Agosto

o golpe final

AGOSTO de dias frios e corações duros, ao menos em sua maioria. Se assim não fosse, o que poderia explicar o que vivemos mundo afora, continente afora, país idem, estado e esta bela e maravilhosa cidade, agora já esmaecida com o fim das Olimpíadas e o deprimente desprezo às Paraolimpíadas que estão à vista?

No Rio, vivemos dias de felicidade por conta dos Jogos. Houve relativa paz (relativa mesmo!). Por três semanas, deixamos de lado os noticiários sangrentos e a barbárie cotidiana que temos vivido. Festa, shows, esportes, novidades no cenário. Inegavelmente a cidade teve melhoras: aí estão o Boulevard Olímpico e o Metrô Barra que não me deixam mentir. Muita gente gostou e isso pode ser a promessa de mais turismo. Excelente.

Mas não merecíamos mais do que isso depois de tantos anos de espera?

E o que dizer das transações que cercaram a Rio 2016, com um papagaio de centenas de milhões de reais a serem cobertos (possivelmente pelos contribuintes)?

Dentro de uma semana, teremos a consolidação de um golpe sujo, consagrando de vez um presidente sem votos e poupado pelas grandes operações de combate à corrupção. É desnecessário falar da pior Câmara dos Deputados que já tivemos, em todos os sentidos.

Os Jogos se foram, aos poucos vamos voltando ao que se chama de normalidade e nela, não há fadas madrinhas nem varinhas de condão.

Os absurdos, antes abafados pelas grandes manchetes olímpicas, borbulham. Da supressão de direitos decenais dos trabalhadores, passando pela gentrificação e até mesmo pela censura enrustida do filme “Aquarius”, de Kleber Mendonça Filho, que acabou de receber a classificação indicativa para maiores de 18 anos. Segundo o Ministério da Justiça, o filme teria “uma situação sexual complexa”. Ninguém é tão ingênuo a ponto de acreditar numa bobagem dessas: a verdadeira razão está nos protestos políticos feitos pelos atores do filme no Festival de Cannes. No economicamente combalido cinema brasileiro, restringir a presença de menores é a maneira de esvaziar a bilheteria, tudo em nome da retaliação.

Enquanto isso, os turistas ainda podem se refestelar pela policiada Cinelândia, diferente demais de outrora. A região ganhou vida nova, também ajudada pela integração VLT-Metrô. Sábado passado mesmo, eu saí por volta de nove e meia da noite da Caixa Cultural, esquina de Rio Branco com Almirante Barroso, quando me deparei com um monte de gente caminhando tranquilamente, muitos voltando do Maracanã por ocasião da disputa do ouro olímpico no futebol. Será que isso vai durar muito?

Quanto àquilo, que vá para o inferno de uma vez.

Nunca fomos tão brasileiros

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A ÚLTIMA vez em que fomos tão brasileiros, eu não sei dizer. Talvez quando um presidente sorriu na televisão e promoveu o preço do quilo do frango a um real. Talvez quando, em plena ditadura, muitos comemoravam que chegasse o dia 15 de novembro no meio de semana, não por causa de eleições, mas para poder aproveitar o feriado. Às vezes somos brasileiros demais quando há festa no Carnaval, nos raros estádios lotados, nas Paradas Gays em São Paulo, na decisão do programa Big Brother Brasil, na final da Copa (não essa última, é claro). Também no Dia de Finados, quando todos parecem consternados demais, ao contrário do resto do ano onde a grande onda é chamar a todos de vagabundos, especialmente os funcionários públicos – e muitos deles próprios assim se definem, numa estranha contradição entre o declamar e o viver.

Temos sido brasileiros demais quando alguém afirmou que o Brasil tem sido um país comunista, com todo o ridículo possível contido nesta sentença. Somos brasileiros demais quando algum fanfarrão prepotente vem com aquela bravata mofada de que nunca se roubou tanto nesse país, supondo que todos os interlocutores sejam suficientemente distraídos ou até mesmo boçais para não saberem expressões como “Coroa Brastel”, “Abi Ackel”, “Ronald Levinsohn”, “Salvatore Cacciola”, “Daniel Dantas”, “Delfin” e outros menos cotados. Somos brasileiros demais quando não sabemos distinguir milhões de bilhões – e então alguém grita: “O DEMAIS É QUANDO JÁ ESQUECEMOS DE CONTAR”.

Ultimamente temos sido muitos brasileiros. Os lamentáveis incidentes que cercam o país de uma ponta a outra não deixam dúvidas: temos um Brasil de muito suor, trabalho, proletariado, trem lotado, amendoim e paçoca, de linha 2 e parador, viajando em pé, esforçado pra caralho e outro, supostamente sofisticado mas sem recheio, supostamente elegante mas brega na essência, delivery, iphônico, excludente, metido a elitista sem qualquer atributo que não seja o dinheiro geralmente herdado, food trucking, sonhando com Miami, almejando os eletrônicos da Fnac – livro pra quê? -, linha 1 (em apenas parte dela e quando necessário), sentado, asséptico. E aí somos brasileiros pra caralho quando a linha 1 dá de cara com a linha 2 numa mesma estação.

