Eu não sabia que meu relacionamento era abusivo

Estou meio perdida aqui, confesso.
Bem… vontade de escrever um texto por dia não me falta, falta é coragem mesmo!
Meu foco / assunto principal é o abuso físico e emocional que atinge muuuitas mulheres. E que marcou minha vida.
E , aproveitando o recente acontecimento com um famoso ator global e a palavra BUCETA, vou contar que também fui vítima de abuso e, como eu, várias de nós, mulheres. Todos os dias!

Não acontece apenas com as “faveladas”, como burramente já ouvi! Penso que essas são muito mais fortes e fodonas que muitas doutoras e madames que convivem porta a porta com vocês e comigo…

Ocorre que meu casamento não era essa Coca Cola toda e eu mesma não sabia explicar o motivo. Mas como? Aquele moreno alto, lindo, com um emprego estável, bom pai de família, que fez questão de por nosso primeiro imóvel, comprado antes de casarmos, no nome de nós dois, mesmo tendo dado muito mais que 50% do valor? Quer mais prova de amor do que essa? Impossível!

Eu, que cresci ouvindo da minha mãe que se não casasse estaria incompleta! Que se continuasse a curtir minha vida como eu gostava, seria taxada de puta ou vulgar! Algo que, até dentro de casa, já era meio que dito de forma velada…

Enfim, um dia conto toda essa história bem organizada pra vocês. Hoje minha meta é escrever um texto! Começar!

Vou contar uma breve historinha, algo que era corriqueiro em minha vida! E… foco na palavra BUCETA, por favor.
Bem, meu ex marido era bastante ciumento! E eu imaginava que dava motivos para isso. Afinal, gostava de roupas bonitas. Nunca usei nada curto. Mas mesmo assim, meu vestir era sempre inadequado para ele!

Vou parar de enrolar…

Tinha uns cinco ou seis meses que eu tinha ganho meu segundo bebê.  Durante a gravidez, eu tinha engordado uns vinte quilos. Meu prédio (meus vizinhos) acompanhou o crescimento da barriga (e meu!) e a chegada do bebê!

Neste dia, quando apareci num evento no nosso salão de festas, já bem mais magra, muitos vieram falar algo bem normal para a situação – mas inconveniente para a minha relação: elogiar a minha perda de peso.

No meio da confraternização, um dos vizinhos se aproximou de mim para conversar. Fiquei tensa, pois sabia que teria problemas com isso! Dito e feito! Ele se aproximou e tocou no pezinho do meu filho, que estava no meu colo, e sendo seguro por mim de pé, na frente da minha barriga (é importante que vocês visualizem essa imagem!).
Falou algo sobre meu peso e sobre o bebê e se afastou!

Nesse momento, a figura de R (vamos chamar meu ex assim) se agigantou na minha frente. Bufava ódio!  Parecia possuído. Falou baixo, no meu ouvido, mas parecia gritar…

– Você não viu o q aconteceu agora?
– Não, Meu Deus! O quê?
– Ele botou a mão na sua buceta!

Eu fiquei estarrecida! Primeiro, porque o termo “BUCETA” jamais era usado entre nós! Nem quando esporadicamente fazíamos sexo! Segundo porque… Como é que o meu marido poderia imaginar que um vizinho nosso, na frente de todos, me tocaria daquela forma e que eu não faria ou falaria nada? Como assim?

Eu não tenho como descrever exatamente como me senti! Não tive palavras. Ainda não tenho.

Hoje, me pergunto, por que não chamei imediatamente o tal vizinho e falei na cara dos dois:  “Ô fulano! Meu marido tá achando que você meteu a mão na minha buceta!”…  Ou…

“Olhe aqui, seu retardado! Estou saindo de casa agora, porque não sou mulher de deixar algo absurdo assim acontecer sem que eu mesma tome uma atitude! Não me confunda com a sua mãe!”

O final dessa história foi uma mulher arrasada, indo embora da festa, chorando na frente de todos e, mesmo anos depois, sendo apontada como maluca, pois episódios como esse se tornaram bastante comuns na minha vida.

Hoje, olhando de fora, e muitos anos depois desse acontecimento, eu posso garantir que aquele dia marcou o início de um relacionamento absurdamente abusivo. E que, talvez, se eu tivesse me posicionado de forma incisiva, o curso de toda a minha história seria outra!

Por isso, queridos homens amigos, conversem com suas filhas e deixem claro para elas que o príncipe que elas namoram pode ser o disfarce de um cafajeste covarde! E que se você, pai e marido, nunca tratou a sua filha ou à sua mulher dessa forma, ela jamais deverá permitir que homem algum a trate assim.

E você mulher, se algo parecido estiver acontecendo em sua vida, é bom procurar ajuda. Pois tudo isso vai se agravar.

E tenho dito.

As pessoas simples

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As pessoas simples. Ah, aquelas que passam uma expressão de tranquilidade no rosto, sem dissabores, sem mágoas, talvez com certa melancolia, mas absolutamente conscientes de que não somos nada neste muito de merda, cheio de empáfia, tiranos, explorações, genocídios, doenças e miséria, miséria demais. Qual o sentido da arrogância? Nenhum. Os cemitérios abrigam milhões de esqueletos que já carregaram corpos e mentes de pessoas absolutamente perdidas na vaidade oca, no preconceito, na insistência em diminuir o próximo por causa de seus bens – ou da falta deles -, títulos, posses e o diabo a quatro.

