Vinhos e o meu bolso

Estive em gramado por cinco dias. De lá, peguei duas horas de estradas (lindíssimas, por sinal) para a Serra Gaúcha (Bento Gonçalves e arredores) e fui visitar algumas vinícolas, tantas quantas pude com crianças junto.

Curiosamente, em todas as adegas a que fui, o preço dos vinhos mais baratos era 45 reais. Na casa do produtor. Onde se plantam e colhem as uvas, produzem e engarrafam os vinhos. Não há custo de transporte, negociadores, atravessadores. Lucro em revenda. O cliente foi lá, bater à porta do negócio.

Como comparação, estive na França 15 anos atrás e visitei várias caves como as que visitei no sul do Brasil. Os preços eram incrivelmente baixos. Os preços eram em média a metade do praticado em restaurantes e lojas de vinhos da região. Estes eram, também em média, um quarto do preço praticado no Brasil. Ou seja, o preço do produtor era oito vezes menor do que o preço no Brasil (considerando as mesmas regiões às quais fui). Na época, todos me disseram que a culpa dessa discrepância era dos impostos. A carga tributária! Por que, então, os produtores brasileiros cobram preço de boutique? Por que, ou melhor, como eu consigo comprar um ótimo vinho chileno no mercado por 30, 35 reais? Há muita coisa interessante à venda em mercado e lojas especializadas por menos de 45 reais. Chilenos, italianos, espanhóis, portugueses. Este preço, do mercado, já inclui satisfatoriamente os impostos, o lucro dos importadores, o custo dos transportes, o lucro do produtor e o lucro pro revendedor.

Então que porcaria é essa? Por que essa esperteza? Por que tão caro?

Saibam então os amigos que forem à Serra Gaúcha: vão achar coisa boa por lá. Mas preparem o bolso. Pode ser que alguém tente justificar estes preços. A mim não convencem. Triste.

Blequefráidei na cabeça!

bleque fráidei

Vamos pulando de galho em galho.

Chega o fim do ano e, com ele, as festas de confraternização. Sim, seremos todos melhores, gostamos uns dos outros, abraços generosos, fica faltando apenas certa sinceridade – para com o outro e nós mesmos.

Todo mundo na expectativa do Natal, do Reveillón, dos grandes churrascos, das festas do URRÚ!  e  tudo que sirva de combustível para seguir na estrada do próximo ano. Marcamos datas, metas, renovamos esperanças mesmo que não haja fundamento. Vai mudar. Vai melhorar.

E então o novo ano virá. Vamos esperar o Carnaval. Os feriadões de abril. O Dia dos Namorados. As férias de julho. Quando percebemos, lá se foi mais tempo, que pode ter sido investido, gasto ou mesmo perdido.

Novidade no calendário desta linda Pindorama de barragens assassinas é a blequefrádei. Última sexta-feira de novembro, grandes magazines dão descontos inacreditáveis e você poderá comprar tudo o que quiser com preços absolutamente convidativos.

Descontos de 70 ou 80%. Sobre o preço reajustado em 70 ou 80%.

A crise fica de lado, ninguém consegue se lembrar mais do horror em Paris ou Mariana. Sobre o casal de moradores de rua incendiados no Rio Comprido? Nem pensar!

Podemos ser felizes por alguns instantes, consumindo maravilhosas manufaturas a preço de banana. Crise é o cacete! O que eu tenho a ver com o desemprego dos outros, se tive méritos e lutei pelo meu esforço graças ao meu talento (leia-se também ter sido bancado pelos meus pais)? A culpa é do governo…

É O GOVERNO…

Qualquer governo…

Daqui a pouco o Rio de Janeiro entra em ritmo de verão, tudo ficará mais lindo, as mulheres são lindas (mesmo), a geografia de parte da cidade – a dos cartões postais – é linda (mesmo) e ninguém vai reparar se os outros lados são abandonados, se a violência come solta nas favelas, se o tráfico é interminável no matar e morrer de um monte de gente, especialmente jovens negros – sem contar as meninas arrancadas de casa para a prostituição forçada, o horror, o abandono, os usuários de crack espalhados em pontos específicos parecendo zumbis.

