Tchau, Alfa

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Não fui propriamente um cliente assíduo do sensacional Alfa – a cada dia que passa, eu sou cada vez menos assíduo a qualquer coisa. A minha vida estava deslocada para o outro lado do que chamam de “A cidade”. Mas a cada três meses eu ia e batia meu ponto, geralmente em grandes conversas com Mauricio Nascentes, meu amigo há 20 anos (o tempo passa rápido demais). Nas férias era certo, já que em todas elas um dos meus passatempos é flanar pelo Centro, visitando os centros culturais, as ruas, conversando com os amigos, as coisas normais que a vida dentro do escritório não permite em boa parte do ano. Um dos grandes endereços do Centro do Rio, inclusive citado em meu próximo livro a ser lançado daqui a pouco mais de um mês, quando a casa terá cerrado suas portas.

Alfa de Al Farabi, não o grande matemático mas o seu nome emprestado ao sebo que virou point de gastronomia e boa música encravado na Rua do Rosário.

Em todas as vezes que lá estive, o Alfa foi uma espécie de versão dub remix de outro grande espaço da cidade, a Livraria Berinjela, que frequentei por muitos anos e, claro, também estará no livrinho.

Escolhi o Alfa para ser o local de lançamento do meu livro mais dark sobre futebol, ao lado de Zeh Augusto Catalano: “2014 – O espírito da Copa”. Pouca gente teve a ousadia de contar toda a história cotidiana do Mundial de 2014, por motivos óbvios. Mas não estávamos nem aí. A capa dizia tudo: dois garotinhos com a camisa 10 da Seleção jogando bola na rua dez minutos depois dos 7 a 1. Não há bandido travestido de dirigente que mate o futebol brasileiro, por mais que alguns possam se esforçar neste sentido. Fomos muito bem recebidos, a noite foi um barato e eu esperava colocar lá outros lançamentos mais à frente. Não vai dar. Uma pena. O livro me dá muito orgulho e o Alfa foi o grande palco dele.

Que novas trilhas sejam abertas, que novos caminhos sejam cruzados, mas fica para mim certo gosto amargo de uma cidade que cada vez dá mais passos para trás. O Rio de Janeiro da conversa fiada e rica, das cervejas, dos livros, dos discos e de tantas coisas mais, parece dar vez a uma Gotham City sem Batman, dominada pelo capital especulativo e de origem nem um pouco maravilhosa. O Comissário Gordon deu o fora e o resto que se dane. Esta cidade foi construída com boemia, camaradagem, picardia e muitas trocas de ideias, o que definitivamente não cabe em “curti ai” e figurinhas de sorrisos como linguagem profunda. Os cinemas, o Maracanã, os sebos, as livrarias, os bares camaradas, tudo vai dando adeus para os espaços bonitinhos, assépticos e de gente arrumadinha, isso quando os engravatados de Deus não vêm à calçada captar alguém pelo braço.

Tudo muito diferente do que eu pensava encontrar quando chegasse aos 50 anos de idade, que já estão à porta.

Fico com meu João Saldanha de cabeceira: “Vida que segue”.

Cassiano

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Na sexta-feira passada, debaixo do mais absoluto silêncio, um dos maiores artistas da MPB completou 73 anos. Aliás, o silêncio que o cerca vem de décadas. Graças a ele, Tim Maia, Hyldon e outros compositores, a música do Brasil incorporou o que havia de melhor dos gêneros musicais estadunidenses de tradição negra como a Motown. Falo de Cassiano.

Fez quatro discos, todos marcados pela genialidade e inovação. Subitamente, sua carreira sofreu sério abalo no ano de 1978: teve um problema de saúde e precisou remover um dos pulmões. O afastamento que poderia levar até alguns anos ultrapassou uma década, até que em 1991 Cassiano lançou “Cedo ou tarde”, um trabalho hoje chamado pelo formato duets, com jovens estrelas da música de então, casos de Marisa Monte e Ed Motta. Era para ter sido a sua redenção, o seu retorno, mas não aconteceu.

E assim se passaram 25 anos até aqui. Nenhum novo trabalho, nenhum disco em catálogo, nada, nada, nada.

