“Isso não existe”

transfobia

“Eu até tenho um amigo gay”.

“Já fiquei com menina negra”.

“Com uma roupa daquele tamanho ela só podia estar provocando, né?”.

Como um mantra, todos preconceituosos falam para si mesmos querendo acreditar que são pessoas boas, perfeitas, que aquele defeito que consideram o pior de todos não habita eles.

“Não existe machismo. Isso é ‘coitadismo’ das mulheres que não sabem se portar como uma mulher direita. Querem ser homens”.

De acordo com a ONU, 7 em cada 10 mulheres no mundo já foram ou serão violentadas em algum momento da vida: abuso verbal, diversos tipos de abuso emocional, violência física ou sexual. O feminicídio em grande parte envolve o assassinato intencional de mulheres apenas por serem mulheres. Mais de 35% dos assassinatos de mulheres no mundo são cometidos por um parceiro íntimo. Crimes em nome da “honra”, para não “manchar o nome da família” são mais comuns do que se imagina.

Na Índia, 48% das mulheres ainda são trocadas por dotes, 65% em Bangladesh, 76% no Níger e 100 milhões de meninas poderão ser vítimas de casamento forçado em todo mundo na próxima década.

“Não tenho preconceito, mas meus filhos não precisam ver beijo gay na novela”.

A cada 28 horas ocorre uma morte motivada pela homofobia no Brasil. Em 2013 foram 312 homicídios, mortes e suicídios de gays, travestis, lésbicas e transexuais. Neste mesmo ano um menino de 16 anos, no Maranhão, se enforcou dentro de casa, pois “seus pais não aceitavam sua condição homossexual”.

“Não existe homofobia. Isso é frescura de viado”.

Percebe-se que esconder essa discussão da vida das crianças e dos jovens faz com que eles não tenham conhecimento para lidar com a própria homossexualidade ou a de pessoas próximas. A orientação homossexual passa a ser considerado algo anormal, um problema. O jovem se vê deslocado do convívio social, passa a se achar castigado por “Deus” no caso dos religiosos, traidor da confiança dos pais, sujo, mau caráter. Lutam contra os próprios desejos, pensamentos e sentimentos.

“Não existe racismo. Isso é vitimização dos negros”.

O percentual de negros assassinados no Brasil é 132% maior do que o de brancos. O racismo se aplica a 80% das mortes de negros no país, segundo o Ipea.

O racismo atinge cada um de forma distinta. Há quem reaja com a determinação de superar as dificuldades e assim consegue estudar, crescer, trabalhar, totalmente motivado pela vitória sobre a adversidade. Há quem se revolte e devolva a violência com mais violência. Há quem chore. Há quem negue, pois assim crê fazer desaparecer o fato. Há que assuma papel de predador. Há quem não se aceite como negro. Se o racismo não existisse, seriam apenas pessoas vivendo as lutas do cotidiano. Então saberíamos quem realmente são e não o que deles sobrou a partir da influência nociva do racismo.

Todo agressor é um covarde. Ele se utiliza da força e poder para agir. Só age quando está em vantagem. Só age quando está protegido: em insultos escritos em portas de banheiros públicos, violentando em locais escondidos, difamando atrás da tela do computador. Ele nega, mas sabe que está errado.

É triste ter de reproduzir estatísticas que tem como base números relativos a homicídios. Infelizmente a realidade brasileira é baseada na violência. E esta atinge principalmente mulheres, negros e homossexuais. A morte está sempre à espreita para aqueles que são colocados em posições vulneráveis.

O Brasil é o lugar onde esconder as mazelas é considerado uma forma de “tratar” o assunto. É como se um médico diagnosticasse câncer em um paciente, mas falasse para ele ignorar a doença, pois dessa forma ela seria curada.

Mecanismos invisíveis (e outros nem tanto) impedem a ascensão e inserção social das minorias. É comum ver negros nas faculdades de medicina e engenharia? É comum ver mulheres presidindo uma empresa? É comum ver um/a transexual trabalhando em contato com o público ou na cadeira da escola? É comum ver um gay sendo representado sem estereótipos nas novelas?

A hipocrisia caminha de mãos dadas com a ignorância. Por isso não paro de falar. A insistência quase militar de tentar desvalorizar a luta contra o preconceito é a prova de que o racismo, a homofobia e o machismo estão impregnados na nossa cultura. Quem me chama de vitimista na verdade tem medo de admitir que dentro de si bate um coração recheado de preconceitos.

