Cidade maravilhosa, inútil paisagem

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No centro da cidade olímpica, moderna e cheia de ameaçadores delinquentes sub-18 no Largo da Carioca, perto do Forum na avenida Antonio Carlos e em qualquer shopping center dos furtos e roubos, anoitece. Talvez perto de dez da noite. Perto da Cruz Vermelha, a tia do açaí atende a diversos clientes ávidos por energia e talvez calorias. O que acontece perto da praça da República é para poucos destemidos.

Num aprazível condomínio da região, um casal de namorados ri enquanto ela vê uma série de TV estadunidense e ele escreve algumas páginas de um livro em atraso, enquanto pensa e reflete de maneira bastante abstrata sobre as mazelas do mundo, que podem ser as de qualquer um.

Um amigo em apuros, outro em festa, uma breve espiada nas redes sociais – arquipélago dos pedantes e academia brasileira dos pernósticos – mas existe salvação, humor, até amizade – o homem em sua estúpida competição em inúteis devaneios de superioridade, quando todos sabemos que o futuro é a morte e o cheiro podre da carne decomposta, onde moram a ganância e a arrogância de cada um, os outros predicados também.

Os cariocas debaixo de governos de merda, golpistas ou não, enquanto precisam ostentar felicidade porque esta cidade é belíssima e atrairá os olhares do mundo – PARA QUÊ? – não sejamos hipócrotos em repetir os mantras corporativos de paz e amor do empreendimento Rock in Rio.

A admirável decadência humana colide contra as façanhas das grandes corporações, que fazem de tudo a beleza e só os mais ignorantes acreditam num mundo melhor onde o lucro é a exploração.
Fugindo do centro e partindo para o Oeste: o escritor e ator Ernesto Xavier pensando em novas maneiras de combater as barbaridades que testemunhando nessa república abaixo da linha do Equador. Os negros ainda são incrivelmente discriminados como se nunca tivéssemos saído do século XIX.

Zona Norte: o escritor e jornalista Fagner Torres com dores no corpo, provavelmente fruto dessas doenças de mosquito que o Estado desprezou por três décadas. Barulhos na Tijuca tensa com policiais por todos os lados.

Nada de perder tempo com o programa jornalístico, claramente manipulado para ecoar a voz de seu dono. É melhor perseguir pequenas diversões eletrônicas. Qualquer Tijuca, qualquer Copacabana, enquanto os mais jovens não têm a menor ideia sobre Vieira Fazenda.

Em qualquer canto do fracassado principado olímpico, grandes obras e outras largadas, muitas pessoas com fome e trêmulas com o chão gélido das calçadas em vários bairros, gente sonhando com um improvável mundo melhor, ninguém muito preocupado com livros, quase todos já sonhando com o feriado da semana que vem e o resto, amigos, o resto é o intervalo entre as flores e o espaço de tempo para fumar e beijar seu noivo, do jeito que Otto – o grande artista pernambucano – gravou em seu primeiro álbum.

Ditaduras, democracias e golpes à solta depois, o certo é que temos smartphones demais, eletrodomésticos e carros demais, merchandising demais, mas ainda continuamos com sérios atrasos no que tivemos de melhor: cortesia, fidalguia, solidariedade. Foi tudo em vão: que grande irmão há de nos amparar? Somos egoístas demais, prepotentes demais, somos os melhores do mundo da insignificância. Um dia seremos todos inúteis, sem exceções. Nenhuma arrogância escapará da putrefação.

@pauloandel

Adeus, Cirandinha

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Vão caminhando os dias em passos absurdos, tortos e desconexos. Na véspera de um golpe anunciado, a internet é um pombo-correio: alguém te marca, você corre para ver uma informação e se depara com a perda.

Faleceu o Cirandinha, um dos ícones de Copacabana, ao menos bem depois do Bonino’s. Era uma espécie de xodó dos mais velhos do bairro, que nele reviam momentos da adolescência e até da juventude, levados por seus pais.

Sua fama sempre foi a de uma casa de chá. Por isso, a vida inteira teve a frequência de simpáticas senhoras que, em suas mesas, também pediam waffles. Tinha uma pizza espetacular, salgadinhos fabulosos, todo o cardápio era uma ida às nuvens.

