Eu não sabia que meu relacionamento era abusivo

Estou meio perdida aqui, confesso.
Bem… vontade de escrever um texto por dia não me falta, falta é coragem mesmo!
Meu foco / assunto principal é o abuso físico e emocional que atinge muuuitas mulheres. E que marcou minha vida.
E , aproveitando o recente acontecimento com um famoso ator global e a palavra BUCETA, vou contar que também fui vítima de abuso e, como eu, várias de nós, mulheres. Todos os dias!

Não acontece apenas com as “faveladas”, como burramente já ouvi! Penso que essas são muito mais fortes e fodonas que muitas doutoras e madames que convivem porta a porta com vocês e comigo…

Ocorre que meu casamento não era essa Coca Cola toda e eu mesma não sabia explicar o motivo. Mas como? Aquele moreno alto, lindo, com um emprego estável, bom pai de família, que fez questão de por nosso primeiro imóvel, comprado antes de casarmos, no nome de nós dois, mesmo tendo dado muito mais que 50% do valor? Quer mais prova de amor do que essa? Impossível!

Eu, que cresci ouvindo da minha mãe que se não casasse estaria incompleta! Que se continuasse a curtir minha vida como eu gostava, seria taxada de puta ou vulgar! Algo que, até dentro de casa, já era meio que dito de forma velada…

Enfim, um dia conto toda essa história bem organizada pra vocês. Hoje minha meta é escrever um texto! Começar!

Vou contar uma breve historinha, algo que era corriqueiro em minha vida! E… foco na palavra BUCETA, por favor.
Bem, meu ex marido era bastante ciumento! E eu imaginava que dava motivos para isso. Afinal, gostava de roupas bonitas. Nunca usei nada curto. Mas mesmo assim, meu vestir era sempre inadequado para ele!

Vou parar de enrolar…

Tinha uns cinco ou seis meses que eu tinha ganho meu segundo bebê.  Durante a gravidez, eu tinha engordado uns vinte quilos. Meu prédio (meus vizinhos) acompanhou o crescimento da barriga (e meu!) e a chegada do bebê!

Neste dia, quando apareci num evento no nosso salão de festas, já bem mais magra, muitos vieram falar algo bem normal para a situação – mas inconveniente para a minha relação: elogiar a minha perda de peso.

No meio da confraternização, um dos vizinhos se aproximou de mim para conversar. Fiquei tensa, pois sabia que teria problemas com isso! Dito e feito! Ele se aproximou e tocou no pezinho do meu filho, que estava no meu colo, e sendo seguro por mim de pé, na frente da minha barriga (é importante que vocês visualizem essa imagem!).
Falou algo sobre meu peso e sobre o bebê e se afastou!

Nesse momento, a figura de R (vamos chamar meu ex assim) se agigantou na minha frente. Bufava ódio!  Parecia possuído. Falou baixo, no meu ouvido, mas parecia gritar…

– Você não viu o q aconteceu agora?
– Não, Meu Deus! O quê?
– Ele botou a mão na sua buceta!

Eu fiquei estarrecida! Primeiro, porque o termo “BUCETA” jamais era usado entre nós! Nem quando esporadicamente fazíamos sexo! Segundo porque… Como é que o meu marido poderia imaginar que um vizinho nosso, na frente de todos, me tocaria daquela forma e que eu não faria ou falaria nada? Como assim?

Eu não tenho como descrever exatamente como me senti! Não tive palavras. Ainda não tenho.

Hoje, me pergunto, por que não chamei imediatamente o tal vizinho e falei na cara dos dois:  “Ô fulano! Meu marido tá achando que você meteu a mão na minha buceta!”…  Ou…

“Olhe aqui, seu retardado! Estou saindo de casa agora, porque não sou mulher de deixar algo absurdo assim acontecer sem que eu mesma tome uma atitude! Não me confunda com a sua mãe!”

O final dessa história foi uma mulher arrasada, indo embora da festa, chorando na frente de todos e, mesmo anos depois, sendo apontada como maluca, pois episódios como esse se tornaram bastante comuns na minha vida.

Hoje, olhando de fora, e muitos anos depois desse acontecimento, eu posso garantir que aquele dia marcou o início de um relacionamento absurdamente abusivo. E que, talvez, se eu tivesse me posicionado de forma incisiva, o curso de toda a minha história seria outra!

