O verdadeiro último dia do ano

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VIVEMOS uma manhã de domingo, cinzenta, de calor moderado. Acabou o ano de 2015, veio um final de semana pela emenda, hoje é um dia de ressaca mental e, com exceção dos estudantes que gozam férias maravilhosas, segunda-feira será dia de trabalhar, ou procurar emprego, e viver o recomeçar na vida na matemática secular de 365 (ou 366) dias, estes geralmente rápidos demais. Muitos trabalhadores também estarão de férias, o que significa ter praias mais cheias e escritórios mais vazios.

Chegou o meio de dezembro e as pessoas estão com seus relógios biológicos botando a língua para fora. Então pedimos arrego, cantamos por um mundo melhor, bebemos drinks e, em algumas oportunidades, os sorrisos felizes das fotografias que vemos não representam a melancolia dos corações imperfeitos. O que parece amor é, na verdade, angústia. Noutros casos, as pessoas mais importantes não estão em qualquer foto.

Depois deste domingo de folga, amanhã teremos a volta ao batente com todas as suas representações: stress, engarrafamentos, arrastões, zumbis de crack, falta de tempo, impessoalidade, terríveis notícias jornalísticas. O país a penar, o Estado a penar e esta bela Guanabara com todas as suas mazelas varridas para debaixo do tapete, porque o que importa são os equipamentos urbanos, a festa olímpica e as aparências.

Tomara que aqui, e em outros lugares do Brasil – do mundo também -, role menos egoísmo e indiferença. Menos violência, menos mortes estúpidas, menos desamor. Que a vida, essa arte do desencontro, contrarie sua própria essência – que as pessoas se encontrem. Mas é claro que isso é apenas um desabafo, porque todos sabemos a distância entre o nosso sonho de paz e a realidade das ruas.

O último dia do ano é hoje. Amanhã voltamos à vida. Por enquanto, o noticiário desta manhã de domingo fala de um policial assassinado com oito tiros numa pizzaria em São Paulo. E de um rapaz que morreu vítima de um raio em Angra dos Reis. O pensamento positivo já começa golpeado, mas vamos tentando.

Quem quer falar de amor? Quem quer mudar, arriscar, investir? Quem quer aprender ou ensinar? Quem quer deixar seu pequeno mundo secreto mais bonito do que ele foi ano passado? Quem quer mais amizades reais e menos likes? Quem quer as boas sensações da vida real em vez dos títulos de capitalização que muitos veem nas religiões? Quem quer o hoje em vez do incerto amanhã? Quem quer palavras materializadas em vez de apenas lançadas ao vento?

Muitas vezes ouvimos na escola: “O homem é um ser gregário”. Tomara que a fantasia tome o lugar da realidade.

Feliz 2016. Sem likes.

@pauloandel

Boas festas (“o importante é ser feliz…”)

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Acabou mais um ano. No verão fumegante de dezembro, as pessoas falam do Natal e do Ano Novo. Fé, amor, esperança, até solidariedade.

Os shopping centers estão lotados. A crise não é para todos. Cada produto, cada objeto, cada nota fiscal e a certeza de que o importante é ser feliz(?).

Gente indo e vindo em estradas para viagens num feriadaço.

Supermercados abarrotados. Precisamos comer de tudo, é uma maneira de celebrar o aniversário de Jesus Cristo. Quem foi que inventou isso mesmo?

Antigamente os pobres garotos pretos esmolavam pelas ruas do Rio, sempre desprezados. Depois de décadas ignorando a dor de seus pobres, a cidade testemunha agora a terceira geração de miseráveis, que passou a usar paus e pedras contra os transeuntes, tudo temperado com crack na cabeça. Conservadores berram pelos choques de ordem, cujo histórico de fracassos desde fins dos anos 1950 é uma realidade inquestionável.

Daqui até março, o Rio é uma orla compreendida entre Copacabana e Leblon, com breve escapulida para o Sambódromo nos dias de ensaios técnicos e desfiles oficiais. O importante é ser feliz. O resto que se dane, incluindo 98% da cidade.

Fala-se de sonhos, planos, ideias, um novo mundo, mas a verdade é que a sociedade é conservadora demais para mudanças capazes de realmente transformar a vida de todos.

Revoga-se todas as lembranças das bandas das balas perdidas, das famílias destruídas, dos fuzilamentos covardes, do enxugar gelo nas ações contra o tráfico. O importante é ser feliz, então não dá para lamentar a dor do outro.

Vem aí mais uma grande farsa do futebol na TV. Vamos comprando o discurso e, ao se olhar para o campo, nada é parecido com o que já vimos um dia.

Façamos o censo do racismo virtual brasileiro. Discutamos a dona que traiu o marido no motel como se fosse um acontecimento assustador. Torço para que Oscar Maroni ridicularize o assunto.

Por causa da carteirinha, nossos grandes e pequenos shows têm ingressos de 500 ou 800 reais. Aplicando 50% de desconto sobre o preço de venda, mais um pouquinho de intimidade com a Matemática e logo se percebe que o problema não é a carteirinha.

Vai ter retrospectiva do ano na TV. Prestando atenção, acaba sendo igualzinha à do ano anterior. Guerras, mortes, perdas, inflação, futuro?

O grande assunto desta segunda-feira é o erro do apresentador do Miss Mundo, anunciando a vencedora errada. Oh, céus! E também o mar de lixo no entorno do Museu do Amanhã. O brasileiro – e em especial o carioca – tem uma irresistível vocação para a hipocrisia.

A França tem medo, a Espanha vive a tensão pós-eleitoral, a virada de mesa no Brasil não deu certo. Os batedores de panelas e os vociferadores da frase “Vai pra Cuba!” estão definitivamente sem rumo. Na Venezuela, a manipulação bolivariana da eleição resultou… na vitória da oposição.