Somos brasileiros demais quando achamos que os lobões e rógeres da vida fazem frente a um Tristão de Athayde, a um Nelson Rodrigues – VALHA-ME O DIABO QUEM INSISTE EM IMITAR ESTE HOMEM SEM TER PERDIDO A VIRGINDADE -, a um Paulo Francis. Ou quando caímos na esparrela de que Neymar vai ser maior do que Pelé, ou que Chico Buarque é um vendido. Somos brasileiros demais quando encaramos aquele velho disco do Tom Zé e somos incapazes de perceber toda a denúncia ali contida. Quando rilhamos os dentes contra o comunismo assassino de Cuba e da Venezuela – por favor, os mais letrados não riam! – enquanto o progresso do Brasil está na democracia das garotas de quatorze anos que são retiradas dos barracos porque algum traficante deseja fazer sexo com elas, enquanto os pais morrem de dor e vergonha – e quando se encher, pode colocá-las fazendo programa ou queimá-las vivas em pneus encharcados de gasolina. Somos brasileiros demais quando navegamos na internet e, nas redes sociais, encontramos dezenas de quilômetros de erros de Português, frases sem sentido, discursos verborrágicos continentais, ódio, rancor, inveja, subcelebridades e outros recalcados alimentando toda a tristeza porque jamais serão o que sonhavam, mesmo sem terem feito nada de útil para alimentar o sonho.

Sim, agora lembro a última vez em que fomos brasileiros demais: exatamente ontem. Cinco de maio. Quando o Supremo Tribunal Federal suspendeu temporariamente o mandato do deputado Cosentino, esse mesmo que está afundado até o nariz em transações, digamos, exóticas, fizemos um mar de silêncio. Durante dois anos, muitos de nós gritamos ardorosamente contra a corrupção, a roubalheira, os comunistas, os vermelhos, os que queriam impor uma ditadura (?) ao Brasil e, finalmente, quando veio a grande virada pelo fim de toda a corrupção, houve um constrangimento. Afinal, era uma farsa na qual só os doutorandos em ingenuidade poderiam cair.

Descobrimos que nossos 26 anos de democracia consolidaram uma Câmara dos Deputados com parlamentares sem voto, divididos em bancadas econômicas, completamente alheios às prioridades do Brasil e da maioria do povo, muitas vezes chefiados por velhos coronéis da política nacional, aqueles mesmos que cansamos de ver em sentido figurado nas novelas de Dias Gomes. Depois, quando o grande objetivo era tirar a “corja” do poder – e você acreditou feito um pato -, houve quem aplaudisse seu “bandido predileto”. O problema é que ele é muito mais bandido do que se possa pensar.  E quem decide isso é gente que teve meia tonelada de cocaína dentro de casa sem querer, gente que recebeu um bilhão na mão para vender o pato dos outros – e você também foi um pato -, gente que chega ao ponto de declarar homofobia e ocultar a própria homoafetividade – fundadores de movimentos de direitos gays inclusive.

Tudo isso e muito mais desaguou ontem na sessão de caça à cabeça do deputado Cosentino, este com vasta experiência nas citações criminais. Se não fôssemos brasileiros, mesmo que tudo seja apenas ilusão, teríamos comemorado como se fosse a conquista do hexa, soltado fogos, desfraldado bandeiras, berrado em tabernas. Quem mané panela porra nenhuma! Fizemos foi um silêncio do caralho. Não por causa dos atos, dos homens, de seus crimes, mas por causa desse elemento imprescindível à vida moderna nas grandes regiões metropolitanas brasileiras: a hipocrisia. Um silêncio constrangedor, porque muitos de nós não tiveram coragem de se olhar diante do espelho e gritar: EU SOU UM MERDA! EU DEFENDI UM BANDO DE MERDAS! EU BATI PANELA SEM PASSAR FOME PORQUE SOU UM IDIOTA DOMINADO PELA TV, QUE MANDA EM MIM E NA MINHA FAMÍLIA HÁ MEIO SÉCULO!

E agora o silêncio que pareceu hipocrisia pode ser também covardia. Semana que vem teremos um novo governo, já corrupto em seu cordão umbilical que vem de 30 anos atrás. Os nomes, os delatores e os processos deixam que todos mintam.

Pra frente, Brasil! Se a ponte para o futuro for igual à Rio-Niterói, não faltará espuma de sangue a brilhar enquanto um transeunte numa noite qualquer perto da praça XV, que nada tem a ver com a figura do bailarino homossexual Claudio Werner Polila – o “Jiló”-, há de cantarolar: “Há muito tempo nas águas da Guanabara/ O dragão no mar reapareceu/ Na figura de um bravo feiticeiro/ A quem a história não esqueceu”. E que não desabe por acidente feito o Paulo de Frontin.

Ontem fomos vergonhosamente brasileiros ao extremo. A punição ao deputado Cosentino é nossa carta de alforria. Agora podemos ser uma sociedade escrota de verdade, a valer! Estamos livres para toda sorte de safadezas, pois tudo é lícito: às favas com os escrúpulos!

Todos juntos vamos. Pelo menos não somos todos iguais. Seria estúpido demais. Vivamos o silêncio hipócrita da noite de ontem sem um arranhão sequer da caridade de quem nos detesta.

Nós, os escrotos

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Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais.

A todo custo queremos mudanças, exceto aquelas que façam do Brasil um país na acepção da palavra.

Atendendo aos nossos anseios, fodam-se a democracia, as leis, as regras, a ética e as contradições. Eu não tenho nada “haver” com o problema do outro.

No fim das contas, o que nos incomoda não é a corrupção; afinal, qual de nós já não pecou muito? Essa tal corrupção nos olhos dos outros é refresco.

Inaceitável mesmo é ver um sujeito com cara de pobre, de criado, de empregadinho, mandando nos outros e dizendo o que deve ou não ser feito.

O pobre é nojento.

Ninguém tem culpa de termos miséria nas ruas.

Quem manda serem vagabundos? Se trabalhassem e estudassem não estariam nessa situação.

Imagine gente com a cara destas pessoas mandando no Brasil. Ou andando em avião, meu Deus! Já não basta empestearem o BarraShopping com chinelos de dedo e bermudas velhas?

Pobre só serve para depredar equipamentos públicos porque os traficantem mandam.