Só para finalizar: o Brasil é o país que mais mata transexuais no mundo, alcançando um número quatro vezes maior do que o México, segundo colocado.

Não culpe a vítima. O preconceito mata, entende? Quer que eu desenhe?

Ernesto Xavier

Quando eu era criança

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Quando eu era criança, diziam que o Brasil era o país do futuro.

Havia uma ditadura imunda mas sem o contraponto das redes antissociais. Fim dos anos 1970.

A corrupção abundava em obras faraônicas mas ninguém noticiava – os jornais às vezes saíam com páginas inteiras em branco, censuradas. Por que você acha que a estação Carioca do metrô é tão grande e até hoje subutilizada? Erro de cálculo?

Para ver a Vila Sésamo na TV a cores novinha (antes, era colocar papel celofane de alguma cor psicodélica para embrulhar a tela), aparecia um cartaz da Censura Federal autorizando a exibição. Ou à noite, a voz em off avisando que Roque Santeiro não ia para o ar – só dez anos depois. Passava até Rock Concert.

Os craques eram de carne, osso e caráter. Estavam nos álbuns de figurinhas. Os times de futebol duravam anos. As carinhas eram coladas nos times de botão. Ir ao Maracanã era um prazer. O Fluminense todo de branco.

Você ligava a rádio e Big Boy muito louco incendiava a audiência com seus hits musicais. Ou Zé Rodrix cantando “soy latinamericano e nunca me engano, nunca me engano”. Grandes canções de Belchior.

Todas as capas dos jornais deram a morte de Juscelino em grandes manchetes. Eu voltava do Hospital de Ipanema depois de uma cirurgia – e lá bebi café com leite pela primeira vez na vida. Muito bom. Em casa, líamos O Pasquim escondido.

Mortes terríveis. A bela garota Cláudia Lessin, irmã de atriz, morta na avenida Niemeyer. Chamavam o cenário do crime de “festinha de embalo”. O bandido Michel Frank fugiu, era filho de rico, morreu assassinado na Suíça por uma disputa de drogas. Aqui, impunidade.

Perdi minha bolsa de estudos porque a diretora da escola, uma simpatizante do fascismo, plantou uma nota vermelha em matemática no meu boletim da sexta série – a única de todo o meu currículo escolar. Arrependeu-se da concessão: eram tempos da inflação de 50% ao mês. E vocês acreditam nessa maior crise de todos os tempos? Depois, formei em Estatística e fiz metade da faculdade de Matemática. Só de sacanagem.

Jogávamos bola na porta do shopping center em Copacabana. Na verdade, com uma bolinha de isopor, para não quebrar nada nem machucar ninguém. Os seguranças fingiam que não viam. Os gols eram esses ferros que impedem carros na calçada. Falando em ferro, o vizinho famoso do prédio era o ex-árbitro Armando Marques. Fazíamos campeonatos de botão debaixo da escada rolante do grande centro comercial.

Nos jornais, o mengão já era o maior de todos os tempos, infalível e imbatível. Na verdade, mais ou menos. Levara de quatro do Palmeiras.

Quando estreou a novela “Água Viva”, achávamos que o mundo era limitado às nossas praias próximas. Era o que se via na tela. Talvez seja assim até hoje, tirando uma ou outra novela ambientada em favelas. Bom, antes era muito difícil ver um pretinho que fosse, mesmo um daqueles que ficava sentado nas areias do Posto Seis, fazendo o céu de teto e com esperança num futuro que jamais viria. Os mais exaltados eram chamados de pivetes. Era uma vida difícil, mas não esse mata-mata de agora, onde a vida não vale um papel amassado. Menos mal que João Gilberto tocava às oito da noite.

Minha mãe fazia tortas, frango, bife, batata frita, pudim. Quando sobrava algum dinheiro, comprávamos uma pizza Bella Blu: tinha tudo de bom, bacon inclusive.

Não havia computador, nem celular e nem século XXI. Mas Gilberto Gil já cantava muito: “o meu caminho inevitável para a morte”.

A maior impressão? Por mais que muita coisa tenha mudado, a essência ainda é a mesma. Ainda somos atrasados demais, ignorantes demais, muitos incapazes de perceber que ajudar o outro é fazer o bem de todos. Somos selvagens demais, hipócritas demais, egocêntricos e egoístas demais. Um subproduto do Tea Party.

A ditadura venceu. Silenciosa, malandra e calhorda, só agora ela mostra publicamente suas garras enlameadas nos Facebooks da vida. Ninguém resiste a trinta segundos de denúncias de corrupção e questionamentos sobre o próprio caráter.

