Diarreia mental

flora

– “A diarréia incomoda muita gente! Com repoflor, já não incomoda maais…”

– Hã?

– “A diarréia incomoda muita gente! Com repoflor, já não incomoda maais…”

– De onde você tirou isso, Manu? O que que é diarreia?

– Não sei, pai, mas com repoflor não incomoda mais.

– Tá bom, mas onde você ouviu isso?

– Na tv, papai. Já vi um monte de vezes.

Manu não assiste tv desacompanhada. Assistiu este anúncio provavelmente junto com a gente, durante o café da manhã ou almoço, durante os quais assistimos normalmente aos noticiários. À noite, na copa, durante o jantar, a avó assiste a novela.

Engana se quem pensa que estes serezinhos não estão prestando atenção ao que se passa ao seu redor. Desenvolvemos uma capacidade de abstrair os anúncios, o que nos provoca a perigosa situação de não ver e ouvir o que as crianças estão bebendo. A gente tenta amenizar e evitar que ela veja a violência dos fatos, mostrar crimes violentos, atentados, mas a propaganda passa despercebida. Curiosamente, na outra ocasião em que ela comentou de uma propaganda, foi de activia. Provavelmente a figurinha não terá problemas intestinais nunca.

Essa outra ocasião foi mais perigosa. Ela era muito mais nova que hoje e não tínhamos entendido de onde ela tinha tirado aquilo. A resposta veio dias depois. Do youtube. Mais do que controlar a tv, controlo internet. Youtube principalmente. Pra minha surpresa, um vídeo de desenho animado, talvez da Monica, trazia a propaganda, que fazia menção ao fato de que a prisão de ventre tira o apetite sexual. Confesso que não lembro exatamente o que ela disse no dia, mas se referia exatamente ao lado sexual (ou não) da coisa, ainda que ela não entendesse o que aquilo significava. Como as propagandas são feitas por termos de busca ou referência, isso pode acontecer. Um exemplo (fictício): Um frigorífico patrocinar o termo de busca “porco” e a propaganda aparecer num desenho dos três porquinhos, por exemplo. Ao fazer a propaganda, você tem como escolher canais nos quais a propaganda vai aparecer. Mas isso dá um trabalho brutal pra ser feito, de forma na maioria das vezes que a palavra é usada direto mesmo.

Ou seja: necessidade completa de supervisão na internet E tevê. É ingenuidade pensar que só o programa está sendo assistido. Qualquer intervalo, produto, anúncio de outro programa ou filme está sendo gravado pela mente do seu filho. O buraco é muito mais embaixo. Largar seu filho vendo um canalzinho inocente do youtube ou um programinha de tv pode não ter bons resultados.

O preço da liberdade é a eterna vigilância.

Ah, a imagem das flores, deste post, é em homenagem à nossa flora intestinal.

Lê?

livros empilhados

As palavras estão por toda parte. Anúncios comerciais, manchetes estrambóticas, matérias com cara de ficção, ensaios, artigos.

Redes sociais em particular, internet em geral, jornais mofados, revistas.

As bancas de jornais são abarrotadas de publicações. Imagine a Livraria da Travessa da Barra, mar concreto de letras – e também de futilidades elementares. Pilhas e pilhas.

Resumo: tem coisa para ser lida por todo lado. Estão sobrando toneladas e hectolitros de palavras nas comunicações.

Metade do dia com os celular em off, você o liga e vem aquele turbilhão de bips com trocentas notificações de whatsapp, foicebúqui e tuíter.

Tem tudo, tudo mesmo, do melhor e do pior.

Pergunta-se: quem lê?

Na acepção clássica da palavra mesmo: percorrer com a visão (palavra, frase, texto), decifrando-o por uma relação estabelecida entre as sequências dos sinais gráficos escritos e os significados próprios de uma língua natural.

É o que a gente faz por aí mesmo?

Modéstia à parte e com a pequeníssima importância que me cabe nesta terra incerta e injusta, tenho lá as minhas duvidazinhas.

Já fui publicado algumas vezes por editoras diferentes. Certa vez, antecipei uma crônica de futebol para um amigo querido, recebendo a seguinte resposta por e-mail: “Cara, esse texto é do Nelson Rodrigues? Eu já li noutro lugar”. Expliquei que não.

Embora meus livros lançados sejam de futebol e quase todos sobre o meu time, o Fluminense, não consigo enxergar absolutamente nada da monumental importância de Nelson, o maior dramaturgo brasileiro, no que eu escrevo. Nunca enxerguei.

