Aqui e lá

Luaty

Você conhece Luaty Beirão?

O rapper angolano trouxe para nós a luz de que Angola e Brasil tem mais semelhanças do que apenas a língua oficial. Ao se submeter a uma greve de fome que durou 36 dias, um número emblemático, já que representam os anos que o presidente José Eduardo do Santos está no poder, Luaty espalhou pelo mundo a absurda realidade de um povo que viveu sob a guerra civil, que tenta se reconstruir, reinventar, re-significar.

Eram 13 ativistas reunidos em uma livraria discutindo a obra do autor americano Gene Sharp, que escreveu “Da ditadura à democracia”, sobre a ação política de resistência pacífica. Leram bem? Pacífica. Estas pessoas foram acusadas de tramar contra o governo, ou seja, tentar um golpe de Estado. Repito: 13 pessoas desarmadas, um livro, uma ideologia de não-violência. Estes são os “conspiradores” angolanos.

No dia 11 de novembro serão celebrados os 40 anos de Independência de Angola. Aos menos o presidente José Eduardo dos Santos, no poder desde 1979, vai comemorar ao lado de seus confrades.

Aproximadamente 7550 kilômetros separam Brasil e Angola pelo Oceano Atlântico. Pois lá e cá somos mais parecidos do que imaginamos. A começar pela enorme quantidade de negros oriundos da região que foram trazidos para cá, cerca de 1 milhão e cem mil apenas no século XVIII. As duas ex-colônias portuguesas mantém uma aproximação tímida frente ao histórico tão parecido.

Daqui não nos sensibilizamos com as mazelas de lá. Agimos como se fosse um povo desconhecido para nós. E não são. Aqui e lá temos presos políticos e censura. O Brasil tenta disfarçar sua repressão, enquanto Angola escancara para que todos vejam e ainda ri do povo. Difícil dizer qual o pior.

Luaty estudou engenharia na Inglaterra e economia na França. É filho de um ex-aliado do presidente. Cresceu próximo ao governo, mas sempre o contestou. Tornou-se rapper e através de sua música denunciou as arbitrariedades do governo angolano.

Lá um presidente assumiu 4 anos após a independência e é o comandante de uma ditadura que ultrapassa três décadas. Aqui nos tornamos independentes de Portugal para que o príncipe português assumisse o governo, mantendo o sistema monarquista. Aqui, após a ditadura, ainda temos diversos políticos ligados à mesma no poder e um movimento na sociedade que pede o retorno do período de repressão.

Lá mantém presos e em silêncio 15 ativistas além do tempo permitido por lei. Aqui começam a censurar páginas do Facebook e blogs que defendem o feminismo, o movimento negro, a causa LGBT. Os casos recentes de bloqueio de páginas como Jout Jout Prazer e Stephanie Ribeiro a partir de campanhas organizadas por grupos sexistas, homofóbicos e racistas só mostra como um movimento de intolerância vem tomando conta do país. Protestos de professores são tratados com bombas de efeito moral, tiros de bala de borracha, cassetetes. Estudantes que fazem protesto pacífico em São Paulo são presos e acusados de iniciar confusão, mesmo que todos os vídeos mostrem o contrário. Um palhaço é preso por policiais militares enquanto se apresentava para adultos e crianças em uma praça apenas porque falava comicamente da realidade de sua cidade. Ao mesmo tempo que a manifestação em prol do impeachment da presidente é televisionada e protegida pelos agentes policiais (que respondem ao Governo do Estado). Para que voltemos ao regime de censura, violência e prisões arbitrárias das décadas de 60 e 70 não levará muito tempo. Um movimento de ultra-direita, semelhante ao crescimento de políticos com Le Pen, na França, vem crescendo no Brasil. Representantes de ideias fascistas começam a ganhar status de pop stars.

Talvez não conheçamos tanto Luaty e suas ideias, pois estas poderiam soar muito reais para nós. E a quem interessaria um movimento de união massiva pela liberdade de expressão nesse país? A greve de fome é um suicídio lento diante dos espectadores, é o choque entre manter um ideal e perder a vida. Há quem morreria por algo que acredita, como ele, mas para o povo angolano a vida dele é mais importante, pois vivo poderá continuar a falar.