Teve como vizinhos a elegante Casa Barbosa Freitas, a Casa Sloper, o cine Art Copacabana e o impecável Metro Copacabana, com seu letreiro de Broadway e um sistema de ar condicionado tão forte que alguns veteranos são capazes de jurar: ao término de uma sessão e a saída dos frequentadores, muitos sentiam a massa de vento refrescante vinda da sala de exibição do outro lado da rua! (exatamente onde ficava a Sloper).

Seu endereço era Avenida Copacabana 719, onde nasceu em 1957. Eu, que cheguei uma década depois, fui lá muitas vezes, mesmo depois de ter deixado Copacabana como morador para sempre – e digo sempre porque, com os preços aviltantes e muitos imóveis claramente fechados em função da lavagem de dinheiro, dificilmente terei como voltar. De toda forma, a vida é um galpão de jogos de azar.

Em certa oportunidade, em 1992, lá estive num começo da noite de domingo com meu amigo Gomão. Tinha voltado da Barra, um tanto desapontado: a mulher da minha vida naquela época estava namorando um outro sujeito. Pedimos uma pizza, refrigerante e o mundo ficou bem. Já trabalhávamos, ganhávamos pouco, mas era o suficiente para ter momentos de desabafo numa das melhores casas da história de Copacabana. Nada como a passagem das épocas para vermos que as verdades de outrora acabam sendo dissipadas pelo vento – os amores passam, passam, tudo passa. O mundo urrava com passeatas de combate à corrupção. Às vezes é bom envelhecer; noutras oportunidades, não.

Mais de vinte anos depois, entre idas e vindas, o Cirandinha foi o local que escolhi para ir com Marina, minha atual namorada, bem no começo da história. Aquele clima de charme, de antigamente, de mesinhas com toalhas brancas impecáveis, hambúrgueres de fino trato. Na entrada, o balcão estilo americano que logo dava o tom do local.

Os mais apressados vão dizer que o Cirandinha morreu exclusivamente por causa da crise, que é mundial e os oportunistas insistem em apontar como exclusivamente brasileira. Nada disso. Acontece que o restaurante sempre foi elegante, tradicional, delicado, ideal para conversas amenas, moderadas e fraternas. Aos poucos, o tempo foi ceifando a amabilidade, o prazer das conversas educativas, a boa sensação gregária e tudo passou a ser apenas futebol – que adoro – e BBB para atrair clientes em todos os bares, tabernas e restaurantes. A elegância – que não precisa andar de mãos dadas com a riqueza pessoal – deu o fora. Nestes anos todos, vi o público do Cirandinha amadurecendo cada vez mais, a ponto de um dos acontecimentos jovens que lá testemunhei ter sido o encontro de meus colegas de ginásio, da Escola Cícero Penna, em 2007 – quando todos estavam às vésperas dos quarenta anos. Numa reunião, percebemos que formávamos a mesa mais jovem do recinto. O mundo mudou, os adultos tornaram-se idosos, as pessoas passaram a sair menos de casa e tomar chá virou quase uma excentricidade. Pior para os tempos.

O Cirandinha, que sobreviveu a tantos percalços da vida brasileira, não resistiu a 2016, que na verdade é um 2015 que ainda não começou, exceto pela visão de inferno que se avizinha e não parece ter fim no horizonte. Eu queria levar Marina lá outra vez. Não será possível.

Um Cirandinha dali, um Teixeira Heizer de lá, Massas Suprema, Rick’s, a lanchonete de rua das Lojas Americanas na Figueiredo Magalhães, o Cine Condor. A Help, o Coruja Bar. Gordon e seu enorme canguru na porta. Tudo passa.

Ainda bem que o Cine Joia, na galeria dos peixinhos, sobreviveu para contar a história.

Louvadas sejam a Galeria Menescal e a Charutaria Lolló.

Copacabana resiste, sabe-se lá até quando.

@pauloandel

Nunca fomos tão brasileiros

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A ÚLTIMA vez em que fomos tão brasileiros, eu não sei dizer. Talvez quando um presidente sorriu na televisão e promoveu o preço do quilo do frango a um real. Talvez quando, em plena ditadura, muitos comemoravam que chegasse o dia 15 de novembro no meio de semana, não por causa de eleições, mas para poder aproveitar o feriado. Às vezes somos brasileiros demais quando há festa no Carnaval, nos raros estádios lotados, nas Paradas Gays em São Paulo, na decisão do programa Big Brother Brasil, na final da Copa (não essa última, é claro). Também no Dia de Finados, quando todos parecem consternados demais, ao contrário do resto do ano onde a grande onda é chamar a todos de vagabundos, especialmente os funcionários públicos – e muitos deles próprios assim se definem, numa estranha contradição entre o declamar e o viver.

