Necrópole das quimeras

RIP.001

E, de repente, os sorrisos se esconderam, deixando a interrogação pairante sobre se já existiram em outros tempos. Os olhares faziam-se fugidios; as pálpebras, escudos intransponíveis de qualquer desejo.

Lá fora, ventava levemente.

O vazio habitava-lhes o interior. E, quanto mais se o alimenta, mais aumenta e menos se tem do que ele pode oferecer. Faltavam já tantas coisas por lhes haver sobrado apenas o não. E este não ocupava cada vez mais do lugar onde as imaginações relacionariam delicadezas.

O sol escondia-se por entre nuvens nem tão espessas assim.

As flores já haviam caído fazia tempos, mas, ainda assim, regavam-lhe os caules na esperança de nova primavera. Ou na esperança simples de que aquilo fosse mesmo esperança. Mas os caules secavam aos poucos, como já eram igualmente poucas as vezes que se lembravam de regar a terra.

O tempo esfriava. O inverno parecia chegar como a eternidade. Pesado e maciço. Intransponível e densamente nublado. As formas não passavam de fôrmas existentes em uma memória que já se esvaía. Os lábios só se viam para esconder os sorrisos que já haviam secado. Secos. Outonalmente secos. Frios. Invernamente frios.

A janela entreaberta bateu contra a parede.

Foi como um estampido, um tiro. Palavras como projéteis. O peito sangra. Esvai-se em ódio. Uma ira que se abate sem motivo aparente. E aparenta ser verdade eterna, embora imediata e por isso passageira.  A cada tempo, menos tempo para a vida.

Estavam como que mortos um para o outro, mas ainda não admitiam o mútuo óbito. Apenas um inseto verde passeava pelo pesado ar. Incerto, como o que representa, era o que havia ainda de vivo em meio àquele cemitério de tudo o que podiam ter sido, mas que preferiram enterrar.

Music non stop

Music_Non_Stop_by_RO_Kaleid

Ouvir música era outra coisa.

Quando ainda se podia andar em Copacabana à noite sem tiros, facas e porradas, era fácil demais ir para a porta da Billboard, na porta do Bruni, a Modern Sound logo ao lado. Só para espiar os elepês. Rolling Stones lançando “Undercover”, proibido na Grã-Bretanha porque o videoclipe tinha a cena de um policial sendo assassinado. O Yes de volta às paradas com o disco pop “90125”, bem tocado pelo magnífico Chris Squire que foi embora dia desses. Genesis. Chico Buarque. Paralamas do Sucesso. Duran Duran. Peter Gabriel. Barão, Legião. Paula Toller, linda demais.

Sobrando uma grana de manhã, Centro Comercial Copacabana. Disco do Dia: um elepê sempre em promoção, mesmo com a inflação mensal de 75% ao MÊS – É SÉRIO! Meu querido amigo Fred tinha um toca-discos fantático, Pioneer. Rolava Kiss e Gato Barbieri. Houve um tempo em que ele curtia Joana, Marina e Simone, ligado que estava numa gata sapatão (conhecer a trilha do momento era fundamental para tentar fisgá-la). Eram todas ótimas.

A (maravilhosa) bossa nova já não se via na rua em larga escala, nem a música de protesto. Logo, a grande onda do pagode do Rio se ergueu no mar, capitaneada pela madrinha Beth Carvalho: Zeca Pagodinho, Almir Guineto, Fundo de Quintal, Jovelina Pérola Negra. Praticamente todos intactos por aí, exceto a Pérola, que se mandou.

Quando a Globo passou a impor o pagode de Sampa e o neosertanejo, estava na hora de dar o fora. Juntei minhas moedas e comprei um walkman novinho, vermelho. Era possível sobreviver com o rock das rádios FM – grunge! -, a música instrumental da MEC AM e uma novidade na JB: um programa de jazz comandado por Jô Soares. Imagine chegar à UERJ, os amigos loucos para balançar com Daniela Mercury, alguém pede para escutar o que está rolando e você saca do fone de ouvido um Sonny Rollins padrão Impulse 62?

