Boas festas para quem?

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Em que fim de mundo é esse em que viemos parar?

O contraste das maravilhas contemporâneas embutidas nas novas tecnologias e nos bens de consumo, contrastadas com um planeta onde boa parte das pessoas não tem água, terra, casa e acesso a condições minimamente razoáveis de vida.

Nesta Terra Brasilis em que se plantando, tudo dá – ou daria -, temos vivido perdas e danos. Há quatro anos, é difícil respirar.

Desabrigados no olho do furacão de uma crise econômica, associados a um governo ilegítimo que repercute em todas as instâncias, enlameados pela cólera que vai do vizinho da rede antissocial ao bandido que, outrora, batia a carteira e agora atira na cara, para destruir. Ou de propostas estapafúrdias como a de há pouco, onde se pretende que boa parte dos brasileiros morra sem ter recebido aposentadoria. Ou da cegueira conveniente que não vê problema entre relações de intimidade explícita entre um multi delatado pela Operação Lava Jato e aquele que, em tese, deveria julgá-lo.

Há muitos Brasis num só. E em vários deles, ninguém tem a menor ideia do que está realmente acontecendo. Boa parte dos brasileiros instalados nas metrópoles e capitais passa por situações humilhantes, trabalhos exploratórios, remunerações indignas e pena até para se deslocar, dado que os transportes de massa geralmente são bosta. Depois de horas em pé num ônibus ou trem lotado, o que resta é tomar um banho e desabar na cama – se cama houver – para algumas horas de sono alucinógeno até começar o maldito dia seguinte, torcendo para que a sexta ou o sábado cheguem logo, de modo que a vida tenha algum mínimo sentido lúdico.

Vender o ticket, contar as moedas, pagar as contas com sorte. Alguns serão entorpecidos pelo mundo da fantasia do Jornal Nacional e só.

Mais uma vez, somos vítimas de uma elite poderosa, mas ignara, incapaz de respeitar o próximo e de qualquer sentimento de nacionalidade, disfarçado com as camisas da CBF, com todo o ridículo contido nisso.

Eu poderia estar feliz porque tenho um emprego razoável, trabalho numa sala confortável e refrigerada, consigo fazer minhas refeições prediletos diariamente, compro alguma parte dos livros e discos que me interessam, vivo bem com minha namorada e rimos muito, meu hobby de escritor alegra algumas pessoas e, até onde penso, estou em boas condições de saúde. É, isso me bastaria se eu fosse um idiota egoísta que só pensasse em mim o tempo inteiro. Mas cresci com a lição de que o homem é um ser gregário; logo, não posso achar normal olhar para a calçada da esquina e ver crianças esfomeadas, abandonadas, drogadas. Nem espiar o que ainda resta das bancas de jornal e ver a estupidez da violência por todos os lados – você pode escolher as versões local, nacional ou estrangeira. Tudo isso enquanto a lista nacional de milionários brasileiros aumenta. Na crise? Pois é.

Não falei nem falarei de gente passando por cima da lei, políticos corruptos, cidadãos corruptos, gente inescrupulosa e mais uma antiga lista telefônica inteira de vícios e defeitos.

Já me senti um verdadeiro brasileiro. Hoje, sou um inquilino do fim do mundo.

O Brasil está cada vez mais podre, vitimado por senhores de engenho do século XXI.

E pelo que se lê pelaí, dar o fora não melhora muito a coisa. Um bombardeiozinho, uma guerra, um atentado, uma explosão racista, outra homofóbica.

Desemprego, muito desemprego. Engraçado como odiavam e comemoravam o “fim do comunismo”, mas agora silenciam diante do evidente perfil falimentar da “livre iniciativa” (que nunca foi livre de verdade).

Cresci ouvindo dizer que éramos um país em desenvolvimento. Já se foram quarenta anos. Quando tudo parecia dizer que daríamos um salto à frente, recuamos trinta anos no tempo. Só falta o AI-5 para estorricar tudo de vez.

Dá para falar de Rio de Janeiro? Estado implodido e a Cidade Maravilhosa com suas bombas explodindo no coração do Centro em plena hora de almoço? Pelo menos parece que a turma das facadas deu no pé. Mas que ninguém se iluda: a barra é pesadíssima.

Boas festas para quem?

Em algum lugar do meu coração há 25 anos

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Onde eu estava há 25 anos? Em muitos lugares, com muitas pessoas e sozinho demais. Era diferente demais em tantas coisas, mas tão igual em outras.

O coração do meu Rio de janeiro em 1991 tinha três pilares principais: Copacabana, Centro e Maracanã.

