Vinhos e o meu bolso

Estive em gramado por cinco dias. De lá, peguei duas horas de estradas (lindíssimas, por sinal) para a Serra Gaúcha (Bento Gonçalves e arredores) e fui visitar algumas vinícolas, tantas quantas pude com crianças junto.

Curiosamente, em todas as adegas a que fui, o preço dos vinhos mais baratos era 45 reais. Na casa do produtor. Onde se plantam e colhem as uvas, produzem e engarrafam os vinhos. Não há custo de transporte, negociadores, atravessadores. Lucro em revenda. O cliente foi lá, bater à porta do negócio.

Como comparação, estive na França 15 anos atrás e visitei várias caves como as que visitei no sul do Brasil. Os preços eram incrivelmente baixos. Os preços eram em média a metade do praticado em restaurantes e lojas de vinhos da região. Estes eram, também em média, um quarto do preço praticado no Brasil. Ou seja, o preço do produtor era oito vezes menor do que o preço no Brasil (considerando as mesmas regiões às quais fui). Na época, todos me disseram que a culpa dessa discrepância era dos impostos. A carga tributária! Por que, então, os produtores brasileiros cobram preço de boutique? Por que, ou melhor, como eu consigo comprar um ótimo vinho chileno no mercado por 30, 35 reais? Há muita coisa interessante à venda em mercado e lojas especializadas por menos de 45 reais. Chilenos, italianos, espanhóis, portugueses. Este preço, do mercado, já inclui satisfatoriamente os impostos, o lucro dos importadores, o custo dos transportes, o lucro do produtor e o lucro pro revendedor.

Então que porcaria é essa? Por que essa esperteza? Por que tão caro?

Saibam então os amigos que forem à Serra Gaúcha: vão achar coisa boa por lá. Mas preparem o bolso. Pode ser que alguém tente justificar estes preços. A mim não convencem. Triste.

um centavo e nove milavos

Feira livre na Tijuca. Na barraca, mamão em promoção. 99 centavos a maravilha. Mamãe gosta. É regulador do trato intestinal. Nunca pesquisei a fundo se o efeito mamão é psicológico, ou aquela beleza de fruta saborosíssima realmente causa alguma espécie de rebuliço na saída das coisas mesmo. Seguirá o mistério, pois o objetivo do texto não é esta merda.

É a diferença entre os noventa e nove centavos cobrados pelo negociante de mamões e o um real que se lhe estendem em troca (injusta) pela fruta.

Em qualquer lugar civilizado do mundo, você recebe de volta o seu centavo. Aqui não. Você é enganado e fisgado por um preço abaixo de um real. O engraçado é que nunca vi ningué4m vender mamão, abóbora ou banana por 1,01 e aceitar pagamento a menor. Nos mercados, o procedimento é idêntico. Mas ali rola uma compensação que deve dar um nó na cabeça das operadoras de caixa. Numa compra, ela leva dois centavos do cliente. Em outra, deixa três irem embora. Na prática,.é como se a menor moeda em circulação no país fosse a de cinco centavos. Mas tal regra só vale para o comprador!

Mas há algo pior, que passa despercebido na maioria das vezes. O “milavos“. Acho que essa é uma instituição brasileira para o mundo. Presente em praticamente todos os postos de gasolina.A gasolina que você compra por 3,69, por exemplo, não custa 3,69, mas 3,699 reais. Este último nove à direita é o que eu chamo de milavos. São nove milionésimos de real. Menos de três reais e setenta. Disfarçadamente. Um completo absurdo permitido pelas nossas autoridades.

Se alguém souber de algum país onde se venda qualquer produto por milionésimos da moeda local, por favor, me avisem.

O “flanelinha” de Gramado

Final de semana em Gramado. Lotada de turistas. Domingo, doze graus, vento, garoa inclemente. Um tempo para não se colocar o nariz para fora do hotel. Mas… lá vamos nós para o Centro da cidade. Não posso reclamar, pois materializa-se uma vaga excelente bem de frente para a loja em que a sogra tanto queria ir. Estaciono o carro alugado (chinês, merecedor de um post só sobre ele em breve) e vamos passear.