Por isso, queridos homens amigos, conversem com suas filhas e deixem claro para elas que o príncipe que elas namoram pode ser o disfarce de um cafajeste covarde! E que se você, pai e marido, nunca tratou a sua filha ou à sua mulher dessa forma, ela jamais deverá permitir que homem algum a trate assim.

E você mulher, se algo parecido estiver acontecendo em sua vida, é bom procurar ajuda. Pois tudo isso vai se agravar.

E tenho dito.

Tchau, Alfa

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Não fui propriamente um cliente assíduo do sensacional Alfa – a cada dia que passa, eu sou cada vez menos assíduo a qualquer coisa. A minha vida estava deslocada para o outro lado do que chamam de “A cidade”. Mas a cada três meses eu ia e batia meu ponto, geralmente em grandes conversas com Mauricio Nascentes, meu amigo há 20 anos (o tempo passa rápido demais). Nas férias era certo, já que em todas elas um dos meus passatempos é flanar pelo Centro, visitando os centros culturais, as ruas, conversando com os amigos, as coisas normais que a vida dentro do escritório não permite em boa parte do ano. Um dos grandes endereços do Centro do Rio, inclusive citado em meu próximo livro a ser lançado daqui a pouco mais de um mês, quando a casa terá cerrado suas portas.

Alfa de Al Farabi, não o grande matemático mas o seu nome emprestado ao sebo que virou point de gastronomia e boa música encravado na Rua do Rosário.

Em todas as vezes que lá estive, o Alfa foi uma espécie de versão dub remix de outro grande espaço da cidade, a Livraria Berinjela, que frequentei por muitos anos e, claro, também estará no livrinho.

Escolhi o Alfa para ser o local de lançamento do meu livro mais dark sobre futebol, ao lado de Zeh Augusto Catalano: “2014 – O espírito da Copa”. Pouca gente teve a ousadia de contar toda a história cotidiana do Mundial de 2014, por motivos óbvios. Mas não estávamos nem aí. A capa dizia tudo: dois garotinhos com a camisa 10 da Seleção jogando bola na rua dez minutos depois dos 7 a 1. Não há bandido travestido de dirigente que mate o futebol brasileiro, por mais que alguns possam se esforçar neste sentido. Fomos muito bem recebidos, a noite foi um barato e eu esperava colocar lá outros lançamentos mais à frente. Não vai dar. Uma pena. O livro me dá muito orgulho e o Alfa foi o grande palco dele.

Que novas trilhas sejam abertas, que novos caminhos sejam cruzados, mas fica para mim certo gosto amargo de uma cidade que cada vez dá mais passos para trás. O Rio de Janeiro da conversa fiada e rica, das cervejas, dos livros, dos discos e de tantas coisas mais, parece dar vez a uma Gotham City sem Batman, dominada pelo capital especulativo e de origem nem um pouco maravilhosa. O Comissário Gordon deu o fora e o resto que se dane. Esta cidade foi construída com boemia, camaradagem, picardia e muitas trocas de ideias, o que definitivamente não cabe em “curti ai” e figurinhas de sorrisos como linguagem profunda. Os cinemas, o Maracanã, os sebos, as livrarias, os bares camaradas, tudo vai dando adeus para os espaços bonitinhos, assépticos e de gente arrumadinha, isso quando os engravatados de Deus não vêm à calçada captar alguém pelo braço.

Tudo muito diferente do que eu pensava encontrar quando chegasse aos 50 anos de idade, que já estão à porta.

Fico com meu João Saldanha de cabeceira: “Vida que segue”.

Que fim levou?

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Que fim levou aquele velho chope de sexta-feira com os amigos da faculdade? Hoje estão todos muito ocupados demais, seja por conta da grande vida corporativa, a falta de tempo, os contas, os filhos, as mulheres e principalmente as desculpas esfarrapadas nestes dias de oi e tchau pelo smartphone.

O coração da cidade parece mais vazio e abandonado. Falam da crise mas, pensando bem, em boa parte da sua existência o Brasil esteve em crises e as ruas eram mais cheias.

Polícia não há. Tiros, balas perdidas e cada vez mais negros pobres presos para livrar o Brasil do mundo do tráfico.