Falando nisso, estilo literário: você consegue identificar o jeito de escrever de um autor, de modo a não confundi-lo com outros?

Dois sujeitos começam a discutir numa postagem de Facebook. Um sujeito comentando o escrito do outro sem ter lido…:

– Mas eu não escrevi nada disso do que você está falando! Onde você leu isso?

– O que importa é que você está completamente errado. Você não sabe de nada, brother!

A porradaria verbal come.

Nestes dias de golpismo e rancor, até a grave crise política tem seus dias de Febeapá: o tal procurador camisa preta (esse pessoal gosta, hein?) pediu a prisão de Lula fazendo uma incrível citação onde o homônimo de Engels era… Hegel.

Na semana passada, um capoteiro homônimo foi convocado a depor por vídeo ao juiz Sergio Moro, numa das cenas mais constrangedoras de 2016: o depoimento acabou em segundos, quando o magistrado deu conta da barbeiragem ali feita.

Maluf vai para a televisão e defende a honradez e a dignidade do governo acusado da fraude na merenda.

Paulinho da Força aparece na televisão pedindo a derrubada do Governo. Mais sujo do que pau de galinheiro.

O governador do Rio, chamado de Pezão, posterga os pagamentos do funcionalismo, mas antecipa verbas para concessionárias e grandes empresas do Estado.

Você lê mesmo sobre o que está acontecendo ou apenas faz papel de retransmissão humana das grandes corporações midiáticas?

Você já leu que, durante décadas, a inflação mensal brasileira ultrapassava 30, 40, 50 ou até 70 por cento ao mês?

E que o Maracanã ficou fechado três anos para reformas visando à Copa do Mundo de 2014, e agora é novamente isolado para as intervenções olímpicas? Aproveitando o tema, você já leu coisas que te fizeram pensar sobre o que já foi o Brasil do futebol e o que ele é hoje?

Já parou para ler como acontece uma das nossas maiores tragédias, que é a violência pela disputa do tráfico de drogas?

Você já leu algum relatório trimestral do IBGE sobre o Produto Interno Bruto, simpaticamente chamado por PIB?

Ou o interesse dos grandes jornais a favor do candidato X, do partido Y e da eleição Z?

Já leu poesia, letras de música, pequenas prosas, textos marginais, escritores underground, craques consagrados? Se o tiver feito, como isso é?

Algum filósofo grego – ou quase todos?

Autores traduzidos, bastiões dos países de língua portuguesa, poetas de calçada?

Afinal, você lê o texto ou apenas o significado de cada palavra?

Deixe seu recado após o sinal gráfico.

Pequenas lembranças em uma tarde de férias

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A tarde quente, quente demais e um tanto vazia, enquanto escuto o vanguard jazz de Anthony Braxton gravado ao vivo em São Paulo. Deixar os pensamentos flutuarem pela música, recordando de coisas e gentes que pareciam tão perto, mas agora estão longe demais no tempo e no espaço.

A história da garota nua que me contaram no hotel do Bairro Peixoto já tem coisa de dez ou doze anos.

O velho moço Alex com sua cara de doido em 2001 e 2002, num e-mail que Zé acabou de enviar. Os amigos abraçados na fotografia, todos jovens e recheados de futuro pela frente.

O jazz remete ao banco de praça na livraria Berinjela, enquanto Maurício parecia profundamente entediado e seu irmão contava as horas para comprar fichas na Miami, a casa de peep show que ficava ao lado da locadora do espaço – a Igreja de Copacabana. Entre os silêncios, conversas sobre o fim do mundo, do bom senso, da civilidade e o que faríamos em caso de fracasso do governo reeleito à base de rolo compressor. Dezoito anos, pois.

A casa bagunçada é um silêncio tirando-se a experimentação de Braxton. A família acabou, as pessoas morreram, as saudades permanecem, agora a cama abriga um outro casal. Dez anos.

À janela, pode-se escutar a vizinha esquizofrênica do andar de cima reclamando contra tudo e todos: a presidenta, a saúde, a segurança, o trabalho do faxineiro, o botão do elevador que não brilha e uma imaginária voz machista sopra num canto: “Essa coroa precisa dum macho pra parar de encher o saco dos outros”. Quinze anos de reclamações.

Descansar até sete da noite e encontrar antigos amigos que não se veem há meses. Promovíamos uma janta mensal em bares e restaurantes diferentes, experimentando todos os cardápios possíveis. Onze anos, senhor!

Outros discos à cabeceira. Dave Brubeck, o cubano Eliades Ochoa, Leonard Cohen – tem gravado muitos álbuns e feito shows, já na casa dos oitenta anos. Eu o conheci há uns vinte e cinco.

