Nos porões

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Neste momento alguns protestam. Talvez nem saibam muito bem o motivo. Sempre foi assim: todos sendo guiados como gado pelo quarto poder. Eles acreditam em tudo que ouvem. Não leem mais do que duas linhas. Dois parágrafos é “textão”. Pensar cansa. Pensar é démodé. A tevê berra. Aceitam sem contextualizar. Contextualizar? O que é isso? “Eu quero ela na rua!”. “Eu quero ele atrás das grades”. Domingo é dia de Fla-Flu político. Ter opinião contrária nos coloca em trincheiras diferentes. A guerra civil está perto de ser declarada…é isso? Para quem vive na periferia, a guerra começou há uns 60 anos. Mas aconteceu na favela. Quem se importa? Vamos beber Veuve Clicquot no camarote da boate e esquecer isso. Na saída é só pegar a chave da Pajero blindada e voltar para casa.

Enquanto isso professores estão sem salários, alunos sem aula, colégio sem merenda, carro da polícia sem combustível, preto levando tiro nos becos, gay tomando porrada na esquina, mulher sendo estuprada e levando a culpa. “Não é problema meu”. O que se passa além dos limites da porta do seu apartamento não lhe importa, não é mesmo?

“O dólar está caro e esse ano vai ficar apertado ir à Nova Iorque. Terei que trocar por Porto de Galinhas. Shit!”

A elite se movimenta quando atingem seus privilégios. Ninguém deu importância para séculos de miséria e servidão. Ninguém levantou do sofá para batalhar por melhor educação pública. O filho estuda no caro colégio de padres, que usufrui da isenção fiscal, mas onde preto e pobre só entra se for pra fazer faxina. Quem tem privilégio é o cotista, dizem.

Enquanto sonho com o exame de DNA que pode me dizer de que lugar da África meus ancestrais vieram, bastam alguns documentos para que brancos ganhem seus passaportes europeus e possam vislumbrar uma vida mais digna acima da Linha do Equador. Uns vieram para “limpar” o sangue brasileiro. Os meus vieram nos porões sem direito a nada. Onde está meu privilégio? Ainda não o achei.

Seguem gritando palavras de ordem na Avenida Atlântica e na Paulista. Os gritos não são ouvidos na Maré ou em Itaquera. E no sertão do Cariri? No Vale do Jequitinhonha? O Brasil não conhece o brasileiro. O Brasil crê que o brasileiro é o mesmo da novela das 21h. O dilema do falso brasileiro da novela é saber se a mocinha estará na praia deserta a sua espera no último capítulo. Não preciso dizer que essa mocinha é branca. O mocinho? Branco também. Só os brancos dizem “eu te amo” no horário nobre. Preto e pobre só bate palma e dá sorriso. É o que resta. Sorrir e aplaudir. Não lhe dão voz para dizer se está realmente gostando. Não lhe dão voz para declarar seu amor…ou ódio.

Aqui da janela não vejo camisas da CBF. Mas na TV eles estão aos montes, tirando selfies com os homens de farda. Tiram foto com qualquer pessoa que porte uma arma: um policial, um militar, o Bolsonaro. É importante registrar o momento. Sem selfie quer dizer que não aconteceu. Põe hashtag pra ter mais likes. É cool ir à micareta e achar que está indo defender o país. Está indo pelo umbigo. Umbigos feitos pelo bisturi das clínicas de cirurgia plástica em abdomens lipoaspirados.

O doente na porta do hospital público não tem forças para ir protestar. Ele teria motivos. Nem o aluno que está passando por mais uma greve foi à rua. Por que será? Talvez porque no dia em que saiu às ruas para lutar por seu direito garantido na Constituição, o Estado veio com cassetete, gás de pimenta e bala de borracha. Ninguém ali está para lutar por ele. Ele sabe disso. Cada um no seu quadrado. “Meu filho estuda no São Bento. Você é um vagabundo que quer tirar a vaga dele com cota”.

Não querem a universalização da educação de qualidade. O barco está afundando. Não querem o SUS funcionando para todos. A água está subindo nos porões. Não querem o pobre no aeroporto, na universidade pública, nas praias de área nobre. A água chegou ao convés. Querem a elite no poder. Querem o FMI, a ponte aérea Rio/São Paulo – Miami, mais cadeias, menos faculdades.

Nessa guerra não há santos ou demônios. Nem mocinhos ou vilões. Estamos todos no mesmo barco. Ok. Uns limpando o convés e outros nas cabines, mas mesmo assim no mesmo barco. Quase todos afundarão. Alguns poderão ter o “privilégio” de serem salvos pelos botes limitados do Titanic. Não é difícil prever quem entrará no bote.

No final vão se juntar apenas para garantir seus privilégios, como sempre fizeram desde Cabral. Para nós estarão ainda reservados os mesmos porões inundados.

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Ernesto Xavier

Encefálica

 

 

Que horas ela volta?

que horas ela volta

Durante duas horas, em TV aberta, o Brasil olhou para o quarto de empregada. Depois voltou para sua programação normal. Nas redes sociais, os brasileiros de classe média e alta postaram algumas frases de efeito em “defesa” daquelas mulheres que cuidaram do seu lar desde que se entendem por gente, mas em 2013 reclamaram da Proposta de Emenda à Constituição que deu direitos às empregadas domésticas. O verdadeiro quartinho ficou escondido no mesmo lugar de sempre.

“Que Horas Ela Volta?” no horário nobre da TV teve uma importância política e educacional, mesmo que esta não tenha sido a intenção da emissora. O filme premiado internacionalmente e com uma das apresentadoras e atrizes mais famosas do país como protagonista, fez com que a exibição de um filme nacional virasse um evento. Com tantas questões sociais envolvidas, teve um papel importante na discussão sobre a vida das empregadas domésticas. Faltou tratar da questão racial, sinto informar.