Camisas pretas, choques de ordem, prisões sem justificativa, disciplina: é o que precisamos para um país melhor, sem gentalhas, com brasileiros de verdade. Um país de todos, decente e honesto, que nem nos tempos da Revolução: aquilo sim é que era bom. E esses comunistas de merda mentem dizendo que havia tortura nos quartéis, que as piranhas de faculdade foram estupradas, que havia roubalheira. Pilantras! Nunca fomos tão honestos. Havia ordem. Bom mesmo era saber que a censura não deixava passar essas putarias na televisão que a gente vê hoje.

Aqui estamos nessa vergonha, nessa roubalheira sem tamanho, e nada nos resta a não ser restabelecer a ética e a moral que são os pilares do Brasil. Fora PT! Fora, corrupção!

Se for para tirar esses vagabundos e acabar com essa mamata de pobres, que mal tem em usarmos Cunhas, Temeres e Aécios? Se eles tiveram uma manchinha ou outra, não interessa: são homens honrados, de Deus, pela família, gente que tem a humildade de reconhecer que do pó veio e para o pó voltará.

Ainda somos os mesmos.

Ninguém pode ter a cara de pau de comparar nossos favores a esses corruptos do PT. Nossos financiamentos, nossas declarações de renda, tudo é feito dentro do respeito e da ética.

Por que devo dar dinheiro para o Governo? Eu que trabalhei, é do meu suor. Se é para eles roubarem, roubo eu.

Fiz faculdade pública financiada com o dinheiro dos meus impostos (…), quero dizer, meu pai pagou. Ou talvez tenha pago. Dane-se: eu sou especial e o Estado tem obrigação de me dar educação grátis. Eu não sou um qualquer.

Tem que acabar com esses hospitais de pobre. Custa muito dinheiro. Quem quiser que pague seu plano de saúde como eu. Quero dizer, que a empresa paga. Quero dizer, que meu pai paga aos empregados – e eu não sou um empregado qualquer, mas o filho do dono.

Tenho vergonha dessa crise, que é a maior de todos os tempos. Não dá para comparar com os anos 1970, 80 e 90. Onde já se viu essa vergonha de inflação de 1% ao mês? Isso é o fim do mundo.

Tinha que tacar uma bomba nessas favelas. Ia resolver muitos problemas do Brasil. Remover tudo. Eu não tenho culpa de que nasceram pobres. Que aprendam a pescar em vez de ganharem o peixe na boca. Aquele monte de gente preta, ou então esses paraíbas de balcão de botequim.

Acabar com essa vagabundagem do serviço público. Só tem vagabundo encostado. A minha mulher está lá, mas ela trabalha todo dia de 14 às 16 horas. Ela faz a diferença.

A gente tem que acabar com todos os corruptos, mas primeiro vamos exterminar essa merda desse PT, esses comunistas de merda, que querem tomar nossos apartamentos que nem em 1989.

Depois a gente vê o que faz.

Isso é inaceitável.

Chega desses ladrões!

Para acabar com essa corrupção, e daí que o juiz passe por cima da lei? Ele pode, é juiz!

Se o Cunha roubou, o importante é que está com a gente. O Temer também.

Se o Aécio está enrolado, pelo menos está com a gente. Tem que fortalecer.

E qual o problema do Bolsonaro? Ele defende a família, a pátria, os valores. Tem que acabar com esses viadinhos mesmo.

Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais.

Nós, que rimos dessa gente nojenta que quis ocupar o nosso lugar. Quem eles pensam que são? Gente sem nome, sem sobrenome, sem berço, um bando de Silvas, Souzas, Severinos, Marias, Josés.

Nós, os bastiões supremos da ética e da moral por um Brasil melhor.

Espero que, até aqui, tenha sido possível disfarçar toda a nossa hipocrisia.

Queremos nosso Brasil de volta. Cada macaco no seu galho.

Aqui estamos nós, os escrotos.

As sombras de Moro

Colaboração de Felipe Fleury

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Tenho lido, da parte dos detratores do governo, que Sergio Moro, ao liberar o teor das escutas telefônicas interceptadas, tornando pública a conversa entre o ex-presidente Lula e a presidente Dilma, agiu como um grande estrategista.

Muitos desses detratores reconhecem a ilegalidade de sua conduta (outros tantos não, como o próprio Moro), mas enaltecem o seu sentimento republicano de, ao perceber que perderia o controle da investigação, teria agido com o nobre fim de alertar o STF, para onde seria encaminhado o procedimento investigatório contra o ex-presidente após sua nomeação como Ministro de Estado.

Dá para se perceber que, exceto por parcas vozes da direita que reconhecem o excesso da medida, a imensa maioria reconheceu na sua conduta uma verdadeira jogada de mestre contra Lula e o PT. Para essa gente, os fins justificam os meios.

Moro incendiou o país com sua decisão. Uma decisão despropositada, ilegal (porque viola a Lei de Interceptação Telefônica – Lei 9296/96, artigos 8º. e 10º.) e inconstitucional (porque viola a competência do STF para se manifestar em assuntos que digam respeito à presidente da República, notadamente quando identificadas no bojo de investigações criminais).

O juiz de Curitiba, ao cientificar-se do teor da conversa captada, deveria imediatamente lacrar o seu conteúdo e enviá-lo ao STF, instância constitucional competente. Ao contrário, porém, movido por um sentimento de vingança pessoal, abjeto, partidário entregou-o à Rede Globo para divulgação em âmbito nacional.

Moro sabia da ilegalidade de sua conduta. Procurou justificá-la ponderando o interesse público superior à privacidade e à competência privativa da presidente Dilma, fazendo, inclusive, alusão ao caso do presidente norte-americano Nixon. Comparação absolutamente despropositada, diga-se de passagem.

O magistrado considerou apenas o seu sentimento pessoal para entender que o teor daquela conversação seria de relevante interesse público a sobrepujar a mais alta lei deste país, a Constituição da República. Uma decisão subjetiva e sem qualquer amparo legal.

