipocrisia. “Só me importam os pilantras deles; dos meus, eu cuido e gosto.”

O crime e a má fé não têm ideologia, mas sim conveniência.

Do outro lado? Caminhando, cantando e seguindo a canção.

@pauloandel

Sobre o dia de ontem

Participação especial do escritor Felipe Fleury

Fleury

Acordei com a notícia de que o ex-presidente Lula e sua família eram os alvos da 24ª. fase da chamada Operação Lava-Jato. Como sempre, ante o clamor que se forma ao redor de tudo o que envolve Lula, Dilma e o PT, procurei com cautela por informações coerentes, liguei a TV e pude acompanhar por toda a manhã e parte da tarde o espetáculo produzido pela maior rede de televisão do país para saciar os ávidos pela prisão do ex-presidente. Muitos, realmente, acreditaram que ele estava sendo preso.

E por algumas horas foi. Não foi uma prisão cautelar decretada por juiz de direito. Lula foi acordado pela Polícia Federal às seis da manhã em sua casa para ser conduzido coercitivamente para ser ouvido por autoridades da Polícia Federal e do Ministério Público Federal no aeroporto de Congonhas.

Segundo se noticiou, a decisão foi prolatada pelo Juiz Moro, a requerimento do Ministério Público Federal, sob o argumento de que a condução coercitiva seria uma medida para preservar a segurança dos conduzidos, ante a ocorrência de episódios anteriores de violência entre partidários do ex-presidente e seus opositores.

Quem disse isso foi um dos procuradores responsáveis pela investigação. Ora, trata-se de um argumento dos mais rasos. O MPF e o juiz Moro sabem que a medida de condução coercitiva de indiciado ou investigado – ao que parece o ex-presidente ainda é investigado, pois não foi formalmente indiciado pela Polícia Federal em crime algum – não possui previsão legal no ordenamento jurídico pátrio.

O Código de Processo Penal prevê a condução coercitiva do ofendido e da testemunha, quando não atenderem a chamados anteriores do Juízo, conforme dispõem os artigos 201, parágrafo 1º. e 218, do CPP, e a condução do acusado – que é o réu no processo penal e não um investigado ou indiciado – na forma do artigo 260, do mesmo Diploma. Entende-se, ainda, possível, a condução coercitiva do indiciado, investigado ou acusado para reconhecimento pessoal ou reconstituição dos fatos.

Não foi o caso do ex-presidente Lula, que foi conduzido
de forma ilegal, por decisão violadora, inclusive da Constituição Federal, que garante o direito de ir e vir, sofrendo verdadeira privação ilegal de sua liberdade, que foi levado para prestar depoimento de forma coercitiva. Ainda vale lembrar que ele também tem direito a não produzir prova contra si mesmo – direito constitucional à não autoincriminação – sendo certo que nenhum desses direitos foi observado na decisão do juiz Moro.

E por quê? Porque mesmo sabedores de sua inconstitucionalidade, também tinham plena ciência de que não haveria tempo para um recurso. Seria cumprida e pronto, seus efeitos seriam produzidos. E quais efeitos? Humilhar um ex-presidente da República contra quem não pairam além de indícios, que estão sendo investigados pela Polícia Federal e Ministério Público Federal.

A tal da segurança foi apenas uma desculpa rasa. Hoje o que se viu foi uma situação de pré-convulsão social que poderia ter descambado para a tragédia por pura irresponsabilidade de autoridades do Ministério Público e do Judiciário. Atropelaram a lei para se banharem à luz dos holofotes.

Tenho a certeza de que o outro ex-presidente, contra quem pairam denúncias tão graves quanto, não seria tratado dessa forma abusiva, irrazoável e desproporcional. Também duvido de que entrariam assim no Fasano para interromper os almoços e jantares das dondocas que dilapidam o dinheiro fartamente surrupiado pelo senhor Eduardo Cunha.

Lula está sendo investigado. Não sei se praticou os crimes de que está sendo acusado, mas assim como todo cidadão brasileiro, inclusive você, ele tem algo que é maior do que qualquer direito ou garantia fundamental, que é a sua própria dignidade, a dignidade humana, que é um atributo de todos nós.

E a sua dignidade e a de sua família foram violadas hoje. Aliás, um festival de violações. Desde o seu direito à liberdade de ir e vir até o seu direito à presunção de inocência (ou de não culpabilidade), afinal de contas, nem mesmo foi denunciado – não há, sequer, ação penal deflagrada contra ele!

Suspeitas são suspeitas, que sejam investigadas. Que todos sejam investigados, sem dois pesos e duas medidas.

Não sou petista, nunca fui, mas me incomoda demais assistir ao massacre que a mídia impõe ao ex-presidente Lula, à presidente Dilma e ao seu partido, mídia esta que, inexplicavelmente, estava a postos às seis da manhã numa certa rua de São Bernardo do Campo.

Que sejam investigados, processados e julgados todos os que pratiquem malfeitos. Essa seletividade protagonizada pela imprensa, em sua grande parte, e os atropelos da investigação apenas contribuem para enfraquecer a democracia.

A Polícia Federal e o MPF devem cumprir seus papéis constitucionais e investigar com isenção e o Judiciário deve decidir com imparcialidade e de acordo com os ditames da legalidade. Ultrapassar essa barreira é um passo perigoso que se dá rumo à arbitrariedade.

A Justiça deve alcançar quem quer que seja, sem exceção, mas acima de todos nós há uma constituição que precisa ser respeitada.

@FFleury