Elas vêm de longe. Do interior dos estados, das regiões mais pobres do país, das periferias das grandes cidades. Acham que elas vêm em busca de um sonho? Não há espaço para sonho na vida de quem teve apenas a força dos braços e pernas para sobreviver. Sustentar a família é a motivação. Dar a eles a chance de quebrar a barreira que as impediu de sonhar.

Em sua grande maioria negras. Muitas mulheres negras abandonadas pelos pais dos filhos. Muitas mulheres negras rejeitadas. Muitas deixaram suas cidades. Muitas deixaram suas famílias.

“É quase da família”. Pode habitar o mesmo teto, mas come em local e horário diferente, só entra em determinados lugares para limpar e arrumar, faz hora extra “de graça”, tem alimentos na geladeira que não estão ao seu alcance. Primeira a acordar e última a dormir. Café pronto. Casa limpa. Comida na mesa. Cama arrumada. Roupa cheirosa. Faz aquilo que ninguém quis fazer. Sobrou para ela. Esse “quase” faz toda a diferença.

Quantas foram abusadas dentro do ambiente de trabalho? Quantas enfrentam mais de 4 horas no trânsito diariamente? Quantas deixaram de acompanhar o crescimento dos próprios filhos e criaram os dos patrões?

Em 2015 eram 1,3 milhões de empregadas domésticas trabalhando com carteira assinada. Apenas 20% do total, formado por 6,4 milhões de trabalhadores. O número pode ter aumentado após a regulamentação dos direitos trabalhistas das domésticas no Senado, em maio do ano passado. A manifestação dos empregadores contra a PEC das domésticas apenas evidenciou o que já acreditávamos: a cultura de Casa Grande e Senzala permanece forte. Por que não queriam dar direitos trabalhistas básicos a elas? Muitos vociferaram que haveria demissão em massa, mas nada disso aconteceu. Era apenas o grito de quem não quer ceder um pouco de seus privilégios.

O filme de Anna Muylaert jogou luzes sobre a questão. Pretendeu falar das milhares de mulheres que migram do nordeste do Brasil para trabalharem em casas de famílias de classe alta no Sudeste e no Sul. Apenas pretendeu. A atuação de Regina Casé merece todos os prêmios. Assim como Camila Márdila (Jéssica) e Karine Teles (Barbara). A qualidade do roteiro e da fotografia não estão em discussão.

O que me intriga é: Onde estão as empregadas negras representadas? O enredo seria diferente, com certeza. Fosse Jéssica negra, assim como as tantas filhas de empregadas domésticas brasileiras, teria o quarto de hóspedes para dormir? Quando a empregada não tem importância na trama, ela é negra. Quando ela é o centro da trama, ela tem a pele clara. Perderam a grande oportunidade de mexer na ferida. Falar do assunto como ele realmente é. Ainda assim os espectadores ficaram chocados com o tratamento da patroa (Barbara) em relação à filha da empregada. “Tão bonita a menina…como fazem assim com ela?” Onde lemos “beleza”, poderíamos ler “pele clara”, ok?

Nos fundos da casa ou do apartamento jaz um cômodo incômodo de dimensões minúsculas. Cabe uma cama de solteiro, que provavelmente teve dificuldade de entrar pela porta. Armário? Um amontoado de roupas. Um porta-retratos, talvez. Nele estará um pouco do que deixou para trás. Foi a forma que encontrou e lhe ofereceram para que sustentasse a vida. Seu nome passou a ser Resignação. Abdicar de quem é, do que ama, de quem queria por perto. Tentar suportar a dor do afastamento. A motivação é a subsistência daquele que está distante. Todo quartinho de empregada tem um pouco de senzala.

Ernesto Xavier

@nestoxavier

http://afrocarioca.blogspot.com.br/

Esquecidos

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O pequeno Aylan foi encontrado morto em uma praia na Turquia. Era mais uma vítima da fuga do terror da guerra. Um refugiado de apenas 3 anos. O mundo chorou. Refugiados na Alemanha e aqui também.

Então veio a lama. Invadiu a cidade de Mariana, em Minas Gerais. Alguns lamentaram, outros ignoraram, os órgãos públicos ficaram imóveis, o Rio Doce morreu.

Aí tivemos um atentado em Paris. Colocaram bandeiras nos perfis do Facebook. A solidariedade tomou conta das redes sociais. Allez le bleu! Esqueceram de Mariana, dos moradores sem água, do Rio Doce, dos índios, da Vale, da lama.

Depois policiais mataram cinco meninos no Rio de Janeiro com 111 tiros. Tentaram forjar auto de resistência. As evidências derrubaram a tese. Tentaram incriminar os garotos. Caiu por terra. Alguns lamentaram, outros ignoraram, os órgãos públicos ficaram imóveis, 111 tiros tiraram 5 jovens negros deste mundo. Panelas não tilintaram nas janelas dos prédios.

Então veio o pedido de Impeachment da presidente. Não falaram mais da lama. Não falaram mais dos meninos. Um deputado corrupto manobrou em causa própria para desafiar o governo.

Em São Paulo surgiu uma garotada de periferia consciente ocupando escolas públicas e pedindo para que não as fechassem. Porrada da PM na molecada. Eles resistindo e ocupando cada vez mais. O governador mandando bater e a galera ocupando. Até que o governador teve que ceder. Saíram do noticiário. E o governador? “Melhor xingar a presidente”.

Aí surgiu uma carta. Em tempos de e-mails, enviaram uma carta. Não falaram do Rio Doce. Não havia Samarco, Vale, BHP, nada. “Garotos? Que garotos?”