Poderia ser o moço da borracharia comprando quatro pães e oito fatias de mortadela às seis da tarde, na padaria que fica bem ao lado do novo prédio da Petrobras no centro do Rio de Janeiro. Vestido com roupas simples, um homem simples à espera da refeição enquanto o rapaz do balcão, também simples, fala alguma coisa da derrota do Flamengo e outro rapaz do balcão, também simples, sorri brevemente. Os trabalhadores em pé desde o começo da manhã, lutando por um salário mínimo, ainda se divertem em meio ao cansaço, horas antes de longas viagens de trem ou ônibus, para um pequeno descanso e o recomeçar antes do sol nascer. O moço da borracharia pede tudo com calma e educação. É um lorde do coração da capital.  Bem perto, uma garota simples saboreia um pão na chapa, barato e gostoso, silenciosa e com ar pensativo.

As pessoas simples que ainda dão bom dia à rua ou no elevador, em tempos de repulsa coletiva. Que se preocupam quando veem alguém passando com a testa franzida ou carregando alguma dor elegante, daquela tão bem cantada por Itamar Assumpção. Que ficam realmente tristes quando veem as notícias ruins na TV, preocupadas com os semelhantes que sofrem pelo mundo afora.

Os garotos simples, com suas caixas de engraxate, atravessando a cidade de uma ponta a outra, torcendo para que homens nobres com sapatos elegantes precisem de um trato e ali esteja garantida a chance de um lanche, pelo menos.

Antigamente, era fácil encontrar muita gente simples. Bastava ir ao Maracanã. Em todos os setores do estádio, principalmente a geral, que ficava em volta do campo e onde os torcedores assistiam aos jogos de pé. Na verdade, em qualquer estádio brasileiro, antes do processo de gourmetização do futebol. Com alguns trocados, comprava-se um ingresso. Hoje mudou tudo, o Maracanã morreu também, vivemos abomináveis tempos modernos.

Domingo de manhã, a rua fechada para ser área de lazer – bem mais barato do que construir e manter parques -, os meninos ainda correm atrás da bola dente de leite, já bem gasta, enquanto os pares de chinelos humildes são as traves. Correm, gritam, sonham com aquele estádio que foi assassinado, sonham com histórias de craques que nunca chegaram a ver em campo – Pelé, Garrincha, Sócrates -, sonham com a felicidade efêmera das brincadeiras dos tempos de garoto.

Há muito tempo atrás, um senhor passava com um carrinho e sua buzina vendendo empadinhas perto do meu local de trabalho. Conversava com as pessoas, era solícito e percebia-se que não fazia aquilo apenas para vender o produto, era seu jeito de lidar com o próximo. Perto de casa, dizíamos que ele era o Seu Empadinha. Sempre que podia, eu comprava para ajudá-lo; já era um aposentado. Um dia, o carrinho nunca mais passou. A vida ficou bem mais pobre.

Paulo, meu xará, é um dos melhores funcionários de todos os prédios onde já trabalhei e morei. Senta praça no condomínio onde resido. Volta e meia rimos e falamos amenidades quando passo pela portaria, mas nem sempre foi assim: ele foi uma das pessoas a carregar o corpo de minha mãe até o carro da funerária. Algo que jamais esquecerei. Ele está sempre rindo, tranquilo, com voz mansa. Fizemos piada dia desses, quando uma moradora queria proibir os beijos entre os casais no jardim da entrada. Patético, mas não menos do que o que me disse: “Paulão, você é um dos poucos moradores que conversam com a gente”.

O mundo está errado demais. Faltam gentileza, cortesia, apreço e outras coisas mais, todas simples.

@pauloandel

Romano, Vieira, eu e a paz

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Ontem à noite, depois de uma longa temporada, pude me reencontrar com meu amigo Luiz Vieira, atualmente morando em Sergipe e numa turnê de férias pelo Brasil. Ele fez uma breve passagem pelo Rio de Janeiro. Aproveitei o momento para convidar nosso velho amigo de escola Floriano Romano, hoje um artista consagrado.

Tivemos como ponto de reunião a livraria Cultura da Senador Dantas. Em vários momentos ficamos espantados com o tamanho daquela loja, que um dia abrigou o esplendor do Cine Vitória, primeiro com seus filmes infanto-juvenis e, mais tarde, um paraíso da filmografia erótica.

Na última vez em que estivemos os três juntos, o Brasil ainda vivia uma ditadura, a inflação era de 80% ao mês e o melhor futebol do mundo era nosso. Vida que segue.

Com o café da Cultura cheio, rumamos para o Spaghettilândia, decano restaurante nos arredores, símbolo de pratos baratos depois das velhas manifestações políticas, quando isso não significava odiar o oponente.

À mesa, falamos da alegria de uma conversa de bar, do mundo que tem parecido cada vez mais injusto e vil, do egoísmo, da indiferença, de coisas que os garotos dos anos 1980 tanto sonhavam para um país e um mundo melhores. Futebol, política, cotidiano, chopes derrubados indevidamente. E também tivemos uma breve aula do Romano sobre as diferenças entre a arte moderna e a contemporânea. Enfim, de tudo. Mas o importante mesmo foi podermos passar duas horas de excelente conversas e até alguns risos, entrecortando as mazelas do cotidiano.

Uma pena que precisasse ser tão rápido. Era o jeito, mas pudemos aproveitar o melhor de nós como amigos, fraternos camaradas dos tempos de escola, quando ainda tínhamos Elis Regina e até Garrincha.