Salvo raras imagens mais recentes, em ação como produtor da legendária Banda Black Rio, agora comandada pelo talentoso tecladista William Magalhães, filho do saxofonista fundador Oberdan Magalhães (e este, sobrinho de Silas de Oliveira), não se consegue ver nada de Cassiano hoje em dia que não seja no esforço individual de blogueiros.

“Mais um ano se passou/e nem sequer ouvi falar seu nome”.

Debbie Harry

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Para muitos brasileiros minimamente esclarecidos sobre as coisas dos Estados Unidos, Miami está longe de ser um polo de sofisticação. Mas foi justamente de lá que veio um dos patrimônios da elegância e da beleza estadunidenses: a cantora e atriz Debbie Harry, mais conhecida como a voz – e o rosto – do Blondie, a popular banda por-rock-tudo surgida no meio dos anos 1970. Mas a vida em Miami durou muito pouco tempo, registre-se.

Debbie foi adotada aos três meses de vida pela família Harry, de Nova Jersey, sem jamais se interessar pelos pais biológicos. Cresceu, trabalhou como coelhinha da Playboy, posando em várias fotos sensuais. No final dos anos 1960, foi garçonete no Max’s Kansas City, uma das badaladas casas noturnas de Nova York, e começou a carreira musical cantando em uma banda folk chamada Wind in the Willows.  Ainda com cabelos castanhos.

Tudo mudou em 1973, quando conheceu o guitarrista Chris Stein. Namorados, ambos faziam parte de um grupo teatral que misturava música em suas apresentações, os Stilletos, mas resolveram montar uma banda própria em 1974. Já com o cabelo pintado de loiro que a marcaria para sempre, Debbie foi a inspiração para o nome da nova banda, Blondie.

O grupo ficou famoso no circuito punk nova-iorquino, e Debbie passou a ser vista como musa. Abençoados por Iggy Pop e David Bowie, o Blondie tocou nos clubes punk mais badalados da época, como o lendário CBGB (berço de bandas como Talking Heads e Ramones), Mothers, e até no Max’s Kansas City, onde até pouco tempo antes, Debbie servia bebidas e ganhava gorjetas. Aos 30 anos de idade (nascida em 1945), ela era a namoradinha da América. Num turbilhão passando por fama, dinheiro, drogas e conflito, o grupo durou até 1983. Quinze anos depois, retornaria com força até os dias atuais. No período, ela gravou vários discos em carreira solo e fez um monte de filmes.

Debbie continua a chamar as atenções. Perto dos 71 anos de idade, a jovem senhora ainda mantém o charme irresistível de quando despontou para o cenário mundial de quarenta anos atrás. Bela, intensa, provocativa, ousada, encantou gerações. Fez muita coisa, mas é impossível pensar em suas feições quase angelicais na gravação de “Heart of Glass” sem tê-las como um dos marcos da segunda metade do século XX.

#DebbieRules

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Pequenas lembranças em uma tarde de férias

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A tarde quente, quente demais e um tanto vazia, enquanto escuto o vanguard jazz de Anthony Braxton gravado ao vivo em São Paulo. Deixar os pensamentos flutuarem pela música, recordando de coisas e gentes que pareciam tão perto, mas agora estão longe demais no tempo e no espaço.

A história da garota nua que me contaram no hotel do Bairro Peixoto já tem coisa de dez ou doze anos.

O velho moço Alex com sua cara de doido em 2001 e 2002, num e-mail que Zé acabou de enviar. Os amigos abraçados na fotografia, todos jovens e recheados de futuro pela frente.

O jazz remete ao banco de praça na livraria Berinjela, enquanto Maurício parecia profundamente entediado e seu irmão contava as horas para comprar fichas na Miami, a casa de peep show que ficava ao lado da locadora do espaço – a Igreja de Copacabana. Entre os silêncios, conversas sobre o fim do mundo, do bom senso, da civilidade e o que faríamos em caso de fracasso do governo reeleito à base de rolo compressor. Dezoito anos, pois.

A casa bagunçada é um silêncio tirando-se a experimentação de Braxton. A família acabou, as pessoas morreram, as saudades permanecem, agora a cama abriga um outro casal. Dez anos.

