A sociedade dos láiques

a sociedade dos láiques

Oh, precisamos ser aceitos de qualquer maneira. O láique, o láique. Sem ele, não leram o que a gente escreveu, não nos viram mais bonitos nas fotos que retocamos, não estão nos reparando direito, não somos ninguém. Sem curtidas, o que fazer da vida?

Oh, céus!

Desde quando apertar ou não um botão eletrônico é chancela ou reprimenda de alguma coisa?

Falo por mim mesmo: algumas das coisas mais legais que vi e li sequer foram de pessoas que tenho como “amigas” na “rede social” Facebook.

Por acaso, quando tenho tempo e o smartphone livre, sendo o dedo no polegarzão. Qualquer coisa de amigos. Textos, sempre leio. Vídeos, alguns. Fotos, muitas fotos, muitas delas de cachorros, então os próprios modelos jamais saberão e fica tudo bem.

Gerencio um blog sobre futebol. Certa vez contrastei resultados de láiques com visualizações. Espantoso: uma publicação com expressivos seiscentos láiques tinha sido visualizado por mil usuários, enquanto outro com míseros setenta tinha sido visto por mais de 50 mil seres da internet. A equação não é linear.

“Ah, ele não me curtiu, é porque não gosta de mim…”

“Ah, se ela está curtindo a foto, é porque está dando mole pra ele…”

“Aquela piranha fica curtindo as fotos do meu namorado…”

“Eu sou foda: todo mundo me curte! Sou formador de opiniaum (sic).”

Mar salgado de bobagens.

Tem o outro lado: o imbecil que só entra para comentar com rispidez, buscando dez segundos de fama pelo choque de ordem. O típico machão de internet que, na vida real, sonha em ser o protagonista de “Priscilla, a rainha do deserto”. Ou o senhor da razão, que sabe de tudo e todos, sempre com aquela velha opinião formada sobre tudo, sem desconfiar que o banho mais demorado da patroa acontece porque… ela está no Whatsapp com um admirador.

Sensacional a crítica ao mundo das virtualidades frívolas feito pelo músico Tiago Iorc em seu quarto álbum, lançado em julho do ano passado com o sugestivo nome de “Troco Likes”.

tiago-iorc

Eis o release:

“O nome do novo disco representa uma crítica velada à atual sociedade, que faz de tudo para ser um pouquinho famosa na era virtual. Um “troco likes” apoiado a uma capa que traz a ilustração que representa Iorc com um sorriso feito forçadamente por prendedores foca na direção do apontar o dedo àquelas pessoas que vivem de falsas aparências, principalmente no meio virtual.

De certo modo esta crítica é abordada logo na primeira música do disco, “Alexandria”, que versa sobre a mania de grandiosidade que todos temos internet afora, buscando sempre uma aceitação vazia e o reconhecimento fácil por coisas banais.”

A fantástica ilustração da capa foi feita pelo artista Nestor Canavarro, com lápis de cor e uma folha de papel.

O láique é simples, direto, fácil e nem sempre significa mais do que realmente é: um oi. Duro mesmo é chegar ao terceiro ou quarto parágrafo sem um único erro crasso de Português, na cruel realidade dos candidatos a superstars de ocasião – que, claro, nem percebem as asneiras que praticam.

Nem vou falar dos autoproclamados “guerreiros” enquanto ali, logo ali, a cada três segundos uma criança morre de fome em alguma parte deste mundo real. Um ilusão à toa enquanto verdades e mentiras são ditas inbóquis, no uátis, no SMS e até mesmo no velho telefonema.

Prefiro o clássico de Rogerio Skylab, 2006:

@pauloandel

O ranzinza polêmico e diferenciado

Mil perdões por este título mequetrefe para este texto. Espero, sinceramente, que o conteúdo supere suas expectativas e você perceba o quão (consegui meter um quão no texto!) diferenciada esta leitura será.

O ranzinza sou eu. Vivem dizendo que reclamo de tudo. Eu rebato com uma de minhas frases favoritas: “pra mim, tá sempre tudo bom!”

A reclamação do momento, que não é uma reclamação, mas uma constatação, é quanto a essas duas palavras. Não há mais adjetivos ou advérbios. Tudo é diferenciado ou polêmico.

Bom, competente, persistente, educado, confiável, inteligente, perspicaz, bonito, feio, alto, magro, gordo, obeso, elegante, atraente, bonitona, burra… A modernidade uniu-se à imprensa para simplificar o vocabulário e transformar todas essas inutilidades em uma única palavra: diferenciado.