Oxalá não aconteça nenhuma enxurrada assassina nas tempestades de verão, e que nem tempestade aconteça. Mariana, who cares?

Boas festas. Afinal, o importante é ser feliz. Mas será possível para quem tem mínima consideração para com o próximo?

Vem chegando o verão, mas somente para poucos.

@pauloandel

Esquecidos

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O pequeno Aylan foi encontrado morto em uma praia na Turquia. Era mais uma vítima da fuga do terror da guerra. Um refugiado de apenas 3 anos. O mundo chorou. Refugiados na Alemanha e aqui também.

Então veio a lama. Invadiu a cidade de Mariana, em Minas Gerais. Alguns lamentaram, outros ignoraram, os órgãos públicos ficaram imóveis, o Rio Doce morreu.

Aí tivemos um atentado em Paris. Colocaram bandeiras nos perfis do Facebook. A solidariedade tomou conta das redes sociais. Allez le bleu! Esqueceram de Mariana, dos moradores sem água, do Rio Doce, dos índios, da Vale, da lama.

Depois policiais mataram cinco meninos no Rio de Janeiro com 111 tiros. Tentaram forjar auto de resistência. As evidências derrubaram a tese. Tentaram incriminar os garotos. Caiu por terra. Alguns lamentaram, outros ignoraram, os órgãos públicos ficaram imóveis, 111 tiros tiraram 5 jovens negros deste mundo. Panelas não tilintaram nas janelas dos prédios.

Então veio o pedido de Impeachment da presidente. Não falaram mais da lama. Não falaram mais dos meninos. Um deputado corrupto manobrou em causa própria para desafiar o governo.

Em São Paulo surgiu uma garotada de periferia consciente ocupando escolas públicas e pedindo para que não as fechassem. Porrada da PM na molecada. Eles resistindo e ocupando cada vez mais. O governador mandando bater e a galera ocupando. Até que o governador teve que ceder. Saíram do noticiário. E o governador? “Melhor xingar a presidente”.

Aí surgiu uma carta. Em tempos de e-mails, enviaram uma carta. Não falaram do Rio Doce. Não havia Samarco, Vale, BHP, nada. “Garotos? Que garotos?”

Foi assim que chegamos novamente ao deputado. Aquele corrupto que manobrou em causa própria, lembram? Eu sei que lembram. Ele mesmo, com contas na Suíça e Ferrari em nome de Jesus. E os refugiados? “Não sei”. E Minas? Como ficou Minas? “Também não sei”. E Paris? “Putz, esqueci de tirar aquela bandeira do meu perfil. Acho que ficou bonitinha, deixa pra lá”. E aqueles estudantes? “Oi?!” E os garotos fuzilados? “Garotos? Que garotos?” E o impeachment? “Ah tá. Disso eu sei. Fora PT”. Ok.

No fim, basta ser pobre para ser esquecido. O resto a gente lembra com facilidade.

@nestoxavier

A hiperinflação das passeatas

passeatas superfaturadas

Ontem (13/12), como sabido, dezenas de milhares de brasileiros, de forma justa, legal e democrática – o que não quer dizer que seus argumentos também sejam – foram às ruas de cidades brasileiras para pedir o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Como sempre acontece, em eventos desse porte surgem todos os papagaios de pirata que se pode imaginar, tais como defensores da “volta à ditadura”, admiradores do nazifascismo e outras aberrações mentais, aproveitando-se da organização de terceiros para poderem expor seu, digamos, ideário – se não o fizessem, não juntariam cinquenta pessoas num botequim.

Qualquer expectador minimamente íntimo das operações fundamentais de cálculo tem plena certeza de que, desde que o país foi paralisado pela incapacidade da oposição em reconhecer sua derrota eleitoral, este foi o momento mais esvaziado de todos. Por vários motivos que, particularmente, não debaterei aqui, exceto dois que não permitem silêncio: primeiro, a tentativa de virada de mesa em se tentar classificar as chamadas “pedaladas fiscais” como crime de responsabilidade, o que é mais ou menos como tentar enquadrar alguém que pega bala de graça das Lojas Americanas como um traficante do PCC – subversão da Constituição Federal. Em segundo, óbvio, o pedido de impedimento articulado por um presidente da Câmara que, noutras circunstâncias, já teria perdido o mandato e começado a responder pelas questões de evasão fiscal que notoriamente praticou, denunciado internacionalmente, usando o cargo para defender a si mesmo e seus parceiros.

Vamos ao que interessa: mais uma vez, os noticiários colocaram seus tanques informativos na rua, de modo a criar mais um factoide na vida brasileira. Primeiro, a impressão de uma grande manifestação é combustível para a audiência televisiva. Segundo, os principais meios de comunicação do país têm interesse direto na casa: possuem enormes rombos fiscais, o caixa está minguando e, se não houver um governo menos receptivo às generosas ajudas destinadas aos sofridos empresários do setor, a vaca irá para o brejo de verde e amarelo – sem passeatas.

Só que o factoide não deu pé: somadas, em qualquer conjunto que se imagine, as passeatas deste domingo não reuniram nem de perto 100.000 pessoas nas grandes capitais, o que equivale a 0,09% dos 105.542.273 brasileiros que votaram validamente no segundo turno das eleições presidenciais de 2014. Se levarmos em conta apenas os eleitores que votaram no candidato Aécio Neves, cujo partido é o organizador enrustido das passeatas, são 0,19% de um total de 51.041.155. Portanto, o protesto é absolutamente legítimo, embora careça completamente de representatividade popular. A julgar pelos números, Aécio se saiu muito mal.

Deixada essa turbulência para lá, a graça está num detalhe que se torna cada vez mais perceptível: a enorme diferença entre as estimativas da presença de público, quando comparadas nas declarações dos organizadores, dos institutos de pesquisa e da Polícia Militar, como se a exatidão matemática ou mesmo a precisão estatística pudessem oferecer três resultados diferentes de um mesmo universo.