Temos sido brasileiros demais quando alguém afirmou que o Brasil tem sido um país comunista, com todo o ridículo possível contido nesta sentença. Somos brasileiros demais quando algum fanfarrão prepotente vem com aquela bravata mofada de que nunca se roubou tanto nesse país, supondo que todos os interlocutores sejam suficientemente distraídos ou até mesmo boçais para não saberem expressões como “Coroa Brastel”, “Abi Ackel”, “Ronald Levinsohn”, “Salvatore Cacciola”, “Daniel Dantas”, “Delfin” e outros menos cotados. Somos brasileiros demais quando não sabemos distinguir milhões de bilhões – e então alguém grita: “O DEMAIS É QUANDO JÁ ESQUECEMOS DE CONTAR”.

Ultimamente temos sido muitos brasileiros. Os lamentáveis incidentes que cercam o país de uma ponta a outra não deixam dúvidas: temos um Brasil de muito suor, trabalho, proletariado, trem lotado, amendoim e paçoca, de linha 2 e parador, viajando em pé, esforçado pra caralho e outro, supostamente sofisticado mas sem recheio, supostamente elegante mas brega na essência, delivery, iphônico, excludente, metido a elitista sem qualquer atributo que não seja o dinheiro geralmente herdado, food trucking, sonhando com Miami, almejando os eletrônicos da Fnac – livro pra quê? -, linha 1 (em apenas parte dela e quando necessário), sentado, asséptico. E aí somos brasileiros pra caralho quando a linha 1 dá de cara com a linha 2 numa mesma estação.

Somos brasileiros demais quando achamos que os lobões e rógeres da vida fazem frente a um Tristão de Athayde, a um Nelson Rodrigues – VALHA-ME O DIABO QUEM INSISTE EM IMITAR ESTE HOMEM SEM TER PERDIDO A VIRGINDADE -, a um Paulo Francis. Ou quando caímos na esparrela de que Neymar vai ser maior do que Pelé, ou que Chico Buarque é um vendido. Somos brasileiros demais quando encaramos aquele velho disco do Tom Zé e somos incapazes de perceber toda a denúncia ali contida. Quando rilhamos os dentes contra o comunismo assassino de Cuba e da Venezuela – por favor, os mais letrados não riam! – enquanto o progresso do Brasil está na democracia das garotas de quatorze anos que são retiradas dos barracos porque algum traficante deseja fazer sexo com elas, enquanto os pais morrem de dor e vergonha – e quando se encher, pode colocá-las fazendo programa ou queimá-las vivas em pneus encharcados de gasolina. Somos brasileiros demais quando navegamos na internet e, nas redes sociais, encontramos dezenas de quilômetros de erros de Português, frases sem sentido, discursos verborrágicos continentais, ódio, rancor, inveja, subcelebridades e outros recalcados alimentando toda a tristeza porque jamais serão o que sonhavam, mesmo sem terem feito nada de útil para alimentar o sonho.

Sim, agora lembro a última vez em que fomos brasileiros demais: exatamente ontem. Cinco de maio. Quando o Supremo Tribunal Federal suspendeu temporariamente o mandato do deputado Cosentino, esse mesmo que está afundado até o nariz em transações, digamos, exóticas, fizemos um mar de silêncio. Durante dois anos, muitos de nós gritamos ardorosamente contra a corrupção, a roubalheira, os comunistas, os vermelhos, os que queriam impor uma ditadura (?) ao Brasil e, finalmente, quando veio a grande virada pelo fim de toda a corrupção, houve um constrangimento. Afinal, era uma farsa na qual só os doutorandos em ingenuidade poderiam cair.

Descobrimos que nossos 26 anos de democracia consolidaram uma Câmara dos Deputados com parlamentares sem voto, divididos em bancadas econômicas, completamente alheios às prioridades do Brasil e da maioria do povo, muitas vezes chefiados por velhos coronéis da política nacional, aqueles mesmos que cansamos de ver em sentido figurado nas novelas de Dias Gomes. Depois, quando o grande objetivo era tirar a “corja” do poder – e você acreditou feito um pato -, houve quem aplaudisse seu “bandido predileto”. O problema é que ele é muito mais bandido do que se possa pensar.  E quem decide isso é gente que teve meia tonelada de cocaína dentro de casa sem querer, gente que recebeu um bilhão na mão para vender o pato dos outros – e você também foi um pato -, gente que chega ao ponto de declarar homofobia e ocultar a própria homoafetividade – fundadores de movimentos de direitos gays inclusive.