Um único tema de Braxton tem setenta minutos. Foi gravado no Sesc em São Paulo. Jazz de alta qualidade. O livro da Márcia Tiburi na página 50. Aquele dos bicheiros alinhados com a ditadura, já lido. Contaram a real de Mariel Mariscott. Trinta e cinco anos se passaram.

Desde que escrevi estas linhas, aproximei-me em alguns passos daquele caminho inevitável para a morte, pensando que ainda é cedo, que há muito para ser feito e que tudo passou em décadas num instante.

Olhar para trás e pensar no que passou, no que devia ter sido mas não foi, no filme queimado, nas noites claras de luar e estrelas benditas. As mãos namoradas, as desilusões juvenis, as risadas em se perceber tão imaturo quando tudo cheirava à personalidade.

O jazz não para no quarto escuro e bagunçada de uma tarde quente demais, sugestiva demais, com pensamentos sendo águias em pleno voo.

A vizinha esquizofrênica calou a boca. Aleluia, irmão!

@pauloandel

Maria saiu do grupo

Pedidos de demissão, rupturas de namoro, separações, divórcios, bate-bocas etc

O jeito moderno de fazer isso, hoje em dia, é pelo zapzap.

Pra que explicar, falar, gerar mal-entendidos? É simples. Você abandona o grupo.

Ontem à tarde, terceiro e último dia de treinamento para catorze novos funcionários de uma cantina. Uma moça faltou. Não deu aviso. Cerca de duas horas mais tarde, em pleno treinamento, quase todos ao mesmo tempo começam a conversar. Uma verbaliza:

– A Maria se demitiu.
– Ela ligou? Avisou algo?
– Não. Saiu do grupo!

Simples. Asséptico. Muitas horas depois, formalizou o que já se sabia por um comunicado lacônico.

Grupo de casais da Igreja. Seis casais. Doze números. Um grupo daqueles esquecidos, no qual ninguém conversa, exceto eventuais postagens de auto-ajuda religiosa ou votos de parabéns.

Plim! Fulana saiu do grupo. Falei com minha mulher:

– Ih… Beltrana saiu do grupo da Igreja! Acho que se separou.
– Deixa de ser fofoqueiro! Trocou de celular, ou resolveu sair do grupo, sei lá.

Horas depois… plim! O (ex) respectivo abandona o grupo também. Não dei mais um pio. Horas depois a confirmação. O casal havia se separado. Os dois plins já haviam comunicado o fato.

As vezes, no entanto, não rola plim. O romance da night anterior está lendo as mensagens. As setinham se duplicam, ficam azuis e o sujeito se finge de morto. O implacável zapzap, por meio daqueles “certinhos”, esfrega na lata da infeliz que o mancebo a relegou ao limbo. Não há alternativa. É fazer a fila andar. Porque lá, ela já andou.

Os exemplos citados são verdadeiros. Os nomes não. O casal voltou às boas. Entrou novamente no grupo.

Antes as pessoas conversavam. Depois, a conversa entrou no telefone. Passou pro chat. Caminha pros ruidos.

Falta pouco para grunhirmos.

SS SS! Ouvi uma vez. Fiquei tentando interpretar.

Era um “Dá licença?”.
Licença.
Cença.
SS SS!

plim.

A sociedade dos láiques

a sociedade dos láiques

Oh, precisamos ser aceitos de qualquer maneira. O láique, o láique. Sem ele, não leram o que a gente escreveu, não nos viram mais bonitos nas fotos que retocamos, não estão nos reparando direito, não somos ninguém. Sem curtidas, o que fazer da vida?

Oh, céus!

Desde quando apertar ou não um botão eletrônico é chancela ou reprimenda de alguma coisa?

Falo por mim mesmo: algumas das coisas mais legais que vi e li sequer foram de pessoas que tenho como “amigas” na “rede social” Facebook.

Por acaso, quando tenho tempo e o smartphone livre, sendo o dedo no polegarzão. Qualquer coisa de amigos. Textos, sempre leio. Vídeos, alguns. Fotos, muitas fotos, muitas delas de cachorros, então os próprios modelos jamais saberão e fica tudo bem.

Gerencio um blog sobre futebol. Certa vez contrastei resultados de láiques com visualizações. Espantoso: uma publicação com expressivos seiscentos láiques tinha sido visualizado por mil usuários, enquanto outro com míseros setenta tinha sido visto por mais de 50 mil seres da internet. A equação não é linear.