Deu no jornal:

  • Em São Paulo, o Datafolha cravou 40 mil presentes. A PM, 30 mil. Os organizadores, 80 mil;
  • Em Brasília, a PM apontou 6 mil presentes. Os organizadores, 30 mil!
  • Em Belo Horizonte, a PM apontou 3 mil presentes. Os organizadores, 6 mil;
  • Em Porto Alegre, 700 para a PM, 3 mil para os organizadores;
  • Em Recife, os organizadores estimaram entre 500 e 1000 manifestantes;
  • Em Salvador, a PM estimou 500 manifestantes, enquanto os organizadores aferiram 2 mil.

Como se pode perceber, a amplitude das estimativas aqui apresentadas oscila entre 100% e 400%, às vezes, na conta dos próprios organizadores. Matematicamente, é um absurdo completo. Hiperinflação é pouco.

Não é razoável imaginar que as estimativas da PM, e até mesmo do Datafolha, no caso da Pauliceia, possam ter sido enviesadas de modo a favorecer os defensores do atual governo. Contudo, não se conhece as formulações científicas que embasam os resultados divulgados.

A dobra, tripla ou mais construída pelos organizadores do evento Brasil afora não se sustenta em simples inspeção visual.

A televisão, sempre ela, joga as informações controversas e “confia na inteligência do espectador”. Ou o confunde. Divulga fotos em close para fingir aglomerações muito maiores do que as que realmente aconteceram. Ontem, foi obrigada a recuar devido ao enorme ridículo entre as chamadas de matéria e o que se via nas telas – ninguém transmitiu os eventos ininterruptamente.

Então recorreram a um expediente do realismo fantástico: não se tratava de passeatas, mas de um “esquenta” para os novos desdobramentos políticos a seguir. Se a moda pegar por aí, teremos dois ou três réveillons em Copacabana antes de 31 de dezembro e duas passeatas LGBT na Avenida Paulista antes da “oficial”.

Mais adequado, no caso, seria esquentar os números das passeatas, informando o público leitor com correção e fidedignidade. Frios, opacos, eles sugerem a curiosa hiperinflação, chute e a lembrança de um dos maiores males da vida cotidiana brasileira: o superfaturamento.

Nem os dados matemáticos dos combatentes da corrupção escapam.

 

As pessoas simples

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Desde garoto, sempre gostei das pessoas mais simples. Fui facilitado por ser filho de dois perfeitos exemplares desta espécie cada vez mais rara na tierra onde restaurante virou gastronomia e você paga quatro vezes mais por uma salada de frutas no chopicênti, tudo em nome da sofisticação (sic).

O porteiro, o moço da feira, da banca de jornais, da padaria. O camelô. O moço do conserto da geladeira, o pintor. A moça da lanchonete. O entregador de bebidas.

Pouca gente presta atenção na importância destas pessoas em qualquer país, ainda mais no nosso, cheio de doutores, pessoas cheias de dedos para quaisquer assuntos e o velho chavão VOCÊS SABEM COM QUEM ESTÁ FALANDO?

Nos tempos da UERJ, meu ídolo era o Carlinhos, ascensorista querido, com voz e jeito peculiares, sempre muito religioso e simpático, tratando bem a todos. Havia também um senhora, portuguesa, que vendia salgadinhos nos corredores para ajudar a pagar o tratamento do filho. Era a “Salgadins”, com sotaque lusitano. Trabalhadora, digna, dedicada, às vezes era vista nos corredores da universidade às seis e meia da manhã.

E de tanto gostar das pessoas e coisas simples, nunca dei muita atenção para o dinheiro, até porque o tenho em pequenas quantidades, mas suficientes para uma vida confortável antes que a velhice me tome de vez. Nunca me preocupei com luxo algum, visito lugares simples, gosto de bares simples, gente simples. Meus gastos são poucos: livros, discos, chopes. Às vezes, de três em três anos, compro um lote de roupas para os próximos sete ou oito seguintes. Um par de tênis por ano. Nenhuma marca, por favor. Ah, um bermudão da Taco por ano também.

Não tenho carro, casa própria, computador, nenhum bem. Não tenho joias, relógios caros, objetos requintados, nada. Minha casa é uma bagunça, mas limpinha: quatro mil CDs – ou três – num espaço de mil e quinhentos. Sobras da minha loja que acabou e mais uma coisinhas que compro a cinco ou três reais. Meu último luxo foi um celular que comprei em 2013, agora já acabado e velhíssimo, que eu uso para conversar com as pessoas que insistem em ser distantes e escrever – meu livro mais recente foi todo escrito nele. Há vinte anos corto o cabelo com minha própria máquina, eu mesmo testando a simetria no espelho, devo economizar uns 30 reais por mês. Sete mil e duzentos mangos de poupança, devidamente gasta em coisas que não sei dizer mas desconfio.

De folga, invariavelmente uso chinelos de dedos, camisa larga e bermuda. Folga é toda vez que estou fora do escritório. Alguns taxistas não me aceitam como passageiro: um deles explicou que os demais não gostam de pegar passageiros de… chinelos.

Apesar de ter passado por quatro faculdades e um mestrado, só concluí um único curso superior, às custas de muito sacrifício e ajuda dos meus pais – o resto ficou pela metade, o mestrado não tinha bolsa na grande era FHC e eu precisava trabalhar para comer e pagar aluguel. Felizmente, tempos depois comecei a ganhar um bom salário e pude ajudar o pai e a mãe também. Morri de rir outro dia de um rapaz, desses, deslumbrados, ostentando seu MBA (pago). O sujeito que se acha superior porque tem dinheiro para pagar um curso. O que que é essa gente tem na cabeça que não seja caldo Knorr estragado? E o que adianta cursar um MBA se você não consegue escrever um único parágrafo com quatro linhas minimamente legível, coerente e SEM erros de português?