Tudo isso e muito mais desaguou ontem na sessão de caça à cabeça do deputado Cosentino, este com vasta experiência nas citações criminais. Se não fôssemos brasileiros, mesmo que tudo seja apenas ilusão, teríamos comemorado como se fosse a conquista do hexa, soltado fogos, desfraldado bandeiras, berrado em tabernas. Quem mané panela porra nenhuma! Fizemos foi um silêncio do caralho. Não por causa dos atos, dos homens, de seus crimes, mas por causa desse elemento imprescindível à vida moderna nas grandes regiões metropolitanas brasileiras: a hipocrisia. Um silêncio constrangedor, porque muitos de nós não tiveram coragem de se olhar diante do espelho e gritar: EU SOU UM MERDA! EU DEFENDI UM BANDO DE MERDAS! EU BATI PANELA SEM PASSAR FOME PORQUE SOU UM IDIOTA DOMINADO PELA TV, QUE MANDA EM MIM E NA MINHA FAMÍLIA HÁ MEIO SÉCULO!

E agora o silêncio que pareceu hipocrisia pode ser também covardia. Semana que vem teremos um novo governo, já corrupto em seu cordão umbilical que vem de 30 anos atrás. Os nomes, os delatores e os processos deixam que todos mintam.

Pra frente, Brasil! Se a ponte para o futuro for igual à Rio-Niterói, não faltará espuma de sangue a brilhar enquanto um transeunte numa noite qualquer perto da praça XV, que nada tem a ver com a figura do bailarino homossexual Claudio Werner Polila – o “Jiló”-, há de cantarolar: “Há muito tempo nas águas da Guanabara/ O dragão no mar reapareceu/ Na figura de um bravo feiticeiro/ A quem a história não esqueceu”. E que não desabe por acidente feito o Paulo de Frontin.

Ontem fomos vergonhosamente brasileiros ao extremo. A punição ao deputado Cosentino é nossa carta de alforria. Agora podemos ser uma sociedade escrota de verdade, a valer! Estamos livres para toda sorte de safadezas, pois tudo é lícito: às favas com os escrúpulos!

Todos juntos vamos. Pelo menos não somos todos iguais. Seria estúpido demais. Vivamos o silêncio hipócrita da noite de ontem sem um arranhão sequer da caridade de quem nos detesta.