Não há desculpas para a sua decisão, por mais que se deseje encontrá-las em paradigmas do direito internacional. E é por isso que o governo deve agir para responsabilizá-lo pela condução temerária dessa investigação criminal, que começou com um objetivo e foi, ao longo do tempo, transmudando-se para um viés absolutamente parcial, partidário e antidemocrático.

O Brasil não é um tabuleiro de “War” para o juiz Moro exercitar suas estratégias. Um juiz, mais do que todos, deve se ater à legalidade, à ordem jurídica e, sobretudo, à Constituição da República. Condutas temerárias e ilegais como essa, e também como foi a condução coercitiva por ele determinada contra o ex-presidente Lula, podem conflagrar as ruas, e isso é gravíssimo.

O país não pode se sujeitar ao poder arbitrário de um magistrado que exercita seus desejos mais obscuros à revelia das leis e em nome de um clamor social forjado pela imprensa panfletária.

Moro, fã da “Operação Mãos Limpas” – aquela mesma que alçou ao poder na Itália o primeiro-ministro Sílvio Berlusconi, por quase doze anos – precisa tratar de lavar as suas próprias mãos para cuidar de uma investigação tão relevante para os interesses da nação, mas que por sua obra tem se desvirtuado para um instrumento eficaz de combate ao atual governo.

Isso não se chama independência, chama-se subserviência.

Resta saber se o corporativismo da magistratura permitirá que Moro seja punido por seus malfeitos e impedirá que cometa outros. Quem viver, verá.

@FFleury

Respeito.

É comum nos dias de hoje achar que o que une as p essoas é a comunhão de ideias e pensamentos. O raciocínio parte da ideia de que eu, que sou conservador, vascaíno, de direita e católico, terei amigos que comungam das minhas ideias e dogmas.

Acontece que o cara que é meu melhor amigo, sócio em um monte de projetos e a pessoa mais confiável que conheço é ateu, tricolor e esquerdista. Brizolista, pra piorar um pouco e pra ser mais exato.

Na linha de raciocínio de 95% da internet atual, eu deveria ser inimigo figadal desse sujeito e viver às turras com ele, e vice versa. Não concordo com ele em assuntos-chave do momento, então como conviver?

Simples: embora não concorde com suas posições políticas, acredito piamente em sua boa-fé e em sua honestidade. São valores muito mais básicos do que suas posições políticas e religiosas. No seu ateísmo, se comporta de forma muito mais caridosa do que muitos dos católicos praticantes que vão a Missas que eu conheço.

Jamais conseguirei convencê-lo da maioria dos meus dogmas. Ele tampouco. Discutimos eventualmente sobre esses assuntos polêmicos e as pessoas que vêem acham que nos odiamos.

Acontece que discordamos em praticamente tudo, mas não consideramos o outro um imbecil por discordar daquilo que pensamos.

E é isso que vemos por ai. Você é petista? Idiota, Eleitor de corruptos. Não é? Votou no Aécio? Coxinha. Reaça. Defensor de FHC.

Respeite quem pensa diferente de você. Você tem todo o direito de achar uma palhaçada a manifestação de amanhã. Eu tenho o direito de ir e de pensar que isso é o melhor pro meu país. Sem ser chamado de idiota.

O mesmo vale para o outro lado. Alguns dos maiores bobalhões que eu conheço, com comportamento inaceitável, compartilham, infelizmente, das mesmas opções políticas que eu. Algumas de suas postagens me causam constrangimento. Mais que isso, me fazem refletir se estou errado, tal a agressividade e a virulência de seus ataques aos “não iluminados”.

Sendo assim, respeite para ser respeitado. Aceite e ouça o contraditório. Estude. Contra argumente. E esqueça suas ofensas em casa. Elas pegam mal pra você.

Nos porões

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Neste momento alguns protestam. Talvez nem saibam muito bem o motivo. Sempre foi assim: todos sendo guiados como gado pelo quarto poder. Eles acreditam em tudo que ouvem. Não leem mais do que duas linhas. Dois parágrafos é “textão”. Pensar cansa. Pensar é démodé. A tevê berra. Aceitam sem contextualizar. Contextualizar? O que é isso? “Eu quero ela na rua!”. “Eu quero ele atrás das grades”. Domingo é dia de Fla-Flu político. Ter opinião contrária nos coloca em trincheiras diferentes. A guerra civil está perto de ser declarada…é isso? Para quem vive na periferia, a guerra começou há uns 60 anos. Mas aconteceu na favela. Quem se importa? Vamos beber Veuve Clicquot no camarote da boate e esquecer isso. Na saída é só pegar a chave da Pajero blindada e voltar para casa.

Enquanto isso professores estão sem salários, alunos sem aula, colégio sem merenda, carro da polícia sem combustível, preto levando tiro nos becos, gay tomando porrada na esquina, mulher sendo estuprada e levando a culpa. “Não é problema meu”. O que se passa além dos limites da porta do seu apartamento não lhe importa, não é mesmo?

“O dólar está caro e esse ano vai ficar apertado ir à Nova Iorque. Terei que trocar por Porto de Galinhas. Shit!”

A elite se movimenta quando atingem seus privilégios. Ninguém deu importância para séculos de miséria e servidão. Ninguém levantou do sofá para batalhar por melhor educação pública. O filho estuda no caro colégio de padres, que usufrui da isenção fiscal, mas onde preto e pobre só entra se for pra fazer faxina. Quem tem privilégio é o cotista, dizem.

Enquanto sonho com o exame de DNA que pode me dizer de que lugar da África meus ancestrais vieram, bastam alguns documentos para que brancos ganhem seus passaportes europeus e possam vislumbrar uma vida mais digna acima da Linha do Equador. Uns vieram para “limpar” o sangue brasileiro. Os meus vieram nos porões sem direito a nada. Onde está meu privilégio? Ainda não o achei.