Aqui na rua, hoje é dia de lazer. Tendo algumas crianças pobres brincando com alegria, já me sentirei menos triste. O resto é o tempo que passou, o retumbante fracasso de uma sociedade e a certeza de que boa parte da minha turma leu um monte de livros em vão. Mais do que ler, interpretar era preciso.

@pauloandel

Tragédia

Lovis Corinth, Pietà.

Lovis Corinth, Pietà.

Parecia um dia normal, tal qualquer outro que já houvera amanhecido antes deste. Lentamente abria os olhos e a realidade borrada tomava forma nos raios de sol que o despertavam. Janela, maldita janela, Quem a deixou aberta?

Estranhou o momento, não se lembrava de haver uma janela exatamente ali. O espaço diferente apresentava-se desconhecido. Pensava estar possivelmente em um sonho. Bocejou alguma efêmera despreocupação. Esfregou com força os olhos. Mas, nada. Novamente. Nada. Parecia terrivelmente real.

Notou algo insólito quando levou mais uma vez as mãos aos olhos. Negras. Suas mãos eram negras. Como assim? Levantou-se. Havia um pequeno espelho pendente por um barbante em um prego na parede feita de tijolos. Mirou-se.

À maneira de uma cena kafkiana, viu-se transformado em outro. Era preto. Deu alguns passos para trás. Assustou-se. Chegou próximo à janela, definitivamente não era a sua casa, concluiu. Não era a sua vida. Olhou fixamente para suas mãos. Temeu. Olhou para a seu tornozelo: sua marca de nascença continuava lá, como tatuagem, como testemunha de sua identidade perdida.

Queria voltar para casa. Acordar daquele pesadelo. Não se conformava. Negro, eu? Correu para a porta. Ganhou a rua. Descia em meio às vielas tropeçando em tudo o que havia jogado por ali. Estava descalço, vestia apenas uma bermuda vermelha. Isso não era o que mais lhe afligia naquele instante.

O sol brilhava intensamente na cidade. O calor fazia-o suar, ainda que acreditasse que as gotas que lhe escorriam pela testa fossem puro nervosismo. Talvez fossem mesmo. Aproveitando-se da parada do ônibus, subiu sorrateiramente pela porta de descida. Mais uma antítese não alteraria o desconexo do dia. Não tinha qualquer dinheiro nos bolsos.

O coletivo ia lotado. Centenas de jovens dirigiam-se às praias. O saculejo do ônibus embalava uma alegria que nunca fora capaz de sentir. Apenas ele tinha o semblante tenso, exalando toda a preocupação e impotência diante do feitiço ao qual julgava estar preso.

Duas esquinas mais. O veículo para. Já estava suficientemente perto. Queria voltar para a casa. Abre-se a porta. Desce, chão quente. Dois passos e um policial agarra-lhe o braço. Documentos! Em um átimo, as mãos da autoridade já vasculhavam seus bolsos em busca de qualquer coisa. Só encontraram ausências.

Sem dinheiro e sem documento. Tá pensando que tá onde? Tá pensando que é quem? Então, tomado pelo medo, mas respaldado por sua essência, resolve lembrar quem era. Me solta, Sou o filho do chefe da polícia, seu boçal! Filho de quem? A mão pesada do soldado irrompia em um tapa que estalidava rubro em sua face.

Aproveitando-se da deixa, põe-se a correr. Breve perseguição. A obesidade do homem fardado não lhe permitiu acompanhar o moleque em sua velocidade. Entretanto, não o deixaria escapar.

Estava a poucos metros de casa. Tudo passaria. Tudo voltaria ao normal. Um estampido. Sentiu um calor atravessar-lhe o peito. As pernas arquejaram e os joelhos tocaram o solo. As mãos moviam-se pelo tronco, por onde escorria o viscoso fluido vermelho. Tudo se tornou opaco. A realidade novamente borrada. Caiu.

Saía do prédio para ver o que ocorria ninguém menos que o chefe da polícia. Diante de seus olhos e de alguns de seus subordinados, havia o corpo agonizante de um jovem. O chão continuava quente. O ar irrespirável. Bandido, gritaram alguns. Correu, justificou o policial.

O chefe assentiu com a cabeça, mas, ao voltar os olhos para o defunto, intrigou-se com algo. Abaixou-se, mexeu na perna do menino. Gelou. Reconheceu a marca naquele corpo sem vida.