Foi assim que chegamos novamente ao deputado. Aquele corrupto que manobrou em causa própria, lembram? Eu sei que lembram. Ele mesmo, com contas na Suíça e Ferrari em nome de Jesus. E os refugiados? “Não sei”. E Minas? Como ficou Minas? “Também não sei”. E Paris? “Putz, esqueci de tirar aquela bandeira do meu perfil. Acho que ficou bonitinha, deixa pra lá”. E aqueles estudantes? “Oi?!” E os garotos fuzilados? “Garotos? Que garotos?” E o impeachment? “Ah tá. Disso eu sei. Fora PT”. Ok.

No fim, basta ser pobre para ser esquecido. O resto a gente lembra com facilidade.

@nestoxavier

Luz

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Em tempos de desesperança, são os alunos paulistas que me trazem algum alento sobre o futuro. Duzentas escolas ocupadas. São milhares de jovens que acreditam na educação como uma forma de evolução, melhoria, ascensão, cidadania, crescimento. São crianças e adolescentes mobilizados, conscientes e dotados do espírito revolucionário, há tanto tempo apagado.

A primeira fagulha de que a juventude brasileira ainda respirava a transformação foi em junho de 2013. Aquelas garotas e garotos que se espalharam pelas ruas do Brasil inteiro reivindicando dignidade foram uma amostra de que não estamos mortos. Ainda há esperança, caros amigos.

Se alguns desses, que hoje se mobilizam, estiverem nos cargos de liderança no futuro, então poderemos acreditar em um lugar melhor para viver. Esse é o medo das lideranças conservadoras atuais. Medo de que esses meninos pobres, porém conscientes, cheguem ao poder de forma legítima.

Manifestações populares lutam por direitos usualmente usurpados. Manifestações burguesas pleiteiam a manutenção de privilégios. Existem por falta de empatia e compaixão. Caso contrário, estariam unidas aos jovens pobres e de classe média baixa que estão se apoderando de um espaço que é deles, para que a força contra o governo paulista fosse ainda maior. Onde estão os alunos das escolas particulares de São Paulo? A escola pública é deles também, mas não sentem dessa forma. Deveriam lutar juntos. Sabemos que os políticos só querem atender as demandas das elites.

Imaginem essas crianças quando forem adultos. Eles vão olhar para trás e verão pelo que lutaram, que ideais os trouxeram até ali e talvez entendam que não haverá outra forma de caminhar, senão por novas estradas. Não podemos perder essa geração. Não podemos. Onde foram parar os jovens de 1992? Quem são hoje os revolucionários de 1968?

O grande medo de quem hoje detém o poder é ter uma massa pensante e com coragem de agir. Os alienados que bradam na internet sem noção do que falam, apenas para espalhar ódio, tornam-se ridículos diante de quem sabe pelo que luta. Estes alienados são fruto da banalização da ignorância que os governantes tanto prezam. São seus eleitores e apoiadores. Os defendem como se fossem seus filhos.

A Educação morre sempre que é tratada como moeda de troca.

Quem se manifesta? Por que manifesta? O que motiva milhares de adolescentes a permanecerem 24 horas por dia em suas escolas? O que motiva aqueles que os apoiam?

É o sentido de pertencimento, de que podem mudar algo que os incomoda diariamente, que o descaso com a coisa pública é o mesmo que feri-los. Quando tomamos consciência de que o “público” se refere a nós e não ao governo, entendemos que cada escola, rua, hospital, ônibus, praça, praia, rio, tudo é nosso. A vigilância é nossa. Nós também somos o bem público.

Aos alunos que ocupam suas escolas unem-se às mulheres que denunciam os abusos sofridos ao longo da vida, aos negros que tomam seus espaços de direito, aos gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros que vivem seu amor, que adotam, se casam e caminham livremente, são os jovens de periferia e seus rolezinhos. É o Brasil que se despe das vestes velhas e assume seu próprio corpo nu e belo.

A suspensão da “reorganização escolar” é a primeira vitória de um movimento legítimo e inédito em nosso país. Quem imaginaria? O povo que ouvia calado as ordens das autoridades, agora os enfrenta de cabeça em pé.

O governador que validou a violência contra estudantes passou a dizer que irá dialogar escola à escola em 2016 para que o processo de “reorganização” seja feito da forma correta (se for). A mudança de postura aconteceu no mesmo dia em que a aprovação de seu governo caiu para apenas 28%. Revisão de conceitos ou jogada de marketing?

Durante 20 anos o partido do atual governador construiu 53 novos presídios, com previsão de mais 20 até o final do mandato. Ao passo que iria, em apenas um ano, fechar 93 escolas e transformá-las em “não-se-sabe-o-que”. Que equação louca, não? Uma escola que foi feita para levar o pobre diretamente para a cadeia, de onde ele irá entrar e sair, em um ciclo que perdurará até o seu fim. Fim este, que costuma ser breve.

A escola precisa de uma reorganização dentro de si mesma. Isso não acontecerá remanejando alunos, unindo ciclos ou fechando espaços. São necessárias mudanças estruturais que visem a formação adequada do indivíduo, da sua transformação em cidadão, da sua visão como ser humano, do seu poder de inserção no mundo. Modernização dos métodos de ensino, humanização dos pensamentos, valorização do professor…é possível? Sim, é.

Quem atira bombas e bate em estudantes e professores mostra que tipo de lição quer dar. Àqueles que estão decidindo os rumos do ensino no maior estado do país fica um aviso:

Estes jovens têm muito a nos ensinar. Calem-se e ouçam. O recado é claro, fácil de compreender. Com menos de duas décadas nas costas, eles sim têm algo a dizer sobre EDUCAÇÃO.