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Por sorte, meia hora depois, passo de volta em frente ao carro. Há uma notinha amarela cuidadosamente embrulhada num envelope plástico preso sob o limpador do para-brisas. É uma espécie de pré-multa, que deve ser paga até o fim do próximo dia útil, de dez reais.

Entro na primeira loja em frente e peço informação. A menina me aponta prum cidadão uniformizado, que passa, coincidentemente, em frente à loja. É um garoto dos seus vinte anos, metido embaixo de casacos e de um guarda-chuva de lona que mais parecia uma barraca de praia do Rio.

– Bom dia. É com você que eu falo a respeito dessa multa aqui?

– Sim senhor. O senhor já conhece o nossos sistema?

– Nada. Cheguei ontem e não entendo nada.

– Ah, sem problemas. O senhor recebeu essa notificação porque estava estacionado por mais de dez minutos sem o talão de estacionamento.

– E como eu pago isso?

– Tem o parquímetro ali do outro lado da rua. O senhor compra esse cartão (magnético) comigo por vinte reais, contendo quinze reais de créditos. O cartão custa cinco reais, mas quando o senhor for embora da cidade, é só procurar um dos nossos agentes e devolver o cartão, que ele o reembolsará com os cinco reais do cartão.

– E eu tenho de pagar essa multa?

– Sim senhor. Mas a multa é convertida em três horas de estacionamento para o senhor.

E o sujeito me levou até o parquímetro, do outro lado da rua, mostrou todo o funcionamento do troço, agradeceu e voltou pra sua função.

Fiquei pensando na cidade olímpica e seus flanelinhas.

A playlist da escolinha

Fui escalado para montar a playlist da festinha de formatura da minha filhinha de cinco anos. A tarefa é escolher cerca de três horas de música não imbecilizante para animar uma espécie de bailinho infantil – na escola. Tudo a partir do Ipod do carro, que tem cerca de 3000 músicas. Claro, seguindo as orientações da mãe e normas de boa conduta impostas pelo colégio de freiras.

A tarefa, que parecia simplória, foi se complicando. Obviedades foram as primeiras peças. Balão Mágico, Palavra Cantada, Adriana Partimpim e afins. Rocks clássicos e frufrus pra agradar madame. Beatles. Algo de Supertramp. Seal.

Madonna vai espantar as velhinhas. Rolling Stones têm simpatia pelo demo. Rage against the machine? Fuck you, I won’t do what you tell me. Não. Perai. Vou. Não vou botar isso. A mãe vai querer me enforcar.

Peter Tosh. Legalize it! Acho que não. Bob Marley. Easy skanking (tarararará). Ia acalmar a turminha. Aposto que pais iriam gostar. Melhor não.

Oncinha pintada. Zebrinha listrada. Coelhinho peludo. São bichinhos fofos. Não.

Eu quero é ver o oco. As crianças vão brigar. Não.

Ai ai ai, ui blau blau… Negócio de ursinho não dá. Adão vivia em paz, andava nu pelo paraíso. Nu? Não. Pelado, nu com a mão no bolso. Nunununu! Chega de nudez. Nada disso.

Elis Regina. Tom Jobim. João Gilberto. Marisa Monte. Gilberto Gil. Camisa de Vênus.

Esse não dá nem pelo nome da banda.

Mas com o que eu vou transgredir?

Nerdices. Instant Karma, de John Lennon. Urrada por Paul Weller, do Style Council. Sensacional.

Muito Raul. Vai tocar sociedade alternativa na escolinha. Bicho maluco beleza. Eu sou a mosca na sopa deles.

A marcha imperial. Juro que eu pagava para ver a cara das irmãs da escolinha ouvindo o Tema de Darth Vader.

March of the Swivelheads. Da trilha de Ferris Bueller.

Deu vontade de colocar o hino do Vasco. Me controlei.

Acho que ficou bom. Manuzinha vai gostar.

Galinha pintadinha é o cacete. Só se fosse a Marilu, que botava ovo pelo Patati-patatá.

O ranzinza polêmico e diferenciado

Mil perdões por este título mequetrefe para este texto. Espero, sinceramente, que o conteúdo supere suas expectativas e você perceba o quão (consegui meter um quão no texto!) diferenciada esta leitura será.

O ranzinza sou eu. Vivem dizendo que reclamo de tudo. Eu rebato com uma de minhas frases favoritas: “pra mim, tá sempre tudo bom!”