À janela, pode-se escutar a vizinha esquizofrênica do andar de cima reclamando contra tudo e todos: a presidenta, a saúde, a segurança, o trabalho do faxineiro, o botão do elevador que não brilha e uma imaginária voz machista sopra num canto: “Essa coroa precisa dum macho pra parar de encher o saco dos outros”. Quinze anos de reclamações.

Descansar até sete da noite e encontrar antigos amigos que não se veem há meses. Promovíamos uma janta mensal em bares e restaurantes diferentes, experimentando todos os cardápios possíveis. Onze anos, senhor!

Outros discos à cabeceira. Dave Brubeck, o cubano Eliades Ochoa, Leonard Cohen – tem gravado muitos álbuns e feito shows, já na casa dos oitenta anos. Eu o conheci há uns vinte e cinco.

Um único tema de Braxton tem setenta minutos. Foi gravado no Sesc em São Paulo. Jazz de alta qualidade. O livro da Márcia Tiburi na página 50. Aquele dos bicheiros alinhados com a ditadura, já lido. Contaram a real de Mariel Mariscott. Trinta e cinco anos se passaram.

Desde que escrevi estas linhas, aproximei-me em alguns passos daquele caminho inevitável para a morte, pensando que ainda é cedo, que há muito para ser feito e que tudo passou em décadas num instante.

Olhar para trás e pensar no que passou, no que devia ter sido mas não foi, no filme queimado, nas noites claras de luar e estrelas benditas. As mãos namoradas, as desilusões juvenis, as risadas em se perceber tão imaturo quando tudo cheirava à personalidade.

O jazz não para no quarto escuro e bagunçada de uma tarde quente demais, sugestiva demais, com pensamentos sendo águias em pleno voo.

A vizinha esquizofrênica calou a boca. Aleluia, irmão!

@pauloandel

Um telefonema carioca

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O telefone fixo tocou e fui atender. Alguma coisa me lembrou de uma velha canção dos Titãs.

Estava no trabalho e uma das minhas tarefas é coletar, calcular e divulgar um indicador econômico utilizado por milhares de pessoas nesta cidade de mil maravilhas – e mazelas também. Na verdade, o Estado inteiro. Era o motivo da ligação.

Do outro lado, o simpático interlocutor fez suas perguntas, foi respondido e agradeceu as informações que prestei. O indicador que lhe interessava seria atualizado no dia seguinte.

Não era o que ele precisava exatamente mas o caminho já estava pontilhado no sítio eletrônico. Bastava acessar em menos de 24 horas.

Ao final, o que era uma simples ligação telefônica virou, num súbito, uma verdadeira troca de ideias, hoje tão raras num tempo em que as pessoas estão apressadas demais, preocupadas demais, tudo é demais enquanto a vida do convívio e da amabilidade fica de lado, ou simplesmente é descartada sem a menor importância.

O súbito? Em algum momento do “até amanhã” ou “muito obrigado”, alguma expressão talvez ligada à “nossa cidade”.

Foi a senha para imediatamente tratarmos de verbetes como Fayga Ostrower, Lota Soares, o Túnel Novo, a Livraria Berinjela, o Aterro do Flamengo, Fernando Sabino, Rubem Braga, Ruy Castro e outros. Ou teatro, música e artes plásticas em geral.

Uma despedida de trinta segundos transformou-se em quarenta minutos, com direito a marcarmos um dia desses um chope só para falarmos de um Rio de Janeiro admirável que ainda existe, mas hoje mora na exceção – quando os cariocas cansavam e abusavam de fazer amizades em telefonemas ocasionais, conversas fiadas em pé ao balcão de um humílimo botequim, na fila, no ônibus e em todos os lugares onde a arte de apreciar a opinião e o pensamento do outro.

Diante do que vemos por aí, com tanto ódio, discriminação, alienação e rispidez, inegavelmente uma chance rara, raríssima.

O interlocutor virou meu amigo Fernando.

A vida é isso: o velho telefone de mesa ainda reserva boas surpresas nesta velha linda cidade.