Enquanto estiver por aqui, quero é fazer o bem, ver as pessoas simples, torcer para que o mundo seja menos filhadaputa com quem mais sofre pelos arredores. Quando somos crianças, qualquer bolinha já deixa uma criança feliz. O cão de estimação fica louco com um novo brinquedo barato. Por que pensamos tanto em dinheiro, poder, vaidade e pose? É tudo tão inútil na hora das exumações.

Daqui a pouco eu vou desligar o computador do trabalho e sair. O rapaz da banca de frutas estará empacotando as coisas para terminar o expediente. A menina da banca de jornais, grávida, descendo o portão. O pessoal da padaria é sempre simpático. Ao chegar à portaria, o Paulo vai me tratar bem demais – ele foi uma das pessoas que ajudou a tirar o corpo da minha mãe de casa, o que mais posso dizer?

Perdemos tempo demais com aparências, posses, egoísmos, derrubar governos rasgando a lei, roubar, matar, ter poder, enquanto o mundo só pode ser sorvido de verdade quando prestamos atenção nas coisas e pessoas simples. Pesquisem sobre a vida de Pixinguinha pra ver.

@pauloandel

Luz

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Em tempos de desesperança, são os alunos paulistas que me trazem algum alento sobre o futuro. Duzentas escolas ocupadas. São milhares de jovens que acreditam na educação como uma forma de evolução, melhoria, ascensão, cidadania, crescimento. São crianças e adolescentes mobilizados, conscientes e dotados do espírito revolucionário, há tanto tempo apagado.

A primeira fagulha de que a juventude brasileira ainda respirava a transformação foi em junho de 2013. Aquelas garotas e garotos que se espalharam pelas ruas do Brasil inteiro reivindicando dignidade foram uma amostra de que não estamos mortos. Ainda há esperança, caros amigos.

Se alguns desses, que hoje se mobilizam, estiverem nos cargos de liderança no futuro, então poderemos acreditar em um lugar melhor para viver. Esse é o medo das lideranças conservadoras atuais. Medo de que esses meninos pobres, porém conscientes, cheguem ao poder de forma legítima.

Manifestações populares lutam por direitos usualmente usurpados. Manifestações burguesas pleiteiam a manutenção de privilégios. Existem por falta de empatia e compaixão. Caso contrário, estariam unidas aos jovens pobres e de classe média baixa que estão se apoderando de um espaço que é deles, para que a força contra o governo paulista fosse ainda maior. Onde estão os alunos das escolas particulares de São Paulo? A escola pública é deles também, mas não sentem dessa forma. Deveriam lutar juntos. Sabemos que os políticos só querem atender as demandas das elites.

Imaginem essas crianças quando forem adultos. Eles vão olhar para trás e verão pelo que lutaram, que ideais os trouxeram até ali e talvez entendam que não haverá outra forma de caminhar, senão por novas estradas. Não podemos perder essa geração. Não podemos. Onde foram parar os jovens de 1992? Quem são hoje os revolucionários de 1968?

O grande medo de quem hoje detém o poder é ter uma massa pensante e com coragem de agir. Os alienados que bradam na internet sem noção do que falam, apenas para espalhar ódio, tornam-se ridículos diante de quem sabe pelo que luta. Estes alienados são fruto da banalização da ignorância que os governantes tanto prezam. São seus eleitores e apoiadores. Os defendem como se fossem seus filhos.

A Educação morre sempre que é tratada como moeda de troca.

Quem se manifesta? Por que manifesta? O que motiva milhares de adolescentes a permanecerem 24 horas por dia em suas escolas? O que motiva aqueles que os apoiam?

É o sentido de pertencimento, de que podem mudar algo que os incomoda diariamente, que o descaso com a coisa pública é o mesmo que feri-los. Quando tomamos consciência de que o “público” se refere a nós e não ao governo, entendemos que cada escola, rua, hospital, ônibus, praça, praia, rio, tudo é nosso. A vigilância é nossa. Nós também somos o bem público.

Aos alunos que ocupam suas escolas unem-se às mulheres que denunciam os abusos sofridos ao longo da vida, aos negros que tomam seus espaços de direito, aos gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros que vivem seu amor, que adotam, se casam e caminham livremente, são os jovens de periferia e seus rolezinhos. É o Brasil que se despe das vestes velhas e assume seu próprio corpo nu e belo.

A suspensão da “reorganização escolar” é a primeira vitória de um movimento legítimo e inédito em nosso país. Quem imaginaria? O povo que ouvia calado as ordens das autoridades, agora os enfrenta de cabeça em pé.

O governador que validou a violência contra estudantes passou a dizer que irá dialogar escola à escola em 2016 para que o processo de “reorganização” seja feito da forma correta (se for). A mudança de postura aconteceu no mesmo dia em que a aprovação de seu governo caiu para apenas 28%. Revisão de conceitos ou jogada de marketing?

Durante 20 anos o partido do atual governador construiu 53 novos presídios, com previsão de mais 20 até o final do mandato. Ao passo que iria, em apenas um ano, fechar 93 escolas e transformá-las em “não-se-sabe-o-que”. Que equação louca, não? Uma escola que foi feita para levar o pobre diretamente para a cadeia, de onde ele irá entrar e sair, em um ciclo que perdurará até o seu fim. Fim este, que costuma ser breve.

A escola precisa de uma reorganização dentro de si mesma. Isso não acontecerá remanejando alunos, unindo ciclos ou fechando espaços. São necessárias mudanças estruturais que visem a formação adequada do indivíduo, da sua transformação em cidadão, da sua visão como ser humano, do seu poder de inserção no mundo. Modernização dos métodos de ensino, humanização dos pensamentos, valorização do professor…é possível? Sim, é.

Quem atira bombas e bate em estudantes e professores mostra que tipo de lição quer dar. Àqueles que estão decidindo os rumos do ensino no maior estado do país fica um aviso:

Estes jovens têm muito a nos ensinar. Calem-se e ouçam. O recado é claro, fácil de compreender. Com menos de duas décadas nas costas, eles sim têm algo a dizer sobre EDUCAÇÃO.