“Ah, ele não me curtiu, é porque não gosta de mim…”

“Ah, se ela está curtindo a foto, é porque está dando mole pra ele…”

“Aquela piranha fica curtindo as fotos do meu namorado…”

“Eu sou foda: todo mundo me curte! Sou formador de opiniaum (sic).”

Mar salgado de bobagens.

Tem o outro lado: o imbecil que só entra para comentar com rispidez, buscando dez segundos de fama pelo choque de ordem. O típico machão de internet que, na vida real, sonha em ser o protagonista de “Priscilla, a rainha do deserto”. Ou o senhor da razão, que sabe de tudo e todos, sempre com aquela velha opinião formada sobre tudo, sem desconfiar que o banho mais demorado da patroa acontece porque… ela está no Whatsapp com um admirador.

Sensacional a crítica ao mundo das virtualidades frívolas feito pelo músico Tiago Iorc em seu quarto álbum, lançado em julho do ano passado com o sugestivo nome de “Troco Likes”.

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Eis o release:

“O nome do novo disco representa uma crítica velada à atual sociedade, que faz de tudo para ser um pouquinho famosa na era virtual. Um “troco likes” apoiado a uma capa que traz a ilustração que representa Iorc com um sorriso feito forçadamente por prendedores foca na direção do apontar o dedo àquelas pessoas que vivem de falsas aparências, principalmente no meio virtual.

De certo modo esta crítica é abordada logo na primeira música do disco, “Alexandria”, que versa sobre a mania de grandiosidade que todos temos internet afora, buscando sempre uma aceitação vazia e o reconhecimento fácil por coisas banais.”

A fantástica ilustração da capa foi feita pelo artista Nestor Canavarro, com lápis de cor e uma folha de papel.

O láique é simples, direto, fácil e nem sempre significa mais do que realmente é: um oi. Duro mesmo é chegar ao terceiro ou quarto parágrafo sem um único erro crasso de Português, na cruel realidade dos candidatos a superstars de ocasião – que, claro, nem percebem as asneiras que praticam.

Nem vou falar dos autoproclamados “guerreiros” enquanto ali, logo ali, a cada três segundos uma criança morre de fome em alguma parte deste mundo real. Um ilusão à toa enquanto verdades e mentiras são ditas inbóquis, no uátis, no SMS e até mesmo no velho telefonema.

Prefiro o clássico de Rogerio Skylab, 2006:

@pauloandel

Amor 2016

amor 2016

Nestes dias de um janeiro que mal começou e já trouxe todos os seus dissabores com atentados, balas perdidas, mortes estúpidas, o adeus a Bowie, guerras vergonhosas, ódio e intolerância, onde encontrar o amor? Ele está em muitos lugares e, ao mesmo tempo, é escasso em outros. Vive sob escombros e também no luxo. Ah, o amor desperdiçado em infrutíferas conversas inbox, outras mensagens eletrônicas outbox e até em bilhetes escritos à mão. Amor, amor, que se mostra tão derrotado na indiferença que polui cada marquise a servir de palácio da miséria. Amor dos dirigentes de futebol, eventualmente de mãos dadas com comissões e participações, não muito diferente do amor das redações dos jornais, geralmente ligados a causas empresariais particulares. O amor desperdiçado em noites absolutamente entorpecidas, regadas a álcool e drogas, onde volumes, protuberâncias e aparências são muito mais importantes do que qualquer sentimento. Onde foi parar o amor dos motoristas que discutem no trânsito até que um assassina o outro? Certamente não está nos bancos, que oferecem simpatia, ideias, mensagens vitoriosas mas nenhum segundo dedicado ao nobre sentimento humano tão decadente hoje em dia. Shopping conters não têm amor, lojas de grife não têm amor, modernos edifícios corporativos não têm amor. Nos transportes de massa ele é possível: o marido e a mulher de mãos dadas, o menininho descansando no colo de seu pai. Num parque também: uma senhora levando seu querido cão para passear. Noutros cenários, ele ainda é raso: falta certo amor nos cumprimentos feitos ao porteiro, o faxineiro, o vigia, à atendente da lanchonete; ao carteiro que traz boas e más notícias e obrigações financeiras. Falta amor quando existe indiferença e nojo dos moradores de rua por perto, da sentava que aquela garota estúpida de São Paulo mencionou na internet, no estúpido humano que entra no elevador sem cumprimentar ninguém, na incapacidade de se perceber a importância das pessoas mais simples. Que amor explica a morte daquela mulher tão bonita em Niterói, obcecada por um procedimento estético absolutamente desnecessário? Oh, amor: pensando bem, naqueles inboxes frios e distantes da labuta, da prosa livre e da conversa fiada, você existe justamente no que não foi escrito. E vive no coração dos loucos que ainda sonham em mudar o destino de seus times de coração. Na visão de águia dos pilotos que cortam os céus deste mundo, levando gentes e gentes, testemunhando a beleza das nuvens e o mistério das distâncias. Nos pobres bichos abandonados no jardim zoológico da cidade olímpica existe amor. Nos versos livres e herméticos de um poeta desconhecido habita o amor. Agora o Rio acorda para mais um dia de trabalho e o amor, mesmo rarefeito, está no ar. Ele vai sofrer golpes, decepções, indiferença, pilhéria mas estar por aí. Talvez em danças de salão, livros escondidos, olhares distantes, até mesmo em notícias de televisão. Um menininho carrega um pequeno pato de borracha enquanto é puxado pela mão e dá seus passinhos no coração da Guanabara: é amor. Alguém pensa no próximo por breves instantes e ali reside o amor. O rapaz preocupado com o trajeto da namorada até o trabalho, monitorando pelo aplicativo whatsapp, é amor. O mesmo não se pode dizer da morte do rapaz caindo num córrego e deslizando para a morte, nem dos percalços recentes de um fluminense de bem, perdendo três parentes inesperadamente em um mês. O amor que mora num sorriso, num sanduíche, numa cena de desenho animado do passado e em muitas lembranças que talvez expliquem certa melancolia de tudo que possa ter sido escrito aqui, mesmo nos melhores momentos. O amor que sobrevoa Ipanema, espia Madureira e precisa chegar a todos os bairros do mundo. Amor, esperanças ingênuas e a saudade do que não se viveu, como se o horizonte lembrasse o tom das Gerais. Fazer amor fazer sentido, eis o desafio.