Aquela batalha absurda por emprego quando você tem 22 anos de idade e pensa que é hora de definir o resto da sua vida, quando há vidas e vidas a seguir. Estágio, qualquer coisa que ajudasse em casa e provasse aos seus pais que esforço deles não tinha sido em vão. E que você se esforçou muito também. A cara do coração da cidade.

Copacabana, deusa da noite, com seus errantes, incompreendidos e inusitados cidadãos. A noite dos bares, das deliciosas mulheres de jogo, dos salões cheios de fumaça e, para os mais ousados, da irreverência dos travestis na Avenida Atlântica e do que sobrara da Galeria Alaska. Era um tempo em que eu voltava para casa basicamente para dormir ou papear com meu velho e inesquecível amigo Fred.

Pegar o ônibus às seis horas da manhã na Rua Figueiredo Magalhães e viajar até a UERJ. Ou 434 ou 435. O primeiro tinha o caminho mais charmoso dos transportes coletivos do Rio; o segundo era cartesiano, pragmático.

No último ponto antes do Maracanã, em frente ao Cefet, o fiscal que nós, garotos bobos, apelidamos de “o velhinho mala” – e ele era mesmo. Trancava o coletivo e levava uma semana para anotar os dados da roleta. Nós estávamos ali cheios de vida, loucos para descer na universidade e fazer um monte de coisas, inclusive estudar, enquanto ele trancava tudo. Mas também era um bom amigo: graças a ele, em dias de cansaço e cochilo, ninguém perdia o ponto e passava direto. Demorava tanto que as reclamações do ônibus cheio acordavam qualquer sonolento.

Antes de fincar bandeira no hall da faculdade, você podia contar seus tostões e lanchar em duas cantinas preferidas, da fome, baratas: a do terceiro andar, com seu pão com ovo e salada, ou a do nono, com recheios espertos. Conforme o caso, subia ou descia até o sexto andar.

Querendo alguma aula, quase sempre havia. Caso contrário, podia aprender coisas no grande saguão de bancos amarelos e mesas brancas, acrílicas.

As garotas eram lindas, sorridentes e adoravam quando alguém falava algo diferente naquele Brasil contraditoriamente libertário e careta do começo dos anos 1990: a promessa de futuro econômico que não se alinhava com a realidade do cotidiano. Todo mundo duro. Era o Brasil sem Cazuza mas com Renato Russo ainda voando baixo.

Ficávamos amigos dos calouros após os trotes, ou até antes. Fazíamos festas baratas com música e bebida, o pessoal dançava, ficar era o máximo. Mas nossa especialidade era a conversa fiada: horas, horas e horas falando sobre qualquer assunto legal. Ok, também éramos politicamente incorretíssimos, mas sem a menor maldade no coração. Os nossos piores reacionários nem reacionários eram direito.

Eu, que era diferente de todos os animais da minha espécie, ouvia jazz no walkman. E Kraftwerk também.

Não tínhamos um tostão e batalhávamos, mas ríamos de gol contra, anúncio de obituário publicado por engano, até mesmo um senhor esquisitão que passasse por nós e tivesse o mesmo cabelo desgrenhado que um amigo ali sentado.

Alguém vibrava com a queda do Muro de Berlim, mas nem tinha ideia de que o mundo teria vários muros para sempre.

Uns iam para casa na hora do almoço, outros para seus estágios e empregos. De noite, quase todo mundo voltava porque as reprovações nas disciplinas exigiam turno duplo. Se o Maracanã abrigasse um jogo maneiro, era só descer, ir à bilheteria e em minutos você entrava no verdadeiro maior estádio do mundo.

As festas no DCE eram muito concorridas. Nossas amigas chamadas “Amazonas do Apocalipse” estavam sempre por lá, sedutoras e divertidas. Shows fantásticos e gratuitos na concha acústica e no inacabado teatrão.

Lá pelas onze da noite, eu voltava a Copacabana. Tinha que esquentar a janta, falar baixinho, talvez assistir um pouco de TV. O Jô Soares era fantástico. E sentia uma alegria enorme quando via meus pais vivos, roncando, mesmo com todos os problemas que tínhamos. Dormir já pensando em acordar.

No dia seguinte, tudo outra vez.

Eu acreditava na felicidade coletiva e até na minha particular.

O Brasil ia dar certo e se tornar um dos grandes países do mundo, muito além do nosso maravilhoso futebol, da música, das artes em geral, a arquitetura, muita coisa. Seríamos presença certa na Praça da Apoteose das nações.

Tudo passou tão rápido que talvez nem dê tempo de lamentar o que correu mundo, mas onde ele foi desaguar.

Há muito tempo não converso de graça com tantas pessoas legais numa manhã ou noite. Ou combino viagens sinistras na sexta à tarde para partir à noite.