@pauloandel

Que horas ela volta?

que horas ela volta

Durante duas horas, em TV aberta, o Brasil olhou para o quarto de empregada. Depois voltou para sua programação normal. Nas redes sociais, os brasileiros de classe média e alta postaram algumas frases de efeito em “defesa” daquelas mulheres que cuidaram do seu lar desde que se entendem por gente, mas em 2013 reclamaram da Proposta de Emenda à Constituição que deu direitos às empregadas domésticas. O verdadeiro quartinho ficou escondido no mesmo lugar de sempre.

“Que Horas Ela Volta?” no horário nobre da TV teve uma importância política e educacional, mesmo que esta não tenha sido a intenção da emissora. O filme premiado internacionalmente e com uma das apresentadoras e atrizes mais famosas do país como protagonista, fez com que a exibição de um filme nacional virasse um evento. Com tantas questões sociais envolvidas, teve um papel importante na discussão sobre a vida das empregadas domésticas. Faltou tratar da questão racial, sinto informar.

Elas vêm de longe. Do interior dos estados, das regiões mais pobres do país, das periferias das grandes cidades. Acham que elas vêm em busca de um sonho? Não há espaço para sonho na vida de quem teve apenas a força dos braços e pernas para sobreviver. Sustentar a família é a motivação. Dar a eles a chance de quebrar a barreira que as impediu de sonhar.

Em sua grande maioria negras. Muitas mulheres negras abandonadas pelos pais dos filhos. Muitas mulheres negras rejeitadas. Muitas deixaram suas cidades. Muitas deixaram suas famílias.

“É quase da família”. Pode habitar o mesmo teto, mas come em local e horário diferente, só entra em determinados lugares para limpar e arrumar, faz hora extra “de graça”, tem alimentos na geladeira que não estão ao seu alcance. Primeira a acordar e última a dormir. Café pronto. Casa limpa. Comida na mesa. Cama arrumada. Roupa cheirosa. Faz aquilo que ninguém quis fazer. Sobrou para ela. Esse “quase” faz toda a diferença.

Quantas foram abusadas dentro do ambiente de trabalho? Quantas enfrentam mais de 4 horas no trânsito diariamente? Quantas deixaram de acompanhar o crescimento dos próprios filhos e criaram os dos patrões?

Em 2015 eram 1,3 milhões de empregadas domésticas trabalhando com carteira assinada. Apenas 20% do total, formado por 6,4 milhões de trabalhadores. O número pode ter aumentado após a regulamentação dos direitos trabalhistas das domésticas no Senado, em maio do ano passado. A manifestação dos empregadores contra a PEC das domésticas apenas evidenciou o que já acreditávamos: a cultura de Casa Grande e Senzala permanece forte. Por que não queriam dar direitos trabalhistas básicos a elas? Muitos vociferaram que haveria demissão em massa, mas nada disso aconteceu. Era apenas o grito de quem não quer ceder um pouco de seus privilégios.

O filme de Anna Muylaert jogou luzes sobre a questão. Pretendeu falar das milhares de mulheres que migram do nordeste do Brasil para trabalharem em casas de famílias de classe alta no Sudeste e no Sul. Apenas pretendeu. A atuação de Regina Casé merece todos os prêmios. Assim como Camila Márdila (Jéssica) e Karine Teles (Barbara). A qualidade do roteiro e da fotografia não estão em discussão.

O que me intriga é: Onde estão as empregadas negras representadas? O enredo seria diferente, com certeza. Fosse Jéssica negra, assim como as tantas filhas de empregadas domésticas brasileiras, teria o quarto de hóspedes para dormir? Quando a empregada não tem importância na trama, ela é negra. Quando ela é o centro da trama, ela tem a pele clara. Perderam a grande oportunidade de mexer na ferida. Falar do assunto como ele realmente é. Ainda assim os espectadores ficaram chocados com o tratamento da patroa (Barbara) em relação à filha da empregada. “Tão bonita a menina…como fazem assim com ela?” Onde lemos “beleza”, poderíamos ler “pele clara”, ok?