Ernesto Xavier

@nestoxavier

Cidade maravilhosa!

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DIANTE DESTE belo cenário intitulado vida, aqui estamos a acompanhar as cousas do Brasil como se tudo fosse uma novelinha entre o bem e o mal, parecendo a mais rasa das análises que se possa fazer.

Esta grande capital, que um dia foi mãe da República, é abarrotada pela brava gente brasileira, a mesma que sua, trabalha, luta com toda dignidade e é exposta a violências, estupros, roubos, assassinatos, canetadas políticas, imprensada em coletivos cheios, vagões malcheirosos, estradas sem fim. Sempre explorados, agredidos na alma, chicoteados.

Outra gente ladra, uiva, ameaça, expõe seus preconceitos mais nojentos, sua sede interminável de poder e fascismo, o autoritarismo nas alturas. Sem entenderem um pingo de livros e discos, sorriem quando o poeta canta “os guardanapos estão sempre limpos/ as empregadas uniformizadas/ são caboclos querendo ser ingleses”. Então desfraldam a bandeira da ignorância absoluta.

Soldadinhos de merda escrevem nos jornais, vociferam nas televisões, gritam nos microfones das rádios. Não lhes basta viagens para Miami, os passeios fúteis pelo Village Mall, o traje esporte fino no Teatro Municipal sonhando com um Teatro Nacional.

FAZENDO das redes sociais o esgoto da alma. Perseguir deficientes, pretos, gordos, pobres e não tem a menor importância se um carro com jovens pretos é fuzilado porque eles estavam perto de uma favela, e aqui é assim mesmo.

Uma mulher de voz firme canta que veio do fim do mundo. E é o fim do mundo mesmo.

Enquanto isso, o desaparecimento das vigas da Perimetral celebra aniversário. Com direito a bolo, festa e velinhas. Ninguém se lembra de Silveirinha, nem Jorge Mirândola – em Brasília -, nem a morte de Leon Eliachar. NÓS NÃO LEMBRAMOS DE NADA! A vida é para se viver, não propriamente pensar. Quem fim levou Hildebrando, o assassino da serra elétrica?

A explosão do restaurante na Praça Tiradentes com os cadáveres em pleno voo da morte? Os últimos acenos da mão decomposta à janela do edifício Andorinha, rua Almirante Barroso – o país parou para ver seus mortos de fogo -, que virou um grande prédio do petróleo – e alguns funcionários juram que já ouviram gritos e uivos no elevador.

A pútrida gente há meio século é lacaia da Rede Globo e de seus interesses que vão pela contramão do povo brasileiro. Há os remunerados, os que querem ser remunerados e os voluntários otários, naturalmente. Ninguém percebe a distância de Paulo Francis e Tristão de Athayde, Nelson Rodrigues e outros para estes Mainardis, Jabores e outras porcarias de ocasião.

Tem música, mas não escutamos. Bons livros, não lemos. A conversa de bar, aprendizado de vida, está resumida a tiroteios verbais pelo Facebook.

Em 2015 ainda somos ameaçados pelo racismo, pela homofobia, pela escassez de água, de luz, de reflexão e pensamento. Uma semana depois e Mariana não tem a menor importância. O atentado de Paris também. Vamos falar do Rio, o Rio é que importa, ele está fodido!

Você passa pela Avenida das Américas e num muro branco vê um pouco de capim à frente da pintura com tinta outrora vermelha, agora desbotadíssima, onde se lê “Associação dos Adquirentes da Torre H”.  Bem antes disso, no belo caminho para o Joá, o motel Vip´s tem uma das vistas mais belas da Terra – e ninguém pode entender o que passou na cabeça de um louco para jogar Leila Cravo pela janela.

O Rio ainda tem oxigênio nos poucos botequins que sobraram, na leveza do Bairro Peixoto e dessa garotada corajosa que, depois de ficar por anos e anos a fio sofrendo a vergonha de esmolar dinheiro para o ensino, ocupou a querida UERJ. Quando foi preciso invadir a Assembleia Legislativa em 1989 para garantir o repasse de 6% da verba do Estado, eu era um garoto cheio de sonhos: taquei pedra, explodiram bombas de gás lacrimogêneo e minha mãe jamais desconfiou de que eu pudesse ter sido um terroristazinho de meia pataca, nem que fosse por um dia, para honrar a história do meu tio, que lutou para este lugar ser livre da ditadura, mas acabou morrendo no exílio. De toda forma, pagaram os 6% por algum tempo.

E, se chegou até aqui sem se indignar com a derrocada do Rio, o fuzilamento dos garotos, Mariana, Paris, a esmola da UERJ, os garotos feito zumbis do crack nas ruas, a morte do garotinho do Alemão e outras pitadas, que tal você dar o fora daqui? QUE TAL VOCÊ DAR O FORA DAQUI? Eu não quero monstros, apenas passarinhos voando numa praça sem grades, vendedores de pó e malfeitores.

Queria mesmo era voltar no tempo. Mas é impossível. A vida deixa escorrer suas lágrimas de fracasso. Cidade Maravilhosa!

Privilégios

preto no chão

Eu devia ter uns 12 anos apenas. Fui ao apartamento de um tio, que é branco, em um bairro nobre da Zona Sul carioca. Era aniversário dele e minha avó tinha pedido para levar um bolo de presente. Fui de carro com o motorista. Ao entrar no prédio o porteiro perguntou aonde eu ia. Normal. Disse a ele o apartamento e com quem desejaria falar. Fui autorizado a subir. Já tinha estado naquele prédio outra vez, só que acompanhado da família. Ao me dirigir para o elevador fui interpelado pelo porteiro, que disse que eu não deveria subir por ali, já que ‘o seu elevador é o outro, o de serviço’.