O que Luaty Beirão tem a nos ensinar é que não podemos permanecer impávidos diante do absurdo. Enquanto nos mantemos calados e inertes, a nuvem densa da censura, da tortura, da mordaça e linchamento vai tomando conta de todo espaço. Entre Angola e Brasil temos mais semelhanças que diferenças. Lá e cá apanhamos diariamente. Lá e cá precisamos falar e sermos ouvidos. Lá e cá nos calam.

A liberdade segue sendo um dos mistérios da humanidade.

Ernesto Xavier

A morte do jornalismo

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Não começou por acaso. Pode ter sido surpresa para alguns ter o nome na lista, mas no fundo sabiam que era uma questão de tempo. Ser demitido quando já se ganhou notoriedade, alcançando um patamar privilegiado na profissão, é frustrante. Aquilo em que se acreditou durante quase toda a vida, arruína-se, cai, desaparece.

A demissão de jornalistas do Infoglobo no começo de setembro expôs a situação precária dos veículos de comunicação, principalmente os impressos, no mundo inteiro. O Infoglobo reúne os jornais O Globo, Extra e outros veículos de comunicação do Grupo Globo, que iniciou um grande corte no quadro de funcionários, que pode chegar a 300 demitidos. Dentre eles estão Pedro Motta Gueiros, Aydano André Motta, Pedro Dória, Luciana Fróes. Alguns dos que me fizeram ter paixão por essa profissão. A saída de jornalistas tão importantes do quadro das grandes empresas de comunicação é o prenúncio da morte. Não lê-los é apagar um pouco mais o já combalido jornal de papel.

Trata-se de uma crise global de comunicação. O Dia, Terra, Brasil Econômico, Grupo Bandeirantes, Agência Estado também tiveram cortes esse ano.

Exatamente quando o fluxo de informação atinge níveis nunca vistos, aquele que deveria filtrar e facilitar essa comunicação, se perde em seu passado arcaico e tem dificuldade de se reinventar.

Culpam a crise do país. Não olham para si. Não aceitam que o erro está na forma como lidaram (ou não) com os avanços da tecnologia e as mudanças de perfil dos leitores. A “crise” econômica brasileira, tão alardeada pelos veículos, está longe de ser o motivo da derrocada dos mesmos.

O mundo mudou. Não há como negar. Quando deixamos de acreditar no novo e dar-lhe ouvidos, somos condenados. Para onde foram todos? Continuam aí, ávidos por novidades. Tente entende-los. Tenha empatia. Compreendendo as necessidades do outro, resgatamos quem somos nós. Renascemos.

Gay de Girardin, autora francesa do século XIX, já anunciava que “não são os redatores que fazem o jornal, mas os assinantes”.

A venda do Washington Post, um dos maiores jornais americanos, por U$ 250 milhões, em 2013, foi apenas mais um capítulo da crise econômica e de identidade do setor. Ainda nos Estados Unidos, o Boston Globe foi vendido por U$ 70 milhões pelo New York Times Group, que o havia adquirido 20 anos antes, por U$ 1,1 bilhão. Uma queda assustadora no valor de mercado.

Perda de anunciantes, redução de tiragem. O futuro da comunicação é mera especulação. Alguns apostam na extinção do jornal impresso. Outros acreditam na diversificação de mídias, através dos tablets, smartphones, e-readers. Eu acho que a grande revolução ainda está por vir. Ainda estamos engatinhando no universo digital.

Quem tem grana para apostar?

O jornalismo morre quando se debruça nas mazelas humanas apenas enquanto lhe dá lucro e as esquece quando outra tragédia ganha mais notoriedade.

O jornalismo morre quando o pobre preso é traficante e o helicóptero com 400 kg de cocaína em propriedade de político é apenas um engano. Culpa do piloto (funcionário do político dono da fazenda onde o helicóptero pousou).

O jornalismo morre quando se “esquece” por 72h da escalação irregular de um jogador que o próprio jornal havia anunciado a suspensão e só volta a “lembrar” do fato quando é anunciada a “coincidência” de um erro semelhante de outro clube, na mesma rodada, que beneficiaria o primeiro.

O jornalismo morre quando ignora por anos a barbárie das guerras civis na Sìria e no Afeganistão, dando atenção apenas após a morte absurda de mais uma criança em uma praia turca.