É Natal, é Reveillón, é Carnaval, é feriado! Por aqui, Olimpíadas também.

Vamos para a blequefráidei. Empenhemos nossos esforços monetários porque este é o sentido da vida oca em que nos metemos nas grandes metrópoles do mundo. Vamos assassinar esta maldição de comunismo! Precisamos ser liberais, pero no mucho – dependendo de cada caso. Sociedade é o cacete, concentração de renda é o cacete!

Os empresários de sucesso em belas reuniões vespertinas com lindas assessoras. Os jovens bem criados envolvidos em alguma nova confusão violenta contra gente cronicamente pobre – ou até mesmo a estupidez chamada estupro. Os políticos que se digladiavam ontem agora trocam abraços e sorrisos complacentes. Os homens das igrejas prometendo o céu à vista ou em suaves prestações – louvado seja deux.

Vamos pulando de galho em galho.

Transportes deficitários, criminalidade em alta, a saúde só existe fora dos hospitais públicos. Se você cair na rua, talvez ninguém perceba. Alguns vão ficar olhando o ballet da morte desenhado nas linhas do teu rosto. Pouca gente entende a derrota da vida quando um morador de rua cai na calçada completamente entorpecido por causa do álcool barato, que lhe corrói às vísceras mas é o único companheiro de uma vida com 24 horas de desgraça diária.

O que importa é a blequefráidei!

Antes que você chore, eu te entendo por isso. Caso possa, ofereça uma pequena solidariedade às minhas lágrimas também. Mas não ligue a TV: alguém vai comemorar a eleição de Macri num exercício de colossal ignorância. Por que, seu esquerdopata de merda? Simples: basta buscar no Gúgol as expressões “Rafa Di Zeo”, “La 12” e outras pérolas populares do football argentino.

Acabei de ler que a UERJ – Universidade do Estado do Rio de Janeiro – foi interditada por alguns dias, em função da INSALUBRIDADE. A mesma querida universidade onde estudei, brinquei, fiz amizades, namorei, aprendi (estudar é uma coisa, aprender é outra) e consegui a profissão que me sustenta até hoje, a mesma que bancou a década final de minha família.

Lá, contávamos as moedas para comer um sanduíche de pão, ovo e salada.

Collor ia salvar o mundo, mas não deu certo.

Éramos infelizes, mas ríamos todo dia e, ao contrário de agora, quando se começa a olhar para trás e se vê que o fim está bem mais próximo do que o começo, havia a promessa de futuro – sem blequefráideis. Velhos alunos daquele tempo agora vociferam que privatizar é a solução da universidade. A hipocrisia é quase tudo.

Um jovem garoto gordinho de óculos caminha solitariamente pelas underground streets de Copacabana e não entende absolutamente nada do que vê, o que faz todo sentido neste mundo de indecifrável confusão. Qual será nossa próxima jogada, senhores? O que importa é a blequefráidei, ora.

@pauloandel

 

 

A morte do jornalismo

confronto-vila-autodromo

Não começou por acaso. Pode ter sido surpresa para alguns ter o nome na lista, mas no fundo sabiam que era uma questão de tempo. Ser demitido quando já se ganhou notoriedade, alcançando um patamar privilegiado na profissão, é frustrante. Aquilo em que se acreditou durante quase toda a vida, arruína-se, cai, desaparece.

A demissão de jornalistas do Infoglobo no começo de setembro expôs a situação precária dos veículos de comunicação, principalmente os impressos, no mundo inteiro. O Infoglobo reúne os jornais O Globo, Extra e outros veículos de comunicação do Grupo Globo, que iniciou um grande corte no quadro de funcionários, que pode chegar a 300 demitidos. Dentre eles estão Pedro Motta Gueiros, Aydano André Motta, Pedro Dória, Luciana Fróes. Alguns dos que me fizeram ter paixão por essa profissão. A saída de jornalistas tão importantes do quadro das grandes empresas de comunicação é o prenúncio da morte. Não lê-los é apagar um pouco mais o já combalido jornal de papel.