@pauloandel

Romano, Vieira, eu e a paz

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Ontem à noite, depois de uma longa temporada, pude me reencontrar com meu amigo Luiz Vieira, atualmente morando em Sergipe e numa turnê de férias pelo Brasil. Ele fez uma breve passagem pelo Rio de Janeiro. Aproveitei o momento para convidar nosso velho amigo de escola Floriano Romano, hoje um artista consagrado.

Tivemos como ponto de reunião a livraria Cultura da Senador Dantas. Em vários momentos ficamos espantados com o tamanho daquela loja, que um dia abrigou o esplendor do Cine Vitória, primeiro com seus filmes infanto-juvenis e, mais tarde, um paraíso da filmografia erótica.

Na última vez em que estivemos os três juntos, o Brasil ainda vivia uma ditadura, a inflação era de 80% ao mês e o melhor futebol do mundo era nosso. Vida que segue.

Com o café da Cultura cheio, rumamos para o Spaghettilândia, decano restaurante nos arredores, símbolo de pratos baratos depois das velhas manifestações políticas, quando isso não significava odiar o oponente.

À mesa, falamos da alegria de uma conversa de bar, do mundo que tem parecido cada vez mais injusto e vil, do egoísmo, da indiferença, de coisas que os garotos dos anos 1980 tanto sonhavam para um país e um mundo melhores. Futebol, política, cotidiano, chopes derrubados indevidamente. E também tivemos uma breve aula do Romano sobre as diferenças entre a arte moderna e a contemporânea. Enfim, de tudo. Mas o importante mesmo foi podermos passar duas horas de excelente conversas e até alguns risos, entrecortando as mazelas do cotidiano.

Uma pena que precisasse ser tão rápido. Era o jeito, mas pudemos aproveitar o melhor de nós como amigos, fraternos camaradas dos tempos de escola, quando ainda tínhamos Elis Regina e até Garrincha.

O final da conta foi antológico: o Vieira saiu correndo para pagar a conta no caixa, enquanto nós o perseguimos para impedir que assumisse a despesa sozinho. Definitivamente, não era uma mesa comum no coração da cidade que tem tantas maravilhas naturais – e muita superficialidade nas relações humanas também, infelizmente.

Na saída, deixamos o Vieirinha na porta da estação Cinelândia. Trocamos nossos abraços fraternais. Depois, eu e Romano pegamos um táxi para o outro lado do Centro. No carro, o que mais falamos era como o Vieira tem uma aura boa, de paz, a mesma dos tempos de criança, algo tão raro nesse mundo de violência, covardias e solidão. E como é bom saber que, passados tantos anos, temos um amigo que nos passa bons sentimentos à primeira vista.

Quando Romano desceu do carro, aí foi a minha vez de pensar sozinho: um dos craques das artes de hoje no Brasil é meu amigo dos tempos de jogo de botão, no corredor de um grande prédio de Copacabana.