Ao tocar na mancha, o desencanto acontece. Era a meia-noite de uma Cinderela avessa que não fora à festa alguma, mas da qual buscava voltar. Aos poucos, o menino voltava magicamente à sua forma original. O cabelo aloirava-se e a pele embranquecia. O chefe da polícia desesperava-se. Lágrimas. Virou o corpo. Um rosto ao sol. Já se vivia outra realidade. O menino morto transformava-se outra vez em seu filho.

E só aí foi que a história virou tragédia.

Arrastões

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O primeiro arrastão do Rio de Janeiro quem fez foi o então prefeito Pereira Passos, em 1903, com o Bota-Abaixo, que demoliu casas, abriu avenidas e com a escassez de moradia aliada ao aumento dos aluguéis, expulsou os pobres das regiões centrais da cidade. A crise habitacional estava instaurada no Rio.

Quero voltar um pouco no tempo: Em 1888 os escravos foram libertados e sem casa, educação, trabalho, saem a procura de um lugar para morar. O Morro da Providência, que também foi ocupado pelos ex-combatentes da Guerra de Canudos, acaba recebendo a multidão de ex-escravos que chegavam na cidade vindo de todo o Estado.

Os cortiços foram a outra opção. O livro de Aluísio de Azevedo mostra bem essa realidade. Mas o nosso “querido” prefeito, citado acima, queria modernizar a cidade, transforma-la em uma metrópole internacional, com cara de Paris. Lá se foram os cortiços… Os moradores dessas demolições ocuparam também os morros da Providência e de Santo Antônio, as primeiras favelas do Rio.

Depois de Passos, Getúlio Vargas removeu pessoas para lugares mais distantes com seus Programas de Transferência, a partir de 1937. Carlos Lacerda intensificou o movimento, removendo 27 favelas, com mais de 40 mil pessoas indo viver longe de seus trabalhos, em conjuntos habitacionais. O processo teve seu auge no Regime Militar. Arrastões…

Quem precisava morar perto do trabalho por causa da limitação dos transportes ocupou as favelas da Zona Sul e do Centro.

O político jogava para longe e não ía lá para mais nada. Deixava o espaço aberto para que criassem as próprias leis e costumes. De tempos em tempos apareciam para pedir votos.

Essa breve história serve para mostrar como a população pobre foi expulsa de suas moradias e jogadas para longe. Aos governantes nunca interessou tratar o problema. Todos largados à própria sorte. Só quem visita as favelas são caveirões, carros de polícia e “gente de bem” para comprar drogas nas bocas de fumo.

Por que incomoda tanto a presença da população do subúrbio na Zona Sul?

Pobre, preto e do subúrbio só pode ir à praia para vender picolé, queijo coalho, amendoim, mate ou uniformizado (de branco) levando as crianças dos patrões para passear.

O morro desce quando quer ser ouvido. Há momentos em que o asfalto o recebe de tapete vermelho: no carnaval. Há outro em que o asfalto o repele: quando querem dividir o mesmo espaço de lazer ou conhecimento.

Assim aumentaram os preços de ingresso em estádios, elitizando o futebol e acabando com a geral. Assim condenaram os rolezinhos. Assim não querem dividir as praias da Zona Sul e da Barra. Assim vociferam contra a política de cotas raciais em universidades.

O jovem que responde com violência foi criado em um ambiente violento, com som de tiros, medo de bala perdida, toque de recolher, lei do mais forte, tanque de guerra na entrada da favela, batida policial diária, proibição de baile funk, tráfico a céu aberto, a televisão mostrando a família rica do Leblon na novela do Manoel Carlos, os comerciais de margarina e ele com a geladeira (se tiver) vazia. E querem dele o que? Flores? A grande maioria não segue a lógica da violência. Porém, quando se recebeu porrada a vida toda, fica difícil retribuir com um sorriso.

Se as redes de televisão dessem a mesma importância às invasões arbitrárias das comunidades pela força policial ao que dão para os arrastões nas praias de bairros nobre, talvez tivéssemos um equilíbrio e então entenderíamos que do outro lado do túnel tem gente sofrendo com receio de perder um amigo, um filho ou a própria vida. Veriam que toda vida conta. Veriam que as mortes do médico Jaime Gold ou do menino Herinaldo Vinícius, de 11 anos, assassinado por um policial, no Complexo do Caju, apenas por que corria, têm o mesmo valor.

A favela quer falar e a mídia, definitivamente, não é o seu porta-voz. O desabafo do morro desce amargo pela garganta.

Quem ameaça também pede socorro.

@nestoxavier