Com meus 12 anos fiquei sem reação. Era isso mesmo? O que estava acontecendo ali era o que tinham me alertado a vida inteira? Subi e meu tio, que já me esperava com a porta aberta, me viu saindo do elevador de serviço, quis saber porque fui por ali e não pelo social. Contei a história. Ele ficou revoltado e queria resolver o problema na hora. Era seu aniversário, eu não queria atrapalhar. Ele ficou muito chateado com o que aconteceu e nem sabia como se desculpar. A culpa não era dele, quis falar. A culpa era da ignorância. Não era vergonha servir alguém. Ser empregado de alguém é totalmente digno. A questão era mais profunda. Usam a separação dos elevadores como um aviso: você não é bem-vindo aqui. Você só pode usufruir deste espaço na condição de serviçal. Gente como você nunca poderá ser morador. Não só o porteiro, mas o sistema já faz essa separação.

Aí me dizem: ‘Agora você só sabe falar disso?’. Na verdade, não. Falo da minha vida, do que vejo, do que sinto. E isso está presente em muitos momentos. ‘Você vê racismo em tudo?’ Também não. Vejo onde ele existe. Vejo em quem o pratica. E quando vejo eu falo, denuncio, abro a boca.

Quando na faculdade eu tive que brigar com um professor que me deu nota muito menor do que todos os outros, sendo que eu tinha feito trabalho semelhante aos outros, fui até a coordenação do curso de comunicação e protestei. Minha nota foi revista e a má fé do professor constatada. Resultado: ele foi afastado do curso. Eu já tinha 19 anos e as porradas que havia tomado até ali me fizeram saber que rumo seguir.

A menina que só ficou comigo porque queria saber como era um preto na cama.

O motorista de táxi que não parou pra mim por medo.

O rapaz da loja que disse que a garrafa de vinho que eu queria comprar era muito cara.

Os policiais que em um espaço de 2 meses me pararam 10 vezes em blitz da Lei Seca, fora as habituais.

O comercial de tv que eu não fiz porque ‘tinha os traços finos e eles precisavam de alguém com cara de pobre’.

As moças caridosas que me deram bolo e salgados para que eu ‘levasse para dividir com meus amiguinhos na rua’.

O policial argentino que em uma fila com mais de 50 pessoas parou apenas a mim e outro rapaz negro para revistar e fazer perguntas ameaçadoras.

Outro policial, só que no Brasil, que insistia que eu era morador da favela, sendo que eu não era. Ele insistia e eu negava. Ele dizia que me conhecia e eu negava.

Eu ainda estou vivo. Não moro no Alemão ou na Maré. Não tenho tanque de guerra na porta da minha casa. Não tenho incursão policial diariamente no meu bairro. Não tenho tráfico de drogas na esquina, nem troca de tiros dia sim e outro também. Não tive meu carro fuzilado. Tive “sorte”. No meio de tantos absurdos tenho que comemorar o fato de ser um “privilegiado”. Pude estudar em bons colégios, fiz línguas, fiz faculdade, viajei, li bons livros, tive orientação familiar, tive um teto. Tive o que a maioria dos meus irmãos não tiveram. Ainda assim o racismo veio me dar boas-vindas. Quando alguém vem me dizer que o problema é muito mais social do que racial, lembro de tudo o que me aconteceu e isso para mim já basta como resposta.

Cinco jovens negros perderam a vida por serem jovens, negros e pobres. Cinco jovens que não ficarão mais do que dois dias nas notícias de jornal. Cinco jovens que comemoravam a conquista de um deles. Cinco pobres a menos. Cinco pretos a menos. Eram negros, pobre, favelados, quem se importa?

Eu poderia não estar mais aqui. Porém ainda tenho como contar a minha história e ajudar outros a falarem das suas. Neste país louco sou um privilegiado.

Quem apenas senta nos próprios privilégios e não olha para outros consegue dormir tranquilamente?

Ernesto Xavier

IG: @ernestoxavier

Aqui está a representação da lógica policial:

Afinal, nunca se sabe…

afinal nunca se sabe

 

Colaboração de H. Leão Dutra para esta ENCEFÁLICA

NESTE momento, está acontecendo uma confusão do cacete no Brasil. Quero dizer, há onze meses. Quero dizer, há cinco anos. Na verdade, dez.

Desde que o então deputado federal Roberto Jefferson empreendeu a Cruzada 8.986 contra a corrupção no país, chamada de Mensalão, não se teve paz nesta terra.

Afinal, como o Brasil vinha de um período da mais absoluta democracia, semeado nos anos 1950 até germinar em 1964 e florescer em 1968, é claro que a corrupção não existia.

Ela só começou a mostrar suas garras a partir de 2003 – e olhe que 2002 foi AQUELE ano para o Brasil: fomos campeões mundiais de novo, a inflação estava zerada, o emprego abundava em todas as capitais e, para celebrar a festa, só faltou narcer artisticamente um João Gilberto. Ou um Glauber Rocha.

Depois, nos perdemos. Inédita na terra brasillis, a corrupção dominou o Brasil. Os maus atos cresceram de forma tamanha que os brasileiros, contaminados pelo Governo, passaram a fazer de tudo: roubar, matar, estuprar, trair, agredir, sonegar impostos, furar filas, dar calote e mais uma série de atos condenáveis jamais vistos nesta pátria mãe gentil. Até pum alto em público, amigos!

Atualmente o Brasil está paralisado. A situação não consegue governar, a oposição quer a derrubada da situação por não aceitar a derrota em 2014, os jornais falam de corrupção, a TV fala em corrupção e 99% dos brasileiros recebem uma tijolada de informações diariamente a respeito – excetuando-se os trinta milhões de seres sem casa, água, comida e, no caso de Mariana, qualquer outra coisa.