Ernesto Xavier

@nestoxavier

Privilégios

preto no chão

Eu devia ter uns 12 anos apenas. Fui ao apartamento de um tio, que é branco, em um bairro nobre da Zona Sul carioca. Era aniversário dele e minha avó tinha pedido para levar um bolo de presente. Fui de carro com o motorista. Ao entrar no prédio o porteiro perguntou aonde eu ia. Normal. Disse a ele o apartamento e com quem desejaria falar. Fui autorizado a subir. Já tinha estado naquele prédio outra vez, só que acompanhado da família. Ao me dirigir para o elevador fui interpelado pelo porteiro, que disse que eu não deveria subir por ali, já que ‘o seu elevador é o outro, o de serviço’.

Com meus 12 anos fiquei sem reação. Era isso mesmo? O que estava acontecendo ali era o que tinham me alertado a vida inteira? Subi e meu tio, que já me esperava com a porta aberta, me viu saindo do elevador de serviço, quis saber porque fui por ali e não pelo social. Contei a história. Ele ficou revoltado e queria resolver o problema na hora. Era seu aniversário, eu não queria atrapalhar. Ele ficou muito chateado com o que aconteceu e nem sabia como se desculpar. A culpa não era dele, quis falar. A culpa era da ignorância. Não era vergonha servir alguém. Ser empregado de alguém é totalmente digno. A questão era mais profunda. Usam a separação dos elevadores como um aviso: você não é bem-vindo aqui. Você só pode usufruir deste espaço na condição de serviçal. Gente como você nunca poderá ser morador. Não só o porteiro, mas o sistema já faz essa separação.

Aí me dizem: ‘Agora você só sabe falar disso?’. Na verdade, não. Falo da minha vida, do que vejo, do que sinto. E isso está presente em muitos momentos. ‘Você vê racismo em tudo?’ Também não. Vejo onde ele existe. Vejo em quem o pratica. E quando vejo eu falo, denuncio, abro a boca.

Quando na faculdade eu tive que brigar com um professor que me deu nota muito menor do que todos os outros, sendo que eu tinha feito trabalho semelhante aos outros, fui até a coordenação do curso de comunicação e protestei. Minha nota foi revista e a má fé do professor constatada. Resultado: ele foi afastado do curso. Eu já tinha 19 anos e as porradas que havia tomado até ali me fizeram saber que rumo seguir.

A menina que só ficou comigo porque queria saber como era um preto na cama.

O motorista de táxi que não parou pra mim por medo.

O rapaz da loja que disse que a garrafa de vinho que eu queria comprar era muito cara.

Os policiais que em um espaço de 2 meses me pararam 10 vezes em blitz da Lei Seca, fora as habituais.

O comercial de tv que eu não fiz porque ‘tinha os traços finos e eles precisavam de alguém com cara de pobre’.

As moças caridosas que me deram bolo e salgados para que eu ‘levasse para dividir com meus amiguinhos na rua’.

O policial argentino que em uma fila com mais de 50 pessoas parou apenas a mim e outro rapaz negro para revistar e fazer perguntas ameaçadoras.

Outro policial, só que no Brasil, que insistia que eu era morador da favela, sendo que eu não era. Ele insistia e eu negava. Ele dizia que me conhecia e eu negava.

Eu ainda estou vivo. Não moro no Alemão ou na Maré. Não tenho tanque de guerra na porta da minha casa. Não tenho incursão policial diariamente no meu bairro. Não tenho tráfico de drogas na esquina, nem troca de tiros dia sim e outro também. Não tive meu carro fuzilado. Tive “sorte”. No meio de tantos absurdos tenho que comemorar o fato de ser um “privilegiado”. Pude estudar em bons colégios, fiz línguas, fiz faculdade, viajei, li bons livros, tive orientação familiar, tive um teto. Tive o que a maioria dos meus irmãos não tiveram. Ainda assim o racismo veio me dar boas-vindas. Quando alguém vem me dizer que o problema é muito mais social do que racial, lembro de tudo o que me aconteceu e isso para mim já basta como resposta.

Cinco jovens negros perderam a vida por serem jovens, negros e pobres. Cinco jovens que não ficarão mais do que dois dias nas notícias de jornal. Cinco jovens que comemoravam a conquista de um deles. Cinco pobres a menos. Cinco pretos a menos. Eram negros, pobre, favelados, quem se importa?

Eu poderia não estar mais aqui. Porém ainda tenho como contar a minha história e ajudar outros a falarem das suas. Neste país louco sou um privilegiado.

Quem apenas senta nos próprios privilégios e não olha para outros consegue dormir tranquilamente?

Ernesto Xavier

IG: @ernestoxavier

Aqui está a representação da lógica policial:

Aqui e lá

Luaty

Você conhece Luaty Beirão?

O rapper angolano trouxe para nós a luz de que Angola e Brasil tem mais semelhanças do que apenas a língua oficial. Ao se submeter a uma greve de fome que durou 36 dias, um número emblemático, já que representam os anos que o presidente José Eduardo do Santos está no poder, Luaty espalhou pelo mundo a absurda realidade de um povo que viveu sob a guerra civil, que tenta se reconstruir, reinventar, re-significar.

Eram 13 ativistas reunidos em uma livraria discutindo a obra do autor americano Gene Sharp, que escreveu “Da ditadura à democracia”, sobre a ação política de resistência pacífica. Leram bem? Pacífica. Estas pessoas foram acusadas de tramar contra o governo, ou seja, tentar um golpe de Estado. Repito: 13 pessoas desarmadas, um livro, uma ideologia de não-violência. Estes são os “conspiradores” angolanos.

No dia 11 de novembro serão celebrados os 40 anos de Independência de Angola. Aos menos o presidente José Eduardo dos Santos, no poder desde 1979, vai comemorar ao lado de seus confrades.