Nos fundos da casa ou do apartamento jaz um cômodo incômodo de dimensões minúsculas. Cabe uma cama de solteiro, que provavelmente teve dificuldade de entrar pela porta. Armário? Um amontoado de roupas. Um porta-retratos, talvez. Nele estará um pouco do que deixou para trás. Foi a forma que encontrou e lhe ofereceram para que sustentasse a vida. Seu nome passou a ser Resignação. Abdicar de quem é, do que ama, de quem queria por perto. Tentar suportar a dor do afastamento. A motivação é a subsistência daquele que está distante. Todo quartinho de empregada tem um pouco de senzala.

Ernesto Xavier

@nestoxavier

http://afrocarioca.blogspot.com.br/

Quando eu era criança

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Quando eu era criança, diziam que o Brasil era o país do futuro.

Havia uma ditadura imunda mas sem o contraponto das redes antissociais. Fim dos anos 1970.

A corrupção abundava em obras faraônicas mas ninguém noticiava – os jornais às vezes saíam com páginas inteiras em branco, censuradas. Por que você acha que a estação Carioca do metrô é tão grande e até hoje subutilizada? Erro de cálculo?

Para ver a Vila Sésamo na TV a cores novinha (antes, era colocar papel celofane de alguma cor psicodélica para embrulhar a tela), aparecia um cartaz da Censura Federal autorizando a exibição. Ou à noite, a voz em off avisando que Roque Santeiro não ia para o ar – só dez anos depois. Passava até Rock Concert.

Os craques eram de carne, osso e caráter. Estavam nos álbuns de figurinhas. Os times de futebol duravam anos. As carinhas eram coladas nos times de botão. Ir ao Maracanã era um prazer. O Fluminense todo de branco.

Você ligava a rádio e Big Boy muito louco incendiava a audiência com seus hits musicais. Ou Zé Rodrix cantando “soy latinamericano e nunca me engano, nunca me engano”. Grandes canções de Belchior.

Todas as capas dos jornais deram a morte de Juscelino em grandes manchetes. Eu voltava do Hospital de Ipanema depois de uma cirurgia – e lá bebi café com leite pela primeira vez na vida. Muito bom. Em casa, líamos O Pasquim escondido.

Mortes terríveis. A bela garota Cláudia Lessin, irmã de atriz, morta na avenida Niemeyer. Chamavam o cenário do crime de “festinha de embalo”. O bandido Michel Frank fugiu, era filho de rico, morreu assassinado na Suíça por uma disputa de drogas. Aqui, impunidade.

Perdi minha bolsa de estudos porque a diretora da escola, uma simpatizante do fascismo, plantou uma nota vermelha em matemática no meu boletim da sexta série – a única de todo o meu currículo escolar. Arrependeu-se da concessão: eram tempos da inflação de 50% ao mês. E vocês acreditam nessa maior crise de todos os tempos? Depois, formei em Estatística e fiz metade da faculdade de Matemática. Só de sacanagem.

Jogávamos bola na porta do shopping center em Copacabana. Na verdade, com uma bolinha de isopor, para não quebrar nada nem machucar ninguém. Os seguranças fingiam que não viam. Os gols eram esses ferros que impedem carros na calçada. Falando em ferro, o vizinho famoso do prédio era o ex-árbitro Armando Marques. Fazíamos campeonatos de botão debaixo da escada rolante do grande centro comercial.

Nos jornais, o mengão já era o maior de todos os tempos, infalível e imbatível. Na verdade, mais ou menos. Levara de quatro do Palmeiras.

Quando estreou a novela “Água Viva”, achávamos que o mundo era limitado às nossas praias próximas. Era o que se via na tela. Talvez seja assim até hoje, tirando uma ou outra novela ambientada em favelas. Bom, antes era muito difícil ver um pretinho que fosse, mesmo um daqueles que ficava sentado nas areias do Posto Seis, fazendo o céu de teto e com esperança num futuro que jamais viria. Os mais exaltados eram chamados de pivetes. Era uma vida difícil, mas não esse mata-mata de agora, onde a vida não vale um papel amassado. Menos mal que João Gilberto tocava às oito da noite.