Trata-se de uma crise global de comunicação. O Dia, Terra, Brasil Econômico, Grupo Bandeirantes, Agência Estado também tiveram cortes esse ano.

Exatamente quando o fluxo de informação atinge níveis nunca vistos, aquele que deveria filtrar e facilitar essa comunicação, se perde em seu passado arcaico e tem dificuldade de se reinventar.

Culpam a crise do país. Não olham para si. Não aceitam que o erro está na forma como lidaram (ou não) com os avanços da tecnologia e as mudanças de perfil dos leitores. A “crise” econômica brasileira, tão alardeada pelos veículos, está longe de ser o motivo da derrocada dos mesmos.

O mundo mudou. Não há como negar. Quando deixamos de acreditar no novo e dar-lhe ouvidos, somos condenados. Para onde foram todos? Continuam aí, ávidos por novidades. Tente entende-los. Tenha empatia. Compreendendo as necessidades do outro, resgatamos quem somos nós. Renascemos.

Gay de Girardin, autora francesa do século XIX, já anunciava que “não são os redatores que fazem o jornal, mas os assinantes”.

A venda do Washington Post, um dos maiores jornais americanos, por U$ 250 milhões, em 2013, foi apenas mais um capítulo da crise econômica e de identidade do setor. Ainda nos Estados Unidos, o Boston Globe foi vendido por U$ 70 milhões pelo New York Times Group, que o havia adquirido 20 anos antes, por U$ 1,1 bilhão. Uma queda assustadora no valor de mercado.

Perda de anunciantes, redução de tiragem. O futuro da comunicação é mera especulação. Alguns apostam na extinção do jornal impresso. Outros acreditam na diversificação de mídias, através dos tablets, smartphones, e-readers. Eu acho que a grande revolução ainda está por vir. Ainda estamos engatinhando no universo digital.

Quem tem grana para apostar?

O jornalismo morre quando se debruça nas mazelas humanas apenas enquanto lhe dá lucro e as esquece quando outra tragédia ganha mais notoriedade.

O jornalismo morre quando o pobre preso é traficante e o helicóptero com 400 kg de cocaína em propriedade de político é apenas um engano. Culpa do piloto (funcionário do político dono da fazenda onde o helicóptero pousou).

O jornalismo morre quando se “esquece” por 72h da escalação irregular de um jogador que o próprio jornal havia anunciado a suspensão e só volta a “lembrar” do fato quando é anunciada a “coincidência” de um erro semelhante de outro clube, na mesma rodada, que beneficiaria o primeiro.

O jornalismo morre quando ignora por anos a barbárie das guerras civis na Sìria e no Afeganistão, dando atenção apenas após a morte absurda de mais uma criança em uma praia turca.

O jornalismo morre quando a crise hídrica só passa a ser um problema quando atinge os estados do Sudeste, ignorando as décadas de seca no Nordeste.

O jornalismo morre quando faz campanha pela redução da maioridade penal.

O jornalismo comete suicídio quando o filho do Pitanguy é tratado como vítima de um acidente e o pedreiro José Fernandes da Silva, morto no acidente, mal é citado na matéria.

O jornalismo morre quando fecha os olhos para remoções arbitrárias como na Vila Autódromo ou com o desastre ambiental do campo de golfe na Barra da Tijuca.

O jornalismo assina o próprio óbito quando trata índios como invasores, mostrando apenas o lado dos latifundiários no Centro-Oeste, dando pouca ou nenhuma atenção para os assassinatos de indígenas cometidos por fazendeiros.

Como disse Malcolm X: “Se não estás prevenido ante os meios de comunicação, te farão amar o opressor e odiar o oprimido”.

Para os jornalistas é a chance de recriarem o meio de comunicação com seu público. Seguindo como está, um dia não haverá jornal para anunciar o próprio obituário.

O jornalismo (como o conhecemos) morreu. O jornalista, jamais.

“Não falar para o seu século é falar com surdos”

Jean de La Fontaine

@nestoxavier

Degustação de mau-humor

mau humor

Frequento, aqui em Brasilia, um mercado chamado Super Adega. É uma espécie de super-atacado, com uma enorme adega no subsolo, que vende vinhos de todos os preços. Dos vinte reais ao infinito e além. De vez em nunca, vou lá com cem contos (mesmo!) em busca de 3 ou 4 garrafas garimpadas no meio de milhares de rótulos, a grande maioria, infelizmente, inacessível para meus parcos reais.