Aproximadamente 7550 kilômetros separam Brasil e Angola pelo Oceano Atlântico. Pois lá e cá somos mais parecidos do que imaginamos. A começar pela enorme quantidade de negros oriundos da região que foram trazidos para cá, cerca de 1 milhão e cem mil apenas no século XVIII. As duas ex-colônias portuguesas mantém uma aproximação tímida frente ao histórico tão parecido.

Daqui não nos sensibilizamos com as mazelas de lá. Agimos como se fosse um povo desconhecido para nós. E não são. Aqui e lá temos presos políticos e censura. O Brasil tenta disfarçar sua repressão, enquanto Angola escancara para que todos vejam e ainda ri do povo. Difícil dizer qual o pior.

Luaty estudou engenharia na Inglaterra e economia na França. É filho de um ex-aliado do presidente. Cresceu próximo ao governo, mas sempre o contestou. Tornou-se rapper e através de sua música denunciou as arbitrariedades do governo angolano.

Lá um presidente assumiu 4 anos após a independência e é o comandante de uma ditadura que ultrapassa três décadas. Aqui nos tornamos independentes de Portugal para que o príncipe português assumisse o governo, mantendo o sistema monarquista. Aqui, após a ditadura, ainda temos diversos políticos ligados à mesma no poder e um movimento na sociedade que pede o retorno do período de repressão.

Lá mantém presos e em silêncio 15 ativistas além do tempo permitido por lei. Aqui começam a censurar páginas do Facebook e blogs que defendem o feminismo, o movimento negro, a causa LGBT. Os casos recentes de bloqueio de páginas como Jout Jout Prazer e Stephanie Ribeiro a partir de campanhas organizadas por grupos sexistas, homofóbicos e racistas só mostra como um movimento de intolerância vem tomando conta do país. Protestos de professores são tratados com bombas de efeito moral, tiros de bala de borracha, cassetetes. Estudantes que fazem protesto pacífico em São Paulo são presos e acusados de iniciar confusão, mesmo que todos os vídeos mostrem o contrário. Um palhaço é preso por policiais militares enquanto se apresentava para adultos e crianças em uma praça apenas porque falava comicamente da realidade de sua cidade. Ao mesmo tempo que a manifestação em prol do impeachment da presidente é televisionada e protegida pelos agentes policiais (que respondem ao Governo do Estado). Para que voltemos ao regime de censura, violência e prisões arbitrárias das décadas de 60 e 70 não levará muito tempo. Um movimento de ultra-direita, semelhante ao crescimento de políticos com Le Pen, na França, vem crescendo no Brasil. Representantes de ideias fascistas começam a ganhar status de pop stars.

Talvez não conheçamos tanto Luaty e suas ideias, pois estas poderiam soar muito reais para nós. E a quem interessaria um movimento de união massiva pela liberdade de expressão nesse país? A greve de fome é um suicídio lento diante dos espectadores, é o choque entre manter um ideal e perder a vida. Há quem morreria por algo que acredita, como ele, mas para o povo angolano a vida dele é mais importante, pois vivo poderá continuar a falar.

O que Luaty Beirão tem a nos ensinar é que não podemos permanecer impávidos diante do absurdo. Enquanto nos mantemos calados e inertes, a nuvem densa da censura, da tortura, da mordaça e linchamento vai tomando conta de todo espaço. Entre Angola e Brasil temos mais semelhanças que diferenças. Lá e cá apanhamos diariamente. Lá e cá precisamos falar e sermos ouvidos. Lá e cá nos calam.

A liberdade segue sendo um dos mistérios da humanidade.

Ernesto Xavier

“Isso não existe”

transfobia

“Eu até tenho um amigo gay”.

“Já fiquei com menina negra”.

“Com uma roupa daquele tamanho ela só podia estar provocando, né?”.

Como um mantra, todos preconceituosos falam para si mesmos querendo acreditar que são pessoas boas, perfeitas, que aquele defeito que consideram o pior de todos não habita eles.

“Não existe machismo. Isso é ‘coitadismo’ das mulheres que não sabem se portar como uma mulher direita. Querem ser homens”.

De acordo com a ONU, 7 em cada 10 mulheres no mundo já foram ou serão violentadas em algum momento da vida: abuso verbal, diversos tipos de abuso emocional, violência física ou sexual. O feminicídio em grande parte envolve o assassinato intencional de mulheres apenas por serem mulheres. Mais de 35% dos assassinatos de mulheres no mundo são cometidos por um parceiro íntimo. Crimes em nome da “honra”, para não “manchar o nome da família” são mais comuns do que se imagina.

Na Índia, 48% das mulheres ainda são trocadas por dotes, 65% em Bangladesh, 76% no Níger e 100 milhões de meninas poderão ser vítimas de casamento forçado em todo mundo na próxima década.

“Não tenho preconceito, mas meus filhos não precisam ver beijo gay na novela”.

A cada 28 horas ocorre uma morte motivada pela homofobia no Brasil. Em 2013 foram 312 homicídios, mortes e suicídios de gays, travestis, lésbicas e transexuais. Neste mesmo ano um menino de 16 anos, no Maranhão, se enforcou dentro de casa, pois “seus pais não aceitavam sua condição homossexual”.

“Não existe homofobia. Isso é frescura de viado”.

Percebe-se que esconder essa discussão da vida das crianças e dos jovens faz com que eles não tenham conhecimento para lidar com a própria homossexualidade ou a de pessoas próximas. A orientação homossexual passa a ser considerado algo anormal, um problema. O jovem se vê deslocado do convívio social, passa a se achar castigado por “Deus” no caso dos religiosos, traidor da confiança dos pais, sujo, mau caráter. Lutam contra os próprios desejos, pensamentos e sentimentos.

“Não existe racismo. Isso é vitimização dos negros”.