O mais novo escândalo do país foi a prisão do senador Delcídio Amaral, o Delcídio do Amaral, efetuada pela Polícia Federal, sob a acusação de tentar influir na condução dos processos da Operação Lava Jato, tentando meios para que Nestor Serveró, preso, funcionário de carreira da Petrobras por quatro DÉCADAS, não citasse fatos envolvendo o nome do político por ocasião de uma delação premiada.

No mesmo dia, foi preso André Esteves, banqueiro bilionário, acusado de auxiliar Delcídio nas intervenções para que Cerveró não, digamos, “falasse demais”.

Anteontem, foi preso o pecuarista – e homem de múltiplos negócios – José Carlos Dumlai, também citado na Operação Lava Jato e midiaticamente apresentado como amigo do ex-presidente Lula.

Delcídio, Esteves e Dumlai.

Uma rápida curiosidade pode ser saciada em breve espiada no Google, um verdadeiro amigo dos amigos. Afinal, quem são estes três personagens que fizeram Pindorama tremer?

Delcídio tem 60 anos. É engenheiro eletricista. Foi executivo da Shell. Depois dirigiu a estatal Eletrosul. Ministro das Minas e Energia no governo Itamar Franco. Diretor da Petrobras no governo Fernando Henrique de 1998 a 2001. Supostamente foi filiado ao PSDB, fato contestado. Presidiu a CPI dos Correios, nos primórdios do dito Mensalão. Em 2006, elegeu-se senador pelo PT. Tornou-se líder do governo em abril de 2015.

André Esteves tem 47 anos. Formado pela UFRJ, oriundo de classe média, iniciou sua carreira no Banco Pactual em 1989. Quatro anos depois, era um dos sócios. Em 2009, consolidou o banco de investimentos BTG, que hoje controla 306,8 bilhões  de reais em ativos, com mais de 3.000 funcionários. Laureadíssimo com prêmios pelo Brasil e mundo afora, apoiou causas como a Universidade de São Paulo, o Hospital do Câncer de Barretos (SP) e o Museu de Arte Moderna de São Paulo.

José Carlos Bumlai, de idade ignorada, é oficialmente pecuarista, embora já tenha tido um sem-número de atividades empresariais. Supostamente conheceu Lula em 2002, quando já era um dos maiores investidores em gado do país. Olhares mais rasos o tratariam como um beneficiário de tenebrosas transações nacionais, mas é interessante perceber o rol de seus parceiros e sócios ou ex-sócios: Galvão Bueno (na rede de fast food Burger King), ao lado de nomes como o do ex-prefeito de Santos e atual deputado federal Beto Mansur (ex-PSDB, ex-PP e atualmente no PRB) e do piloto de Fórmula Indy Hélio Castro Neves. João Carlos Saad, dono da TV Bandeirantes, foi sócio de Bumlai na TV Terraviva, dedicada ao agronegócio, que também teve como sócio o também empresário Jovelino Mineiro, que por sua vez, foi sócio do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso na fazenda Córrego da Ponte, no município mineiro de Buritis. Bumlai é também ligado a empresários de porte da bancada ruralista: o ex-governador de Mato Grosso e atual senador Blairo Maggi (PMDB-MT); o presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, Jorge Picciani (PMDB-RJ), criador de gado; Jonas Barcelos (ex-dono de freeshops em aeroportos e ligado ao ex-senador Jorge Bornhausen (PSD-SC), também criador de gado. E se aproximou de petistas antes de Lula chegar à presidência, no período em que o PT governou Mato Grosso, sua terra. Ah, e trabalhou 30 anos com o “rei da soja” Olacyr de Moraes, boa parte do tempo em cargos de direção do Grupo Itamaraty, que tinha a empreiteira Constran e o extinto Banco Itamaraty. Com Olacyr, Bumlai introduziu o cultivo de cana em Mato Grosso do Sul e a produção de etanol.

Apresentados os protagonistas, é interessante perceber alguns nomes de alcance nacional que, de alguma forma, estão próximos dos três.

Delcídio é PT, mas sempre teve excelente diálogo parlamentar e entrada em vários partidos, inclusive no PSDB – onde foi peça importante nos anos 1990, filiado ou não. É amigo pessoal de José Serra e indicou Nestor Cerveró para o alto comando da Petrobras, assim como Paulo Roberto Costa, também preso.

André Esteves é ligado a Delcídio Amaral, tem fortes ligações com Aécio Neves – inclusive com o BTG financiando a lua de mel do político em Nova York, e é sócio de Persio Arida.

Persio Arida foi presidente do Banco Central na era FHC, ex-sócio do banqueiro Daniel Dantas (Opportunity), foi casado com Elena Landau e é sócio de Guilherme Paes.

Elena Landau foi diretora do BNDES de 1994 a 1996, no primeiro governo FHC.

Guilherme Paes vem a ser o irmão do prefeito da cidade do Rio de Janeiro, Eduardo Paes.

Nestor Cerveró, preso, acabou de aceitar delação premiada. Ingressou na Petrobras em 1975, mas segundo os jornais manteve-se impoluto até 2003, quando começou o governo Lula, e então mergulhou no underground.

Daniel Dantas é verbete de 5.435 consultas no Google. Dono do banco Opportunity, é irmão de Verônica Dantas, e esta, por sua vez, é (ou foi, ou não) sócia de Verônica Serra, a filha de José Serra, considerada um gênio das finanças: entre os 25 e os 30 anos de idade, passou de bolsista de um curso de MBA em Harvard para representante de investimentos multimilionários. Verônica também é (ou foi, ou não) sócia de Jorge Paulo Lehmann e Marcel Telles, leia-se Ambev.

Em três páginas, seria impossível explicar a crise brasileira. Caso você seja um fã de jornais convencionais, que fazem imprensa apenas por filantropia, sem qualquer tipo de ligação a interesses corporativos, é bem provável que já tenha lido que a culpa do bafafá de ontem é de Lula. Ou de Dilma. Mas não deixa ser curiosa a proximidade dos nomes dos presos com alguns personagens marcantes da nossa terra.