Minha mãe fazia tortas, frango, bife, batata frita, pudim. Quando sobrava algum dinheiro, comprávamos uma pizza Bella Blu: tinha tudo de bom, bacon inclusive.

Não havia computador, nem celular e nem século XXI. Mas Gilberto Gil já cantava muito: “o meu caminho inevitável para a morte”.

A maior impressão? Por mais que muita coisa tenha mudado, a essência ainda é a mesma. Ainda somos atrasados demais, ignorantes demais, muitos incapazes de perceber que ajudar o outro é fazer o bem de todos. Somos selvagens demais, hipócritas demais, egocêntricos e egoístas demais. Um subproduto do Tea Party.

A ditadura venceu. Silenciosa, malandra e calhorda, só agora ela mostra publicamente suas garras enlameadas nos Facebooks da vida. Ninguém resiste a trinta segundos de denúncias de corrupção e questionamentos sobre o próprio caráter.

Aqui na rua, hoje é dia de lazer. Tendo algumas crianças pobres brincando com alegria, já me sentirei menos triste. O resto é o tempo que passou, o retumbante fracasso de uma sociedade e a certeza de que boa parte da minha turma leu um monte de livros em vão. Mais do que ler, interpretar era preciso.

@pauloandel

Tragédia

Lovis Corinth, Pietà.

Lovis Corinth, Pietà.

Parecia um dia normal, tal qualquer outro que já houvera amanhecido antes deste. Lentamente abria os olhos e a realidade borrada tomava forma nos raios de sol que o despertavam. Janela, maldita janela, Quem a deixou aberta?

Estranhou o momento, não se lembrava de haver uma janela exatamente ali. O espaço diferente apresentava-se desconhecido. Pensava estar possivelmente em um sonho. Bocejou alguma efêmera despreocupação. Esfregou com força os olhos. Mas, nada. Novamente. Nada. Parecia terrivelmente real.

Notou algo insólito quando levou mais uma vez as mãos aos olhos. Negras. Suas mãos eram negras. Como assim? Levantou-se. Havia um pequeno espelho pendente por um barbante em um prego na parede feita de tijolos. Mirou-se.

À maneira de uma cena kafkiana, viu-se transformado em outro. Era preto. Deu alguns passos para trás. Assustou-se. Chegou próximo à janela, definitivamente não era a sua casa, concluiu. Não era a sua vida. Olhou fixamente para suas mãos. Temeu. Olhou para a seu tornozelo: sua marca de nascença continuava lá, como tatuagem, como testemunha de sua identidade perdida.

Queria voltar para casa. Acordar daquele pesadelo. Não se conformava. Negro, eu? Correu para a porta. Ganhou a rua. Descia em meio às vielas tropeçando em tudo o que havia jogado por ali. Estava descalço, vestia apenas uma bermuda vermelha. Isso não era o que mais lhe afligia naquele instante.

O sol brilhava intensamente na cidade. O calor fazia-o suar, ainda que acreditasse que as gotas que lhe escorriam pela testa fossem puro nervosismo. Talvez fossem mesmo. Aproveitando-se da parada do ônibus, subiu sorrateiramente pela porta de descida. Mais uma antítese não alteraria o desconexo do dia. Não tinha qualquer dinheiro nos bolsos.

O coletivo ia lotado. Centenas de jovens dirigiam-se às praias. O saculejo do ônibus embalava uma alegria que nunca fora capaz de sentir. Apenas ele tinha o semblante tenso, exalando toda a preocupação e impotência diante do feitiço ao qual julgava estar preso.

Duas esquinas mais. O veículo para. Já estava suficientemente perto. Queria voltar para a casa. Abre-se a porta. Desce, chão quente. Dois passos e um policial agarra-lhe o braço. Documentos! Em um átimo, as mãos da autoridade já vasculhavam seus bolsos em busca de qualquer coisa. Só encontraram ausências.

Sem dinheiro e sem documento. Tá pensando que tá onde? Tá pensando que é quem? Então, tomado pelo medo, mas respaldado por sua essência, resolve lembrar quem era. Me solta, Sou o filho do chefe da polícia, seu boçal! Filho de quem? A mão pesada do soldado irrompia em um tapa que estalidava rubro em sua face.