O jornalismo morre quando a crise hídrica só passa a ser um problema quando atinge os estados do Sudeste, ignorando as décadas de seca no Nordeste.

O jornalismo morre quando faz campanha pela redução da maioridade penal.

O jornalismo comete suicídio quando o filho do Pitanguy é tratado como vítima de um acidente e o pedreiro José Fernandes da Silva, morto no acidente, mal é citado na matéria.

O jornalismo morre quando fecha os olhos para remoções arbitrárias como na Vila Autódromo ou com o desastre ambiental do campo de golfe na Barra da Tijuca.

O jornalismo assina o próprio óbito quando trata índios como invasores, mostrando apenas o lado dos latifundiários no Centro-Oeste, dando pouca ou nenhuma atenção para os assassinatos de indígenas cometidos por fazendeiros.

Como disse Malcolm X: “Se não estás prevenido ante os meios de comunicação, te farão amar o opressor e odiar o oprimido”.

Para os jornalistas é a chance de recriarem o meio de comunicação com seu público. Seguindo como está, um dia não haverá jornal para anunciar o próprio obituário.

O jornalismo (como o conhecemos) morreu. O jornalista, jamais.

“Não falar para o seu século é falar com surdos”

Jean de La Fontaine

@nestoxavier

Lágrimas ao mar

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Era uma praia. Uma praia. O mar quebrava na costa, como há milhões de anos. Águas que trazem vida. Águas que conduziram os povos. Águas. Águas.

Um mar inteiro que resolveu chorar. Um drama que águas não lavam. Cada gota do salgado mar chegava à costa como lágrimas que correm no rosto assustado dos desavisados.

Como surpresa, como aberração, como espanto as espumas das ondas bordavam a praia de tristeza e dor. Como se pintassem o retrato de nossa falência, de nossa impotência.

Tantos mares navegados. Descobridores, conquistadores. Riqueza, civilização. As ondas continuavam batendo na costa. Nas costas de outros, apenas o açoite. Eterna noite.

Tenebrosas tormentas de atormentados territórios. Espólios. Números não têm vida. Mas a vida dos poderosos transforma tudo em números.

Era uma praia. Uma praia. Cenário improvável das tragédias éticas e morais. Idílio paradoxal do esgoto criado pela ganância.

Lutas e sangue. As consequências óbvias de intromissões, de invasões, de impérios. De repente, as ondas trazem de volta o resultado da ignorância. Mas, nem assim, os homens podem assumir seus erros.

Era, enfim, uma criança. Afogada no mar da intolerância. O sal da água que chorava a perda de todo sal da terra.

Morto por canetas ‘mont blanc’. Linhas tortas, linhas tortas.

Europa, mítica mãe da civilização. Ganância que assolou Áfricas e Américas. Nossa humanidade escoa pelo ralo da história na imagem perdida de uma criança morta.

Morremos todos. Ainda que continuemos vivos para testemunhar mais lágrimas que não tardarão a nos chegar.

Era uma criança. Uma praia. Uma possibilidade.

Morta. Sem vida. Nas areias de um mundo sem alma.

Não existe amor

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Algum dia entre os séculos XVI e XIX os meus ancestrais chegaram a essa terra. Vieram em porões de navios atravessando o oceano atlântico desde a África. Enfrentaram fome, frio, doenças, sede, enjoos, completa insalubridade. Sobreviveram sabe-se lá como. Não tiveram escolha. Eram mercadoria, apenas. Faziam parte de um sistema que sustentava a sociedade brasileira. Sem eles não existiria o Brasil colônia. Portanto, o povo apoiava essa condição. Não sentiam pena pelos que morriam pelo caminho. Não lamentavam as condições em que eles eram colocados.

Antes de qualquer outra colocação é importante frisar: o africano que veio para o Brasil durante o período escravocrata NÃO era um imigrante e nem um refugiado.

A escravidão legal praticamente acabou no mundo. Sua cultura, não.

Muitos ainda veem o ser humano como um pedaço de carne. Ainda existem (muitas) pessoas que não conseguem enxergar alguém considerado diferente: estrangeiro, negro, gay, gordo, árabe, judeu, com amor.