Claro, amizades e até sociedade não podem servir como indício de qualquer culpa de terceiros. Longe disso

Mas, se os três forem realmente elementos periculosos e dignos de condenação judicial com prolongada restrição de liberdade, no mínimo os importantes brasileiros aqui citados precisam ter mais cuidado com suas companhias. Ou, pelo menos, um pouco mais de informações a respeito de com quem se anda.

Afinal, nunca se sabe…

NOTA: o colaborador H. Leão agradece ao leitor andmar pela correção do nome de Bumlai, publicado erradamente nesta coluna como Dumlai.

 

Blequefráidei na cabeça!

bleque fráidei

Vamos pulando de galho em galho.

Chega o fim do ano e, com ele, as festas de confraternização. Sim, seremos todos melhores, gostamos uns dos outros, abraços generosos, fica faltando apenas certa sinceridade – para com o outro e nós mesmos.

Todo mundo na expectativa do Natal, do Reveillón, dos grandes churrascos, das festas do URRÚ!  e  tudo que sirva de combustível para seguir na estrada do próximo ano. Marcamos datas, metas, renovamos esperanças mesmo que não haja fundamento. Vai mudar. Vai melhorar.

E então o novo ano virá. Vamos esperar o Carnaval. Os feriadões de abril. O Dia dos Namorados. As férias de julho. Quando percebemos, lá se foi mais tempo, que pode ter sido investido, gasto ou mesmo perdido.

Novidade no calendário desta linda Pindorama de barragens assassinas é a blequefrádei. Última sexta-feira de novembro, grandes magazines dão descontos inacreditáveis e você poderá comprar tudo o que quiser com preços absolutamente convidativos.

Descontos de 70 ou 80%. Sobre o preço reajustado em 70 ou 80%.

A crise fica de lado, ninguém consegue se lembrar mais do horror em Paris ou Mariana. Sobre o casal de moradores de rua incendiados no Rio Comprido? Nem pensar!

Podemos ser felizes por alguns instantes, consumindo maravilhosas manufaturas a preço de banana. Crise é o cacete! O que eu tenho a ver com o desemprego dos outros, se tive méritos e lutei pelo meu esforço graças ao meu talento (leia-se também ter sido bancado pelos meus pais)? A culpa é do governo…

É O GOVERNO…

Qualquer governo…

Daqui a pouco o Rio de Janeiro entra em ritmo de verão, tudo ficará mais lindo, as mulheres são lindas (mesmo), a geografia de parte da cidade – a dos cartões postais – é linda (mesmo) e ninguém vai reparar se os outros lados são abandonados, se a violência come solta nas favelas, se o tráfico é interminável no matar e morrer de um monte de gente, especialmente jovens negros – sem contar as meninas arrancadas de casa para a prostituição forçada, o horror, o abandono, os usuários de crack espalhados em pontos específicos parecendo zumbis.

É Natal, é Reveillón, é Carnaval, é feriado! Por aqui, Olimpíadas também.

Vamos para a blequefráidei. Empenhemos nossos esforços monetários porque este é o sentido da vida oca em que nos metemos nas grandes metrópoles do mundo. Vamos assassinar esta maldição de comunismo! Precisamos ser liberais, pero no mucho – dependendo de cada caso. Sociedade é o cacete, concentração de renda é o cacete!

Os empresários de sucesso em belas reuniões vespertinas com lindas assessoras. Os jovens bem criados envolvidos em alguma nova confusão violenta contra gente cronicamente pobre – ou até mesmo a estupidez chamada estupro. Os políticos que se digladiavam ontem agora trocam abraços e sorrisos complacentes. Os homens das igrejas prometendo o céu à vista ou em suaves prestações – louvado seja deux.

Vamos pulando de galho em galho.

Transportes deficitários, criminalidade em alta, a saúde só existe fora dos hospitais públicos. Se você cair na rua, talvez ninguém perceba. Alguns vão ficar olhando o ballet da morte desenhado nas linhas do teu rosto. Pouca gente entende a derrota da vida quando um morador de rua cai na calçada completamente entorpecido por causa do álcool barato, que lhe corrói às vísceras mas é o único companheiro de uma vida com 24 horas de desgraça diária.

O que importa é a blequefráidei!

Antes que você chore, eu te entendo por isso. Caso possa, ofereça uma pequena solidariedade às minhas lágrimas também. Mas não ligue a TV: alguém vai comemorar a eleição de Macri num exercício de colossal ignorância. Por que, seu esquerdopata de merda? Simples: basta buscar no Gúgol as expressões “Rafa Di Zeo”, “La 12” e outras pérolas populares do football argentino.

Acabei de ler que a UERJ – Universidade do Estado do Rio de Janeiro – foi interditada por alguns dias, em função da INSALUBRIDADE. A mesma querida universidade onde estudei, brinquei, fiz amizades, namorei, aprendi (estudar é uma coisa, aprender é outra) e consegui a profissão que me sustenta até hoje, a mesma que bancou a década final de minha família.

Lá, contávamos as moedas para comer um sanduíche de pão, ovo e salada.

Collor ia salvar o mundo, mas não deu certo.

Éramos infelizes, mas ríamos todo dia e, ao contrário de agora, quando se começa a olhar para trás e se vê que o fim está bem mais próximo do que o começo, havia a promessa de futuro – sem blequefráideis. Velhos alunos daquele tempo agora vociferam que privatizar é a solução da universidade. A hipocrisia é quase tudo.

Um jovem garoto gordinho de óculos caminha solitariamente pelas underground streets de Copacabana e não entende absolutamente nada do que vê, o que faz todo sentido neste mundo de indecifrável confusão. Qual será nossa próxima jogada, senhores? O que importa é a blequefráidei, ora.

@pauloandel