O final da conta foi antológico: o Vieira saiu correndo para pagar a conta no caixa, enquanto nós o perseguimos para impedir que assumisse a despesa sozinho. Definitivamente, não era uma mesa comum no coração da cidade que tem tantas maravilhas naturais – e muita superficialidade nas relações humanas também, infelizmente.

Na saída, deixamos o Vieirinha na porta da estação Cinelândia. Trocamos nossos abraços fraternais. Depois, eu e Romano pegamos um táxi para o outro lado do Centro. No carro, o que mais falamos era como o Vieira tem uma aura boa, de paz, a mesma dos tempos de criança, algo tão raro nesse mundo de violência, covardias e solidão. E como é bom saber que, passados tantos anos, temos um amigo que nos passa bons sentimentos à primeira vista.

Quando Romano desceu do carro, aí foi a minha vez de pensar sozinho: um dos craques das artes de hoje no Brasil é meu amigo dos tempos de jogo de botão, no corredor de um grande prédio de Copacabana.

Lembrando do belo letreiro em neon no salão do Spaghettilândia, tricolor por sinal, num súbito penso agora em como é bom ter amigos que são boas pessoas de verdade, intelectualizadas, críticas desta sociedade hipócrita em que vivemos.

Foi uma grande noite. No meio da selva de pedra sentimental, meus dois amigos me permitiram voltar no tempo a ponto de ter todo o mundo à frente, em forma de futuro. Os anos passaram, mas ainda estamos muito vivos e isso é bom.

Em nenhum momento falamos de dinheiro, posses e bens, donde se depreende o caráter dos cavalheiros presentes. Gente que faz bem, que emana arte e paz. O mundo anda carente disso.

@pauloandel

O verdadeiro último dia do ano

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VIVEMOS uma manhã de domingo, cinzenta, de calor moderado. Acabou o ano de 2015, veio um final de semana pela emenda, hoje é um dia de ressaca mental e, com exceção dos estudantes que gozam férias maravilhosas, segunda-feira será dia de trabalhar, ou procurar emprego, e viver o recomeçar na vida na matemática secular de 365 (ou 366) dias, estes geralmente rápidos demais. Muitos trabalhadores também estarão de férias, o que significa ter praias mais cheias e escritórios mais vazios.

Chegou o meio de dezembro e as pessoas estão com seus relógios biológicos botando a língua para fora. Então pedimos arrego, cantamos por um mundo melhor, bebemos drinks e, em algumas oportunidades, os sorrisos felizes das fotografias que vemos não representam a melancolia dos corações imperfeitos. O que parece amor é, na verdade, angústia. Noutros casos, as pessoas mais importantes não estão em qualquer foto.

Depois deste domingo de folga, amanhã teremos a volta ao batente com todas as suas representações: stress, engarrafamentos, arrastões, zumbis de crack, falta de tempo, impessoalidade, terríveis notícias jornalísticas. O país a penar, o Estado a penar e esta bela Guanabara com todas as suas mazelas varridas para debaixo do tapete, porque o que importa são os equipamentos urbanos, a festa olímpica e as aparências.

Tomara que aqui, e em outros lugares do Brasil – do mundo também -, role menos egoísmo e indiferença. Menos violência, menos mortes estúpidas, menos desamor. Que a vida, essa arte do desencontro, contrarie sua própria essência – que as pessoas se encontrem. Mas é claro que isso é apenas um desabafo, porque todos sabemos a distância entre o nosso sonho de paz e a realidade das ruas.

O último dia do ano é hoje. Amanhã voltamos à vida. Por enquanto, o noticiário desta manhã de domingo fala de um policial assassinado com oito tiros numa pizzaria em São Paulo. E de um rapaz que morreu vítima de um raio em Angra dos Reis. O pensamento positivo já começa golpeado, mas vamos tentando.

Quem quer falar de amor? Quem quer mudar, arriscar, investir? Quem quer aprender ou ensinar? Quem quer deixar seu pequeno mundo secreto mais bonito do que ele foi ano passado? Quem quer mais amizades reais e menos likes? Quem quer as boas sensações da vida real em vez dos títulos de capitalização que muitos veem nas religiões? Quem quer o hoje em vez do incerto amanhã? Quem quer palavras materializadas em vez de apenas lançadas ao vento?

Muitas vezes ouvimos na escola: “O homem é um ser gregário”. Tomara que a fantasia tome o lugar da realidade.

Feliz 2016. Sem likes.

@pauloandel

Esquecidos

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O pequeno Aylan foi encontrado morto em uma praia na Turquia. Era mais uma vítima da fuga do terror da guerra. Um refugiado de apenas 3 anos. O mundo chorou. Refugiados na Alemanha e aqui também.

Então veio a lama. Invadiu a cidade de Mariana, em Minas Gerais. Alguns lamentaram, outros ignoraram, os órgãos públicos ficaram imóveis, o Rio Doce morreu.

Aí tivemos um atentado em Paris. Colocaram bandeiras nos perfis do Facebook. A solidariedade tomou conta das redes sociais. Allez le bleu! Esqueceram de Mariana, dos moradores sem água, do Rio Doce, dos índios, da Vale, da lama.

Depois policiais mataram cinco meninos no Rio de Janeiro com 111 tiros. Tentaram forjar auto de resistência. As evidências derrubaram a tese. Tentaram incriminar os garotos. Caiu por terra. Alguns lamentaram, outros ignoraram, os órgãos públicos ficaram imóveis, 111 tiros tiraram 5 jovens negros deste mundo. Panelas não tilintaram nas janelas dos prédios.