É um raciocínio brilhante!

Perdão! É um raciocínio diferenciado.

Houvesse pensado nisso, Aurélio Buarque de Holanda poderia ter suprimido a metade das páginas de sua obra, trocando-as, todas, por essa maravilha de vocábulo. Perdão novamente. Por este vocábulo diferenciado.

Diferenciado: adjetivo; Significado: absolutamente nenhum. Nada.

Por isso todo mundo usa esse neologismo magnífico. Ele serve para políticos, jogadores de futebol, artistas, cervejas, pratos, pizzas, roupas… Exatamente por não significar rigorosamente nada, pode-se falar este termo impunemente, como aquele coringa do baralho, que substitui qualquer coisa. Com isso, vamos empobrecendo nossa língua e caminhando a passos largos para, em um futuro próximo, grunhir uns com os outros.

Este é um assunto polêmico. Esta é a outra palavrinha da moda. Não se faz mais críticas. Não se apontam mais erros. Leis, arbitragens de futebol, marcações de pênalti, medidas provisórias, decisões. Tudo é polêmico, por mais que seja claramente errado. O juiz marcou um pênalti polêmico. No mais das vezes, houve uma marcação absolutamente inaceitável, errada, absurda. Mas o vocábulo “polêmico”, este termo diferenciado, resolve este problema. Diz-se que foi uma marcação polêmica, que o tema é polêmico, e se tira completamente a responsabilidade de emitir uma opinião. Principalmente quando não interessa emitir essa opinião, pois ela é contrária àquilo que se quer fazer acreditar. Então, se embrulha pra presente de forma diferenciada, ou seja, dizendo ser polêmico.

Lacrou?

 

 

A vírgula respiratória

Certamente você tem algum amigo que escreve mal pra cacete. Daqueles capazes de escrever parágrafos inteiros absolutamente incompreensíveis. Trabalhei com um assim tempos atrás. Gente boníssima. Escrevia mal e admitia isso. Sabia lidar com suas limitações.

Todos temos virtudes e defeitos e um dos mistérios da vida é saber lidar com eles. Valorizar o que se tem de bom e minimizar as fraquezas.

Mas para isso, é preciso se ter a tal da autocrítica.

A internet é um bicho muito pernicioso pra essa tal de autocrítica. Em questão de horas você pode passar a pilotar um blog e disseminar suas ideias mundo afora. Influenciar. Ser conhecido e reconhecido. Virar referência.

Isso motiva um monte de gente a escrever sobre os assuntos que domina. O problema é que às vezes a pessoa não domina o português para conseguir verbalizar o que quer dizer. E isso se torna potencialmente perigoso quando não há autocrítica.

Nestes verdadeiros festivais de barbaridades que grassam internet afora, há alguns elementos incrivelmente comuns. Um dos meus favoritos é o que eu carinhosamente chamo de vírgula respiratória.

Grosso modo, a vírgula é uma pausa breve na leitura. Uma interrupção menor que a parada de um ponto. E é óbvio que ponto e vírgula têm utilidades distintas. Quando você lê algo, normalmente a sua pausa para respirar se dá num ponto. E não existe um virgulão e uma virgulinha. Ou seja, o tempo de pausa de qualquer vírgula deveria ser comum a qualquer vírgula do texto. Mas não…

Então que raios é essa vírgula respiratória?

O cidadão começa a escrever uma frase, junta na outra, pensa em outra coisa e emenda tudo om vírgulas, não importa que sejam ideias distintas, ele sai colocando tudo num parágrafo gigante, é como se não houvesse o ponto, tudo é embolado numa única e inacreditável frase que parece que não vai terminar nunca até que ela acaba no ponto final do parágrafo, é inacreditável…

Leia por favor o parágrafo acima. Você vai lendo até que, em uma destas vírgulas, dependendo da sua capacidade pulmonar, acaba o ar. Ai, você será obrigado a inspirar profundamente pra sobreviver ao texto. É isso. Essa, caro leitor, é a vírgula respiratória. Ela é diferente de todas as demais vírgulas do texto pois a pausa que ela provoca é infinitamente maior que as demais.

É ela. A vírgula respiratória. Criada para sua salvação. Sinal inconfundível de pedantismo e semi-analfabetismo.
Corram pras montanhas!