De toda forma, o smartphone e a internet são grandes avanços. O problema, como sempre, está nas pessoas, onde me incluo. O que foi feito de nós mesmos?

Não havia raiva, ódio, rancor, inveja, futilidades consumistas, autopromoção.

Ainda é cedo?

Nunca mais.

@pauloandel

Mais um novo feriado

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É CLARO QUE já estamos no clima do grande feriado. No coração da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, o fog carioca é uma realidade – e carioca, todos sabem, espera a primeira nuvem gris para colocar casaco, gorro, luvas e cachecol, sem a menor necessidade.

Está frio. Frio mesmo, porque parece que o ano sequer começou. Estamos parados em algum lugar entre o indizível, o nada e o inútil.

O caos do Brasil é tão grande que, entre o golpismo e o disfarce, é possível se deparar com situações hilárias, tal como as piadas advindas do áudio do Senador Jucá, dizendo que o Senador Aécio seria o próximo a ser comido.

O povo não resiste a piadinhas de duplo sentido. E aqui termina qualquer vestígio de graça.

Se o país fosse sério, provavelmente Jucá seria preso da mesma forma que aconteceu com Delcídio do Amaral, o senador cassado recentemente e que, noutros sufrágios eleitorais, obteve grandes êxitos porque as mulheres diziam que ele era um “gato”. Percebem como nada é sério nesta joça de lugar?

Horas atrás, um possível romance gay terminou de forma trágica. Um suposto casal, depois de trocas de facadas, caiu da janela do nono andar do edifício número 598 da rua Figueiredo Magalhães, sistema nervoso central de Copacabana. Poucos sujeitos conhecem tão bem o passado deste respeitável prédio quanto eu: entre 1977 e 1992, nele estive em 363 dos 365 (ou 366) dias de cada ano. Lá morava meu grande amigo Fred; em sua casa fizemos nosso quartel general da adolescência, com direito a ingresso nessa abominável vida adulta – era com demais escutar discos, lanchar sanduíches, jogar cartas, rir e aprender – um amigo usava cocaína – o outro, marijuana – lá passávamos todas as tardes, no décimo terceiro andar. Mas é feriado e logo esta terrível notícia servirá para forrar a gaiola do papagaio ou de um outro parente alado – ou ainda embrulhar ovos na feira.

As pessoas não estão nem aí com a dor do outro. O que importa é a viagem.

Golpe? Crise?

Desemprego? Violência?

Bastou que a Globo aliviasse a campanha em prol de seus interesses particulares – está até o pescoço em dívidas e depende de um governo federal, digamos, mais compreensivo, para que milhões de cordeirinhos colonizados deixassem de lado seus discursos coléricos.

A barra já tinha ficado pesada desde que vimos o show de horrores da Câmara dos Deputados ao vivo por um dia inteiro – foi o suficiente para que ali se estampasse todo o anseio coletivo pela escrotidão adotada por considerável parte dos brasileiros.

Dado o golpe, deram de ombros. O importante era que “acabassem com aquela corrupção”; essa aí de agora, de hoje, quase véspera do feriado, ainda “precisa ser investigada”.  Bonequinhos da velha imprensa calhorda a serviço de grandes interesses econômicos, nem um pouco preocupados com os destinos desta linda e castigada terra um dia chamada de Pindorama.

As ruas estão vazias nas calçadas. As pessoas têm medo. A moda é buscar refúgio nos shoppings recheados de “pessoas brancas de bem”. Céus!

Os aeroportos estão cheios. Não dava para tirar aquela “paraibada” dali?

Toda quarta-feira à noite tem um sonífero na tevê intitulado futebol. Quem consegue ver um jogo inteiro em casa sem dormir é praticamente um herói contemporâneo. Maracanã? Acabou, amigos: é um bananão, é um trombolho erguido no lugar daquele outro estádio que tinha alma, paixão, história, drama, gente. Esse tem visitantes e selfies.

O Rio é uma cidade fantasmagórica às vésperas dos propalados Jogos Olímpicos. Gangues de assaltantes de rua fazem arrastões em vários bairros. Muitas vezes você não vê tais notícias porque a televisão prioriza a cidade de São Paulo, onde você pode ver novos crimes na promoção com um sotaque especial – e todo o reacionarismo de um Datena saltando à tela.

Na entrada principal das grandes magazines do entretenimento, livros-jabá: a editora para para estarem ali, ora por interesse próprio, ora bancada por terceiros. Vale quanto propaga.

Os cafés deram lugares aos bares arrumadinhos, moderninhos, onde as pessoas enchem a cara sem qualquer conversa, troca de ideias ou algo que sugira princípios de fraternidade. No máximo, pegação.

Jornal nas bancas para quê? A internet resolve.