Seguem gritando palavras de ordem na Avenida Atlântica e na Paulista. Os gritos não são ouvidos na Maré ou em Itaquera. E no sertão do Cariri? No Vale do Jequitinhonha? O Brasil não conhece o brasileiro. O Brasil crê que o brasileiro é o mesmo da novela das 21h. O dilema do falso brasileiro da novela é saber se a mocinha estará na praia deserta a sua espera no último capítulo. Não preciso dizer que essa mocinha é branca. O mocinho? Branco também. Só os brancos dizem “eu te amo” no horário nobre. Preto e pobre só bate palma e dá sorriso. É o que resta. Sorrir e aplaudir. Não lhe dão voz para dizer se está realmente gostando. Não lhe dão voz para declarar seu amor…ou ódio.

Aqui da janela não vejo camisas da CBF. Mas na TV eles estão aos montes, tirando selfies com os homens de farda. Tiram foto com qualquer pessoa que porte uma arma: um policial, um militar, o Bolsonaro. É importante registrar o momento. Sem selfie quer dizer que não aconteceu. Põe hashtag pra ter mais likes. É cool ir à micareta e achar que está indo defender o país. Está indo pelo umbigo. Umbigos feitos pelo bisturi das clínicas de cirurgia plástica em abdomens lipoaspirados.

O doente na porta do hospital público não tem forças para ir protestar. Ele teria motivos. Nem o aluno que está passando por mais uma greve foi à rua. Por que será? Talvez porque no dia em que saiu às ruas para lutar por seu direito garantido na Constituição, o Estado veio com cassetete, gás de pimenta e bala de borracha. Ninguém ali está para lutar por ele. Ele sabe disso. Cada um no seu quadrado. “Meu filho estuda no São Bento. Você é um vagabundo que quer tirar a vaga dele com cota”.

Não querem a universalização da educação de qualidade. O barco está afundando. Não querem o SUS funcionando para todos. A água está subindo nos porões. Não querem o pobre no aeroporto, na universidade pública, nas praias de área nobre. A água chegou ao convés. Querem a elite no poder. Querem o FMI, a ponte aérea Rio/São Paulo – Miami, mais cadeias, menos faculdades.

Nessa guerra não há santos ou demônios. Nem mocinhos ou vilões. Estamos todos no mesmo barco. Ok. Uns limpando o convés e outros nas cabines, mas mesmo assim no mesmo barco. Quase todos afundarão. Alguns poderão ter o “privilégio” de serem salvos pelos botes limitados do Titanic. Não é difícil prever quem entrará no bote.

No final vão se juntar apenas para garantir seus privilégios, como sempre fizeram desde Cabral. Para nós estarão ainda reservados os mesmos porões inundados.

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Ernesto Xavier

Encefálica

 

 

Lê?

livros empilhados

As palavras estão por toda parte. Anúncios comerciais, manchetes estrambóticas, matérias com cara de ficção, ensaios, artigos.

Redes sociais em particular, internet em geral, jornais mofados, revistas.

As bancas de jornais são abarrotadas de publicações. Imagine a Livraria da Travessa da Barra, mar concreto de letras – e também de futilidades elementares. Pilhas e pilhas.

Resumo: tem coisa para ser lida por todo lado. Estão sobrando toneladas e hectolitros de palavras nas comunicações.

Metade do dia com os celular em off, você o liga e vem aquele turbilhão de bips com trocentas notificações de whatsapp, foicebúqui e tuíter.

Tem tudo, tudo mesmo, do melhor e do pior.

Pergunta-se: quem lê?

Na acepção clássica da palavra mesmo: percorrer com a visão (palavra, frase, texto), decifrando-o por uma relação estabelecida entre as sequências dos sinais gráficos escritos e os significados próprios de uma língua natural.

É o que a gente faz por aí mesmo?

Modéstia à parte e com a pequeníssima importância que me cabe nesta terra incerta e injusta, tenho lá as minhas duvidazinhas.

Já fui publicado algumas vezes por editoras diferentes. Certa vez, antecipei uma crônica de futebol para um amigo querido, recebendo a seguinte resposta por e-mail: “Cara, esse texto é do Nelson Rodrigues? Eu já li noutro lugar”. Expliquei que não.

Embora meus livros lançados sejam de futebol e quase todos sobre o meu time, o Fluminense, não consigo enxergar absolutamente nada da monumental importância de Nelson, o maior dramaturgo brasileiro, no que eu escrevo. Nunca enxerguei.

Falando nisso, estilo literário: você consegue identificar o jeito de escrever de um autor, de modo a não confundi-lo com outros?

Dois sujeitos começam a discutir numa postagem de Facebook. Um sujeito comentando o escrito do outro sem ter lido…:

– Mas eu não escrevi nada disso do que você está falando! Onde você leu isso?

– O que importa é que você está completamente errado. Você não sabe de nada, brother!

A porradaria verbal come.

Nestes dias de golpismo e rancor, até a grave crise política tem seus dias de Febeapá: o tal procurador camisa preta (esse pessoal gosta, hein?) pediu a prisão de Lula fazendo uma incrível citação onde o homônimo de Engels era… Hegel.

Na semana passada, um capoteiro homônimo foi convocado a depor por vídeo ao juiz Sergio Moro, numa das cenas mais constrangedoras de 2016: o depoimento acabou em segundos, quando o magistrado deu conta da barbeiragem ali feita.

Maluf vai para a televisão e defende a honradez e a dignidade do governo acusado da fraude na merenda.

Paulinho da Força aparece na televisão pedindo a derrubada do Governo. Mais sujo do que pau de galinheiro.

O governador do Rio, chamado de Pezão, posterga os pagamentos do funcionalismo, mas antecipa verbas para concessionárias e grandes empresas do Estado.