Então veio o pedido de Impeachment da presidente. Não falaram mais da lama. Não falaram mais dos meninos. Um deputado corrupto manobrou em causa própria para desafiar o governo.

Em São Paulo surgiu uma garotada de periferia consciente ocupando escolas públicas e pedindo para que não as fechassem. Porrada da PM na molecada. Eles resistindo e ocupando cada vez mais. O governador mandando bater e a galera ocupando. Até que o governador teve que ceder. Saíram do noticiário. E o governador? “Melhor xingar a presidente”.

Aí surgiu uma carta. Em tempos de e-mails, enviaram uma carta. Não falaram do Rio Doce. Não havia Samarco, Vale, BHP, nada. “Garotos? Que garotos?”

Foi assim que chegamos novamente ao deputado. Aquele corrupto que manobrou em causa própria, lembram? Eu sei que lembram. Ele mesmo, com contas na Suíça e Ferrari em nome de Jesus. E os refugiados? “Não sei”. E Minas? Como ficou Minas? “Também não sei”. E Paris? “Putz, esqueci de tirar aquela bandeira do meu perfil. Acho que ficou bonitinha, deixa pra lá”. E aqueles estudantes? “Oi?!” E os garotos fuzilados? “Garotos? Que garotos?” E o impeachment? “Ah tá. Disso eu sei. Fora PT”. Ok.

No fim, basta ser pobre para ser esquecido. O resto a gente lembra com facilidade.

@nestoxavier

Luz

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Em tempos de desesperança, são os alunos paulistas que me trazem algum alento sobre o futuro. Duzentas escolas ocupadas. São milhares de jovens que acreditam na educação como uma forma de evolução, melhoria, ascensão, cidadania, crescimento. São crianças e adolescentes mobilizados, conscientes e dotados do espírito revolucionário, há tanto tempo apagado.

A primeira fagulha de que a juventude brasileira ainda respirava a transformação foi em junho de 2013. Aquelas garotas e garotos que se espalharam pelas ruas do Brasil inteiro reivindicando dignidade foram uma amostra de que não estamos mortos. Ainda há esperança, caros amigos.

Se alguns desses, que hoje se mobilizam, estiverem nos cargos de liderança no futuro, então poderemos acreditar em um lugar melhor para viver. Esse é o medo das lideranças conservadoras atuais. Medo de que esses meninos pobres, porém conscientes, cheguem ao poder de forma legítima.

Manifestações populares lutam por direitos usualmente usurpados. Manifestações burguesas pleiteiam a manutenção de privilégios. Existem por falta de empatia e compaixão. Caso contrário, estariam unidas aos jovens pobres e de classe média baixa que estão se apoderando de um espaço que é deles, para que a força contra o governo paulista fosse ainda maior. Onde estão os alunos das escolas particulares de São Paulo? A escola pública é deles também, mas não sentem dessa forma. Deveriam lutar juntos. Sabemos que os políticos só querem atender as demandas das elites.

Imaginem essas crianças quando forem adultos. Eles vão olhar para trás e verão pelo que lutaram, que ideais os trouxeram até ali e talvez entendam que não haverá outra forma de caminhar, senão por novas estradas. Não podemos perder essa geração. Não podemos. Onde foram parar os jovens de 1992? Quem são hoje os revolucionários de 1968?

O grande medo de quem hoje detém o poder é ter uma massa pensante e com coragem de agir. Os alienados que bradam na internet sem noção do que falam, apenas para espalhar ódio, tornam-se ridículos diante de quem sabe pelo que luta. Estes alienados são fruto da banalização da ignorância que os governantes tanto prezam. São seus eleitores e apoiadores. Os defendem como se fossem seus filhos.

A Educação morre sempre que é tratada como moeda de troca.

Quem se manifesta? Por que manifesta? O que motiva milhares de adolescentes a permanecerem 24 horas por dia em suas escolas? O que motiva aqueles que os apoiam?

É o sentido de pertencimento, de que podem mudar algo que os incomoda diariamente, que o descaso com a coisa pública é o mesmo que feri-los. Quando tomamos consciência de que o “público” se refere a nós e não ao governo, entendemos que cada escola, rua, hospital, ônibus, praça, praia, rio, tudo é nosso. A vigilância é nossa. Nós também somos o bem público.

Aos alunos que ocupam suas escolas unem-se às mulheres que denunciam os abusos sofridos ao longo da vida, aos negros que tomam seus espaços de direito, aos gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros que vivem seu amor, que adotam, se casam e caminham livremente, são os jovens de periferia e seus rolezinhos. É o Brasil que se despe das vestes velhas e assume seu próprio corpo nu e belo.

A suspensão da “reorganização escolar” é a primeira vitória de um movimento legítimo e inédito em nosso país. Quem imaginaria? O povo que ouvia calado as ordens das autoridades, agora os enfrenta de cabeça em pé.

O governador que validou a violência contra estudantes passou a dizer que irá dialogar escola à escola em 2016 para que o processo de “reorganização” seja feito da forma correta (se for). A mudança de postura aconteceu no mesmo dia em que a aprovação de seu governo caiu para apenas 28%. Revisão de conceitos ou jogada de marketing?

Durante 20 anos o partido do atual governador construiu 53 novos presídios, com previsão de mais 20 até o final do mandato. Ao passo que iria, em apenas um ano, fechar 93 escolas e transformá-las em “não-se-sabe-o-que”. Que equação louca, não? Uma escola que foi feita para levar o pobre diretamente para a cadeia, de onde ele irá entrar e sair, em um ciclo que perdurará até o seu fim. Fim este, que costuma ser breve.