Estão imersos em seus próprios problemas, preocupados apenas com a bolsa da China, o Orçamento do Governo, o preço da cerveja no supermercado, o resultado do futebol, a esquerda, a direita, o whatsapp do namorado(a), a próxima plástica…

Passamos a olhar para o horror da guerra civil na Síria porque uma criança foi encontrada morta em uma praia na Turquia. Na verdade, eram dois irmãos, a mãe e outras 8 pessoas. Todos náufragos. A imagem do garoto de bruços sobre a areia, inerte, inocente, choca. Naquele momento o mundo se sente impotente. A Humanidade tem que reconhecer que errou feio o caminho.

Para onde fomos? O que escolhemos como certo para nós? Que prioridades temos para a vida?

É o carro novo? A promoção da empresa? A viagem nas férias? A poupança?

Quem consegue se sentir um vencedor na vida ao ver aquela imagem?

Aylan Kurdi é a prova de que errei. Admito. Outros talvez admitam junto comigo. Muitos dormirão tranquilos pensando no final de semana que se aproxima ou lamentando a segunda-feira que assombra os insatisfeitos.

Os barcos de refugiados são os navios negreiros do século XXI. As mortes se espalham sem que suas vítimas sejam conhecidas. Estas pessoas tinham uma vida, família, trabalho, uma história para contar. Mas quem se importaria em saber? Já estavam mortas para o mundo bem antes de serem tragadas pelo oceano.

Junte a elas os trabalhadores escravos em países asiáticos, mulheres mutiladas na África e privadas de direitos básicos em diversos países, meninos corrompidos pelo tráfico de drogas nas favelas, povos miseráveis aqui e em toda parte, reféns do Estado Islâmico e dos Talibãs.

A espécie humana fracassou até aqui. Alguns focos de esperança espalhados pelo mundo nos salvam da extinção merecida.

O que me diferencia do habitante da outra margem do rio ou do oceano?

O passaporte? A língua? A cultura? O biótipo?

Essas diferenças são suficientes para que eu não sinta empatia por ele? Prefiro pensar no que temos de semelhante.

Eu morri um pouco com cada um dos 300 mil sírios vitimados pela guerra. Morri com a fome e as doenças dos africanos. Morri, pois sou irmão das vítimas. Morri, pois sou irmão dos vilões.

Aylan Kurdi tinha apenas 3 anos de idade e pôde sentir, em tão pouco tempo, como a vida pode ser cruel. Queria dizer alguma coisa a ele, mesmo que não entendesse:

Nem você ou sua família erraram ao tentar atravessar o mar em busca de uma vida mais justa, fomos nós que erramos ao perder a capacidade de amar.

 

Foi sempre assim ou eu estou vivendo o pior?

Em 2001 dois aviões se colidiram com dois prédios gigantescos em Nova York. A maior potência mundial, antes segura dentro de seu território, passava a sentir na pele o terror que só conhecia em filmes produzidos em seus estúdios (coincidentemente catastróficos com suas belas cidades) ou então em telejornais, que noticiavam algo que ocorria a milhas de distância. Estava oficialmente inaugurada a Era do Terror.

Osama Bin Laden passou a ser um cara conhecido. As Torres Gêmeas, mesmo transformadas em pó, viraram o maior ícone da cidade que nunca dorme. O terrorismo passou a ser pauta dos jornais. A sensação de medo tomou conta da sociedade americana (e porque não dizer mundial?). Cada canto poderia esconder um perigo que não se sabia o motivo, a hora, a
extensão…só se sentia o medo, que pairava sobre as ruas como uma névoa densa, turva.

O atentado do 11 de setembro foi algo bizarro? Foi. Alguém duvida que suas consequências foram catastróficas? Também acho que não. A imprensa ajudou a multiplicar essa sensação de medo? Com certeza.

A internet ainda engatinhando, porém ganhando força a cada dia, fazia chegar rapidamente às casas um número absurdo de notícias na época. Eu me recordo de ter conseguido acessar os sites do New York Times e do Washington Post naquele dia e de me sentir um privilegiado, pois todos os sites de notícias americanos estavam congestionados com tantos acessos, algo impensável para o período. Não existia o Orkut. Não existia Facebook, Twitter, Instagram, Snapchat… Garanto que um evento da mesma magnitude nos dias de hoje causaria uma catástrofe ainda maior, pois muito do que concerne a um evento diz respeito a como aquilo age sobre nós. Teríamos cem vezes mais imagens, relatos, debates, suspeitas, medos.