Lembrando do belo letreiro em neon no salão do Spaghettilândia, tricolor por sinal, num súbito penso agora em como é bom ter amigos que são boas pessoas de verdade, intelectualizadas, críticas desta sociedade hipócrita em que vivemos.

Foi uma grande noite. No meio da selva de pedra sentimental, meus dois amigos me permitiram voltar no tempo a ponto de ter todo o mundo à frente, em forma de futuro. Os anos passaram, mas ainda estamos muito vivos e isso é bom.

Em nenhum momento falamos de dinheiro, posses e bens, donde se depreende o caráter dos cavalheiros presentes. Gente que faz bem, que emana arte e paz. O mundo anda carente disso.

@pauloandel

Hipocrisia social e Feliz Natal

Natal chegando. 2015 terminando.

Foi um ano muito difícil.

Minha (pouca) sanidade foi mantida com a inestimável ajuda de uma amizade de mais de vinte e cinco anos de duração e que, apesar de estar a 1200 km de distância, foi presença diária na minha vida. Vilarejo MetaEditora, os dois Panoramas, Encefálica, vários livros. E que sempre esteve presente para trocar ideias sobre os assuntos mais complexos ou para falar das coisas mais leves e ajudar a esquecer aquilo que verdadeiramente atormentava a ambos.

Tenho seiscentos e cinquenta e cinco amigos na minha timeline. Talvez setenta por cento deles não tenha noção de quem realmente sou e do que se passa na minha vida. Uns vinte, se muito, realmente são próximos e conhecem minhas batalhas. Normal.

O que não é normal é o que acontece nas redes sociais se você, num momento de tristeza, e desespero, talvez, resolver publicar um desabafo. Fiz essa experiência uma vez este ano. Os resultados foram assustadores. Praticamente ninguém interagiu. Reinou um silêncio esquisito, diferente dos demais posts. Dois amigos se interessaram.

Claro, nem todos os 655 viram o meu post. Tio Zuck esconde de mais da metade. Ainda assim, foi um belo teste.

Então, pra que serve a tal da rede social? Será que tem realmente alguma utilidade, se quando você realmente precisa ninguém vai estar ali pra você? Não tenho uma resposta formada.

Serve pra mostrar o quanto todos somos felizes, o quanto tudo é perfeito e belo. Grandes jantares. Sucessos retumbantes. Eu também posto essas coisas. Não sou melhor que ninguém. Apenas questiono o fato de uma ferramenta tão bacana restrigir-se a essa hipocrisia.

Antigamente as pessoas ligavam no aniversário. Hoje em dia, postam uma mensagem. E só. Pouquíssimos se dão o trabalho de ligar.

“Feliz aniversário votos muito sucesso vida profissional pt”. Recebi esse telegrama uma vez. A amigona que me mandou vai ficar furiosa com a lembrança 🙂

Então, se me permite o abuso de uma sugestão, saia de trás do computador e vá ter com as pessoas. Vá a um boteco jogar assunto fora. Se vir algo que te faça imaginar que um amigo precisa de você, telefone. Se interesse. Às vezes não é nada. Às vezes o seu interesse pode fazer uma grande diferença na vida de alguém.

Distância não é nada. O cara que me ajudou a sobreviver 2015 está no Rio e eu em Brasília. E a gente sempre conversa sobre o quanto é incrível que nós conversemos mais do que com gente que mora nas nossas cidades. Gente muito ocupada. Que sumiu.

Muito obrigado, Paulo-Roberto Andel. Por toda a ajuda, imaterial, intangível e incalculável.

Feliz Natal pra todos vocês. Que venha 2016.

Zeh

A hiperinflação das passeatas

passeatas superfaturadas

Ontem (13/12), como sabido, dezenas de milhares de brasileiros, de forma justa, legal e democrática – o que não quer dizer que seus argumentos também sejam – foram às ruas de cidades brasileiras para pedir o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Como sempre acontece, em eventos desse porte surgem todos os papagaios de pirata que se pode imaginar, tais como defensores da “volta à ditadura”, admiradores do nazifascismo e outras aberrações mentais, aproveitando-se da organização de terceiros para poderem expor seu, digamos, ideário – se não o fizessem, não juntariam cinquenta pessoas num botequim.