Era Rio, São Paulo e Brasil, mas poderia ser um monte de outros lugares neste mundo cada vez mais excludente, egoísta, cínico e hipócroto, um neologismo que define a fusão das palavras “hipócrita” e “escroto”.

Vamos vivendo. Vamos descansar desta selva, porque ela já volta.

Vem aí um novo feriado. Por que mesmo?

Os mortos nas estradas, contamos depois.

@pauloandel

Adeus, Cirandinha

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Vão caminhando os dias em passos absurdos, tortos e desconexos. Na véspera de um golpe anunciado, a internet é um pombo-correio: alguém te marca, você corre para ver uma informação e se depara com a perda.

Faleceu o Cirandinha, um dos ícones de Copacabana, ao menos bem depois do Bonino’s. Era uma espécie de xodó dos mais velhos do bairro, que nele reviam momentos da adolescência e até da juventude, levados por seus pais.

Sua fama sempre foi a de uma casa de chá. Por isso, a vida inteira teve a frequência de simpáticas senhoras que, em suas mesas, também pediam waffles. Tinha uma pizza espetacular, salgadinhos fabulosos, todo o cardápio era uma ida às nuvens.

Teve como vizinhos a elegante Casa Barbosa Freitas, a Casa Sloper, o cine Art Copacabana e o impecável Metro Copacabana, com seu letreiro de Broadway e um sistema de ar condicionado tão forte que alguns veteranos são capazes de jurar: ao término de uma sessão e a saída dos frequentadores, muitos sentiam a massa de vento refrescante vinda da sala de exibição do outro lado da rua! (exatamente onde ficava a Sloper).

Seu endereço era Avenida Copacabana 719, onde nasceu em 1957. Eu, que cheguei uma década depois, fui lá muitas vezes, mesmo depois de ter deixado Copacabana como morador para sempre – e digo sempre porque, com os preços aviltantes e muitos imóveis claramente fechados em função da lavagem de dinheiro, dificilmente terei como voltar. De toda forma, a vida é um galpão de jogos de azar.

Em certa oportunidade, em 1992, lá estive num começo da noite de domingo com meu amigo Gomão. Tinha voltado da Barra, um tanto desapontado: a mulher da minha vida naquela época estava namorando um outro sujeito. Pedimos uma pizza, refrigerante e o mundo ficou bem. Já trabalhávamos, ganhávamos pouco, mas era o suficiente para ter momentos de desabafo numa das melhores casas da história de Copacabana. Nada como a passagem das épocas para vermos que as verdades de outrora acabam sendo dissipadas pelo vento – os amores passam, passam, tudo passa. O mundo urrava com passeatas de combate à corrupção. Às vezes é bom envelhecer; noutras oportunidades, não.

Mais de vinte anos depois, entre idas e vindas, o Cirandinha foi o local que escolhi para ir com Marina, minha atual namorada, bem no começo da história. Aquele clima de charme, de antigamente, de mesinhas com toalhas brancas impecáveis, hambúrgueres de fino trato. Na entrada, o balcão estilo americano que logo dava o tom do local.

Os mais apressados vão dizer que o Cirandinha morreu exclusivamente por causa da crise, que é mundial e os oportunistas insistem em apontar como exclusivamente brasileira. Nada disso. Acontece que o restaurante sempre foi elegante, tradicional, delicado, ideal para conversas amenas, moderadas e fraternas. Aos poucos, o tempo foi ceifando a amabilidade, o prazer das conversas educativas, a boa sensação gregária e tudo passou a ser apenas futebol – que adoro – e BBB para atrair clientes em todos os bares, tabernas e restaurantes. A elegância – que não precisa andar de mãos dadas com a riqueza pessoal – deu o fora. Nestes anos todos, vi o público do Cirandinha amadurecendo cada vez mais, a ponto de um dos acontecimentos jovens que lá testemunhei ter sido o encontro de meus colegas de ginásio, da Escola Cícero Penna, em 2007 – quando todos estavam às vésperas dos quarenta anos. Numa reunião, percebemos que formávamos a mesa mais jovem do recinto. O mundo mudou, os adultos tornaram-se idosos, as pessoas passaram a sair menos de casa e tomar chá virou quase uma excentricidade. Pior para os tempos.

O Cirandinha, que sobreviveu a tantos percalços da vida brasileira, não resistiu a 2016, que na verdade é um 2015 que ainda não começou, exceto pela visão de inferno que se avizinha e não parece ter fim no horizonte. Eu queria levar Marina lá outra vez. Não será possível.

Um Cirandinha dali, um Teixeira Heizer de lá, Massas Suprema, Rick’s, a lanchonete de rua das Lojas Americanas na Figueiredo Magalhães, o Cine Condor. A Help, o Coruja Bar. Gordon e seu enorme canguru na porta. Tudo passa.