Aos poucos, a música se modernizou, virou digital, mp3, comprimida, tudo virou praticidade e acabou aquele negócio de discutir o assunto, trocar ideias, aprender. Mais ou menos o que uma mesa de bar representou um dia. Natural que os tempos modernos injetassem tecnologia na música, nem o Kraftwerk resistiu. Mas precisava fazer do hábito de escutar música uma interação solitária do homem com uma maquininha portátil?

Escuta-se música no metrô do Rio. Ninguém conversa.

Nos carros na hora do rush. Ninguém conversa. Os escroques buzinam.

A turma da esquina deixou o bate-papo sobre o artista preferido para lá – aliás, a própria esquina.

Há pouco, instalamos em casa a TV por assinatura de mil canais que você jamais usará por completo, a não ser que se torne um milionário 100% sedentário. Era também para ver os jogos e algumas outras coisas. O Canal Bis, mesmo Globo, salva a pátria – dia desses tinha Kiss ao vivo, meus amigos debatendo no twitter e, por alguns instantes, me vi de volta trinta anos no tempo, perto daquele Pioneer do Fred. Andei lendo que o pessoal desceu a marreta nos vocais de Paul Stanley, mas e daí? Queriam que o sujeito cantasse aos 65 como se tivesse 22? Um artista fantástico, dos maiores do rock.

Na outra semana, Deep Purple 1984. Foi uma emoção profunda: John Lord dentro do quarto fazendo aquele barulhão soturno. Claro que Ritchie Blackmore é um gênio da guitarra, mas o Purple seguiu honestamente sem suas chatices.

Agora mesmo, estou no trabalho a escutáire um CD que comentei nesta ENCEFÁLICA outro dia: “Poesias Musicais do Oriente Médio”. MPS, música popular síria – eu ainda escuto CDs e LPs, o som é incomparável. Flautas, cordas, magia, todo o encantamento de uma cultura fantástica, muito superior aos terríveis acontecimentos de guerra que assolam aquela pátria.

Falta meia hora para o fim do expediente. Amanhã encontrarei meu amigo escritor Fabrício, com quem acabei de finalizar um livro. Será um chope no Boteco da Praia. Provavelmente falaremos de música, e isso me fará menos solitário do que aqui, neste momento, pensando em walkmen, LP, Billboard e um mundo que está muito, mas irremediavelmente muito morto.

Ainda bem que, mesmo boicotada, a música vive.

Music non stop.

@pauloandel

Vai uma pipoquinha?

Levei meu filho ao cinema esta semana. Programa legal, imagens na telona são divertidas para todas as idades. Apesar de que me sinto uma metalinguagem em looping quando tenho de pôr óculos especiais por cima de meus óculos para assistir a alguma coisa. São lentes para as minhas lentes.

Mas o assunto é outro. Não me deixe, por favor, enveredar por outros temas. Sou mestre em fugir de assuntos. Ops, lá ia eu de novo. Voltando ao cinema, é claro que você sempre se surpreende com a compreensão diferente que pessoas e empresas têm em relação às coisas. Bem, como a vida não está fácil para ninguém, aproveitar as promoções é o único jeito de uma diversão fora de casa sem precisar voltar sem as calças – ou quem sabe um rim – na troca por um
par de ingressos.

Lembro-me de um passado não tão remoto – talvez ontem mesmo, pois Jurassic Park e Exterminador do Futuro também estavam em cartaz – em que a quarta-feira era dia de meia-entrada. Pois bem, parece que o conceito de “metade” foi alterado na matemática. Na minha ou na do pessoal do cinema. Sorte dá para acumular promoções como cupons de desconto – cliente do banco tal, da seguradora tal, do clube de compras, sócio-torcedor e frequentador da biblioteca pública. No final, você se sente um pouco menos assaltado do que se realmente estaria, se pagasse um preço justo. E menor, óbvio.