Você lê mesmo sobre o que está acontecendo ou apenas faz papel de retransmissão humana das grandes corporações midiáticas?

Você já leu que, durante décadas, a inflação mensal brasileira ultrapassava 30, 40, 50 ou até 70 por cento ao mês?

E que o Maracanã ficou fechado três anos para reformas visando à Copa do Mundo de 2014, e agora é novamente isolado para as intervenções olímpicas? Aproveitando o tema, você já leu coisas que te fizeram pensar sobre o que já foi o Brasil do futebol e o que ele é hoje?

Já parou para ler como acontece uma das nossas maiores tragédias, que é a violência pela disputa do tráfico de drogas?

Você já leu algum relatório trimestral do IBGE sobre o Produto Interno Bruto, simpaticamente chamado por PIB?

Ou o interesse dos grandes jornais a favor do candidato X, do partido Y e da eleição Z?

Já leu poesia, letras de música, pequenas prosas, textos marginais, escritores underground, craques consagrados? Se o tiver feito, como isso é?

Algum filósofo grego – ou quase todos?

Autores traduzidos, bastiões dos países de língua portuguesa, poetas de calçada?

Afinal, você lê o texto ou apenas o significado de cada palavra?

Deixe seu recado após o sinal gráfico.

Espíritos no mundo material

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DUAS garotas chegam a ficar arrepiadas, enquanto olhavam um ovão de Páscoa nas prateleiras intermináveis das Lojas Americanas. Disparou um som potente das caixas perto da seção de música e um senhor, perto de seus sessenta anos, cravejou o clima: “Isso é Led Zeppelin! Jimmy Page!”. Eu, que não sou bobo, aproveitei uma palhinha de “Thank you”.

Nestes dias de crise e tentativas de golpe, tendo a velha Rede Globo como escudo de sempre, um bom lugar para se entender as coisas e pessoas é o shopping center – sim, estamos em crise, há desemprego, mas todos continuam comprando, ainda que alguns o façam exclusivamente por falta de melhores opções intelectuais durante o lazer.

As pessoas olham, compram, apenas admiram, passam como zumbis do comércio pelos corredores refrigerados, pequenos pedintes abordam as mesas da praça de alimentação – ninguém liga.

Num mundo e numa cidade onde dificilmente se vê três cartazes seguidos, páginas de jornais ou postagens do Facebook sem erros de Português, espiar a única loja da Fnac no Rio de Janeiro pode ser uma boa. Livros e discos. A impressão que dá é que os moradores da Barra ficam amontoados na seção de eletrônicos, enquanto os “turistas” ou haoles folheiam páginas e escutam canções – e isso explica muito do Brasil de hoje, creiam.

Olhar os outros depois de um cansativo trabalho em cálculos que ultrapassaram a faixa dos 20 milhões de reais. Hum. Interessante notar que mesmo num estabelecimento dirigido a populares com potencial senso artístico e literário apurado, volta e meia alguém para indevidamente no estreito corredor entre as gôndolas, travando a passagem de terceiros e resmungando quando alguém pede licença. Espíritos no mundo material.

Um monte de discos fora do lugar perto dos fones que permitem as audições. Não custava muito escutar e colocar no lugar, mas sempre haverá um monumental idiota a dizer “Eu deixo para que o funcionário da loja não perca seu emprego. Ele arruma e trabalho”. A pobreza de tal argumento poderia nos fazer crer que o crime é um acontecimento econômico importante: “quando bandidos matam inocentes ou policiais ou qualquer um durante a tentativa de assalto, é um incremento para funerárias, cursos preparatórios para ingresso na PMERJ ou PCRJ; aumenta o consumo de armas e munição, estimula a formação de médicos legistas etc.” – carajo!

Há compensações: antigamente o Barrashopping era era o Olimpo dos deslumbrados e emergentes, loucos para se sentir na fina flor da breguice em Miami. Só que veio a Linha Amarela, a Rocinha passou a ter um PIB maior do que 70% das cidades brasileiras e passou a dar muito Belford Roxo, Nilópolis e Caxias no pedaço (ÓTIMO!). Andar de chinelos no templo das compras virou coisa até normal. Então, os viscondes e barões mandaram fazer o Village Mall, bem ao lado, e pediram asilo político por lá numa loja de joias – livraria não há.

Geraldo Vandré e Novos Bahianos comprados, Dostoievski admirado, a caixa nunca tem troco seja qual for o valor da compra. Os dois discos explicam muito do Brasil de hoje, mas nada igual a você pegar um ônibus refrigerado, devidamente valorizado pelo prefeito, e se deparar com a imagem que ilustra esta página – e aí sim o Braza (aka Fagner Torres) é devidamente dissecado.

Não tem a ver com protesto, revolução, combate à corrupção, reivindicação de direitos, denúncia, absolutamente nada. Não.

Parece mais com certas manchetes de jornais impressos e chamadas na televisão.

Mais do que o entreguismo, o casuísmo, o atendimento a causas pessoais acima da coletiva, está o primordial: um desejo insaciável de ser filhadaputa.

Em suma, gente sem credibilidade, que só grita contra ladrões para defender seus traficantes e lavadores de dinheiro preferidos; que condena em terceiros as práticas que repete constantemente; que ostenta a cada dia o desfraldar da bandeira da hipocrisia. “Só me importam os pilantras deles; dos meus, eu cuido e gosto.”

O crime e a má fé não têm ideologia, mas sim conveniência.

Do outro lado? Caminhando, cantando e seguindo a canção.