A reclamação do momento, que não é uma reclamação, mas uma constatação, é quanto a essas duas palavras. Não há mais adjetivos ou advérbios. Tudo é diferenciado ou polêmico.

Bom, competente, persistente, educado, confiável, inteligente, perspicaz, bonito, feio, alto, magro, gordo, obeso, elegante, atraente, bonitona, burra… A modernidade uniu-se à imprensa para simplificar o vocabulário e transformar todas essas inutilidades em uma única palavra: diferenciado.

É um raciocínio brilhante!

Perdão! É um raciocínio diferenciado.

Houvesse pensado nisso, Aurélio Buarque de Holanda poderia ter suprimido a metade das páginas de sua obra, trocando-as, todas, por essa maravilha de vocábulo. Perdão novamente. Por este vocábulo diferenciado.

Diferenciado: adjetivo; Significado: absolutamente nenhum. Nada.

Por isso todo mundo usa esse neologismo magnífico. Ele serve para políticos, jogadores de futebol, artistas, cervejas, pratos, pizzas, roupas… Exatamente por não significar rigorosamente nada, pode-se falar este termo impunemente, como aquele coringa do baralho, que substitui qualquer coisa. Com isso, vamos empobrecendo nossa língua e caminhando a passos largos para, em um futuro próximo, grunhir uns com os outros.

Este é um assunto polêmico. Esta é a outra palavrinha da moda. Não se faz mais críticas. Não se apontam mais erros. Leis, arbitragens de futebol, marcações de pênalti, medidas provisórias, decisões. Tudo é polêmico, por mais que seja claramente errado. O juiz marcou um pênalti polêmico. No mais das vezes, houve uma marcação absolutamente inaceitável, errada, absurda. Mas o vocábulo “polêmico”, este termo diferenciado, resolve este problema. Diz-se que foi uma marcação polêmica, que o tema é polêmico, e se tira completamente a responsabilidade de emitir uma opinião. Principalmente quando não interessa emitir essa opinião, pois ela é contrária àquilo que se quer fazer acreditar. Então, se embrulha pra presente de forma diferenciada, ou seja, dizendo ser polêmico.

Lacrou?

 

 

Vinte anos de rua

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Este cidadão mora nas ruas do Centro do Rio há cerca de vinte anos. Desde pelo menos 1996, ele perambula nas cercanias da Praça XV. Dorme sob marquises, em meio a caixas de papelão. Eternamente imundo, chova ou faça sol de bermuda e chinelo.

Uma vez desapareceu por um bom tempo. Uns dois meses depois ressurgiu barbeado, bermuda limpa, careca brilhando. O tempo o fez voltar ao estado “normal” das coisas.

Tem o carinhoso apelido de Fabiano em homenagem a um amigo, praticamente sósia do mendigo.

Certamente não está nas ruas por ter sido atropelado pela falta de dinheiro. Tem alguma espécie de distúrbio mental. Grave. Não é apenas um mendigo. Merecia ser estudado, pois apesar de viver imundo e seminu, parece gozar da mais perfeita saúde.

Parece muito feliz de estar nas ruas. E esse é um dos pontos centrais desse texto. Será que o doidinho estaria mais feliz se estivesse internado em alguma instituição psiquiátrica? Limpo, alimentado, abrigado? Ou se sentiria preso, alijado da sua liberdade, de seu castelo imaginário das ruas?

O que é a felicidade de um homem?

Só ouvi, até hoje falar uma única frase em meio às guimbas de cigarro que fuma:

“Ô amigo, me vê cinquenta centavos? Cinquenta centavos?”

Parênteses: guimba. Pelo amor de Deus, não me venham com bitucas. Essa invasão de termos paulistas no Rio de Janeiro tem de ser contida.

Pois bem, por conta do nascimento da minha filha e de outras circunstâncias, passei quase seis anos morando em Brasília e, portanto, distante do convívio com tão ilustre figuraça do Centro.

Semana passada, para minha felicidade, tava lá o cara. Resolvi passar bem perto dele para ver o que diria.

Surpresa.

“Ô amigo, você tem dois real, dois real?”