O percentual de negros assassinados no Brasil é 132% maior do que o de brancos. O racismo se aplica a 80% das mortes de negros no país, segundo o Ipea.

O racismo atinge cada um de forma distinta. Há quem reaja com a determinação de superar as dificuldades e assim consegue estudar, crescer, trabalhar, totalmente motivado pela vitória sobre a adversidade. Há quem se revolte e devolva a violência com mais violência. Há quem chore. Há quem negue, pois assim crê fazer desaparecer o fato. Há que assuma papel de predador. Há quem não se aceite como negro. Se o racismo não existisse, seriam apenas pessoas vivendo as lutas do cotidiano. Então saberíamos quem realmente são e não o que deles sobrou a partir da influência nociva do racismo.

Todo agressor é um covarde. Ele se utiliza da força e poder para agir. Só age quando está em vantagem. Só age quando está protegido: em insultos escritos em portas de banheiros públicos, violentando em locais escondidos, difamando atrás da tela do computador. Ele nega, mas sabe que está errado.

É triste ter de reproduzir estatísticas que tem como base números relativos a homicídios. Infelizmente a realidade brasileira é baseada na violência. E esta atinge principalmente mulheres, negros e homossexuais. A morte está sempre à espreita para aqueles que são colocados em posições vulneráveis.

O Brasil é o lugar onde esconder as mazelas é considerado uma forma de “tratar” o assunto. É como se um médico diagnosticasse câncer em um paciente, mas falasse para ele ignorar a doença, pois dessa forma ela seria curada.

Mecanismos invisíveis (e outros nem tanto) impedem a ascensão e inserção social das minorias. É comum ver negros nas faculdades de medicina e engenharia? É comum ver mulheres presidindo uma empresa? É comum ver um/a transexual trabalhando em contato com o público ou na cadeira da escola? É comum ver um gay sendo representado sem estereótipos nas novelas?

A hipocrisia caminha de mãos dadas com a ignorância. Por isso não paro de falar. A insistência quase militar de tentar desvalorizar a luta contra o preconceito é a prova de que o racismo, a homofobia e o machismo estão impregnados na nossa cultura. Quem me chama de vitimista na verdade tem medo de admitir que dentro de si bate um coração recheado de preconceitos.

Só para finalizar: o Brasil é o país que mais mata transexuais no mundo, alcançando um número quatro vezes maior do que o México, segundo colocado.

Não culpe a vítima. O preconceito mata, entende? Quer que eu desenhe?

Ernesto Xavier

Underwood tupiniquim

EDUARDO-CUNHA

“Não tenho qualquer tipo de conta em qualquer lugar que não seja a conta que está declarada no meu Imposto de Renda” – CUNHA, Eduardo.

Quando o polêmico deputado Eduardo Cunha surgiu nas pautas jornalísticas eu não tinha ideia de sua origem. Pasmem, foi eleito pelo Rio de Janeiro. Não conheço um eleitor desse senhor. Olha que foram 233 mil votos. Também não quero me colocar como profundo conhecedor do eleitorado carioca. Longe disso. Mas é de se espantar a ascensão meteórica deste senhor na política brasileira.

Uma rápida pesquisa no Google me levou às seguintes informações:

. Atuou como tesoureiro do Comitê Eleitoral de Fernando Collor no Rio de Janeiro, em 1989.

. Atendendo a sugestão de PC Farias, foi nomeado por Collor para o comando da Telerj (antiga empresa de telecomunicações do Rio de Janeiro), envolvendo-se em um escândalo de superfaturamento na casa de US$ 92 milhões.

.Foi autuado em 1996 em processo que investigava o Esquema PC.

.Lançou-se candidato pela primeira vez em 1998, mas recebeu apenas 15 mil votos.

.Assumiu o comando da Companhia Estadual de Habitação em 1999 no governo Garotinho, mas foi afastado em abril de 2000 por conta de denúncias de irregularidades em contratos sem licitação.

. O atual deputado e o então governador seguiram a amizade. Cunha era produtor do programa de Garotinho na rádio evangélica Melodia FM.

. Então em 2001 Garotinho articulou para que Cunha ficasse com uma vaga de deputado estadual, garantindo imunidade à Cunha nas investigações do Ministério Público contra ele. Foi eleito democraticamente apenas em 2002.

.Em 2003 entrou para o PMDB, sendo reeleito para o cargo de deputado mais 3 vezes.

.Atua em sete rádios FM em 4 estados, violando o artigo 54 da Constituição Federal.

.Em 2013 vira líder do PMDB na Câmara.

. Em 2015, Cunha é eleito presidente da Câmara dos Deputados.

Aí eu me pergunto: com não sabia dessas coisas até agora?

Nem eu, nem a revista Veja.

Olhando a partir desse histórico (que resumi ao extremo) dá para entender as contas no exterior e não ficar espantado. Além disso, temos as ligações fortes com o pastor Silas Malafaia, os ocultamentos de provas, as ameaças às testemunhas…

Cunha entreteve o público durante alguns meses. Tentando ser o Frank Underwood (veja a paródia do seriado House of Cards e entenderá), falava mal do governo, colocava suas pautas-bomba para votação tentando travar a governabilidade, onerando os cofres públicos e brecando todas as tentativas de recuperação política do Planalto.

Seguindo a pauta de sua bancada, luta com unhas e dentes contra tudo que possa direcionar para um avanço das questões de Direitos Humanos. Redução da maioridade penal? “Bota logo esses pivetes na cadeia. Estou ganhando recebendo dinheiro de campanha de empresários ligados a prisões privadas”. Casamento entre pessoas do mesmo sexo? “Vamos votar logo esse Estatuto da Família. Só homem e mulher e seus descendentes podem ser considerados uma família”. Financiamento privado de campanha? “Claro”.