A escola precisa de uma reorganização dentro de si mesma. Isso não acontecerá remanejando alunos, unindo ciclos ou fechando espaços. São necessárias mudanças estruturais que visem a formação adequada do indivíduo, da sua transformação em cidadão, da sua visão como ser humano, do seu poder de inserção no mundo. Modernização dos métodos de ensino, humanização dos pensamentos, valorização do professor…é possível? Sim, é.

Quem atira bombas e bate em estudantes e professores mostra que tipo de lição quer dar. Àqueles que estão decidindo os rumos do ensino no maior estado do país fica um aviso:

Estes jovens têm muito a nos ensinar. Calem-se e ouçam. O recado é claro, fácil de compreender. Com menos de duas décadas nas costas, eles sim têm algo a dizer sobre EDUCAÇÃO.

Ernesto Xavier

@nestoxavier

O fim da linha, os fins e o começo

suicida

Alguém escreveu num arremedo de rede social, alguém comentou em seguida.

Alguém cometeu suicídio hoje cedo numa estação do trem quase – ou às vezes – subterrâneo metropolitano do Rio (que não é exatamente metropolitano e que chamamos carinhosamente de metrô, embora a recíproca de carinho esteja longe da realidade).

O comentarista: “Desgraçado! Além de covarde, prejudicou um monte de pessoas”.

A breve análise me fez pensar e pensar. Começando pela segunda afirmação. Afinal, atrasos no metrô, no trem ou em qualquer lugar não estão acima da vida humana. Ou não deveriam estar. É um assunto para debate amplo.

Segundo, a condenação por covardia. Definitivamente, não creio que suicidas sejam necessariamente covardes, pelo contrário: é preciso ter muito peito para acabar com esta vida que temos, por mais que o mundo esteja cada vez mais indo para o ralo da extinção, seja pelas guerras intermináveis, a violência, o estupro da natureza e outros delitos notáveis que vão muito além da chamada ameaça comunista ao planeta Terra.

Um dos maiores atores do teatro brasileiro, Walmor Chagas. Kurt Cobain, o gênio do Nirvana.

Robin Williams, o ator impecável de Hollywood. Hart Crane, o poeta fantástico. E a nossa Ana Cristina Cesar?

Talvez Heath Ledger. Talvez Marilyn Monroe. Talvez Ian Curtis. Talvez Jim Morrison. Uma lista telefônica inteira, isso para falar de famosos admiráveis. E os fantásticos anônimos que nunca conhecemos? Gente honrada, sincera, triste, sofrida cujos nomes jamais saberemos.

Talvez por falta de uma única mão amiga num momento crucial. Talvez pela solidão. O desespero. O cansaço de tanto sofrimento numa terra injusta e cruel. Há muitos motivos.

Uma das pessoas mais corajosas que já conheci cometeu suicídio.

Era um garotinho que, perto dos seis ou sete anos de idade, perdeu os pais por motivos diferentes.

Foi internado num colégio interno e, de lá, sem família, sem dinheiro, veio para o Rio acompanhado do irmão mais velho. Dois órfãos lutadores.

O mais novo conseguiu, a muito custo, entrar para a Faculdade Nacional de Medicina, no meio dos anos 1960, só que havia uma ditadura no caminho que detestava jovens comunistas.

O quase médico apanhou, tomou choque elétrico, ficou surdo do ouvido esquerdo com porrada – “NADA DE ESQUERDA PRESTA” -, conseguiu sair vivo do DOPS e, com a ajuda de um empresário judeu, foi para Israel.

Nunca mais voltou ao Brasil. Dezessete anos depois da surdez, duas mulheres depois, três filhos, dez anos no exército israelense atendendo mutilados diariamente por causa dos conflitos bélicos, quarenta e dois anos de idade, olhou para trás, para a frente, para os lados, não viu nada além do fim da linha e disse adeus.

Um ano antes da morte, caiu em lágrimas quando me ouvir falando ao telefone. Na última vez em que havíamos nos visto, eu não sabia falar absolutamente nada, apenas chorava e ria. Era um Brasil de fuscas na rua, de ame-o ou deixe-o (antes que te matem), de noventa milhões em ação, de ossadas desaparecidas e medo, medo, muito medo. Na hora da ligação, era um Brasil de fome, desemprego e estabilidade da moeda por nove meses. Sabedor de que eu era pobre e sem chances de trabalho num mercado desprovido de vagas, 17 anos, ele me prometeu ajuda para começar a estudar numa faculdade. Meses depois, estive em São Paulo para buscar uma quantia em dólares que me permitiu pagar um ano de curso.

Era meu tio, mas podia ter sido meu pai.

Cresci, vivi, sofri, ainda não achei meu lugar no mundo e hoje, neste 07 de dezembro, véspera das passagens de John Lennon e Tom Jobim, acho que jamais acharei.

Em mais de uma vez, tentei a morte. Era garoto, sem rumo, numa família trucidada por uma enorme perda econômica: o pai adoecido com álcool e drogas, a mãe com diversos problemas de saúde. Liguei o gás e voltei a tempo dois minutos depois. A lucidez salvou minha vida e, por isso, cheguei até aqui onde você me lê. Foi coisa de trinta anos atrás.