Morri de rir. Coerentemente, nesses tempos bicudos, inflacionou o seu pedido.

Gostaria muito de entender como chegou a esta conclusão.

É louco, mas não é maluco.

Degustação de mau-humor

mau humor

Frequento, aqui em Brasilia, um mercado chamado Super Adega. É uma espécie de super-atacado, com uma enorme adega no subsolo, que vende vinhos de todos os preços. Dos vinte reais ao infinito e além. De vez em nunca, vou lá com cem contos (mesmo!) em busca de 3 ou 4 garrafas garimpadas no meio de milhares de rótulos, a grande maioria, infelizmente, inacessível para meus parcos reais.

Mas, como muita gente já sabe, felizmente o mundo do vinho não é cartesiano. Existem porcarias de 100, 200, 500 reais e maravilhas de 25, 30. E vice-versa. Garimpar e acertar é boa parte da farra.

Então, quando há uma ocasião (receber amigos em casa, algum jantar, algum aniversário) eu me dou de presente umas duas horas (o tempo voa!) procurando no meio de milhares de rótulos o que levar. Em alguns dias, infelizmente, o orçamento é ainda menor. Então você é obrigado e reduzir ainda mais a sua escolha. E a coisa começa a ficar mais difícil. Lógico, vinhos baratos e bons são mais raros do que seus primos ricos.

Como eu disse, essa é a diversão. Vou escolhendo e colocando tudo o que me interessou no carrinho. No final da escolha, tenho normalmente de oito a dez garrafas escolhidas. E orçamento pra quatro. Ai, começo a devolver uma a uma o que decidir não levar.

Noutro dia, com um jantar mais importante e sem as duas horas disponíveis, decidi pedir a ajuda de um dos “colaboradores” do mercado. São (ao menos em teoria) conhecedores de vinho. Engravatados, estão ali pra ajudar os compradores em suas dificuldades.

Claro, eu não sou (na cabeça deles) o público alvo. Um plebeu, de bermuda e tênis, comprando uma meia-dúzia de garrafas. Já vi alguns venderem um carro popular em caixas de vinho. Enfim, abordei um. Gordinho, baixo, cara simpática. Pedi ajuda para comprar quatro garrafas de até 35 reais cada. O sujeito andou. Parou nos portugueses. Apontou um. “Excelente custo-benefício”. Cinquenta reais. Achei caro. Pedi outro. Me apontou um segundo português. 46. Tá acima do que eu posso. Vou procurar e lhe pergunto, pode ser? Claro! Esteja à vontade.

Parênteses: “custo-benefício” é o irmão gêmeo do maldito “diferenciado”. “Este é um cabernet de excelente custo-benefício”. “Fulano é um atacante diferenciado”. Enrolação. Isso não quer dizer porcaria nenhuma.

Voltemos à compra.

Usei meu método. Tinha sete garrafas. Voltei ao sujeito. Ele estava próximo de outros dois vendedores. Expliquei.

– Separei essas sete garrafas aqui. Pode me ajudar a escolher?
– Não! De jeito nenhum! Se eu escolher pelo senhor, eu vou lhe causar alguma frustração. O senhor faça o seguinte: Vá pro caixa, e chegando lá, o senhor escolha os rótulos mais bonitos, as garrafas mais chamativas e pode levar.

Os olhos do outro vendedor quase saltaram de órbita. Eu estava num dia de stress total. Aquela era a minha diversão. A resposta foi tão estapafúrdia, tão grossa, que eu confesso que nesses momentos me baixam uma calma inexplicável. Depois, no carro, pensando no cara, me dá vontade de voltar lá e partir pras vias de fato. No momento, nada disse. Dei o sorriso dos estúpidos e fui me embora com os vinhos que eu mesmo escolhi. Eram bons.

Ontem, voltei pela primeira vez ao local. No lado de fora, uma moça dava provas de um vinho nacional. Aceitei. Um senhor ao meu lado também quis. Provei. O homem bebeu o vinho. Fez uma cara feia, pronunciou um “argh” altíssimo, atirou o copinho ainda com vinho grosseiramente no lixo e deu as costas à menina que trabalhava sem um obrigado ou coisa que o valha.