Ainda bem que o Cine Joia, na galeria dos peixinhos, sobreviveu para contar a história.

Louvadas sejam a Galeria Menescal e a Charutaria Lolló.

Copacabana resiste, sabe-se lá até quando.

@pauloandel

Para pensar o que sobrou do Brazil

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Arraial do Cabo – Direção: Paulo Cezar Saraceni

Rocinha 77 – Direção: Sérgio Péo

Os inquilinos – Direção: Sergio Bianchi

Copacabana e Ipanema – Direção: João Paulo Jacobsen

Dançando com o Diabo – Direção: Jon Blair

A feiura da alma

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Era feio. Ou sentia-se feio.

Tudo bem: era feio pra caralho!

Por isso, seu desconforto parecia tão visível e explicava algumas de suas atitudes. Uma arrogância e uma prepotência excessivas. Desde cedo, a feiura lhe doía tanto diante do espelho que precisava criar um personagem para se defender. Ser arrogante era quase um instinto de sobrevivência.

Desengonçado, triste, desprovido de qualquer elegância, sentia-se feio demais e temia as gozações dos colegas da escola, da rua, da quermesse, das quais tinha verdadeiro horror. Num mundo de aparências, sua figura lhe parecia repugnante. Tremia até para pegar um mini hot dog numa festa infantil – “Olha o feioso comendo!”

Em mais de uma noite teve pesadelos ao ser apelidado de Frankenstein. Carregou desde sempre o peso do fardo de seu próprio julgamento. As mulheres o desprezavam, inclusive as que ele considerava feias também, porque o mundo das aparências atira futilidades para todos os lados.

Desconfortável dentro de seu próprio corpo, insatisfeito com a exposição de seu próprio rosto, se pudesse andaria de capuz. Dada a impossibilidade, tentou aprimoramentos intelectuais de modo a ser alguém na vida, alguém que pudesse nutrir a admiração de terceiros e compensar as suas agruras internas. Contudo, sabia de sua condição fake: era um sofisticado das orelhas de livros que não lia por completo. Falava de jazz até a terceira página, tentando constranger interlocutores mais modestos, mas sabendo que não poderia enganar profissionais do assunto. Recitava trechos de poemas, citava autores de nomes decorados. Tudo na verdade era um escudo para aliviar seus temores diante de uma constatação inevitável: a de que nada aliviava seu sentimento sobre a própria feiura. Tinha mais vocações do que propriamente talento. No entanto, poderia ir mais adiante se a obsessão a respeito da estética não lhe tomasse as vísceras, fazendo de tudo a bílis da alma.

Com o advento das redes sociais na internet, pensou que sua baixa autoestima temperada com arrogância o elevaria à condição de uma subcelebridade. Ansiava ser visto, lido, admirado, até desejado, mas num segundo tudo desabava diante de sua tristeza mortal. O espelho era seu cadafalso. Não lhe bastava o sonho de dar autógrafos, nem a tolice de querer ser mais importante do que realmente era. Um formador de opinião ou um charlatão da dialética? Não importava: parecer é muito mais importante do que ser, nestes dias de um Brasil em fúria e derrocadas em torno de seus próprios pés.

Não foi feliz, mas fingiu. Discursou de forma imponente mas ninguém percebeu. Disse as piores coisas de pessoas que sequer conhecia, sem se importar com o ridículo que atraía para si. Às vezes pensava: tudo poderia ser diferente se o espelho não lhe fosse tão lancinante à alma. A feiura era sua própria ditadura a torturar-lhe num pau de arara, a aplicar-lhe eletrochoques na personalidade, tornando-lhe pior do que realmente era. O horror de Brilhante Ustra.

Num sábado pela manhã, pensou na própria morte e chorou. As carnes decompostas, os ossos visíveis e pontiagudos diante da podridão, as peles em destruição, a massa disforme ali numa aquarela da derrota. Tudo ainda era longe demais e fazia parte das certezas inevitáveis de cada um, mas seu monodrama tinha um único foco: o triste dia do futuro, esperado para muito longe, seria o juízo final de sua feiura – dentro de um caixão fétido, seria ainda pior do que já era.

Sentado no sofá, chorou por instantes, e depois se recompôs – não podia fraquejar por nada, quanto mais um pensamento triste.