A sensação de poder absoluto o cegou. Talvez jogando os holofotes sobre a crise política e econômica, conseguisse fazer com que nunca vasculhassem sua vida. A mídia teve papel fundamental nisso. A matéria de capa da Veja em março deste ano levava em consideração as “derrotas acachapantes” que Cunha vinha impondo ao governo da presidente Dilma, ressaltando a força política do deputado, que conseguiu promover a demissão do ministro da Educação Cid Gomes, irmão de Ciro.

Sete meses depois, a mesma revista não lança sequer uma nota para discutir as denúncias de 6 delatores, do Ministério Público brasileiro e do Ministério Público da Suíça contra o deputado federal.

O que pensará Eduardo Cunha em seu leito?

“Traidores! Defendi esta nação com unhas dentes! E o que ganho? Ingratidão!”

A vida foi generosa com Eduardo Cunha. Após tantas acusações ao longo de quase 30 anos, o peemedebista teve apenas US$ 5 milhões descobertos em contas não declaradas no exterior. Muito pouco perto de tudo que já foi acusado durante esse tempo. Maluf teve, em 2014, bloqueado US$ 53 milhões em contas na Suíça, Luxemburgo, Jersey e França. Mais de dez vezes o valor de Cunha. Vê-se que Cunha é um iniciante, ao menos de acordo com as descobertas atuais.

Eduardo atuou dentro do PMDB como captador de recursos para campanhas. Filiados de todo o país “devem” a ele. Por isso, mesmo quando o partido tem posição diferente da defendida por ele, nada fazem. Ele atua com sua “bancada pessoal”, segundo seus próprios interesses. Na política, o famoso “rabo preso” é a mais poderosa forma de conquistar votos.

Foi necessário que a Procuradoria-Geral suíça nos informasse que Eduardo Cunha fora notificado sobre o congelamento de sua conta, isto é, ele sabia da existência da conta, ele é o dono da conta, ele é o dono do dinheiro, ele mentiu na CPI da Petrobras. No Brasil era difícil encontrar alguém disposto a enfrenta-lo.

O mito do super-herói não durou muito. Quem estará ao seu lado quando o extrato do banco for apresentado? Não existem amizades verdadeiras na política. Ninguém vai para o bar bater papo depois das votações no Plenário.

Termino o texto parafraseando o próprio Eduardo Cunha, que em seus programas de rádio, sempre termina com uma frase que lhe cairia bem:

“Afinal de contas, o povo merece respeito”.

@nestoxavier

Arrastões

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O primeiro arrastão do Rio de Janeiro quem fez foi o então prefeito Pereira Passos, em 1903, com o Bota-Abaixo, que demoliu casas, abriu avenidas e com a escassez de moradia aliada ao aumento dos aluguéis, expulsou os pobres das regiões centrais da cidade. A crise habitacional estava instaurada no Rio.

Quero voltar um pouco no tempo: Em 1888 os escravos foram libertados e sem casa, educação, trabalho, saem a procura de um lugar para morar. O Morro da Providência, que também foi ocupado pelos ex-combatentes da Guerra de Canudos, acaba recebendo a multidão de ex-escravos que chegavam na cidade vindo de todo o Estado.

Os cortiços foram a outra opção. O livro de Aluísio de Azevedo mostra bem essa realidade. Mas o nosso “querido” prefeito, citado acima, queria modernizar a cidade, transforma-la em uma metrópole internacional, com cara de Paris. Lá se foram os cortiços… Os moradores dessas demolições ocuparam também os morros da Providência e de Santo Antônio, as primeiras favelas do Rio.

Depois de Passos, Getúlio Vargas removeu pessoas para lugares mais distantes com seus Programas de Transferência, a partir de 1937. Carlos Lacerda intensificou o movimento, removendo 27 favelas, com mais de 40 mil pessoas indo viver longe de seus trabalhos, em conjuntos habitacionais. O processo teve seu auge no Regime Militar. Arrastões…

Quem precisava morar perto do trabalho por causa da limitação dos transportes ocupou as favelas da Zona Sul e do Centro.

O político jogava para longe e não ía lá para mais nada. Deixava o espaço aberto para que criassem as próprias leis e costumes. De tempos em tempos apareciam para pedir votos.

Essa breve história serve para mostrar como a população pobre foi expulsa de suas moradias e jogadas para longe. Aos governantes nunca interessou tratar o problema. Todos largados à própria sorte. Só quem visita as favelas são caveirões, carros de polícia e “gente de bem” para comprar drogas nas bocas de fumo.

Por que incomoda tanto a presença da população do subúrbio na Zona Sul?

Pobre, preto e do subúrbio só pode ir à praia para vender picolé, queijo coalho, amendoim, mate ou uniformizado (de branco) levando as crianças dos patrões para passear.

O morro desce quando quer ser ouvido. Há momentos em que o asfalto o recebe de tapete vermelho: no carnaval. Há outro em que o asfalto o repele: quando querem dividir o mesmo espaço de lazer ou conhecimento.

Assim aumentaram os preços de ingresso em estádios, elitizando o futebol e acabando com a geral. Assim condenaram os rolezinhos. Assim não querem dividir as praias da Zona Sul e da Barra. Assim vociferam contra a política de cotas raciais em universidades.

O jovem que responde com violência foi criado em um ambiente violento, com som de tiros, medo de bala perdida, toque de recolher, lei do mais forte, tanque de guerra na entrada da favela, batida policial diária, proibição de baile funk, tráfico a céu aberto, a televisão mostrando a família rica do Leblon na novela do Manoel Carlos, os comerciais de margarina e ele com a geladeira (se tiver) vazia. E querem dele o que? Flores? A grande maioria não segue a lógica da violência. Porém, quando se recebeu porrada a vida toda, fica difícil retribuir com um sorriso.