Mas, como muita gente já sabe, felizmente o mundo do vinho não é cartesiano. Existem porcarias de 100, 200, 500 reais e maravilhas de 25, 30. E vice-versa. Garimpar e acertar é boa parte da farra.

Então, quando há uma ocasião (receber amigos em casa, algum jantar, algum aniversário) eu me dou de presente umas duas horas (o tempo voa!) procurando no meio de milhares de rótulos o que levar. Em alguns dias, infelizmente, o orçamento é ainda menor. Então você é obrigado e reduzir ainda mais a sua escolha. E a coisa começa a ficar mais difícil. Lógico, vinhos baratos e bons são mais raros do que seus primos ricos.

Como eu disse, essa é a diversão. Vou escolhendo e colocando tudo o que me interessou no carrinho. No final da escolha, tenho normalmente de oito a dez garrafas escolhidas. E orçamento pra quatro. Ai, começo a devolver uma a uma o que decidir não levar.

Noutro dia, com um jantar mais importante e sem as duas horas disponíveis, decidi pedir a ajuda de um dos “colaboradores” do mercado. São (ao menos em teoria) conhecedores de vinho. Engravatados, estão ali pra ajudar os compradores em suas dificuldades.

Claro, eu não sou (na cabeça deles) o público alvo. Um plebeu, de bermuda e tênis, comprando uma meia-dúzia de garrafas. Já vi alguns venderem um carro popular em caixas de vinho. Enfim, abordei um. Gordinho, baixo, cara simpática. Pedi ajuda para comprar quatro garrafas de até 35 reais cada. O sujeito andou. Parou nos portugueses. Apontou um. “Excelente custo-benefício”. Cinquenta reais. Achei caro. Pedi outro. Me apontou um segundo português. 46. Tá acima do que eu posso. Vou procurar e lhe pergunto, pode ser? Claro! Esteja à vontade.

Parênteses: “custo-benefício” é o irmão gêmeo do maldito “diferenciado”. “Este é um cabernet de excelente custo-benefício”. “Fulano é um atacante diferenciado”. Enrolação. Isso não quer dizer porcaria nenhuma.

Voltemos à compra.

Usei meu método. Tinha sete garrafas. Voltei ao sujeito. Ele estava próximo de outros dois vendedores. Expliquei.

– Separei essas sete garrafas aqui. Pode me ajudar a escolher?
– Não! De jeito nenhum! Se eu escolher pelo senhor, eu vou lhe causar alguma frustração. O senhor faça o seguinte: Vá pro caixa, e chegando lá, o senhor escolha os rótulos mais bonitos, as garrafas mais chamativas e pode levar.

Os olhos do outro vendedor quase saltaram de órbita. Eu estava num dia de stress total. Aquela era a minha diversão. A resposta foi tão estapafúrdia, tão grossa, que eu confesso que nesses momentos me baixam uma calma inexplicável. Depois, no carro, pensando no cara, me dá vontade de voltar lá e partir pras vias de fato. No momento, nada disse. Dei o sorriso dos estúpidos e fui me embora com os vinhos que eu mesmo escolhi. Eram bons.

Ontem, voltei pela primeira vez ao local. No lado de fora, uma moça dava provas de um vinho nacional. Aceitei. Um senhor ao meu lado também quis. Provei. O homem bebeu o vinho. Fez uma cara feia, pronunciou um “argh” altíssimo, atirou o copinho ainda com vinho grosseiramente no lixo e deu as costas à menina que trabalhava sem um obrigado ou coisa que o valha.

Entrei na adega. A primeira pessoa que vejo foi o cidadão. Me reconheceu. Atendia um casal jovem que buscava uma única garrafa de vinho. Estava falando dos italianos. Num tom mais alto do que o lugar recomenda. “A senhora está procurando um vinho doce, esse aqui é bem leve, mas ainda assim é um vinho de verdade”. Sai de perto pra não me aborrecer. Uns dez minutos depois, vejo o casal saindo e a mulher dizendo que se o cara continua, ia plantar a mão na cara dele.