Mas concluiu que nada, absolutamente nada do que fizesse de bom ou ruim serviria para enganar a si mesmo: a feiura era seu talento inequívoco e permanente, o cartão de visitas. Mesmo que pudesse conseguir brilharecos na internet, constranger pessoas humildes e até ser tolerado pelos mais elegantes enquanto confundia empáfia com sapiência, perdendo precioso tempo que poderia utilizar para ser uma pessoa melhor, não havia frases, textos ou ensaios que se sobrepusessem ao que carregava de mais fútil, desimportante e relativo: o sentimento de não se aceitar como um homem comum nesta Terra onde tudo é efêmero. Queria ser o melhor de todos, o senhor supremo, o almirante da vaidade, mas a porta aberta do armário lhe oferecia uma realidade irrefutável: era feio, feio, feio demais, tão feio que era incapaz de pensar que, caso se tornasse uma pessoa melhor, as aparências seriam pequenas diante da realidade. Mesmo com alguns fãs e até amigos, que perdoavam todo o seu armazém de inconveniências.

Ligou o aparelho de som. O rádio tocava o trio de André Marques, John Pattitucci e Brian Blade. Não havia outra pessoa por perto e isso constituiu alívio: o esnobe declamador de jazz não sabia do que se tratava. Sorriu amargamente.

A pior feiura é a que corrói a alma, a ponto de desintegrar o sexo e os princípios básicos da fraternidade. A vida é muito mais do que uma aparência no espelho, ou diante de terceiros na frieza tecnológica da rede mundial de computadores.

@pauloandel.

Meu amigo que curte o Bolsonaro é meu amigo?

Esta semana, depois do deputado Jair Bolsonaro homenagear o Coronel Brilhante Ustra em seu voto no impeachment de Tia Dilma, o facebook viveu uma mistura de censura com caça às bruxas. Alguém teve a brilhante – perdão pela piadinha – ideia de visitar a página do deputado e lá viu uma penca de amigos seus que seguem a página e as suas publicações. Resolveu então exigir que essas pessoas parassem de curtir o cidadão e suas ideias extremistas sob pena de cortar relações virtuais com os admiradores do milico.

Essa imposição viralizou. Algo entre vinte e trinta amigos meus exigiram isso dos seus amigos. Como sou do contra, confesso que eu, que detesto o cidadão em questão, cheguei a pensar em curtir a página dele, só para ser do contra. Pelo visto não fui o único. Hoje, antes de escrever este texto, fui, pela primeira vez, visitar a página de Bolsonaro. A página teve, esta semana, um acréscimo de 450% em suas curtidas, com o ápice do crescimento justamente na 3a feira, dia em que o “movimento” pelo expurgo cresceu.

Parabéns aos envolvidos. Que sucesso.

Olhei então os 32 amigos que tenho e que seguem a página. Pessoas próximas, muito próximas e dois ilustres desconhecidos. Meus amigos são meus amigos, curtam o raio que curtirem. Tenho amigos flamenguistas, comunistas, petistas e varios outros istas dos quais discordo totalmente.

O problema que essa manifestação anti Bolsonaro está ajudando a identificar é a presença desses dois ilustres anonimos. Gente que é “amiga no facebook” mas de quem sei muito pouco além do nome.

Dentre os meus quase 700 amigos de facebook, certamente uns cinquenta deles são pessoas com as quais não tenho rigorosamente nada em comum. Gente que me pediu que os adicionasse por me conhecer de alguma ocasião social ou de eventualmente ter lido algum dos textos que publico por aqui, ou nos Panoramas Vascaíno e Tricolor. E que o foi. Acontece que eu não conheço essas pessoas direito. Eu não sei absolutamente nada sobre elas e, ao permitir a sua presença em minha timeline, eu as trouxe pra perto.

Então, o espanto com a quantidade de amigos que curtem Bolsonaro nas timelines das pessoas é apenas um consequência do problema verdadeiro: A de adicionar gente desconhecida a um ambiente que deveria ser, em termos, íntimo. Na ânsia de conseguir curtidas e público para suas elocubrações, tem gente que adiciona qualquer um que peça sua amizade. Eis o resultado: um bando de desconhecidos, seguidores das maiores sandices, que está ali pertinho, acompanhando o que você posta sobre seu trabalho, família, interesses…

É como naquela piadinha da transferência do Facebook pra vida real, na qual o sujeito sai pela rua afora berrando para os desconhecidos “Hoje estou feliz!”, “Olha o meu almoço”. Pois é exatamente isso que você está fazendo. Falando com e para estranhos.

Então, muito mais grave do que o seu “amigo” desconhecido seguir Bolsonaro, é ele seguir você. Sugiro, urgentemente, uma revisão das suas amizades virtuais. Como o Bolsonaro mostrou, elas não são tão amigas quanto parece.

Sorria, meu bem! Sorria!

sorria manipulado

A FARSA

Você acreditou na redenção de um país, na pátria livre, no fim da impunidade e da livre corrupção.

E também acreditou que o Brasil já tinha sido bem melhor no passado, com seus castelos de honestidade e praças da apoteose libertária.

Imagino o que tenha sentido nos últimos dias.