Anos depois, com meus pais definitivamente fora de combate, eu cuidei deles, os sustentei, fiz o que pude. Tenho trabalhado muito, estudei bastante, escrevi livros. Tiveram anos confortáveis no fim de suas vidas, pouco diante do que realmente mereciam. A meritocracia não funcionou para eles, que foram embora antes do justo e razoável.

Durante anos, subi trilhas de alguns dos pontos mais altos desta Cidade Maravilhosa, cheia de indiferenças, injustiças e escrotidão, mas de uma beleza enorme a ponto de fazer qualquer ateu cogitar a existência de Deus. E várias vezes eu tive medo de, num passo em falso, sem equipamentos, escorregar para a morte. Quando espio da janela do táxi os morros, rio de medo. Foi coisa de trinta anos atrás.

Passei muitas vezes perto das linhas do suicídio, mas estar vivo por não ter sucumbido a elas não faz de mim alguém corajoso ou melhor do que ninguém, quando mais desta triste pessoa no metrô hoje e de tantos outros por aí. Pode ter sido a minha covardia, ou acreditar que as coisas muito difíceis de acontecer positivamente possam ter a sua chance. Toda vida humana merece apreço – e quando cada uma delas termina pelos erros grosseiros dos outros humanos, aí sim eu me sinto um perdedor nato, um nada.

Quem é mais covarde: um suicida ou um crítico de quem sequer conhecia?

O mundo tem julgamentos demais e solidariedade de menos.

Tudo se perde em cinismo, hipocrisia, indiferença e egoísmo, até o dia em que seremos todos inúteis em caixões mortuários ou fornos crematórios. Entre o começo e o fim, tentemos viver nos esgueirando das lendas do grande liberalismo, das grandes festas e da felicidade virtual.

Agora começa o fim da tarde. Tentarei um momento feliz.

A vida é isso: buscar um pedacinho de alegria no meio da terra estrangeira, ou seja, tudo.

@pauloandel

Privilégios

preto no chão

Eu devia ter uns 12 anos apenas. Fui ao apartamento de um tio, que é branco, em um bairro nobre da Zona Sul carioca. Era aniversário dele e minha avó tinha pedido para levar um bolo de presente. Fui de carro com o motorista. Ao entrar no prédio o porteiro perguntou aonde eu ia. Normal. Disse a ele o apartamento e com quem desejaria falar. Fui autorizado a subir. Já tinha estado naquele prédio outra vez, só que acompanhado da família. Ao me dirigir para o elevador fui interpelado pelo porteiro, que disse que eu não deveria subir por ali, já que ‘o seu elevador é o outro, o de serviço’.

Com meus 12 anos fiquei sem reação. Era isso mesmo? O que estava acontecendo ali era o que tinham me alertado a vida inteira? Subi e meu tio, que já me esperava com a porta aberta, me viu saindo do elevador de serviço, quis saber porque fui por ali e não pelo social. Contei a história. Ele ficou revoltado e queria resolver o problema na hora. Era seu aniversário, eu não queria atrapalhar. Ele ficou muito chateado com o que aconteceu e nem sabia como se desculpar. A culpa não era dele, quis falar. A culpa era da ignorância. Não era vergonha servir alguém. Ser empregado de alguém é totalmente digno. A questão era mais profunda. Usam a separação dos elevadores como um aviso: você não é bem-vindo aqui. Você só pode usufruir deste espaço na condição de serviçal. Gente como você nunca poderá ser morador. Não só o porteiro, mas o sistema já faz essa separação.

Aí me dizem: ‘Agora você só sabe falar disso?’. Na verdade, não. Falo da minha vida, do que vejo, do que sinto. E isso está presente em muitos momentos. ‘Você vê racismo em tudo?’ Também não. Vejo onde ele existe. Vejo em quem o pratica. E quando vejo eu falo, denuncio, abro a boca.

Quando na faculdade eu tive que brigar com um professor que me deu nota muito menor do que todos os outros, sendo que eu tinha feito trabalho semelhante aos outros, fui até a coordenação do curso de comunicação e protestei. Minha nota foi revista e a má fé do professor constatada. Resultado: ele foi afastado do curso. Eu já tinha 19 anos e as porradas que havia tomado até ali me fizeram saber que rumo seguir.

A menina que só ficou comigo porque queria saber como era um preto na cama.

O motorista de táxi que não parou pra mim por medo.

O rapaz da loja que disse que a garrafa de vinho que eu queria comprar era muito cara.

Os policiais que em um espaço de 2 meses me pararam 10 vezes em blitz da Lei Seca, fora as habituais.

O comercial de tv que eu não fiz porque ‘tinha os traços finos e eles precisavam de alguém com cara de pobre’.

As moças caridosas que me deram bolo e salgados para que eu ‘levasse para dividir com meus amiguinhos na rua’.

O policial argentino que em uma fila com mais de 50 pessoas parou apenas a mim e outro rapaz negro para revistar e fazer perguntas ameaçadoras.

Outro policial, só que no Brasil, que insistia que eu era morador da favela, sendo que eu não era. Ele insistia e eu negava. Ele dizia que me conhecia e eu negava.

Eu ainda estou vivo. Não moro no Alemão ou na Maré. Não tenho tanque de guerra na porta da minha casa. Não tenho incursão policial diariamente no meu bairro. Não tenho tráfico de drogas na esquina, nem troca de tiros dia sim e outro também. Não tive meu carro fuzilado. Tive “sorte”. No meio de tantos absurdos tenho que comemorar o fato de ser um “privilegiado”. Pude estudar em bons colégios, fiz línguas, fiz faculdade, viajei, li bons livros, tive orientação familiar, tive um teto. Tive o que a maioria dos meus irmãos não tiveram. Ainda assim o racismo veio me dar boas-vindas. Quando alguém vem me dizer que o problema é muito mais social do que racial, lembro de tudo o que me aconteceu e isso para mim já basta como resposta.