Comprei meus vinhos.

O mundo está coberto de pessoas grosseiras e sem-educação, prontas a estragar o dia do outro. Até num lugar onde, teoricamente, o humano, pobre ou rico, vai buscar diversão. Minha omissão ao não reclamar do sujeito pra quem de direito, pode ter ajudado a estragar o momento do casal de ontem. Na próxima ida ao estabelecimento, vou me reportar ao gerente e cumprir minha obrigação de cidadão.

Mundo esquisito.

Collorido

Moro num país tropical, abençoado por Deus e travado por natureza.

Eu gostaria de ter um par de havaianas roxas ou rosa-choque.

E não há nada de esquisitex, prafrentex ou modernex nisso. Apenas a sua mente travada e a dos supermercados e ou revendedores da marca. O máximo que consegui transgredir até hoje em termos de cores foi um azul turquesa. Porque azul é cor de macho. No meu tamanho, 43/44, me são ofertados chinelos branco, preto, marrom, azul-marinho, verde-oliva. Doutor sócrates, com seu pezinho 37, teria um arco-íris de chinelos à sua escolha. Mas quanto maior o pé, menor a oferta.

Sou curioso pra saber o que vai acontecer nos próximos anos, pois a média de altura das mulhers brasileiras (consequentemente o tamanho do pé) está aumentando. Daqui a pouco a mulherada que calça quarenta vai se sentir preterida.

Claro, estou falando do modelo tradicional do chinelo. Não dá pra entender quem pague o triplo por um chinelo igual com uma bandeirinha do Brasil. A não ser que sejamos a pátria de chinelos.

Curioso esse preconceito com as cores em determinados nichos de mercado. As fábricas nacionais de automóveis, com honrosas exceções, fabricam carros nas “cores” preto, prata, branco e vermelho. Todas as variações de pérola, cinza, prata, metálico.

Cinquenta tons de cinza? Basta olhar qualquer estacionamento.

Pra vocês terem uma ideia da maluquice, em 2012, quando compramos nosso carro, o vendedor recomendou que não comprássemos um vermelho, pois (na época) a cor da pintura desvalorizaria o carro quando da venda em cerca de 10% do valor. Tornei-me então o (in)feliz proprietário de um carro prata.

Quer um carro colorido? Tá podendo? Compre um mini. Inglês.

Corrida para a liberalidade

Naquele dia, resolvi pegar um táxi. Na verdade, eram poucas mesmo as opções. Corrida boa, do aeroporto até a Tijuca. O desejo era apenas chegar logo, encontrar-me com a cama e descansar um pouco.

Esperava, ao entrar no carro, as trivialidades de sempre. “Tempo louco este, não?” Quem sabe um pouco de futebol? Mas, não. Aquele parece ter sido um sorteio no qual perdi logo de cara. O motorista, mal-humorado, falava do assunto nacional, a crise.

Não demorou muito a perceber que era um leitor assíduo da Veja – digo não só pelo teor do discurso que viria, mas por tê-la citado nominalmente – e julgava-se o bastião da coerência em suas críticas. Não queria discutir e tentava sorrisinhos e uma brecha para encaixar um “parece que vai chover, não é?”

Que nada. Desandou a reclamar do país. E a culpa, invariavelmente, do PT. O problema, segundo ele, é que havia estado demais. “Isso gera corrupção. O governo quer tudo pra si, quer meter a mão em tudo.” E citou Constantino. Sim, ele citou! Falou das tendências liberais e explicava os benefícios da livre-concorrência aliada à meritocracia com uma profundidade de uma piscina plástica vazia. Baixei os olhos e torci por uma cidade menos engarrafada…

Reclamou dos impostos, altíssimos! Citou que sua filha voltara do exterior há pouco e fora taxada por um equipamento (não me recordo mais qual era) que ela trouxera do exterior! Um absurdo, só no Brasil. Pensei em avisar a ele que impostos alfandegários ocorrem em qualquer país do mundo, mas estava firmemente disposto a não abrir a boca.