Se as redes de televisão dessem a mesma importância às invasões arbitrárias das comunidades pela força policial ao que dão para os arrastões nas praias de bairros nobre, talvez tivéssemos um equilíbrio e então entenderíamos que do outro lado do túnel tem gente sofrendo com receio de perder um amigo, um filho ou a própria vida. Veriam que toda vida conta. Veriam que as mortes do médico Jaime Gold ou do menino Herinaldo Vinícius, de 11 anos, assassinado por um policial, no Complexo do Caju, apenas por que corria, têm o mesmo valor.

A favela quer falar e a mídia, definitivamente, não é o seu porta-voz. O desabafo do morro desce amargo pela garganta.

Quem ameaça também pede socorro.

@nestoxavier

A morte do jornalismo

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Não começou por acaso. Pode ter sido surpresa para alguns ter o nome na lista, mas no fundo sabiam que era uma questão de tempo. Ser demitido quando já se ganhou notoriedade, alcançando um patamar privilegiado na profissão, é frustrante. Aquilo em que se acreditou durante quase toda a vida, arruína-se, cai, desaparece.

A demissão de jornalistas do Infoglobo no começo de setembro expôs a situação precária dos veículos de comunicação, principalmente os impressos, no mundo inteiro. O Infoglobo reúne os jornais O Globo, Extra e outros veículos de comunicação do Grupo Globo, que iniciou um grande corte no quadro de funcionários, que pode chegar a 300 demitidos. Dentre eles estão Pedro Motta Gueiros, Aydano André Motta, Pedro Dória, Luciana Fróes. Alguns dos que me fizeram ter paixão por essa profissão. A saída de jornalistas tão importantes do quadro das grandes empresas de comunicação é o prenúncio da morte. Não lê-los é apagar um pouco mais o já combalido jornal de papel.

Trata-se de uma crise global de comunicação. O Dia, Terra, Brasil Econômico, Grupo Bandeirantes, Agência Estado também tiveram cortes esse ano.

Exatamente quando o fluxo de informação atinge níveis nunca vistos, aquele que deveria filtrar e facilitar essa comunicação, se perde em seu passado arcaico e tem dificuldade de se reinventar.

Culpam a crise do país. Não olham para si. Não aceitam que o erro está na forma como lidaram (ou não) com os avanços da tecnologia e as mudanças de perfil dos leitores. A “crise” econômica brasileira, tão alardeada pelos veículos, está longe de ser o motivo da derrocada dos mesmos.

O mundo mudou. Não há como negar. Quando deixamos de acreditar no novo e dar-lhe ouvidos, somos condenados. Para onde foram todos? Continuam aí, ávidos por novidades. Tente entende-los. Tenha empatia. Compreendendo as necessidades do outro, resgatamos quem somos nós. Renascemos.

Gay de Girardin, autora francesa do século XIX, já anunciava que “não são os redatores que fazem o jornal, mas os assinantes”.

A venda do Washington Post, um dos maiores jornais americanos, por U$ 250 milhões, em 2013, foi apenas mais um capítulo da crise econômica e de identidade do setor. Ainda nos Estados Unidos, o Boston Globe foi vendido por U$ 70 milhões pelo New York Times Group, que o havia adquirido 20 anos antes, por U$ 1,1 bilhão. Uma queda assustadora no valor de mercado.

Perda de anunciantes, redução de tiragem. O futuro da comunicação é mera especulação. Alguns apostam na extinção do jornal impresso. Outros acreditam na diversificação de mídias, através dos tablets, smartphones, e-readers. Eu acho que a grande revolução ainda está por vir. Ainda estamos engatinhando no universo digital.

Quem tem grana para apostar?

O jornalismo morre quando se debruça nas mazelas humanas apenas enquanto lhe dá lucro e as esquece quando outra tragédia ganha mais notoriedade.

O jornalismo morre quando o pobre preso é traficante e o helicóptero com 400 kg de cocaína em propriedade de político é apenas um engano. Culpa do piloto (funcionário do político dono da fazenda onde o helicóptero pousou).

O jornalismo morre quando se “esquece” por 72h da escalação irregular de um jogador que o próprio jornal havia anunciado a suspensão e só volta a “lembrar” do fato quando é anunciada a “coincidência” de um erro semelhante de outro clube, na mesma rodada, que beneficiaria o primeiro.

O jornalismo morre quando ignora por anos a barbárie das guerras civis na Sìria e no Afeganistão, dando atenção apenas após a morte absurda de mais uma criança em uma praia turca.

O jornalismo morre quando a crise hídrica só passa a ser um problema quando atinge os estados do Sudeste, ignorando as décadas de seca no Nordeste.

O jornalismo morre quando faz campanha pela redução da maioridade penal.

O jornalismo comete suicídio quando o filho do Pitanguy é tratado como vítima de um acidente e o pedreiro José Fernandes da Silva, morto no acidente, mal é citado na matéria.

O jornalismo morre quando fecha os olhos para remoções arbitrárias como na Vila Autódromo ou com o desastre ambiental do campo de golfe na Barra da Tijuca.

O jornalismo assina o próprio óbito quando trata índios como invasores, mostrando apenas o lado dos latifundiários no Centro-Oeste, dando pouca ou nenhuma atenção para os assassinatos de indígenas cometidos por fazendeiros.

Como disse Malcolm X: “Se não estás prevenido ante os meios de comunicação, te farão amar o opressor e odiar o oprimido”.

Para os jornalistas é a chance de recriarem o meio de comunicação com seu público. Seguindo como está, um dia não haverá jornal para anunciar o próprio obituário.

O jornalismo (como o conhecemos) morreu. O jornalista, jamais.

“Não falar para o seu século é falar com surdos”

Jean de La Fontaine

@nestoxavier