Cinco jovens negros perderam a vida por serem jovens, negros e pobres. Cinco jovens que não ficarão mais do que dois dias nas notícias de jornal. Cinco jovens que comemoravam a conquista de um deles. Cinco pobres a menos. Cinco pretos a menos. Eram negros, pobre, favelados, quem se importa?

Eu poderia não estar mais aqui. Porém ainda tenho como contar a minha história e ajudar outros a falarem das suas. Neste país louco sou um privilegiado.

Quem apenas senta nos próprios privilégios e não olha para outros consegue dormir tranquilamente?

Ernesto Xavier

IG: @ernestoxavier

Aqui está a representação da lógica policial:

Blequefráidei na cabeça!

bleque fráidei

Vamos pulando de galho em galho.

Chega o fim do ano e, com ele, as festas de confraternização. Sim, seremos todos melhores, gostamos uns dos outros, abraços generosos, fica faltando apenas certa sinceridade – para com o outro e nós mesmos.

Todo mundo na expectativa do Natal, do Reveillón, dos grandes churrascos, das festas do URRÚ!  e  tudo que sirva de combustível para seguir na estrada do próximo ano. Marcamos datas, metas, renovamos esperanças mesmo que não haja fundamento. Vai mudar. Vai melhorar.

E então o novo ano virá. Vamos esperar o Carnaval. Os feriadões de abril. O Dia dos Namorados. As férias de julho. Quando percebemos, lá se foi mais tempo, que pode ter sido investido, gasto ou mesmo perdido.

Novidade no calendário desta linda Pindorama de barragens assassinas é a blequefrádei. Última sexta-feira de novembro, grandes magazines dão descontos inacreditáveis e você poderá comprar tudo o que quiser com preços absolutamente convidativos.

Descontos de 70 ou 80%. Sobre o preço reajustado em 70 ou 80%.

A crise fica de lado, ninguém consegue se lembrar mais do horror em Paris ou Mariana. Sobre o casal de moradores de rua incendiados no Rio Comprido? Nem pensar!

Podemos ser felizes por alguns instantes, consumindo maravilhosas manufaturas a preço de banana. Crise é o cacete! O que eu tenho a ver com o desemprego dos outros, se tive méritos e lutei pelo meu esforço graças ao meu talento (leia-se também ter sido bancado pelos meus pais)? A culpa é do governo…

É O GOVERNO…

Qualquer governo…

Daqui a pouco o Rio de Janeiro entra em ritmo de verão, tudo ficará mais lindo, as mulheres são lindas (mesmo), a geografia de parte da cidade – a dos cartões postais – é linda (mesmo) e ninguém vai reparar se os outros lados são abandonados, se a violência come solta nas favelas, se o tráfico é interminável no matar e morrer de um monte de gente, especialmente jovens negros – sem contar as meninas arrancadas de casa para a prostituição forçada, o horror, o abandono, os usuários de crack espalhados em pontos específicos parecendo zumbis.

É Natal, é Reveillón, é Carnaval, é feriado! Por aqui, Olimpíadas também.

Vamos para a blequefráidei. Empenhemos nossos esforços monetários porque este é o sentido da vida oca em que nos metemos nas grandes metrópoles do mundo. Vamos assassinar esta maldição de comunismo! Precisamos ser liberais, pero no mucho – dependendo de cada caso. Sociedade é o cacete, concentração de renda é o cacete!

Os empresários de sucesso em belas reuniões vespertinas com lindas assessoras. Os jovens bem criados envolvidos em alguma nova confusão violenta contra gente cronicamente pobre – ou até mesmo a estupidez chamada estupro. Os políticos que se digladiavam ontem agora trocam abraços e sorrisos complacentes. Os homens das igrejas prometendo o céu à vista ou em suaves prestações – louvado seja deux.

Vamos pulando de galho em galho.

Transportes deficitários, criminalidade em alta, a saúde só existe fora dos hospitais públicos. Se você cair na rua, talvez ninguém perceba. Alguns vão ficar olhando o ballet da morte desenhado nas linhas do teu rosto. Pouca gente entende a derrota da vida quando um morador de rua cai na calçada completamente entorpecido por causa do álcool barato, que lhe corrói às vísceras mas é o único companheiro de uma vida com 24 horas de desgraça diária.

O que importa é a blequefráidei!

Antes que você chore, eu te entendo por isso. Caso possa, ofereça uma pequena solidariedade às minhas lágrimas também. Mas não ligue a TV: alguém vai comemorar a eleição de Macri num exercício de colossal ignorância. Por que, seu esquerdopata de merda? Simples: basta buscar no Gúgol as expressões “Rafa Di Zeo”, “La 12” e outras pérolas populares do football argentino.

Acabei de ler que a UERJ – Universidade do Estado do Rio de Janeiro – foi interditada por alguns dias, em função da INSALUBRIDADE. A mesma querida universidade onde estudei, brinquei, fiz amizades, namorei, aprendi (estudar é uma coisa, aprender é outra) e consegui a profissão que me sustenta até hoje, a mesma que bancou a década final de minha família.