Numa grande capital de um país desnorteado por golpistas de meia tigela, vai chegando quatro e meia da tarde e o caminho é ir para casa, descansar, gastar as horas, ver o futebol – sim, inventaram o futebol às sextas-feiras! – e, se der, uma cerveja razoável no bar perto de casa.

Éramos mais solidários. Gostávamos mais de estar uns próximos aos outros. A internet bosteou tudo. Não que não seja um fantástico invento, mas precisamos de gente de verdade por perto.

As relações ficaram mais distantes e frias.

Quem vai nos ouvir quando estivermos tristes, sufocados, precisando de um desabafo?

Ninguém.

Só agora entendo as atitudes de isolamento praticadas pelo meu pai há 25 anos. Ele tinha 5o anos de idade. Hoje eu tenho 48 e agora entendo tudo muito bem.

Diziam que o homem é um ser gregário. Pode ser, mas basicamente quando jovem. A maturidade parece fazer aflorar certo individualismo, ou até egoísmo.

Nas ruas temos pequenos e grandes assaltos, miséria, exclusão e tudo o que aí está porque há uma crise. Crise.

Éramos mais solidários. Se não soubemos nem consertar uma mesa de bar, o que fazer da cidade, do país, da vida?

Desculpem o amargor. É tudo coisa de uma sala fechada, refrigerada, hermética, num respeitável ambiente de trabalho justamente quando o expediente acabou de encerrar e as pessoas saem correndo feito loucas para não perderem um segundo do que acreditam, bem, acreditam ser a liberdade.

Daqui a pouco tem o Natal, o Ano Novo, o Carnaval e tudo fica para trás. Antes disso, mais uma eleição de mentira.

@pauloandel

Homem em loja de lingerie

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2016. As moças falando de igualdade, empoderamento, liberdades…

Ai, você, homem, resolve entrar numa loja de lingerie para ajudar sua mulher a comprar calcinhas e soutiens.

É uma experiência muito engraçada. Parece que você está invadindo um banheiro feminino e todas as mulheres – vendedoras ou clientes – estão incomodadas pela sua inconveniente presença naquele recinto. A situação faz você se sentir uma espécie de taradão.

Você que está lendo: conhece alguma loja ou departamento de lingerie que tenha algum vendedor homem para ajudar algum comprador menos versado nas coisas femininas? Pois é.

Procurei (e achei!) todas as peças que minha mulher comprou, enquanto a vendedora que nos atendia trazia coisas inúteis e caras. Enquanto minha mulher experimentava as coisas e eu flanava pela loja, a vendedora me fiscalizava. Só dirigiu a palavra a mim uma única vez. Quando peguei um (lindo!) soutien cinza.

Isso é pra amamentar! Disse, em tom agressivo e de reprovação.

Não fosse caríssimo, eu tinha levado pra minha mulher, no provador. Só pra sacanear.

Aliás, ainda sob um olhar masculino, é apavorante a quantidade de soutiens e calcinhas com enchimento. Você vê aquele top bonito e, quando pega, parece um travesseiro, de tanto material que tem ali. A coisa atingiu um tal patamar que, sem medo de errar, 60 a 70% dos conjuntos mais bonitos que vi na loja tinham alguma espécie de enchimento. A ponto de ser difícil para uma mulher com muito busto (termo que só existe em loja de lingerie) comprar modelos sem ficar parecendo a Jane Mansfield ou a Gina Lollobrigida.

Visto de fora, bem de fora, parece incoerente. Mas pensando num mundo de silicones e botoxes, até que faz sentido. Eu só acho que o mundo feminino cada dia mais carece de sentido. Ao mesmo tempo em que querem mostrar independência e modernidade, parecem atadas a conceitos muito antiquados e, por que não, retrógrados.

Vou seguir achando divertido entrar no universo feminino, apesar das caras feias e dos olhares de reprovação. Em tempo: minha mulher se divertiu e também ficou chocada com a reação das mulheres da loja.

Cassiano

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Na sexta-feira passada, debaixo do mais absoluto silêncio, um dos maiores artistas da MPB completou 73 anos. Aliás, o silêncio que o cerca vem de décadas. Graças a ele, Tim Maia, Hyldon e outros compositores, a música do Brasil incorporou o que havia de melhor dos gêneros musicais estadunidenses de tradição negra como a Motown. Falo de Cassiano.