Por mera inferência, entendi que a “taxação” referia-se à tentativa de entrar com o aparelho ilegalmente. Não deu tempo de articular nada, pois ele seguia de forma voraz em suas reclamações. “Deviam deixar que as empresas mundiais pudessem vender suas coisas aqui… isso é ridículo, o mesmo produto custa o quádruplo aqui!”

Não cheguei a perguntar, mas parece que ele leu o comentário em minha testa: “as empresas nacionais não iriam à falência assim?” e emendou: “e as empresas nacionais, bom… o mercado é assim, quem é bom se estabelece, só fechariam aqueles que não têm competência”.

O rádio nos interrompeu, falando sobre uma manifestação dos taxistas programada para o final da semana contra o Uber. O rosto do condutor enrubesceu. Entrávamos na avenida Maracanã.

Isso é outro absurdo, disparou. A gente paga impostos altíssimos, investe uma grana forte na autonomia – pensei interrompê-lo para avisar que comercializar uma concessão pública não me parecia muito ético, mas vi que o sinal estava verde e que chegaria logo –, acenei com a cabeça, fiz um “arrã”.

“É na próxima esquina, senhor”. Enquanto parava o carro, continuou: “aí vem alguém e bota um carro na praça para rodar e tirar passageiro da gente? Com aplicativo de celular? O governo não vê isso… A gente paga imposto para tirar essa gente da rua!” Paguei, sorri e desejei boa sorte.

Bati a porta do carro e percebi que a economia de mercado é excelente para qualquer um que não seja ele mesmo. Senti que o motorista foi embora ainda esbravejando contra tudo. Em homenagem a tudo que ouvi, resolvi baixar o tal aplicativo…

Morrer para reinventar

Antes de qualquer outra coisa quero te avisar: você vai morrer.

O que você conhece hoje, algum dia não existirá mais e você talvez jamais volte a ver. Tudo possui um ciclo: Nasce, cresce, faz uma graça, se cansa e sai de cena. Porém diz a ciência que nada se perde, tudo se transforma, portanto, de alguma forma, uma parte daquilo que somos e fazemos segue adiante.

O jornalismo como se conhece hoje vai morrer. As grandes empresas de comunicação agonizam, fazem beicinho, tentam golpear, jogar sujo, mas as redações estão cada vez mais vazias, o jornal de papel praticamente não existe mais, o público envelheceu, a audiência dos telejornais é risível. A tentativa de se tornar mais informal do Jornal Nacional é a imagem deprimente de um programa que já ditou a pauta nacional, mas que se mostra “sem jeito” para frear a queda. A batalha é desleal. Derrota inevitável. Um computador, internet e um olho atento tornam cada habitante um gerador de notícias, com seu público específico e alcance direcionado.

Não sei se os hotéis vão morrer, mas o crescimento de sites como o Airbnb faz com que a relação do hóspede com a cidade mude. Cada vez mais o turista quer ter a experiência de viver algo próximo ao que passa o morador local. Preços atrativos, humanização, troca de informações com pessoas nativas. Esses são alguns dos motivos que fazem o aluguel de quartos e apartamentos ociosos em cidades de todo o mundo se tornar algo cada vez mais comum. A internet mudou a forma do ser humano se relacionar com as coisas.

As relações de trabalho oriundas da Revolução Industrial vão morrer. O sujeito sai de casa às 7h, entra no trabalho às 9h, almoça às 12h, sai do trabalho às 18h, chega em casa às 20h, toma banho, janta, vê o jornal, depois a novela e dorme às 23h. No dia seguinte a rotina se repete, mesmo que a demanda de trabalho seja diferente. Bater ponto. Bater ponto. Ser pontual. Ser disciplinado. Não ser. Esperar a sexta feira à noite para ser feliz. Chorar baixinho do domingo à noite rezando para que a segunda feira seja apenas um pesadelo passageiro. O Skype entra no dia-a-dia. Home Office é uma realidade. Trabalhar por demanda, buscar o bem-estar, ter tempo para outras atividades, para se aperfeiçoar, para criar, para viver.