Qualquer expectador minimamente íntimo das operações fundamentais de cálculo tem plena certeza de que, desde que o país foi paralisado pela incapacidade da oposição em reconhecer sua derrota eleitoral, este foi o momento mais esvaziado de todos. Por vários motivos que, particularmente, não debaterei aqui, exceto dois que não permitem silêncio: primeiro, a tentativa de virada de mesa em se tentar classificar as chamadas “pedaladas fiscais” como crime de responsabilidade, o que é mais ou menos como tentar enquadrar alguém que pega bala de graça das Lojas Americanas como um traficante do PCC – subversão da Constituição Federal. Em segundo, óbvio, o pedido de impedimento articulado por um presidente da Câmara que, noutras circunstâncias, já teria perdido o mandato e começado a responder pelas questões de evasão fiscal que notoriamente praticou, denunciado internacionalmente, usando o cargo para defender a si mesmo e seus parceiros.

Vamos ao que interessa: mais uma vez, os noticiários colocaram seus tanques informativos na rua, de modo a criar mais um factoide na vida brasileira. Primeiro, a impressão de uma grande manifestação é combustível para a audiência televisiva. Segundo, os principais meios de comunicação do país têm interesse direto na casa: possuem enormes rombos fiscais, o caixa está minguando e, se não houver um governo menos receptivo às generosas ajudas destinadas aos sofridos empresários do setor, a vaca irá para o brejo de verde e amarelo – sem passeatas.

Só que o factoide não deu pé: somadas, em qualquer conjunto que se imagine, as passeatas deste domingo não reuniram nem de perto 100.000 pessoas nas grandes capitais, o que equivale a 0,09% dos 105.542.273 brasileiros que votaram validamente no segundo turno das eleições presidenciais de 2014. Se levarmos em conta apenas os eleitores que votaram no candidato Aécio Neves, cujo partido é o organizador enrustido das passeatas, são 0,19% de um total de 51.041.155. Portanto, o protesto é absolutamente legítimo, embora careça completamente de representatividade popular. A julgar pelos números, Aécio se saiu muito mal.

Deixada essa turbulência para lá, a graça está num detalhe que se torna cada vez mais perceptível: a enorme diferença entre as estimativas da presença de público, quando comparadas nas declarações dos organizadores, dos institutos de pesquisa e da Polícia Militar, como se a exatidão matemática ou mesmo a precisão estatística pudessem oferecer três resultados diferentes de um mesmo universo.

Deu no jornal:

  • Em São Paulo, o Datafolha cravou 40 mil presentes. A PM, 30 mil. Os organizadores, 80 mil;
  • Em Brasília, a PM apontou 6 mil presentes. Os organizadores, 30 mil!
  • Em Belo Horizonte, a PM apontou 3 mil presentes. Os organizadores, 6 mil;
  • Em Porto Alegre, 700 para a PM, 3 mil para os organizadores;
  • Em Recife, os organizadores estimaram entre 500 e 1000 manifestantes;
  • Em Salvador, a PM estimou 500 manifestantes, enquanto os organizadores aferiram 2 mil.

Como se pode perceber, a amplitude das estimativas aqui apresentadas oscila entre 100% e 400%, às vezes, na conta dos próprios organizadores. Matematicamente, é um absurdo completo. Hiperinflação é pouco.

Não é razoável imaginar que as estimativas da PM, e até mesmo do Datafolha, no caso da Pauliceia, possam ter sido enviesadas de modo a favorecer os defensores do atual governo. Contudo, não se conhece as formulações científicas que embasam os resultados divulgados.

A dobra, tripla ou mais construída pelos organizadores do evento Brasil afora não se sustenta em simples inspeção visual.

A televisão, sempre ela, joga as informações controversas e “confia na inteligência do espectador”. Ou o confunde. Divulga fotos em close para fingir aglomerações muito maiores do que as que realmente aconteceram. Ontem, foi obrigada a recuar devido ao enorme ridículo entre as chamadas de matéria e o que se via nas telas – ninguém transmitiu os eventos ininterruptamente.

Então recorreram a um expediente do realismo fantástico: não se tratava de passeatas, mas de um “esquenta” para os novos desdobramentos políticos a seguir. Se a moda pegar por aí, teremos dois ou três réveillons em Copacabana antes de 31 de dezembro e duas passeatas LGBT na Avenida Paulista antes da “oficial”.

Mais adequado, no caso, seria esquentar os números das passeatas, informando o público leitor com correção e fidedignidade. Frios, opacos, eles sugerem a curiosa hiperinflação, chute e a lembrança de um dos maiores males da vida cotidiana brasileira: o superfaturamento.

Nem os dados matemáticos dos combatentes da corrupção escapam.