Entrei na adega. A primeira pessoa que vejo foi o cidadão. Me reconheceu. Atendia um casal jovem que buscava uma única garrafa de vinho. Estava falando dos italianos. Num tom mais alto do que o lugar recomenda. “A senhora está procurando um vinho doce, esse aqui é bem leve, mas ainda assim é um vinho de verdade”. Sai de perto pra não me aborrecer. Uns dez minutos depois, vejo o casal saindo e a mulher dizendo que se o cara continua, ia plantar a mão na cara dele.

Comprei meus vinhos.

O mundo está coberto de pessoas grosseiras e sem-educação, prontas a estragar o dia do outro. Até num lugar onde, teoricamente, o humano, pobre ou rico, vai buscar diversão. Minha omissão ao não reclamar do sujeito pra quem de direito, pode ter ajudado a estragar o momento do casal de ontem. Na próxima ida ao estabelecimento, vou me reportar ao gerente e cumprir minha obrigação de cidadão.

Mundo esquisito.

O isolamento das redes sociais.

escolha a sua garrafa

Sabe aquela sua amiga bonitona que posta umas fotos lindas no Face?

Tá passando por um período financeiro dificílimo. Ferrada de grana.

E aquele teu amigão do emprego antigo?

Tá com o casamento por um fio.

Sabia?

Não, né? Mas você viu a timeline deles. E tava tudo tão maravilhoso. Como é que agora as notícias são essas?

É que, ao contrário do que você pensa, essa vida conectada veio pra afastar as pessoas, em vez de torná-las mais próximas. As pessoas estão ali, ao alcance da mão, no celular, no computador ou no tablet. Elas estão todas ali, sorrindo, mostrando suas fotos nos melhores restaurantes, em Miami, New York, Paris… Tá todo mundo feliz. Não há inflação. Desemprego. Doenças.

Preocupações, só políticas. Ai, há os que soltam o pau na Dilma, no Aécio, no Eduardo Cunha… Mas nada disso afeta suas vidas de faz-de-conta. Está tudo maravilhoso.

Mas pode ter certeza. Enquanto você lê esse texto, tem amigos seus passando por sufoco. Doidos pra sentar ao seu lado e chorar. Desabafar. Mas eles não vão te contar isso pelo facebook. Muito menos pelo whatsapp.

Perdão por te contar isso, mas as pessoas têm problemas. Elas precisam de você. Não de suas letras. Pior e mais chocante: não são aqueles amigos distantes que estão passando por isso. Tem gente próxima sofrendo. E a sua interação asséptica pelos meios eletrônicos não resolve.

Você não abraça ninguém pela internet.

Antigamente você não conseguia sair de perto do telefone de casa num aniversário. As pessoas ligavam! Botavam o assunto em dia. Vinte, trinta amigos. No último ano recebi umas 220 felicitações pelo meu aniversário. Cinco me ligaram. Uma delas falou que fazia questão de ouvir minha voz. Falar comigo.

Claro, dessas duzentas e vinte, certamente mais da metade não teria intimidade comigo para ligar e acabam te felicitando porque descobriram que aquele é o seu dia pelo aviso do Tio Zuck. Mas que tal, no aniversário de alguém de quem você gosta, ao invés de burocraticamente mandar um zap-zap ou uma mensagem via facebook, ligar pra sua amiga? Deixá-la ouvir sua voz? Por que não ligar praquele amigo que postou um treco esquisito e que pode estar emitindo um leve sinal de que precisa de ajuda? Ou apenas que precisa conversar?

Há quanto tempo você não interage pessoalmente com algum amigo ou amiga?

Eu sei. Tem gente chata. Que fala muito. Inconveniente.

Com certas pessoas é mais prudente mandar uma mensagem de texto.

Se você, que está lendo, não me conhece, saiba que eu trabalho só com web há quase 20 anos. Adoro isso aqui. Mas gosto mais de gente! Gente de carne e osso. Deve ser porque nasci no milênio passado. Na época em que se abordava a moça na fila do orelhão.

Conheci minha mulher numa fila de orelhão. Ela chegou, eu puxei papo. Vai fazer 25 anos disso em setembro. Hoje em dia, ela não pararia na fila do orelhão. Possivelmente estaria no tinder. Certamente me acharia feio. Haveria mais uma barreira tecnológica a transpor antes de conseguir falar com ela.

Chega de interatividade.

Me liga!

Collorido

Moro num país tropical, abençoado por Deus e travado por natureza.

Eu gostaria de ter um par de havaianas roxas ou rosa-choque.

E não há nada de esquisitex, prafrentex ou modernex nisso. Apenas a sua mente travada e a dos supermercados e ou revendedores da marca. O máximo que consegui transgredir até hoje em termos de cores foi um azul turquesa. Porque azul é cor de macho. No meu tamanho, 43/44, me são ofertados chinelos branco, preto, marrom, azul-marinho, verde-oliva. Doutor sócrates, com seu pezinho 37, teria um arco-íris de chinelos à sua escolha. Mas quanto maior o pé, menor a oferta.

Sou curioso pra saber o que vai acontecer nos próximos anos, pois a média de altura das mulhers brasileiras (consequentemente o tamanho do pé) está aumentando. Daqui a pouco a mulherada que calça quarenta vai se sentir preterida.

Claro, estou falando do modelo tradicional do chinelo. Não dá pra entender quem pague o triplo por um chinelo igual com uma bandeirinha do Brasil. A não ser que sejamos a pátria de chinelos.

Curioso esse preconceito com as cores em determinados nichos de mercado. As fábricas nacionais de automóveis, com honrosas exceções, fabricam carros nas “cores” preto, prata, branco e vermelho. Todas as variações de pérola, cinza, prata, metálico.

Cinquenta tons de cinza? Basta olhar qualquer estacionamento.

Pra vocês terem uma ideia da maluquice, em 2012, quando compramos nosso carro, o vendedor recomendou que não comprássemos um vermelho, pois (na época) a cor da pintura desvalorizaria o carro quando da venda em cerca de 10% do valor. Tornei-me então o (in)feliz proprietário de um carro prata.

Quer um carro colorido? Tá podendo? Compre um mini. Inglês.

A escravidão (escrotidão?) da tecnologia

Acabo de voltar, de ânimo renovado e cuca fresca, das minhas férias de cinco dias. Fui com a família para uma fazenda na Chapada dos Veadeiros (claro, com as mesmas piadinhas de sempre). O lugar, pedaço muito bem preservado de cerrado, não tem telefone, sinal de celular e muito menos internet. A televisão funciona via satélite, mostrando (mal) apenas uma meia dúzia de canais abertos e outros tantos fechados.
Caso você precise falar com seu celular, tem de fazer uma caminhada de cerca de um quilômetro e meio até a beira da estrada, para, de cima de um morro – a sede da fazenda fica num vale – apontar o celular pra leste, de onde surge o sinal para você fazer sua ligação.

Desligamo-nos do mundo. Li. Dormi, Fotografei. Andei pelo mato. Vi Araras, Papagaios, Seriemas, Picapaus. Assei batatas na brasa. Tomei vinho. Joguei ludo, coisa que eu não fazia havia uns 30 anos… Fui dormir às nove da noite. Sem ninguém interromper.

Lembro da viagem que fiz com minha mulher no ano 2000, pelo interior da França e Itália. Tivemos a mesma sensação. Estávamos desconectados do nosso mundo e com ele só interagíamos quando a gente resolvia ligar pra casa.

Não existia o famigerado celular.

Você pode estar pensando algo como: ué… é só desligar o aparelho. Mas não funciona. A tranquilidade decorre do fato de você estar realmente isolado do mundo, num canto em que a tecnologia não consegue te atingir, por mais que você tente. A mesma viagem do ano 2000 seria praticamente pública hoje em dia, pois teríamos celulares, preocupações do dia a dia, contas a pagar, urgências mil. Vontade de publicar uma selfie.

Ao invés dessa tecnologia toda ser-nos útil, a verdade é que tornamo-nos escravos dessa conectividade. Somos rastreados. Controlados. Não temos privacidade.

Acho que esse tipo de viagem que fiz vai se tornar, muito em breve, por causa desse fator, um luxo. Um lugar paradisíaco, calmo, silencioso, em plena natureza e inacessível ao grande irmão.

Como disse um dia o grande Claudio Max: A gente estuda pra burro e depois trabalha pra burro pra poder fazer aquilo que podia fazer quando ainda não estudava e nem trabalhava.