O Uber veio para ficar. Ao menos por enquanto. Pode ser que um aplicativo mais eficiente surja em breve, mas hoje o Uber atende demandas que não eram supridas. O serviço só cresceu porque a população suplicava por um transporte melhor. Taxistas protestam e querem a proibição do aplicativo, mas não apresentam propostas de melhoria, não treinam seus motoristas, não fiscalizam as condições dos carros.

O carioca cansou de ser enganado no trajeto para pagar mais caro. O carioca cansou de ter “corridas” negadas. O carioca cansou de ser maltratado, assediado, sobretaxado. Aplicativos como o Uber surgem porque existem clientes dispostos a pagar mais caro, mas que exigem um serviço de qualidade.

O grito desesperado dos taxistas só mostra que este é um caminho sem volta. Toda mudança gera conflito. Esta mudança é apenas o começo. Tudo morre para que possa surgir algo novo. Se será melhor, só o tempo dirá.

A monarquia era o sistema político aceito e defendido no mundo. Ter um escravo era natural. Mulheres não podiam votar.

Relações morrem. A carne morre. Serviços morrem. O desafio que o passado tem é aceitar-se morto e dar-se a oportunidade de renascimento.

Quem está disposto?
Ernesto Xavier

Vai uma pipoquinha?

Levei meu filho ao cinema esta semana. Programa legal, imagens na telona são divertidas para todas as idades. Apesar de que me sinto uma metalinguagem em looping quando tenho de pôr óculos especiais por cima de meus óculos para assistir a alguma coisa. São lentes para as minhas lentes.

Mas o assunto é outro. Não me deixe, por favor, enveredar por outros temas. Sou mestre em fugir de assuntos. Ops, lá ia eu de novo. Voltando ao cinema, é claro que você sempre se surpreende com a compreensão diferente que pessoas e empresas têm em relação às coisas. Bem, como a vida não está fácil para ninguém, aproveitar as promoções é o único jeito de uma diversão fora de casa sem precisar voltar sem as calças – ou quem sabe um rim – na troca por um
par de ingressos.

Lembro-me de um passado não tão remoto – talvez ontem mesmo, pois Jurassic Park e Exterminador do Futuro também estavam em cartaz – em que a quarta-feira era dia de meia-entrada. Pois bem, parece que o conceito de “metade” foi alterado na matemática. Na minha ou na do pessoal do cinema. Sorte dá para acumular promoções como cupons de desconto – cliente do banco tal, da seguradora tal, do clube de compras, sócio-torcedor e frequentador da biblioteca pública. No final, você se sente um pouco menos assaltado do que se realmente estaria, se pagasse um preço justo. E menor, óbvio.

Segundos depois, já na segunda fila, abate-se sobre mim aquela que é das mais fundamentais questões da humanidade: por que a pipoca do cinema é tão cara?

Sim, amigos deste e de outros mundos, aquilo é milho, sem nenhum outro atributo especial, idêntico aos antigos sacos de milho que levávamos para casa e aquecíamos em panelas com manivelas na tampa que mais pareciam o motor de uma nave alienígena oitocentista. Mas, ao contrário do senso comum, cada milho estourado naquele saco vale pelo menos uma moeda graúda. E não há opções razoáveis, o preço lhe empurra para a grandiosidade de tudo que é vendido. Combos super, mega e giga. Onde estão os tão simples de entender “pequeno, médio e grande”? Refrigerante de meio litro, quase um litro e um litro inteiro. O próximo passo é vender uma pet de dois litros e canos de pvc como canudos.

Claro que nada a menos que R$ 19,90. Ou R$ 21,90. Ou R$ 23,90. Ora, por dois reais eu levo o maior! É a vantagem da desvantagem. E assim caímos sempre no mesmo golpe. E ainda achamos que estamos nos dando bem. Geniais esses rapazes! Até porque o produto é de primeira necessidade: como não comprar as pipocas para o garoto? Ir até o pipoqueiro da esquina e voltar é impensável. Na verdade acho que eles passam os filmes só para atrair as pessoas.

Pura isca. O lucro do shopping inteiro sai mesmo é das pipocas.