Fez quatro discos, todos marcados pela genialidade e inovação. Subitamente, sua carreira sofreu sério abalo no ano de 1978: teve um problema de saúde e precisou remover um dos pulmões. O afastamento que poderia levar até alguns anos ultrapassou uma década, até que em 1991 Cassiano lançou “Cedo ou tarde”, um trabalho hoje chamado pelo formato duets, com jovens estrelas da música de então, casos de Marisa Monte e Ed Motta. Era para ter sido a sua redenção, o seu retorno, mas não aconteceu.

E assim se passaram 25 anos até aqui. Nenhum novo trabalho, nenhum disco em catálogo, nada, nada, nada.

Salvo raras imagens mais recentes, em ação como produtor da legendária Banda Black Rio, agora comandada pelo talentoso tecladista William Magalhães, filho do saxofonista fundador Oberdan Magalhães (e este, sobrinho de Silas de Oliveira), não se consegue ver nada de Cassiano hoje em dia que não seja no esforço individual de blogueiros.

“Mais um ano se passou/e nem sequer ouvi falar seu nome”.

Agosto

o golpe final

AGOSTO de dias frios e corações duros, ao menos em sua maioria. Se assim não fosse, o que poderia explicar o que vivemos mundo afora, continente afora, país idem, estado e esta bela e maravilhosa cidade, agora já esmaecida com o fim das Olimpíadas e o deprimente desprezo às Paraolimpíadas que estão à vista?

No Rio, vivemos dias de felicidade por conta dos Jogos. Houve relativa paz (relativa mesmo!). Por três semanas, deixamos de lado os noticiários sangrentos e a barbárie cotidiana que temos vivido. Festa, shows, esportes, novidades no cenário. Inegavelmente a cidade teve melhoras: aí estão o Boulevard Olímpico e o Metrô Barra que não me deixam mentir. Muita gente gostou e isso pode ser a promessa de mais turismo. Excelente.

Mas não merecíamos mais do que isso depois de tantos anos de espera?

E o que dizer das transações que cercaram a Rio 2016, com um papagaio de centenas de milhões de reais a serem cobertos (possivelmente pelos contribuintes)?

Dentro de uma semana, teremos a consolidação de um golpe sujo, consagrando de vez um presidente sem votos e poupado pelas grandes operações de combate à corrupção. É desnecessário falar da pior Câmara dos Deputados que já tivemos, em todos os sentidos.

Os Jogos se foram, aos poucos vamos voltando ao que se chama de normalidade e nela, não há fadas madrinhas nem varinhas de condão.

Os absurdos, antes abafados pelas grandes manchetes olímpicas, borbulham. Da supressão de direitos decenais dos trabalhadores, passando pela gentrificação e até mesmo pela censura enrustida do filme “Aquarius”, de Kleber Mendonça Filho, que acabou de receber a classificação indicativa para maiores de 18 anos. Segundo o Ministério da Justiça, o filme teria “uma situação sexual complexa”. Ninguém é tão ingênuo a ponto de acreditar numa bobagem dessas: a verdadeira razão está nos protestos políticos feitos pelos atores do filme no Festival de Cannes. No economicamente combalido cinema brasileiro, restringir a presença de menores é a maneira de esvaziar a bilheteria, tudo em nome da retaliação.

Enquanto isso, os turistas ainda podem se refestelar pela policiada Cinelândia, diferente demais de outrora. A região ganhou vida nova, também ajudada pela integração VLT-Metrô. Sábado passado mesmo, eu saí por volta de nove e meia da noite da Caixa Cultural, esquina de Rio Branco com Almirante Barroso, quando me deparei com um monte de gente caminhando tranquilamente, muitos voltando do Maracanã por ocasião da disputa do ouro olímpico no futebol. Será que isso vai durar muito?

Quanto àquilo, que vá para o inferno de uma vez.