@pauloandel

Sobre o dia de ontem

Participação especial do escritor Felipe Fleury

Fleury

Acordei com a notícia de que o ex-presidente Lula e sua família eram os alvos da 24ª. fase da chamada Operação Lava-Jato. Como sempre, ante o clamor que se forma ao redor de tudo o que envolve Lula, Dilma e o PT, procurei com cautela por informações coerentes, liguei a TV e pude acompanhar por toda a manhã e parte da tarde o espetáculo produzido pela maior rede de televisão do país para saciar os ávidos pela prisão do ex-presidente. Muitos, realmente, acreditaram que ele estava sendo preso.

E por algumas horas foi. Não foi uma prisão cautelar decretada por juiz de direito. Lula foi acordado pela Polícia Federal às seis da manhã em sua casa para ser conduzido coercitivamente para ser ouvido por autoridades da Polícia Federal e do Ministério Público Federal no aeroporto de Congonhas.

Segundo se noticiou, a decisão foi prolatada pelo Juiz Moro, a requerimento do Ministério Público Federal, sob o argumento de que a condução coercitiva seria uma medida para preservar a segurança dos conduzidos, ante a ocorrência de episódios anteriores de violência entre partidários do ex-presidente e seus opositores.

Quem disse isso foi um dos procuradores responsáveis pela investigação. Ora, trata-se de um argumento dos mais rasos. O MPF e o juiz Moro sabem que a medida de condução coercitiva de indiciado ou investigado – ao que parece o ex-presidente ainda é investigado, pois não foi formalmente indiciado pela Polícia Federal em crime algum – não possui previsão legal no ordenamento jurídico pátrio.

O Código de Processo Penal prevê a condução coercitiva do ofendido e da testemunha, quando não atenderem a chamados anteriores do Juízo, conforme dispõem os artigos 201, parágrafo 1º. e 218, do CPP, e a condução do acusado – que é o réu no processo penal e não um investigado ou indiciado – na forma do artigo 260, do mesmo Diploma. Entende-se, ainda, possível, a condução coercitiva do indiciado, investigado ou acusado para reconhecimento pessoal ou reconstituição dos fatos.

Não foi o caso do ex-presidente Lula, que foi conduzido
de forma ilegal, por decisão violadora, inclusive da Constituição Federal, que garante o direito de ir e vir, sofrendo verdadeira privação ilegal de sua liberdade, que foi levado para prestar depoimento de forma coercitiva. Ainda vale lembrar que ele também tem direito a não produzir prova contra si mesmo – direito constitucional à não autoincriminação – sendo certo que nenhum desses direitos foi observado na decisão do juiz Moro.

E por quê? Porque mesmo sabedores de sua inconstitucionalidade, também tinham plena ciência de que não haveria tempo para um recurso. Seria cumprida e pronto, seus efeitos seriam produzidos. E quais efeitos? Humilhar um ex-presidente da República contra quem não pairam além de indícios, que estão sendo investigados pela Polícia Federal e Ministério Público Federal.

A tal da segurança foi apenas uma desculpa rasa. Hoje o que se viu foi uma situação de pré-convulsão social que poderia ter descambado para a tragédia por pura irresponsabilidade de autoridades do Ministério Público e do Judiciário. Atropelaram a lei para se banharem à luz dos holofotes.

Tenho a certeza de que o outro ex-presidente, contra quem pairam denúncias tão graves quanto, não seria tratado dessa forma abusiva, irrazoável e desproporcional. Também duvido de que entrariam assim no Fasano para interromper os almoços e jantares das dondocas que dilapidam o dinheiro fartamente surrupiado pelo senhor Eduardo Cunha.

Lula está sendo investigado. Não sei se praticou os crimes de que está sendo acusado, mas assim como todo cidadão brasileiro, inclusive você, ele tem algo que é maior do que qualquer direito ou garantia fundamental, que é a sua própria dignidade, a dignidade humana, que é um atributo de todos nós.

E a sua dignidade e a de sua família foram violadas hoje. Aliás, um festival de violações. Desde o seu direito à liberdade de ir e vir até o seu direito à presunção de inocência (ou de não culpabilidade), afinal de contas, nem mesmo foi denunciado – não há, sequer, ação penal deflagrada contra ele!

Suspeitas são suspeitas, que sejam investigadas. Que todos sejam investigados, sem dois pesos e duas medidas.

Não sou petista, nunca fui, mas me incomoda demais assistir ao massacre que a mídia impõe ao ex-presidente Lula, à presidente Dilma e ao seu partido, mídia esta que, inexplicavelmente, estava a postos às seis da manhã numa certa rua de São Bernardo do Campo.

Que sejam investigados, processados e julgados todos os que pratiquem malfeitos. Essa seletividade protagonizada pela imprensa, em sua grande parte, e os atropelos da investigação apenas contribuem para enfraquecer a democracia.

A Polícia Federal e o MPF devem cumprir seus papéis constitucionais e investigar com isenção e o Judiciário deve decidir com imparcialidade e de acordo com os ditames da legalidade. Ultrapassar essa barreira é um passo perigoso que se dá rumo à arbitrariedade.

A Justiça deve alcançar quem quer que seja, sem exceção, mas acima de todos nós há uma constituição que precisa ser respeitada.

@FFleury

Cadáveres e vampiros do futebol carioca (e do Brasil)

moça bonita azul

Para os mais jovens, deve ser difícil de acreditar que, há 25 ou 30 anos, um jogo de estreia do Campeonato Carioca – na verdade, Fluminense – de futebol podia levar 50, 80 ou 100 mil pagantes ao Maracanã. E destaco o Carioca porque foi minha primeira e principal paixão: cresci vibrando com o futebol da minha terra, da minha cidade. E o Rio sem sombra de dúvidas foi a força da gênese do futebol brasileiro em seus apogeus.

É claro que muitas coisas mudaram desde então: os jogos passaram a ser transmitidos ao vivo pela televisão – e os cartolas fizeram tudo para que os torcedores se afastassem dos estádios, priorizando a TV -; a grande massa popular que acompanhava futebol nas arquibancadas e gerais foi, aos poucos, sendo enxotada dos campos de futebol, em troca de uma classe media alta que nunca teve relações de fidelização com o esporte bretão; o aumento da violência; a bagunça dos regulamentos.