O primeiro dia do primeiro outono do resto de nossas vidas

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NUM SÚBITO o Rio de Janeiro foi tomado por frio, chuva e trem. Nem tanto frio, nem tanta chuva e muito menos trem, porque a Central do Brasil está apinhada numa sexta-feira à noite, a primeira de um outono atrasado depois de seis meses de verão infernal. Os que têm casas comemoram o suposto fim das temperaturas escaldantes. Os mais sofridos não têm intervalo para a dor: se antes um simples banho era um milagre diante da indiferença cotidiana, o inferno continua em se abrigar em calçadas molhadas, vento gélido das madrugadas, fome e tristeza. Pouca gente pensa nisso; afinal, muitos comemoram o impeachment, o fim da corrupção, a volta do privatismo e agora refestelam-se em seus bares, pagando contas com o dinheiro suado da meritocracia hereditária. Abril vai embora, um terço do ano vai embora e o tempo corre em rodas de aço sobre trilhos, em velocidade alucinante. O outono, tempo das folhas ao chão, das sombras, do gris do céu, tudo enquanto os funcionários públicos estão há meses sem salários, os jovens ocupam as escolas e a ciclovia faliu. Ainda bem que a corrupção acabou. Sexta-feira à noite e garotos alucinados pelo crack sorriem pelas ruas desertas do centro da capital, muitos sonhando com sanduíche de queijo, refrigerante, colchão, cobertor, roupas limpas e desenhos animados na TV. Uma linda mulher solitária, despertando mil suspiros e desejos, embarca em abraços funestos que não lhe darão o espírito da paz. Dois homens bons cruzam as ruas do Leme rumo ao Chapéu Mangueira, onde encontrarão suas famílias e terão uma noite de alívio. O escritor e. e. schneider com mil livros e discos por perto, pensando num poema e rindo de um detrator recalcado, conhecido como O Frankenstein das Laranjeiras, desengonçado e feio com sua voz fina – escreverá versos livres. Televisões ligadas à toa em canais alternativos. Dois homens efeminados insistem em negar a própria sexualidade enquanto se entreolham. A sexta-feira dos bares, do chope dourado da felicidade, das paixões passageiras, tudo tão efêmero e indiferente à família mendiga debaixo da marquise do Banco do Brasil na Senador Dantas. O belo caminho do Aterro do Flamengo está deserto, há um silêncio enorme e ninguém consegue avistar o Pão de Açúcar sem a devida reverência. O outono das religiões, dos romances, do vazio diante do sentido da vida. Alguns amigos se encontram e fingem nenhuma solidão diante de uma cidade tão bela e opressora. Um poeta qualquer recita “Oh, vozes que sustentam a interminável mudez/ meu coração é uma arquibancada vazia de um estádio que já não existe/ os jogos que não são orgasmos da alma do futebol/ tudo é distante demais/ somos exilados de nossa terra sentimental/ o estrangeiro é um dar de ombros/ um dia todo seremos uma cidade, um Estado/ mas então será tarde demais para o mundo dos mortos/ celebremos um gol como se fosse uma canção de João/ o Brasil é tenebroso e mesquinho/ não o dos humildes, proletários e mensageiros da verdade/ mas os covardes escondidos em seus condomínios morais/ tudo é tão distante que parece saudade e lembrança/ meu amor que não dorme e sonha/ outros pecados, outras palavras/ o Brasil está morto/ assassinado por seus aristocratas de merda/ e burocratas hipócritas de merda/ um minuto de silêncio pelas criancinhas mortas ao lado do chafariz da praça/ um minuto de amém num outono que acaba de nascer”.

O escritor p. r. andel no quarto de seu pequeno apartamento às vésperas de uma entrevista com o roqueiro Serguei, conversa com sua namorada pelo Whatsapp, espia o noticiário da TV Brasil, repara a enorme bagunça dos milhares de CDs, sorri ao ver Henrique Meireles e Antonio Anastasia em discursos sóbrios, tudo absolutamente contraditório diante do amor que não ousa dizer seu nome. Finge tranquilidade, escuta o barulhinho da chuva à janela, rabisca um possível poema, guarda a carteira falida, desliga a luz do quarto e lembra dos seus tempos de escoteiro.

E esta é a primeira noite do primeiro outono do resto de nossas vidas.

@pauloandel

Para pensar o que sobrou do Brazil

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Arraial do Cabo – Direção: Paulo Cezar Saraceni

Rocinha 77 – Direção: Sérgio Péo

Os inquilinos – Direção: Sergio Bianchi

Copacabana e Ipanema – Direção: João Paulo Jacobsen

Dançando com o Diabo – Direção: Jon Blair

A feiura da alma

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Era feio. Ou sentia-se feio.

Tudo bem: era feio pra caralho!

Por isso, seu desconforto parecia tão visível e explicava algumas de suas atitudes. Uma arrogância e uma prepotência excessivas. Desde cedo, a feiura lhe doía tanto diante do espelho que precisava criar um personagem para se defender. Ser arrogante era quase um instinto de sobrevivência.

Desengonçado, triste, desprovido de qualquer elegância, sentia-se feio demais e temia as gozações dos colegas da escola, da rua, da quermesse, das quais tinha verdadeiro horror. Num mundo de aparências, sua figura lhe parecia repugnante. Tremia até para pegar um mini hot dog numa festa infantil – “Olha o feioso comendo!”

Em mais de uma noite teve pesadelos ao ser apelidado de Frankenstein. Carregou desde sempre o peso do fardo de seu próprio julgamento. As mulheres o desprezavam, inclusive as que ele considerava feias também, porque o mundo das aparências atira futilidades para todos os lados.