As pessoas simples

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As pessoas simples. Ah, aquelas que passam uma expressão de tranquilidade no rosto, sem dissabores, sem mágoas, talvez com certa melancolia, mas absolutamente conscientes de que não somos nada neste muito de merda, cheio de empáfia, tiranos, explorações, genocídios, doenças e miséria, miséria demais. Qual o sentido da arrogância? Nenhum. Os cemitérios abrigam milhões de esqueletos que já carregaram corpos e mentes de pessoas absolutamente perdidas na vaidade oca, no preconceito, na insistência em diminuir o próximo por causa de seus bens – ou da falta deles -, títulos, posses e o diabo a quatro.

Poderia ser o moço da borracharia comprando quatro pães e oito fatias de mortadela às seis da tarde, na padaria que fica bem ao lado do novo prédio da Petrobras no centro do Rio de Janeiro. Vestido com roupas simples, um homem simples à espera da refeição enquanto o rapaz do balcão, também simples, fala alguma coisa da derrota do Flamengo e outro rapaz do balcão, também simples, sorri brevemente. Os trabalhadores em pé desde o começo da manhã, lutando por um salário mínimo, ainda se divertem em meio ao cansaço, horas antes de longas viagens de trem ou ônibus, para um pequeno descanso e o recomeçar antes do sol nascer. O moço da borracharia pede tudo com calma e educação. É um lorde do coração da capital.  Bem perto, uma garota simples saboreia um pão na chapa, barato e gostoso, silenciosa e com ar pensativo.

As pessoas simples que ainda dão bom dia à rua ou no elevador, em tempos de repulsa coletiva. Que se preocupam quando veem alguém passando com a testa franzida ou carregando alguma dor elegante, daquela tão bem cantada por Itamar Assumpção. Que ficam realmente tristes quando veem as notícias ruins na TV, preocupadas com os semelhantes que sofrem pelo mundo afora.

Os garotos simples, com suas caixas de engraxate, atravessando a cidade de uma ponta a outra, torcendo para que homens nobres com sapatos elegantes precisem de um trato e ali esteja garantida a chance de um lanche, pelo menos.

Antigamente, era fácil encontrar muita gente simples. Bastava ir ao Maracanã. Em todos os setores do estádio, principalmente a geral, que ficava em volta do campo e onde os torcedores assistiam aos jogos de pé. Na verdade, em qualquer estádio brasileiro, antes do processo de gourmetização do futebol. Com alguns trocados, comprava-se um ingresso. Hoje mudou tudo, o Maracanã morreu também, vivemos abomináveis tempos modernos.

Domingo de manhã, a rua fechada para ser área de lazer – bem mais barato do que construir e manter parques -, os meninos ainda correm atrás da bola dente de leite, já bem gasta, enquanto os pares de chinelos humildes são as traves. Correm, gritam, sonham com aquele estádio que foi assassinado, sonham com histórias de craques que nunca chegaram a ver em campo – Pelé, Garrincha, Sócrates -, sonham com a felicidade efêmera das brincadeiras dos tempos de garoto.

Há muito tempo atrás, um senhor passava com um carrinho e sua buzina vendendo empadinhas perto do meu local de trabalho. Conversava com as pessoas, era solícito e percebia-se que não fazia aquilo apenas para vender o produto, era seu jeito de lidar com o próximo. Perto de casa, dizíamos que ele era o Seu Empadinha. Sempre que podia, eu comprava para ajudá-lo; já era um aposentado. Um dia, o carrinho nunca mais passou. A vida ficou bem mais pobre.

Paulo, meu xará, é um dos melhores funcionários de todos os prédios onde já trabalhei e morei. Senta praça no condomínio onde resido. Volta e meia rimos e falamos amenidades quando passo pela portaria, mas nem sempre foi assim: ele foi uma das pessoas a carregar o corpo de minha mãe até o carro da funerária. Algo que jamais esquecerei. Ele está sempre rindo, tranquilo, com voz mansa. Fizemos piada dia desses, quando uma moradora queria proibir os beijos entre os casais no jardim da entrada. Patético, mas não menos do que o que me disse: “Paulão, você é um dos poucos moradores que conversam com a gente”.

O mundo está errado demais. Faltam gentileza, cortesia, apreço e outras coisas mais, todas simples.

@pauloandel

Educação superior

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Nos últimos quatro meses, uma reviravolta em minha vida profissional me levou a cuidar de uma pequena rede de três cantinas lotadas em uma universidade do DF. Todas ficam no pátio central de seu respectivo Campus, onde há grande quantidade de mesas e cadeiras para uso dos clientes, em sua esmagadora maioria estudantes da instituição.

Há também uma grande quantidade (exagerada, até) de latas de lixo nestes pátios. Não há, portanto, nenhuma desculpa para que o lixo orgânico gerado pelo consumo dos clientes da cantina não vá parar no lugar próprio, ou seja, nestas latas de lixo.

No entanto, os universitários, futuros advogados, dentistas, nutricionistas, professores de educação física, enfermeiros, entre outros, são incapazes de jogar o lixo que produzem no lixo. O resultado visual ao final de um intervalo de meia hora, quando todos têm um tempo livre, é inacreditável. Uma imundície inaceitável produzida por gente com “educação”.

O que me intriga é saber se esses mesmos alunos, ao irem aos shoppings da cidade, ou em suas casas, se se comportam como a horda de hunos que vejo todo dia. Alguns chegam a espalhar o resto dos sachês de catchup nas mesas. Não se trata só de largar o lixo na mesa de forma minimamente organizado para alguém recolher, mas promover um desastre, inviabilizando o uso daquela mesa por quem vem depois. Duvido que o façam.

A faculdade mantem uma grande equipe de limpeza, que consome boa parte do seu tempo limpando o que as pessoas deveriam ter a obrigação de resolver sozinhas. Gasta tempo e dinheiro para limpar a falta de educação e civilidade de seus alunos. Mas, curiosamente, a instituição não tem nenhuma política de reciclagem ou de educação ambiental para com seus alunos ou membros.

Num dia desses, cansado da apatia de todos e sem poder interferir pesadamente, pois sou um terceiro na relação, resolvi passar a fotografar as sujeiras mais artísticas. Exatamente quando fazia a foto que ilustra esse post, fui chamado por um grupo de três alunas, que aplaudiram minha iniciativa. Enquanto conversávamos, um aluno conhecido delas largou a sujeira e foi embora. A aluna mais falante o interpelou:

– Ele tá acabando de falar sobre largar as coisas nas mesas.
– Se eu jogar o lixo fora, ele vai demitir as meninas que trabalham na cantina, porque elas não vão ter mais o que fazer.

Não precisei falar mais nada. Catei a bandeja, joguei o lixo do imbecil no lixo. As meninas são agora clientes frequentes. O idiota certamente segue idiota.

Educação e civilidade não se aprendem na rua.

Debbie Harry

blondie pincel

Para muitos brasileiros minimamente esclarecidos sobre as coisas dos Estados Unidos, Miami está longe de ser um polo de sofisticação. Mas foi justamente de lá que veio um dos patrimônios da elegância e da beleza estadunidenses: a cantora e atriz Debbie Harry, mais conhecida como a voz – e o rosto – do Blondie, a popular banda por-rock-tudo surgida no meio dos anos 1970. Mas a vida em Miami durou muito pouco tempo, registre-se.

Debbie foi adotada aos três meses de vida pela família Harry, de Nova Jersey, sem jamais se interessar pelos pais biológicos. Cresceu, trabalhou como coelhinha da Playboy, posando em várias fotos sensuais. No final dos anos 1960, foi garçonete no Max’s Kansas City, uma das badaladas casas noturnas de Nova York, e começou a carreira musical cantando em uma banda folk chamada Wind in the Willows.  Ainda com cabelos castanhos.

Tudo mudou em 1973, quando conheceu o guitarrista Chris Stein. Namorados, ambos faziam parte de um grupo teatral que misturava música em suas apresentações, os Stilletos, mas resolveram montar uma banda própria em 1974. Já com o cabelo pintado de loiro que a marcaria para sempre, Debbie foi a inspiração para o nome da nova banda, Blondie.

O grupo ficou famoso no circuito punk nova-iorquino, e Debbie passou a ser vista como musa. Abençoados por Iggy Pop e David Bowie, o Blondie tocou nos clubes punk mais badalados da época, como o lendário CBGB (berço de bandas como Talking Heads e Ramones), Mothers, e até no Max’s Kansas City, onde até pouco tempo antes, Debbie servia bebidas e ganhava gorjetas. Aos 30 anos de idade (nascida em 1945), ela era a namoradinha da América. Num turbilhão passando por fama, dinheiro, drogas e conflito, o grupo durou até 1983. Quinze anos depois, retornaria com força até os dias atuais. No período, ela gravou vários discos em carreira solo e fez um monte de filmes.