Lá, contávamos as moedas para comer um sanduíche de pão, ovo e salada.

Collor ia salvar o mundo, mas não deu certo.

Éramos infelizes, mas ríamos todo dia e, ao contrário de agora, quando se começa a olhar para trás e se vê que o fim está bem mais próximo do que o começo, havia a promessa de futuro – sem blequefráideis. Velhos alunos daquele tempo agora vociferam que privatizar é a solução da universidade. A hipocrisia é quase tudo.

Um jovem garoto gordinho de óculos caminha solitariamente pelas underground streets de Copacabana e não entende absolutamente nada do que vê, o que faz todo sentido neste mundo de indecifrável confusão. Qual será nossa próxima jogada, senhores? O que importa é a blequefráidei, ora.

@pauloandel

 

 

Aqui e lá

Luaty

Você conhece Luaty Beirão?

O rapper angolano trouxe para nós a luz de que Angola e Brasil tem mais semelhanças do que apenas a língua oficial. Ao se submeter a uma greve de fome que durou 36 dias, um número emblemático, já que representam os anos que o presidente José Eduardo do Santos está no poder, Luaty espalhou pelo mundo a absurda realidade de um povo que viveu sob a guerra civil, que tenta se reconstruir, reinventar, re-significar.

Eram 13 ativistas reunidos em uma livraria discutindo a obra do autor americano Gene Sharp, que escreveu “Da ditadura à democracia”, sobre a ação política de resistência pacífica. Leram bem? Pacífica. Estas pessoas foram acusadas de tramar contra o governo, ou seja, tentar um golpe de Estado. Repito: 13 pessoas desarmadas, um livro, uma ideologia de não-violência. Estes são os “conspiradores” angolanos.

No dia 11 de novembro serão celebrados os 40 anos de Independência de Angola. Aos menos o presidente José Eduardo dos Santos, no poder desde 1979, vai comemorar ao lado de seus confrades.

Aproximadamente 7550 kilômetros separam Brasil e Angola pelo Oceano Atlântico. Pois lá e cá somos mais parecidos do que imaginamos. A começar pela enorme quantidade de negros oriundos da região que foram trazidos para cá, cerca de 1 milhão e cem mil apenas no século XVIII. As duas ex-colônias portuguesas mantém uma aproximação tímida frente ao histórico tão parecido.

Daqui não nos sensibilizamos com as mazelas de lá. Agimos como se fosse um povo desconhecido para nós. E não são. Aqui e lá temos presos políticos e censura. O Brasil tenta disfarçar sua repressão, enquanto Angola escancara para que todos vejam e ainda ri do povo. Difícil dizer qual o pior.

Luaty estudou engenharia na Inglaterra e economia na França. É filho de um ex-aliado do presidente. Cresceu próximo ao governo, mas sempre o contestou. Tornou-se rapper e através de sua música denunciou as arbitrariedades do governo angolano.

Lá um presidente assumiu 4 anos após a independência e é o comandante de uma ditadura que ultrapassa três décadas. Aqui nos tornamos independentes de Portugal para que o príncipe português assumisse o governo, mantendo o sistema monarquista. Aqui, após a ditadura, ainda temos diversos políticos ligados à mesma no poder e um movimento na sociedade que pede o retorno do período de repressão.

Lá mantém presos e em silêncio 15 ativistas além do tempo permitido por lei. Aqui começam a censurar páginas do Facebook e blogs que defendem o feminismo, o movimento negro, a causa LGBT. Os casos recentes de bloqueio de páginas como Jout Jout Prazer e Stephanie Ribeiro a partir de campanhas organizadas por grupos sexistas, homofóbicos e racistas só mostra como um movimento de intolerância vem tomando conta do país. Protestos de professores são tratados com bombas de efeito moral, tiros de bala de borracha, cassetetes. Estudantes que fazem protesto pacífico em São Paulo são presos e acusados de iniciar confusão, mesmo que todos os vídeos mostrem o contrário. Um palhaço é preso por policiais militares enquanto se apresentava para adultos e crianças em uma praça apenas porque falava comicamente da realidade de sua cidade. Ao mesmo tempo que a manifestação em prol do impeachment da presidente é televisionada e protegida pelos agentes policiais (que respondem ao Governo do Estado). Para que voltemos ao regime de censura, violência e prisões arbitrárias das décadas de 60 e 70 não levará muito tempo. Um movimento de ultra-direita, semelhante ao crescimento de políticos com Le Pen, na França, vem crescendo no Brasil. Representantes de ideias fascistas começam a ganhar status de pop stars.

Talvez não conheçamos tanto Luaty e suas ideias, pois estas poderiam soar muito reais para nós. E a quem interessaria um movimento de união massiva pela liberdade de expressão nesse país? A greve de fome é um suicídio lento diante dos espectadores, é o choque entre manter um ideal e perder a vida. Há quem morreria por algo que acredita, como ele, mas para o povo angolano a vida dele é mais importante, pois vivo poderá continuar a falar.

O que Luaty Beirão tem a nos ensinar é que não podemos permanecer impávidos diante do absurdo. Enquanto nos mantemos calados e inertes, a nuvem densa da censura, da tortura, da mordaça e linchamento vai tomando conta de todo espaço. Entre Angola e Brasil temos mais semelhanças que diferenças. Lá e cá apanhamos diariamente. Lá e cá precisamos falar e sermos ouvidos. Lá e cá nos calam.

A liberdade segue sendo um dos mistérios da humanidade.

Ernesto Xavier