Segundos depois, já na segunda fila, abate-se sobre mim aquela que é das mais fundamentais questões da humanidade: por que a pipoca do cinema é tão cara?

Sim, amigos deste e de outros mundos, aquilo é milho, sem nenhum outro atributo especial, idêntico aos antigos sacos de milho que levávamos para casa e aquecíamos em panelas com manivelas na tampa que mais pareciam o motor de uma nave alienígena oitocentista. Mas, ao contrário do senso comum, cada milho estourado naquele saco vale pelo menos uma moeda graúda. E não há opções razoáveis, o preço lhe empurra para a grandiosidade de tudo que é vendido. Combos super, mega e giga. Onde estão os tão simples de entender “pequeno, médio e grande”? Refrigerante de meio litro, quase um litro e um litro inteiro. O próximo passo é vender uma pet de dois litros e canos de pvc como canudos.

Claro que nada a menos que R$ 19,90. Ou R$ 21,90. Ou R$ 23,90. Ora, por dois reais eu levo o maior! É a vantagem da desvantagem. E assim caímos sempre no mesmo golpe. E ainda achamos que estamos nos dando bem. Geniais esses rapazes! Até porque o produto é de primeira necessidade: como não comprar as pipocas para o garoto? Ir até o pipoqueiro da esquina e voltar é impensável. Na verdade acho que eles passam os filmes só para atrair as pessoas.

Pura isca. O lucro do shopping inteiro sai mesmo é das pipocas.

Vão para o Diabo sem mim!


Lisbon Revisited (1923)

NÃO: Não quero nada.
Já disse que não quero nada.Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!

Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!

Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo…
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

Álvaro de Campos, in “Poemas”

(Heterônimo de Fernando Pessoa)

Poemas musicais do Oriente Médio

Coisas que não se vê por aí com muita facilidade. Brasil, naturalmente.

Num mercado musical cada vez mais desprezível, que enterra seu ouro e consagra o descartável, qualquer sujeito por parecer um verdadeiro ET ao se interessar pela música de outros países – que inexiste em nossas rádios de grandes ondas ou televisões com sinal aberto.

Há muito tempo a América Latina bebe da nossa música enquanto mal sabemos o que acontece na vizinhança. Estamos no Japão, na Europa, na África (de onde viemos, por sinal), vários lugares. E não escutamos absolutamente nada vindo de fora que não seja o imposto por majors estadunidenses.

Para os que se interessam em outras palavras, uma pérola no mercado.

“Poemas musicais do Oriente Médio”, um álbum de MPS (Música Popular Síria).

poemas musicais do oriente médio

Em 1995, dois brasileiros – Flavio Metne e Rosalie Helena de Souza Pereira – encontravam-se em Damasco, na Síria. Por inciativa de ambos, foram reunidos diversos músicos para gravar composições e improvisações de dois jovens artistas radicados na Europa: Shafi Badredin, hoje com 43 anos e residindo em Luxemburgo, mais Elias Bachoura, 41, atualmente na Bélgica. Depois de 25 anos, finalmente o disco chega à Terra Brasilis, disponível em versões física e digital.

Uma das diversas riquezas de “Poemas” é a mistura de instrumentos acessíveis aos ouvidos do Ocidente, tais como clarinente, Violoncelo e violino, com os locais, caso do qanun (cítara persa), o ney (flauta oriental) e o buzuq (um tipo de alaúde), resultando numa sonoridade única que leva a uma viagem para o outro lado do mundo.

Excelente opção para quem curte a fuga das obviedades quando o assunto é música.

Para conhecer melhor este trabalho, está disponível no Guia da Folha de São Paulo, edição de 27 de junho, uma excelente resenta feita pelo crítico Irineu Franco Perpetuo.

Pontos de venda e trechos dos temas podem ser acessados em TRATORE. É escutar e viajar.

@pauloandel