 

Privilégios

preto no chão

Eu devia ter uns 12 anos apenas. Fui ao apartamento de um tio, que é branco, em um bairro nobre da Zona Sul carioca. Era aniversário dele e minha avó tinha pedido para levar um bolo de presente. Fui de carro com o motorista. Ao entrar no prédio o porteiro perguntou aonde eu ia. Normal. Disse a ele o apartamento e com quem desejaria falar. Fui autorizado a subir. Já tinha estado naquele prédio outra vez, só que acompanhado da família. Ao me dirigir para o elevador fui interpelado pelo porteiro, que disse que eu não deveria subir por ali, já que ‘o seu elevador é o outro, o de serviço’.

Com meus 12 anos fiquei sem reação. Era isso mesmo? O que estava acontecendo ali era o que tinham me alertado a vida inteira? Subi e meu tio, que já me esperava com a porta aberta, me viu saindo do elevador de serviço, quis saber porque fui por ali e não pelo social. Contei a história. Ele ficou revoltado e queria resolver o problema na hora. Era seu aniversário, eu não queria atrapalhar. Ele ficou muito chateado com o que aconteceu e nem sabia como se desculpar. A culpa não era dele, quis falar. A culpa era da ignorância. Não era vergonha servir alguém. Ser empregado de alguém é totalmente digno. A questão era mais profunda. Usam a separação dos elevadores como um aviso: você não é bem-vindo aqui. Você só pode usufruir deste espaço na condição de serviçal. Gente como você nunca poderá ser morador. Não só o porteiro, mas o sistema já faz essa separação.

Aí me dizem: ‘Agora você só sabe falar disso?’. Na verdade, não. Falo da minha vida, do que vejo, do que sinto. E isso está presente em muitos momentos. ‘Você vê racismo em tudo?’ Também não. Vejo onde ele existe. Vejo em quem o pratica. E quando vejo eu falo, denuncio, abro a boca.

Quando na faculdade eu tive que brigar com um professor que me deu nota muito menor do que todos os outros, sendo que eu tinha feito trabalho semelhante aos outros, fui até a coordenação do curso de comunicação e protestei. Minha nota foi revista e a má fé do professor constatada. Resultado: ele foi afastado do curso. Eu já tinha 19 anos e as porradas que havia tomado até ali me fizeram saber que rumo seguir.

A menina que só ficou comigo porque queria saber como era um preto na cama.

O motorista de táxi que não parou pra mim por medo.

O rapaz da loja que disse que a garrafa de vinho que eu queria comprar era muito cara.

Os policiais que em um espaço de 2 meses me pararam 10 vezes em blitz da Lei Seca, fora as habituais.

O comercial de tv que eu não fiz porque ‘tinha os traços finos e eles precisavam de alguém com cara de pobre’.

As moças caridosas que me deram bolo e salgados para que eu ‘levasse para dividir com meus amiguinhos na rua’.

O policial argentino que em uma fila com mais de 50 pessoas parou apenas a mim e outro rapaz negro para revistar e fazer perguntas ameaçadoras.

Outro policial, só que no Brasil, que insistia que eu era morador da favela, sendo que eu não era. Ele insistia e eu negava. Ele dizia que me conhecia e eu negava.

Eu ainda estou vivo. Não moro no Alemão ou na Maré. Não tenho tanque de guerra na porta da minha casa. Não tenho incursão policial diariamente no meu bairro. Não tenho tráfico de drogas na esquina, nem troca de tiros dia sim e outro também. Não tive meu carro fuzilado. Tive “sorte”. No meio de tantos absurdos tenho que comemorar o fato de ser um “privilegiado”. Pude estudar em bons colégios, fiz línguas, fiz faculdade, viajei, li bons livros, tive orientação familiar, tive um teto. Tive o que a maioria dos meus irmãos não tiveram. Ainda assim o racismo veio me dar boas-vindas. Quando alguém vem me dizer que o problema é muito mais social do que racial, lembro de tudo o que me aconteceu e isso para mim já basta como resposta.

Cinco jovens negros perderam a vida por serem jovens, negros e pobres. Cinco jovens que não ficarão mais do que dois dias nas notícias de jornal. Cinco jovens que comemoravam a conquista de um deles. Cinco pobres a menos. Cinco pretos a menos. Eram negros, pobre, favelados, quem se importa?

Eu poderia não estar mais aqui. Porém ainda tenho como contar a minha história e ajudar outros a falarem das suas. Neste país louco sou um privilegiado.

Quem apenas senta nos próprios privilégios e não olha para outros consegue dormir tranquilamente?

Ernesto Xavier

IG: @ernestoxavier

Aqui está a representação da lógica policial: