Homem em loja de lingerie

soutien

2016. As moças falando de igualdade, empoderamento, liberdades…

Ai, você, homem, resolve entrar numa loja de lingerie para ajudar sua mulher a comprar calcinhas e soutiens.

É uma experiência muito engraçada. Parece que você está invadindo um banheiro feminino e todas as mulheres – vendedoras ou clientes – estão incomodadas pela sua inconveniente presença naquele recinto. A situação faz você se sentir uma espécie de taradão.

Você que está lendo: conhece alguma loja ou departamento de lingerie que tenha algum vendedor homem para ajudar algum comprador menos versado nas coisas femininas? Pois é.

Procurei (e achei!) todas as peças que minha mulher comprou, enquanto a vendedora que nos atendia trazia coisas inúteis e caras. Enquanto minha mulher experimentava as coisas e eu flanava pela loja, a vendedora me fiscalizava. Só dirigiu a palavra a mim uma única vez. Quando peguei um (lindo!) soutien cinza.

Isso é pra amamentar! Disse, em tom agressivo e de reprovação.

Não fosse caríssimo, eu tinha levado pra minha mulher, no provador. Só pra sacanear.

Aliás, ainda sob um olhar masculino, é apavorante a quantidade de soutiens e calcinhas com enchimento. Você vê aquele top bonito e, quando pega, parece um travesseiro, de tanto material que tem ali. A coisa atingiu um tal patamar que, sem medo de errar, 60 a 70% dos conjuntos mais bonitos que vi na loja tinham alguma espécie de enchimento. A ponto de ser difícil para uma mulher com muito busto (termo que só existe em loja de lingerie) comprar modelos sem ficar parecendo a Jane Mansfield ou a Gina Lollobrigida.

Visto de fora, bem de fora, parece incoerente. Mas pensando num mundo de silicones e botoxes, até que faz sentido. Eu só acho que o mundo feminino cada dia mais carece de sentido. Ao mesmo tempo em que querem mostrar independência e modernidade, parecem atadas a conceitos muito antiquados e, por que não, retrógrados.

Vou seguir achando divertido entrar no universo feminino, apesar das caras feias e dos olhares de reprovação. Em tempo: minha mulher se divertiu e também ficou chocada com a reação das mulheres da loja.

Educação superior

imundicie

Nos últimos quatro meses, uma reviravolta em minha vida profissional me levou a cuidar de uma pequena rede de três cantinas lotadas em uma universidade do DF. Todas ficam no pátio central de seu respectivo Campus, onde há grande quantidade de mesas e cadeiras para uso dos clientes, em sua esmagadora maioria estudantes da instituição.

Há também uma grande quantidade (exagerada, até) de latas de lixo nestes pátios. Não há, portanto, nenhuma desculpa para que o lixo orgânico gerado pelo consumo dos clientes da cantina não vá parar no lugar próprio, ou seja, nestas latas de lixo.

No entanto, os universitários, futuros advogados, dentistas, nutricionistas, professores de educação física, enfermeiros, entre outros, são incapazes de jogar o lixo que produzem no lixo. O resultado visual ao final de um intervalo de meia hora, quando todos têm um tempo livre, é inacreditável. Uma imundície inaceitável produzida por gente com “educação”.

O que me intriga é saber se esses mesmos alunos, ao irem aos shoppings da cidade, ou em suas casas, se se comportam como a horda de hunos que vejo todo dia. Alguns chegam a espalhar o resto dos sachês de catchup nas mesas. Não se trata só de largar o lixo na mesa de forma minimamente organizado para alguém recolher, mas promover um desastre, inviabilizando o uso daquela mesa por quem vem depois. Duvido que o façam.

A faculdade mantem uma grande equipe de limpeza, que consome boa parte do seu tempo limpando o que as pessoas deveriam ter a obrigação de resolver sozinhas. Gasta tempo e dinheiro para limpar a falta de educação e civilidade de seus alunos. Mas, curiosamente, a instituição não tem nenhuma política de reciclagem ou de educação ambiental para com seus alunos ou membros.

Num dia desses, cansado da apatia de todos e sem poder interferir pesadamente, pois sou um terceiro na relação, resolvi passar a fotografar as sujeiras mais artísticas. Exatamente quando fazia a foto que ilustra esse post, fui chamado por um grupo de três alunas, que aplaudiram minha iniciativa. Enquanto conversávamos, um aluno conhecido delas largou a sujeira e foi embora. A aluna mais falante o interpelou:

– Ele tá acabando de falar sobre largar as coisas nas mesas.
– Se eu jogar o lixo fora, ele vai demitir as meninas que trabalham na cantina, porque elas não vão ter mais o que fazer.

Não precisei falar mais nada. Catei a bandeja, joguei o lixo do imbecil no lixo. As meninas são agora clientes frequentes. O idiota certamente segue idiota.

Educação e civilidade não se aprendem na rua.

Meu amigo que curte o Bolsonaro é meu amigo?

Esta semana, depois do deputado Jair Bolsonaro homenagear o Coronel Brilhante Ustra em seu voto no impeachment de Tia Dilma, o facebook viveu uma mistura de censura com caça às bruxas. Alguém teve a brilhante – perdão pela piadinha – ideia de visitar a página do deputado e lá viu uma penca de amigos seus que seguem a página e as suas publicações. Resolveu então exigir que essas pessoas parassem de curtir o cidadão e suas ideias extremistas sob pena de cortar relações virtuais com os admiradores do milico.

Essa imposição viralizou. Algo entre vinte e trinta amigos meus exigiram isso dos seus amigos. Como sou do contra, confesso que eu, que detesto o cidadão em questão, cheguei a pensar em curtir a página dele, só para ser do contra. Pelo visto não fui o único. Hoje, antes de escrever este texto, fui, pela primeira vez, visitar a página de Bolsonaro. A página teve, esta semana, um acréscimo de 450% em suas curtidas, com o ápice do crescimento justamente na 3a feira, dia em que o “movimento” pelo expurgo cresceu.

Parabéns aos envolvidos. Que sucesso.

Olhei então os 32 amigos que tenho e que seguem a página. Pessoas próximas, muito próximas e dois ilustres desconhecidos. Meus amigos são meus amigos, curtam o raio que curtirem. Tenho amigos flamenguistas, comunistas, petistas e varios outros istas dos quais discordo totalmente.

O problema que essa manifestação anti Bolsonaro está ajudando a identificar é a presença desses dois ilustres anonimos. Gente que é “amiga no facebook” mas de quem sei muito pouco além do nome.

Dentre os meus quase 700 amigos de facebook, certamente uns cinquenta deles são pessoas com as quais não tenho rigorosamente nada em comum. Gente que me pediu que os adicionasse por me conhecer de alguma ocasião social ou de eventualmente ter lido algum dos textos que publico por aqui, ou nos Panoramas Vascaíno e Tricolor. E que o foi. Acontece que eu não conheço essas pessoas direito. Eu não sei absolutamente nada sobre elas e, ao permitir a sua presença em minha timeline, eu as trouxe pra perto.

Então, o espanto com a quantidade de amigos que curtem Bolsonaro nas timelines das pessoas é apenas um consequência do problema verdadeiro: A de adicionar gente desconhecida a um ambiente que deveria ser, em termos, íntimo. Na ânsia de conseguir curtidas e público para suas elocubrações, tem gente que adiciona qualquer um que peça sua amizade. Eis o resultado: um bando de desconhecidos, seguidores das maiores sandices, que está ali pertinho, acompanhando o que você posta sobre seu trabalho, família, interesses…

É como naquela piadinha da transferência do Facebook pra vida real, na qual o sujeito sai pela rua afora berrando para os desconhecidos “Hoje estou feliz!”, “Olha o meu almoço”. Pois é exatamente isso que você está fazendo. Falando com e para estranhos.

Então, muito mais grave do que o seu “amigo” desconhecido seguir Bolsonaro, é ele seguir você. Sugiro, urgentemente, uma revisão das suas amizades virtuais. Como o Bolsonaro mostrou, elas não são tão amigas quanto parece.

Diarreia mental

flora

– “A diarréia incomoda muita gente! Com repoflor, já não incomoda maais…”

– Hã?

– “A diarréia incomoda muita gente! Com repoflor, já não incomoda maais…”

– De onde você tirou isso, Manu? O que que é diarreia?

– Não sei, pai, mas com repoflor não incomoda mais.

– Tá bom, mas onde você ouviu isso?

– Na tv, papai. Já vi um monte de vezes.

Manu não assiste tv desacompanhada. Assistiu este anúncio provavelmente junto com a gente, durante o café da manhã ou almoço, durante os quais assistimos normalmente aos noticiários. À noite, na copa, durante o jantar, a avó assiste a novela.

Engana se quem pensa que estes serezinhos não estão prestando atenção ao que se passa ao seu redor. Desenvolvemos uma capacidade de abstrair os anúncios, o que nos provoca a perigosa situação de não ver e ouvir o que as crianças estão bebendo. A gente tenta amenizar e evitar que ela veja a violência dos fatos, mostrar crimes violentos, atentados, mas a propaganda passa despercebida. Curiosamente, na outra ocasião em que ela comentou de uma propaganda, foi de activia. Provavelmente a figurinha não terá problemas intestinais nunca.

Essa outra ocasião foi mais perigosa. Ela era muito mais nova que hoje e não tínhamos entendido de onde ela tinha tirado aquilo. A resposta veio dias depois. Do youtube. Mais do que controlar a tv, controlo internet. Youtube principalmente. Pra minha surpresa, um vídeo de desenho animado, talvez da Monica, trazia a propaganda, que fazia menção ao fato de que a prisão de ventre tira o apetite sexual. Confesso que não lembro exatamente o que ela disse no dia, mas se referia exatamente ao lado sexual (ou não) da coisa, ainda que ela não entendesse o que aquilo significava. Como as propagandas são feitas por termos de busca ou referência, isso pode acontecer. Um exemplo (fictício): Um frigorífico patrocinar o termo de busca “porco” e a propaganda aparecer num desenho dos três porquinhos, por exemplo. Ao fazer a propaganda, você tem como escolher canais nos quais a propaganda vai aparecer. Mas isso dá um trabalho brutal pra ser feito, de forma na maioria das vezes que a palavra é usada direto mesmo.

Ou seja: necessidade completa de supervisão na internet E tevê. É ingenuidade pensar que só o programa está sendo assistido. Qualquer intervalo, produto, anúncio de outro programa ou filme está sendo gravado pela mente do seu filho. O buraco é muito mais embaixo. Largar seu filho vendo um canalzinho inocente do youtube ou um programinha de tv pode não ter bons resultados.

O preço da liberdade é a eterna vigilância.

Ah, a imagem das flores, deste post, é em homenagem à nossa flora intestinal.

Respeito.

É comum nos dias de hoje achar que o que une as p essoas é a comunhão de ideias e pensamentos. O raciocínio parte da ideia de que eu, que sou conservador, vascaíno, de direita e católico, terei amigos que comungam das minhas ideias e dogmas.

Acontece que o cara que é meu melhor amigo, sócio em um monte de projetos e a pessoa mais confiável que conheço é ateu, tricolor e esquerdista. Brizolista, pra piorar um pouco e pra ser mais exato.

Na linha de raciocínio de 95% da internet atual, eu deveria ser inimigo figadal desse sujeito e viver às turras com ele, e vice versa. Não concordo com ele em assuntos-chave do momento, então como conviver?

Simples: embora não concorde com suas posições políticas, acredito piamente em sua boa-fé e em sua honestidade. São valores muito mais básicos do que suas posições políticas e religiosas. No seu ateísmo, se comporta de forma muito mais caridosa do que muitos dos católicos praticantes que vão a Missas que eu conheço.

Jamais conseguirei convencê-lo da maioria dos meus dogmas. Ele tampouco. Discutimos eventualmente sobre esses assuntos polêmicos e as pessoas que vêem acham que nos odiamos.

Acontece que discordamos em praticamente tudo, mas não consideramos o outro um imbecil por discordar daquilo que pensamos.

E é isso que vemos por ai. Você é petista? Idiota, Eleitor de corruptos. Não é? Votou no Aécio? Coxinha. Reaça. Defensor de FHC.

Respeite quem pensa diferente de você. Você tem todo o direito de achar uma palhaçada a manifestação de amanhã. Eu tenho o direito de ir e de pensar que isso é o melhor pro meu país. Sem ser chamado de idiota.

O mesmo vale para o outro lado. Alguns dos maiores bobalhões que eu conheço, com comportamento inaceitável, compartilham, infelizmente, das mesmas opções políticas que eu. Algumas de suas postagens me causam constrangimento. Mais que isso, me fazem refletir se estou errado, tal a agressividade e a virulência de seus ataques aos “não iluminados”.

Sendo assim, respeite para ser respeitado. Aceite e ouça o contraditório. Estude. Contra argumente. E esqueça suas ofensas em casa. Elas pegam mal pra você.

Mundo cão

Você tem um cachorro em sua casa? Aquele seu parceirão, simpático, de quem todo mundo gosta? Gosta de levá-lo, nesse verãozão, pra praia, para ele brincar na areia, nadar e até jogar futevôlei, como um vídeo de sucesso no youtube mostra?

O que talvez você não saiba é que fazer isso é proibido por lei. E tem uma razão profundamente simples.

Por mais que o seu amigão seja bem cuidado, bem tratado e banhado, o contato de suas fezes e urina com a areia contamina a areia da praia. E esse contato é inevitável, pois o cachorro vai deitar e, certamente, encostar suas partes nem tão íntimas na areia. Minutos depois, o cachorro se vai com seu dono feliz e chega outro banhista, que se deita na areia contaminada pelos vermes do seu bichinho. Pior, pode chegar uma criança, que se for bem pequena, pode até resolver comer a areia da praia.

Muita gente acha que os cercadinhos nos brinquedos das praças visam manter a criança “enjaulada” ali, sem que um fuja para o meio da rua. Esta é, sim, uma das razões para que eles existam. Mas a principal é evitar a entrada de cães e gatos e impedir que estes urinem ou defequem nos brinquedos e na areia com a qual as crianças vão fazer suas comidinhas e encher suas panelinhas.

Ter uma criança em casa ajuda você a dar mais valor a esta lei. Ninguém quer que seu filho pegue uma micose ou larva migrans – o popular bicho geográfico – na praia. Muito menos que coma areia contaminada.

Mas o povo que tem cachorro, infelizmente, ignora esses aspectos do problema. Muitos por absoluto desconhecimento. Outros, no entanto, se fingem de desentendidos e simplesmente ignoram a lei. Danem-se as consequências.

Engana-se quem pensa que o problema se restringe à praia. No Rio temos a Floresta da Tijuca, das maiores florestas urbanas do mundo. Os animais da mata não têm anticorpos pras doenças comuns a cães e gatos domésticos. O resultado pode ser catastrófico. Há um tempo, uma gripe quase dizimou a população de micos da floresta.

Sei que muita gente tem seus cães em casa e os trata como um membro da família. Sei que muitos ficarão chateados ao lerem esse texto. Outros farão o que fazem hoje: fingem que a lei não existe. Acham que ela é uma frescura e sacam a desculpa de que o animal é dócil e que, portanto, não vai atacar ninguém. Então, levam seus bichinhos para fazer xixi e cocô numa cachoeira de um parque nacional. Eu gostaria muito que esse texto sensibilizasse um dono de cachorro que fosse a não mais fazer isso.

Maria saiu do grupo

Pedidos de demissão, rupturas de namoro, separações, divórcios, bate-bocas etc

O jeito moderno de fazer isso, hoje em dia, é pelo zapzap.

Pra que explicar, falar, gerar mal-entendidos? É simples. Você abandona o grupo.

Ontem à tarde, terceiro e último dia de treinamento para catorze novos funcionários de uma cantina. Uma moça faltou. Não deu aviso. Cerca de duas horas mais tarde, em pleno treinamento, quase todos ao mesmo tempo começam a conversar. Uma verbaliza:

– A Maria se demitiu.
– Ela ligou? Avisou algo?
– Não. Saiu do grupo!

Simples. Asséptico. Muitas horas depois, formalizou o que já se sabia por um comunicado lacônico.

Grupo de casais da Igreja. Seis casais. Doze números. Um grupo daqueles esquecidos, no qual ninguém conversa, exceto eventuais postagens de auto-ajuda religiosa ou votos de parabéns.

Plim! Fulana saiu do grupo. Falei com minha mulher:

– Ih… Beltrana saiu do grupo da Igreja! Acho que se separou.
– Deixa de ser fofoqueiro! Trocou de celular, ou resolveu sair do grupo, sei lá.

Horas depois… plim! O (ex) respectivo abandona o grupo também. Não dei mais um pio. Horas depois a confirmação. O casal havia se separado. Os dois plins já haviam comunicado o fato.

As vezes, no entanto, não rola plim. O romance da night anterior está lendo as mensagens. As setinham se duplicam, ficam azuis e o sujeito se finge de morto. O implacável zapzap, por meio daqueles “certinhos”, esfrega na lata da infeliz que o mancebo a relegou ao limbo. Não há alternativa. É fazer a fila andar. Porque lá, ela já andou.

Os exemplos citados são verdadeiros. Os nomes não. O casal voltou às boas. Entrou novamente no grupo.

Antes as pessoas conversavam. Depois, a conversa entrou no telefone. Passou pro chat. Caminha pros ruidos.

Falta pouco para grunhirmos.

SS SS! Ouvi uma vez. Fiquei tentando interpretar.

Era um “Dá licença?”.
Licença.
Cença.
SS SS!

plim.

Mulheres e a magreza

Li hoje, pela milionésima vez, um texto interessantíssimo escrito por uma mulher sobre a liberdade que ela experimentou quando aceitou seu próprio corpo. Não é a primeira e certamente não será a última.

Pela foto no texto, a dona é um espetáculo. Mas não era para si própria. Tampouco pra suas amigas em busca da barriga negativa.

Há um ponto em comum em todos estes textos que leio sobre o assunto:

A ausência do masculino.

A aceitação que as mulheres buscam não é dos seus parceiros. É das amigas. Das colegas de trabalho. Colegas de malhação. Aposto as minhas calças que a maioria delas têm em casa um companheiro que as elogia, que curte suas gordurinhas – imaginárias ou reais. Mas isso não é, infelizmente, levado em conta. A paranóia se generalizou no mundo feminino e aprisionou as mulheres num universo de dietas insanas, infelicidade constante com o próprio corpo e uma competição sem vencedoras.

A mulher padrão 2016 é esquálida e totalmente depilada.

Você (como eu) gosta de mulheres “ão” e peludas? Problema seu. As mulheres estão tão perdidas hoje em dia que virou grande transgressão deixar os pelos no corpo. Vera Fischer e Adriane Galisteu, entre outras, foram massacradas pela mídia porque ousaram posar para fotos eróticas deixando os pelos em seus devidos lugares. As revistas vendem como sucesso uma magreza doentia, que já fez vítimas mundo afora e que devagarinho vai sendo rechaçada em vários países. Mas não ainda no Brasil.