O domingo acabou, a segunda passou, a terça continuou e tudo foi ficando cada vez mais claro.

Em nome de Deus e da família, nazistas urraram, safados sorriram e aí foi mais fácil entender o que se passa numa casa de picaretagens.

Talvez você tenha olhado de forma até assustada, embora indevidamente: tudo que aconteceu estava muito claro, bastava querer ver e ouvir.

Dia 21 de abril, feriado de Tiradentes, as pessoas estão mais quietas porque vem um grande feriado na republiqueta, a que nos transformaram nos jornais do mundo todo enquanto aqui, de maneira quase psicodélica, as manchetes ainda tentam criar ilusões que não resistem a trinta segundos de raciocínio isento.

De tanto fazer piadas sobre o Paraguai, o Brasil acabou levando um golpe igualzinho.

Os que lutaram contra a farsa estão muito tristes.

Muitos dos que a apoiaram, conscientemente ou não, agora militam pelo silêncio, o silêncio da vergonha, do constrangimento.

Perceberam que algo de muito errado estava acontecendo. Se havia crime, não seria possível combatê-lo com um sindicato de ladrões. Se havia um mar de erros, a solução não passaria por um exército de gente que tem erros em arrobas.

Se havia o mal, não seria possível combater com o pior.

“Olho por olho, dente por dente” não é algo que funcione para as pessoas de bem.

O filme ainda não acabou, mas os espectadores estão com um tremendo gosto de farsa na boca. Muitos parecem maridos traídos, refletindo silenciosamente onde erraram ou, claro, apontando a própria mulher como uma “vagabunda”. Ecos de pensamentos limitados a 45 graus.

As próximas cenas prometem ser cada vez piores.

E deve ser difícil perceber que se foi passado para trás.

Combater corrupção? Que piada. Alguns dos maiores corruptos do Brasil continuarão livres e com mandato, ou disputando eleições.

Meu amigo, minha amiga, você foi vítima de uma tremenda manipulação!

E tudo isso poderia ter sido diferente se o Brasil tivesse se libertado da Casa Grande,  da escravatura, das ilhas nos shoppings, dos livros em vez da TV.

Agora, a gente não se encontra por aqui.

Querelas do Brasil

QUERELAS DO BRASIL

Não importa mais o que vai acontecer no próximo domingo em Brasília.

Independentemente das visões pessoais sobre o que se convencionou chamar de os dois lados da questão, o Brasil está derrotado.

Qualquer pessoa que tenha noções elementares da História do Brasil sabe de antemão que, odiando ou apoiando o atual Governo Federal, a presidenta Dilma não cometeu crime de responsabilidade que a levasse a um processo de impeachment. E se tiver as mesmas noções, sabe da desgraça que pode ser a inauguração de um governo orquestrado pelo sr. Michel Temer.

Mas a derrota não está aí. Ela vai muito além do que se pode chamar de impeachment legal ou golpe, conforme as divergência.

A verdadeira derrota mora no ódio que explodiu de vez entre os brasileiros. Dividido, o pais está desde sempre entre pobres (99%) e ricos (1%). Todo o resto é atendimento à esta proporção.

Acabou a farsa da cordialidade.

O brasileiro médio (dentro dos 1% ou perto) é hipócrita, mesquinho, egoísta, misturando os piores sentimentos do corporativismo yuppie aos defeitos que se poderia ver numa versão deturpada do caboclo. Tem raiva do pobre. Tem raiva do negro, do veado, do cearense e, se pudesse, mandaria explodir todas as favelas para “limpar o Brasil”. Como não pode, torce ardorosamente para que o Governo pare de “sustentar os pobres de merda”.

Aqui trato do brasileiro médio, não o comum.

O médio é o dos shoppings, dos aviões, dos hotéis, da orla “higienizada”, com horror aos trens lotados, aos centros de comércio, às calçadas cheias de crianças pobres e mendigos, ao Nordeste, às palafitas do Norte.

O brasileiro médio da meritocracia bancada pelos pais, mesmo que depois dos 30 ou 40 anos de idade. É preciso ensinar a pescar em vez de dar o peixe, mas se não der certo, papai paga.

O que se considera “culto” e “inteligente” porque acompanha os produtos da Rede Globo-Time-Life, mantendo distância regulamentar de livros e discos.

O brasileiro médio reclama dos altos impostos, mas naturalmente não os paga. A sonegação está aí a perder de vista.

O brasileiro médio pratica a negação de tudo que não lhe convém, e por isso tem sido chamado de fascista. Propaga ódio, extermínio, exclusão. Acredita piamente que o país pode ser resumido à sua vila, praia ou os centros de consumo que tanto admira.