Todavia, o Rio ainda conseguiu manter por muitos anos o prestígio de sua competição, muito mais pelo charme do que pelo que era visto em campo: tapetões, acordões, tramoias dos aliados do poder. Fla-Flu ainda é Fla-Flu, Vasco e Flamengo é um jogo que mexe com o imaginário popular. Conseguiu, não consegue mais. Os grandes jogos mexiam com todas as torcidas: secar o rival já era um programão pela certeza da qualidade da disputa. Fazer isso hoje num sofá é travar uma luta inglória contra o sono.

Depois de sucessivas mutilações e fechamentos, sempre reduzindo a capacidade de público e repelindo os aficionados menos abonados em geral, o palco maior do futebol do Rio – o Maracanã – serviu para a derrubada bilionária em nome da Copa do Mundo de 2014. Ai está, oferecendo a cada semana um aspecto visual deprimente. Ou melhor, estava: ficará fechado para os Jogos Olímpicos. Mas basta espiar no YouTube 95% das saídas de bola em boa parte dos jogos entre 2013 e 2015, no outrora Maior do Mundo: aquele vazio deprimente, constrangedor, mostrando a rejeição da plateia que já se cansou de partidas caras e desinteressantes às dez da noite em qualquer dia ou seis e meia da tarde aos domingos, tudo para agradar à grade global.

Antes: os clubes viviam das bilheterias dos jogos. Compre que a torcida garante. No Brasil dos anos 1980, com o advento de patrocinadores e da TV, a troca da fonte de recursos foi feita, pouco importando se o modelo adotado viria a influir na futura formação de público. Somados inúmeros outros fatores, há uma ou duas gerações de torcedores que já foram acostumadas a ver o futebol como um seriado de TV: frio, à distância, com a garantia do sofá confortável. Outro fator de concorrência quase desleal: no público iniciante, infantil, hora de ver os jogos é de tarde – quando Barcelona, Real Madrid e outros estão em campo -, não à quase meia-noite de quarta-feira.

Entre promessas e palavras mofadas como “gestão”, “trabalho”, “projeto” e similares, a verdade é que os clubes de futebol pouco se modernizaram em termos de administração e promoção do seu produto, podendo assim dizer tanto no Rio quanto no Brasil. Salvo casos esparsos de um ou outro debelando dívidas multimilionárias, a maioria está agarrada ao dinheiro da televisão como se esse fosse o verdadeiro petróleo – e é: importante, valioso, mas com décadas contadas. A cada dia que passa, a TV sofre os efeitos da vida computacional – aí estão YouTube e Netflix que não nos deixam mentir. Será que o caminho do futebol é apenas esse? O de ser café ou cana de açúcar da pequena grande tela? E ainda sobre a modernização: que clube oferece a seus torcedores o acesso direto a decisões e participações importantes que não sejam as do voto eleitoral? Acaba sendo muito pouco para cativar o torcedor atual em meio a tanta concorrência. Compre camisa, apoie seu time em horários esdrúxulos, bata palmas para a espanholização promovida pelas cotas de TV, encha o peito com a galera e… faça papel de bobo.

O cenário do futebol carioca não é muito diferente do resto do país. É apenas um pouco pior. Nesta primeira rodada do esgarçado campeonato estadual, cerca de 19 mil torcedores compareceram aos oito jogos – quase metade disso exclusivamente na partida Vasco x Madureira. O total das rendas não chegou a seiscentos mil reais, o salário mensal de alguns profissionais do futebol no Rio. São números constrangedores. É claro que os destemperos da FERJ e os conflitos com Flamengo e Fluminense atrapalham esse desempenho, mas quem disse que antes da querela os números eram melhores? Longe disso. Com exceção, talvez, da Copa do Brasil – que tem sua fórmula atraente – as demais competições do futebol brasileiro só mobilizam grandes torcidas em clássicos regionais – ou se um time estiver fazendo uma excelente campanha no Brasileirão. É pouco.

O que sobrou de agremiações históricas, importantes para a fixação da prática desportiva, hoje relegadas a segundo, terceiro, quarto planos ou mesmo nenhum? Nada. Depois de décadas, o Campo Grande virou notícia porque seu belo – e abandonado – estádio Ítalo Del Cima foi cogitado para reformas emergenciais que pudessem abrigar os times cariocas em 2016. Falou-se de Caio Martins, de uma nova Arena na Ilha. Nada. Ficou como está. Chegamos a fevereiro. Depois do Carnaval, o ano começa de verdade. E tudo é empurrado outra vez com a barriga. Que o velho e querido América não volte à condição de gangorra de divisões. Aqui marquei o futebol do Rio, mas não há grande diferença ao se falar de Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Paraná e mais umas 20 Unidades da Federação.

As esperanças de muitos clubes brasileiros estão depositadas na Liga Rio-Sul-Minas. É uma alternativa para se desbravar outros caminhos e tentar salvar o futebol brasileiro do caos, mas nem de longe pode ser a única. Sem os grandes clubes fortalecidos, pluralizados, e os de pequeno e médio porte razoavelmente estruturados – e formando jogadores, o que sempre foi um dos alicerces do nosso esporte, o final da história pode ser apenas chover no molhado. Os desastrosos 7 a 1 da Alemanha na Copa de 2014 foram um diagnóstico claro da enfermidade do futebol brasileiro. Entregue a coronéis, capitães do mato e deslumbrados de ocasião, ele não dá o menor sinal de ter iniciado qualquer tratamento.

As ruas estão cheias de garotos com as camisas de Messi e Cristiano Ronaldo.

@pauloandel