Incutiram na cabeça das moças que mulher peluda é sinônimo de mulher porca. Já ouvi isso algumas vezes. A pergunta imediata: “Quer dizer que sou porco porque tenho cabelo no suvaco?” é desprezada com um muxoxo por absoluta falta de argumentos.

A mulher não sabe por que se depila. Não sabe por que emagrece ou – pior – pra quem emagrece. E segue pirando cada vez mais em busca de um inatingível nirvana de pelo e ossos.

Moça, será que dá pra parar com isso? Ninguém está te pedindo pra gastar os melhores anos de sua vida tentando ser o que você não é. Arriscar a sua própria saúde por causa de vaidade não faz sentido. A bonitona do texto levou trinta e seis longos anos pra se descobrir. Tomara que você consiga fazê-lo antes disso.

Aqui em casa costumo dizer que gosto de tudo ão. Coxão, peitão, bundão.

Chega de magreza.

Hipocrisia social e Feliz Natal

Natal chegando. 2015 terminando.

Foi um ano muito difícil.

Minha (pouca) sanidade foi mantida com a inestimável ajuda de uma amizade de mais de vinte e cinco anos de duração e que, apesar de estar a 1200 km de distância, foi presença diária na minha vida. Vilarejo MetaEditora, os dois Panoramas, Encefálica, vários livros. E que sempre esteve presente para trocar ideias sobre os assuntos mais complexos ou para falar das coisas mais leves e ajudar a esquecer aquilo que verdadeiramente atormentava a ambos.

Tenho seiscentos e cinquenta e cinco amigos na minha timeline. Talvez setenta por cento deles não tenha noção de quem realmente sou e do que se passa na minha vida. Uns vinte, se muito, realmente são próximos e conhecem minhas batalhas. Normal.

O que não é normal é o que acontece nas redes sociais se você, num momento de tristeza, e desespero, talvez, resolver publicar um desabafo. Fiz essa experiência uma vez este ano. Os resultados foram assustadores. Praticamente ninguém interagiu. Reinou um silêncio esquisito, diferente dos demais posts. Dois amigos se interessaram.

Claro, nem todos os 655 viram o meu post. Tio Zuck esconde de mais da metade. Ainda assim, foi um belo teste.

Então, pra que serve a tal da rede social? Será que tem realmente alguma utilidade, se quando você realmente precisa ninguém vai estar ali pra você? Não tenho uma resposta formada.

Serve pra mostrar o quanto todos somos felizes, o quanto tudo é perfeito e belo. Grandes jantares. Sucessos retumbantes. Eu também posto essas coisas. Não sou melhor que ninguém. Apenas questiono o fato de uma ferramenta tão bacana restrigir-se a essa hipocrisia.

Antigamente as pessoas ligavam no aniversário. Hoje em dia, postam uma mensagem. E só. Pouquíssimos se dão o trabalho de ligar.

“Feliz aniversário votos muito sucesso vida profissional pt”. Recebi esse telegrama uma vez. A amigona que me mandou vai ficar furiosa com a lembrança 🙂

Então, se me permite o abuso de uma sugestão, saia de trás do computador e vá ter com as pessoas. Vá a um boteco jogar assunto fora. Se vir algo que te faça imaginar que um amigo precisa de você, telefone. Se interesse. Às vezes não é nada. Às vezes o seu interesse pode fazer uma grande diferença na vida de alguém.

Distância não é nada. O cara que me ajudou a sobreviver 2015 está no Rio e eu em Brasília. E a gente sempre conversa sobre o quanto é incrível que nós conversemos mais do que com gente que mora nas nossas cidades. Gente muito ocupada. Que sumiu.

Muito obrigado, Paulo-Roberto Andel. Por toda a ajuda, imaterial, intangível e incalculável.