Em nome da ética contra a corrupção, o brasileiro médio aplaude a impunidade de Eduardo Cunha e outros, delicadamente escondidos das manchetes por ora.

Aconteça o que acontecer, o Brasil está derrotado.

Somos menos injustos com boa parte da população miserável do país se olharmos para meio século atrás, é fato. A tecnologia está ao alcance de muitos. A expectativa de vida subiu, é inquestionável.

No entanto, também somos mais agressivos, beligerantes, desrespeitosos, intolerantes e hostis do que em 1966.

A farsa do “gente boa” já era. Cinco minutos de redes sociais e é possível ler e ver coisas que espantariam até membros da SS.

O Brasil não merece o Brazyl.

O progresso veio, mas a brasilidade está sepultada para sempre.

Voltamos a 1954, com a mesma sociedade indigente de informação e análise crítica, mas nenhuma Bossa Nova, Cinema Novo, TBC, Concretismo, Pelé ou Garrincha voltará para nos redimir.

Nem o Google salva.

E é só.

QUERELAS DO BRASIL

O Brazyl não conhece o Brasil
O Brasil nunca foi ao Brazyl
Tapir, jabuti, liana, alamandra, alialaúde
Piau, ururau, aqui, ataúde
Piá, carioca, porecramecrã
Jobim akarore Jobim-açu
Oh, oh, oh

Pererê, câmara, tororó, olererê
Piriri, ratatá, karatê, olará

O Brazyl não merece o Brasil
O Brazyl ta matando o Brasil
Jereba, saci, caandrades
Cunhãs, ariranha, aranha
Sertões, Guimarães, bachianas, águas
E Marionaíma, ariraribóia,
Na aura das mãos do Jobim-açu
Oh, oh, oh

Jererê, sarará, cururu, olerê
Blablablá, bafafá, sururu, olará

Do Brasil, SOS ao Brasil
Do Brasil, SOS ao Brasil
Do Brasil, SOS ao Brasil

Tinhorão, urutu, sucuri
O Jobim, sabiá, bem-te-vi
Cabuçu, Cordovil, Cachambi, olerê
Madureira, Olaria e Bangu, olará
Cascadura, Água Santa, Acari, olerê
Ipanema e Nova Iguaçu, olará

(Aldir Blanc – Maurício Tapajós)

@pauloandel

Mulheres e a magreza

Li hoje, pela milionésima vez, um texto interessantíssimo escrito por uma mulher sobre a liberdade que ela experimentou quando aceitou seu próprio corpo. Não é a primeira e certamente não será a última.

Pela foto no texto, a dona é um espetáculo. Mas não era para si própria. Tampouco pra suas amigas em busca da barriga negativa.

Há um ponto em comum em todos estes textos que leio sobre o assunto:

A ausência do masculino.

A aceitação que as mulheres buscam não é dos seus parceiros. É das amigas. Das colegas de trabalho. Colegas de malhação. Aposto as minhas calças que a maioria delas têm em casa um companheiro que as elogia, que curte suas gordurinhas – imaginárias ou reais. Mas isso não é, infelizmente, levado em conta. A paranóia se generalizou no mundo feminino e aprisionou as mulheres num universo de dietas insanas, infelicidade constante com o próprio corpo e uma competição sem vencedoras.

A mulher padrão 2016 é esquálida e totalmente depilada.

Você (como eu) gosta de mulheres “ão” e peludas? Problema seu. As mulheres estão tão perdidas hoje em dia que virou grande transgressão deixar os pelos no corpo. Vera Fischer e Adriane Galisteu, entre outras, foram massacradas pela mídia porque ousaram posar para fotos eróticas deixando os pelos em seus devidos lugares. As revistas vendem como sucesso uma magreza doentia, que já fez vítimas mundo afora e que devagarinho vai sendo rechaçada em vários países. Mas não ainda no Brasil.

Incutiram na cabeça das moças que mulher peluda é sinônimo de mulher porca. Já ouvi isso algumas vezes. A pergunta imediata: “Quer dizer que sou porco porque tenho cabelo no suvaco?” é desprezada com um muxoxo por absoluta falta de argumentos.

A mulher não sabe por que se depila. Não sabe por que emagrece ou – pior – pra quem emagrece. E segue pirando cada vez mais em busca de um inatingível nirvana de pelo e ossos.

Moça, será que dá pra parar com isso? Ninguém está te pedindo pra gastar os melhores anos de sua vida tentando ser o que você não é. Arriscar a sua própria saúde por causa de vaidade não faz sentido. A bonitona do texto levou trinta e seis longos anos pra se descobrir. Tomara que você consiga fazê-lo antes disso.

Aqui em casa costumo dizer que gosto de tudo ão. Coxão, peitão, bundão.

Chega de magreza.