Aproveitando-se da deixa, põe-se a correr. Breve perseguição. A obesidade do homem fardado não lhe permitiu acompanhar o moleque em sua velocidade. Entretanto, não o deixaria escapar.

Estava a poucos metros de casa. Tudo passaria. Tudo voltaria ao normal. Um estampido. Sentiu um calor atravessar-lhe o peito. As pernas arquejaram e os joelhos tocaram o solo. As mãos moviam-se pelo tronco, por onde escorria o viscoso fluido vermelho. Tudo se tornou opaco. A realidade novamente borrada. Caiu.

Saía do prédio para ver o que ocorria ninguém menos que o chefe da polícia. Diante de seus olhos e de alguns de seus subordinados, havia o corpo agonizante de um jovem. O chão continuava quente. O ar irrespirável. Bandido, gritaram alguns. Correu, justificou o policial.

O chefe assentiu com a cabeça, mas, ao voltar os olhos para o defunto, intrigou-se com algo. Abaixou-se, mexeu na perna do menino. Gelou. Reconheceu a marca naquele corpo sem vida.

Ao tocar na mancha, o desencanto acontece. Era a meia-noite de uma Cinderela avessa que não fora à festa alguma, mas da qual buscava voltar. Aos poucos, o menino voltava magicamente à sua forma original. O cabelo aloirava-se e a pele embranquecia. O chefe da polícia desesperava-se. Lágrimas. Virou o corpo. Um rosto ao sol. Já se vivia outra realidade. O menino morto transformava-se outra vez em seu filho.

E só aí foi que a história virou tragédia.

Um minuto de Jorge Mautner

Rush hour, o mundo lá fora sofrendo no trânsito caótico da combalida Guanabara. As pessoas tendo muito a viver até a hora de dormir, quando vão recomeçar a girar a roda social.

Na TV Brasil, a reprise do Estúdio Móvel, apresentado por Liliane Reis. Uma revista eletrônica onde se vê, ouve e lê raridades em se tratando de tevê aberta.

Breve entrevista com Jorge Mautner gravada em 2011, um dos mais brilhantes brasileiros do século XX – e, por consequência, o XXI.

Músico, cantor, poeta, escritor, pintor, prêmio Jabuti aos 21 anos de idade.

Um monstro da intelectualidade brasileira ainda não descoberto por milhões de nossos parceiros de pátria – que, aliás, não andam descobrindo nada de muito relevante nos últimos quarenta anos.

Impressionante constatar, em pequenos goles da rápida entrevista, a atemporalidade da obra de Mautner. Sua incessante velocidade mental, sua agilidade, sua capacidade em decifrar códigos improváveis.

Ou o mundo se brasilifica ou vai para o buraco.

Já foi?

Exu, Bangu e Itu num mesmo metro quadrado. Filosofia, alquimia, literatura, conversa de botequim, tudo junto.

Recentemente o artista foi objeto de um grande documentário de Pedro Bial e Heitor D’Alincourt. Seus álbuns foram relançados em caixas especiais. Existe uma facilidade enorme em acessar sua obra, diferentemente do passado. Mas afinal, o que falta para o Brasil descobrir Mautner, dado que aplaude dois de seus brilhantes súditos/alunos/parceiros? Caetano Veloso e Gilberto Gil.

Responder é difícil. Mas refletir a respeito, não.

Quando se olha para as manchetes chinfrins dos outrora grandes jornais, a dialética intelectualmente anêmica que reina nos debates políticos, mais a incapacidade de diálogo numa sociedade cada vez mais retrógrada, individualista e neoconservadora, parece evidente que a obra de um artista como Jorge Mautner não “deve” ser popularizada.

Pode causar riscos.

A massificação do ideário JM seria capaz de provocar uma verdadeira revolução cultural no Brasil, na melhor acepção da palavra.

Há muito tempo, Mautner escreveu que existe arte no porta-estandarte, quando tratavam o Carnaval de forma jocosa e reducionista. Ninguém entendeu direito. Quase ninguém entende.

Um gênio para poucos.

Pior para a vida.

@pauloandel