Feliz Natal pra todos vocês. Que venha 2016.

Zeh

Eduardo e Henrique

– Não, Henrique! Ai não!
– Sai fora desse sofá!
– Você não me dá sossego! Me deixa!
– Henrique!

Dona Cândida não estava entendendo mais nada. Eduardo, o vizinho de porta no prédio, sempre lhe pareceu um ótimo partido. Ela o fiscalizava desde que aquele moço bem apessoado veio morar na sua quadra. Secretária aposentada do senado, ela não conseguia deixar de cuidar da vida alheia, para desespero de Abner, seu marido.

– Abner, tem um homem no apartamento dele! Eu nã acredito! Um moço tão bonito…
– Deixa de ser fofoqueira, Cândida! Que homem? Quem que você tá fuxicando ai?
– O Eduardo, nosso vizinho! Eu pensava até em apresentá-lo pra sua neta… Mas ai, apareceu esse tal de Henrique. Que falta de vergonha na cara…
– E quem é Henrique? O que que você tem com isso, Cândida, pelo amor de Deus?
– Pelo visto é o namorado dele. E pelos berros que ele dá é bem atirado. Uma coisa de “sai dai”, “não quero”. Uma pouca vergonha!
– Cândida, você está ficando louca! Pare com isso!
– Parar? Parar como? O seu vizinho está trazendo homens pra casa, Abner! Como é que a gente vai conviver com essa promiscuidade? Isso é um perigo! Sabe-se lá quem é esse Henrique. Vai ver é ladrão e quer roubar as coisas do Eduardo. Vi outro dia no jornal. Isso é cada dia mais comum. Vou interfonar pro Seu Francisco e perguntar se ele viu esse tal entrar ai. Eu ainda não consegui ver a cara desse homem. É muita preocupação meu Deus…
– Cândida, por que você não vai dar um passeio no shopping? Deixa isso pra lá!
– Eu bem que achava aquele abajur da casa dele muito esquisito. É coisa de bicha mesmo. Eu devia ter notado.
– Cândida, chega!!!!
– Vou ligar pra Neli, do 203, e ver o que que ela acha. Vai ver já viu o cidadão ai no corredor…
Ouve!! Ele tá gritando com o Henrique de novo!
– Sai daqui, Henrique! Sai!
– Deixa eu olhar pra ver se o Henrique vai sair.
– Cândida!!! Ah, vou eu pra rua. Vou pro boteco com o Vinicius. Chega. Você enlouqueceu.
– Quem enlouqueceu foi você! Seu vizinho está trazendo homens pra casa! Homens, Abner! Como a gente vai conviver com essa promiscuidade?
– Você não sabe o que se passa ai, Cândida. Pode ser só um amigo. E se fosse algo mais, você não está dizendo que é sempre esse tal de Henrique? Onde está a promiscuidade?
– Me admira você! Sempre foi contra essas coisas! Agora virou defensor de gays? Um homem bonito, bem sucedido! Vivia vindo um monte de mulheres ai. Tinha uma loira lindíssima! Agora é esse Henrique. Pouca vergonha. Eu nem cumprimento mais.

– Abner, ele saiu sozinho!
– bngmmmmmz… hã? O que foi Cândida?
– Ele acabou de sair. Todo arrumado. De terno. Sozinho.
– Você me acordou pra isso, Cândida? Cacete, me deixa dormir…

– Bom dia, enfim
– Tive lá no corredor. Coloquei a orelha na porta. Nada, Abner! Silêncio completo.
– Qual o almoço? Aliás, até que horas você ficou fuxicando o vizinho?
– Nem sei. Estou desesperada. Eu não vi esse homem sair. A porta tá trancada?

Toca o telefone.
– Eduardo, é a Paula! Tá tudo bem ai? Como ele está?
– Destruindo meu sofá. Perai…
– Para, Henrique!!!

(Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com fatos da vida real terá sido mera coincidência)