Debbie continua a chamar as atenções. Perto dos 71 anos de idade, a jovem senhora ainda mantém o charme irresistível de quando despontou para o cenário mundial de quarenta anos atrás. Bela, intensa, provocativa, ousada, encantou gerações. Fez muita coisa, mas é impossível pensar em suas feições quase angelicais na gravação de “Heart of Glass” sem tê-las como um dos marcos da segunda metade do século XX.

#DebbieRules

debby harrry p & b

blondie warhol

debbie harry nua

Debbie-Harry 2016

Cidade maravilhosa, inútil paisagem

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No centro da cidade olímpica, moderna e cheia de ameaçadores delinquentes sub-18 no Largo da Carioca, perto do Forum na avenida Antonio Carlos e em qualquer shopping center dos furtos e roubos, anoitece. Talvez perto de dez da noite. Perto da Cruz Vermelha, a tia do açaí atende a diversos clientes ávidos por energia e talvez calorias. O que acontece perto da praça da República é para poucos destemidos.

Num aprazível condomínio da região, um casal de namorados ri enquanto ela vê uma série de TV estadunidense e ele escreve algumas páginas de um livro em atraso, enquanto pensa e reflete de maneira bastante abstrata sobre as mazelas do mundo, que podem ser as de qualquer um.

Um amigo em apuros, outro em festa, uma breve espiada nas redes sociais – arquipélago dos pedantes e academia brasileira dos pernósticos – mas existe salvação, humor, até amizade – o homem em sua estúpida competição em inúteis devaneios de superioridade, quando todos sabemos que o futuro é a morte e o cheiro podre da carne decomposta, onde moram a ganância e a arrogância de cada um, os outros predicados também.

Os cariocas debaixo de governos de merda, golpistas ou não, enquanto precisam ostentar felicidade porque esta cidade é belíssima e atrairá os olhares do mundo – PARA QUÊ? – não sejamos hipócrotos em repetir os mantras corporativos de paz e amor do empreendimento Rock in Rio.

A admirável decadência humana colide contra as façanhas das grandes corporações, que fazem de tudo a beleza e só os mais ignorantes acreditam num mundo melhor onde o lucro é a exploração.
Fugindo do centro e partindo para o Oeste: o escritor e ator Ernesto Xavier pensando em novas maneiras de combater as barbaridades que testemunhando nessa república abaixo da linha do Equador. Os negros ainda são incrivelmente discriminados como se nunca tivéssemos saído do século XIX.

Zona Norte: o escritor e jornalista Fagner Torres com dores no corpo, provavelmente fruto dessas doenças de mosquito que o Estado desprezou por três décadas. Barulhos na Tijuca tensa com policiais por todos os lados.

Nada de perder tempo com o programa jornalístico, claramente manipulado para ecoar a voz de seu dono. É melhor perseguir pequenas diversões eletrônicas. Qualquer Tijuca, qualquer Copacabana, enquanto os mais jovens não têm a menor ideia sobre Vieira Fazenda.

Em qualquer canto do fracassado principado olímpico, grandes obras e outras largadas, muitas pessoas com fome e trêmulas com o chão gélido das calçadas em vários bairros, gente sonhando com um improvável mundo melhor, ninguém muito preocupado com livros, quase todos já sonhando com o feriado da semana que vem e o resto, amigos, o resto é o intervalo entre as flores e o espaço de tempo para fumar e beijar seu noivo, do jeito que Otto – o grande artista pernambucano – gravou em seu primeiro álbum.

Ditaduras, democracias e golpes à solta depois, o certo é que temos smartphones demais, eletrodomésticos e carros demais, merchandising demais, mas ainda continuamos com sérios atrasos no que tivemos de melhor: cortesia, fidalguia, solidariedade. Foi tudo em vão: que grande irmão há de nos amparar? Somos egoístas demais, prepotentes demais, somos os melhores do mundo da insignificância. Um dia seremos todos inúteis, sem exceções. Nenhuma arrogância escapará da putrefação.

@pauloandel