O Governo americano, com seus alertas “laranja”, “vermelho” e a imprensa, com seu afã de vender jornais, conquistar audiência, lutar contra uma queda (morte) que hoje se mostra inevitável, se apegou ao medo para conquistar a sua fatia do bolo. Uma sociedade governada e controlada através do medo é muito mais fácil de manipular. Assim Bush se reelegeu. Assim convenceram a população de que o Iraque possuía armas de destruição em massa. Assim conseguiram expandir a verba para manutenção de tropas militares (alô indústria armamentista!) no Oriente Médio. Assim justificaram a morte de inocentes.

Não escrevo aqui um artigo científico, é apenas uma divagação sobre algo que acompanhei desde o início e que vejo se repetir em escalas diferentes por aqui, hoje. Pois bem, a internet se expandiu, chegou aos celulares (que em 2001 serviam apenas para ligar ou enviar mensagens), chegou a todos os cantos (não me neguem a senha do Wi-Fi).

Hoje não preciso sair de casa (e a mídia me incentiva a ter medo da rua), pois abro o computador ou dou uma checada no celular e vejo o medo. São posts no Facebook, compartilhamento de notícias (em geral de fontes duvidosas), opiniões e xingamentos de todos os tipos. A internet é a melhor e a pior coisa que nos aconteceu nos últimos anos.

De acordo com a internet:

. A violência no Brasil tem nos jovens de 16 e 17 anos os seus maiores vilões.
. A corrupção brasileira começou em 2003.
. Serei esfaqueado (provavelmente por um menor de idade) na esquina da minha casa.
. Esta é a pior (Por que não a primeira?) crise econômica da história nacional.
. Nunca fomos tão racistas, tão homofóbicos, tão religiosos, tão violentos…

Acreditem: o mundo já foi bem pior. O Brasil já foi bem pior. Pensar no passado como um período mais romântico é como desconsiderar a história. Dito isso, afirmo que mesmo assim não quero este mundo que se apresenta.

Já escravizamos negros. Já queimamos mulheres acusando-as de bruxaria. Já exterminamos índios. Já proibimos o candomblé e a umbanda.

Hoje excluímos o negro e o chamamos de macaco em estádios. Hoje batemos ou estupramos mulheres com o argumento de que elas provocaram. Hoje queimamos índio pensando que era mendigo. Hoje apedrejamos e desejamos o inferno para quem veste branco e tem fé nos orixás.

As consequências são “menores”, mas igualmente bárbaras (no sentido negativo de “bárbaro”, é claro).

Foi no 11 de setembro que o terror ganhou tons épicos e se espalhou como vírus. O mundo evoluiu e a sensação de que tudo está pior cresceu. Por que? Temos mais acesso, temos mais informação, estamos conectados a tudo e de tudo temos algo a falar.

“Os adolescentes cometem menos de 1% dos homicídios do Brasil e são 36% das vítimas”. Como passaram a ser considerados os grandes vilões? A política do medo. “Alguém” quis nos fazer acreditar que colocando jovens em prisões comuns e não em reformatórios para menores seria a solução para todos os problemas de violência no país.

Como fizeram isso?

Espalhando notícias direcionadas. Espalhando o medo. É um negócio muito lucrativo e que beneficia toda a cadeia produtiva. A notícia de que um “homem de bem” (leia-se: classe média alta) morreu pelas mãos de um menor de idade na zona sul do Rio (leia-se: onde os ricos deveriam se sentir protegidos) vende mais jornais. Vendendo mais jornais, mais anunciantes são vistos. Mais gente nas cadeias: mais empreiteiras em licitações, mais material de segurança, mais alimentos (licitados, é claro), mais presídios privados, mais, mais, mais…

Um jovem que nada custou para o Estado, já que não lhe deram saúde, saneamento básico, educação, moradia, alimentação, cultura…acaba dando lucro para o próprio Estado e seus financiadores. Tudo às custas do medo.

O 11 de setembro foi apenas uma forma de mostrar como o medo (real ou aumentado) pode nos levar a interpretações perigosas da realidade. Está tudo pior ou foi sempre assim?