Desconfortável dentro de seu próprio corpo, insatisfeito com a exposição de seu próprio rosto, se pudesse andaria de capuz. Dada a impossibilidade, tentou aprimoramentos intelectuais de modo a ser alguém na vida, alguém que pudesse nutrir a admiração de terceiros e compensar as suas agruras internas. Contudo, sabia de sua condição fake: era um sofisticado das orelhas de livros que não lia por completo. Falava de jazz até a terceira página, tentando constranger interlocutores mais modestos, mas sabendo que não poderia enganar profissionais do assunto. Recitava trechos de poemas, citava autores de nomes decorados. Tudo na verdade era um escudo para aliviar seus temores diante de uma constatação inevitável: a de que nada aliviava seu sentimento sobre a própria feiura. Tinha mais vocações do que propriamente talento. No entanto, poderia ir mais adiante se a obsessão a respeito da estética não lhe tomasse as vísceras, fazendo de tudo a bílis da alma.

Com o advento das redes sociais na internet, pensou que sua baixa autoestima temperada com arrogância o elevaria à condição de uma subcelebridade. Ansiava ser visto, lido, admirado, até desejado, mas num segundo tudo desabava diante de sua tristeza mortal. O espelho era seu cadafalso. Não lhe bastava o sonho de dar autógrafos, nem a tolice de querer ser mais importante do que realmente era. Um formador de opinião ou um charlatão da dialética? Não importava: parecer é muito mais importante do que ser, nestes dias de um Brasil em fúria e derrocadas em torno de seus próprios pés.

Não foi feliz, mas fingiu. Discursou de forma imponente mas ninguém percebeu. Disse as piores coisas de pessoas que sequer conhecia, sem se importar com o ridículo que atraía para si. Às vezes pensava: tudo poderia ser diferente se o espelho não lhe fosse tão lancinante à alma. A feiura era sua própria ditadura a torturar-lhe num pau de arara, a aplicar-lhe eletrochoques na personalidade, tornando-lhe pior do que realmente era. O horror de Brilhante Ustra.

Num sábado pela manhã, pensou na própria morte e chorou. As carnes decompostas, os ossos visíveis e pontiagudos diante da podridão, as peles em destruição, a massa disforme ali numa aquarela da derrota. Tudo ainda era longe demais e fazia parte das certezas inevitáveis de cada um, mas seu monodrama tinha um único foco: o triste dia do futuro, esperado para muito longe, seria o juízo final de sua feiura – dentro de um caixão fétido, seria ainda pior do que já era.

Sentado no sofá, chorou por instantes, e depois se recompôs – não podia fraquejar por nada, quanto mais um pensamento triste.

Mas concluiu que nada, absolutamente nada do que fizesse de bom ou ruim serviria para enganar a si mesmo: a feiura era seu talento inequívoco e permanente, o cartão de visitas. Mesmo que pudesse conseguir brilharecos na internet, constranger pessoas humildes e até ser tolerado pelos mais elegantes enquanto confundia empáfia com sapiência, perdendo precioso tempo que poderia utilizar para ser uma pessoa melhor, não havia frases, textos ou ensaios que se sobrepusessem ao que carregava de mais fútil, desimportante e relativo: o sentimento de não se aceitar como um homem comum nesta Terra onde tudo é efêmero. Queria ser o melhor de todos, o senhor supremo, o almirante da vaidade, mas a porta aberta do armário lhe oferecia uma realidade irrefutável: era feio, feio, feio demais, tão feio que era incapaz de pensar que, caso se tornasse uma pessoa melhor, as aparências seriam pequenas diante da realidade. Mesmo com alguns fãs e até amigos, que perdoavam todo o seu armazém de inconveniências.

Ligou o aparelho de som. O rádio tocava o trio de André Marques, John Pattitucci e Brian Blade. Não havia outra pessoa por perto e isso constituiu alívio: o esnobe declamador de jazz não sabia do que se tratava. Sorriu amargamente.

A pior feiura é a que corrói a alma, a ponto de desintegrar o sexo e os princípios básicos da fraternidade. A vida é muito mais do que uma aparência no espelho, ou diante de terceiros na frieza tecnológica da rede mundial de computadores.

@pauloandel.

Sorria, meu bem! Sorria!

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A FARSA

Você acreditou na redenção de um país, na pátria livre, no fim da impunidade e da livre corrupção.

E também acreditou que o Brasil já tinha sido bem melhor no passado, com seus castelos de honestidade e praças da apoteose libertária.

Imagino o que tenha sentido nos últimos dias.

O domingo acabou, a segunda passou, a terça continuou e tudo foi ficando cada vez mais claro.

Em nome de Deus e da família, nazistas urraram, safados sorriram e aí foi mais fácil entender o que se passa numa casa de picaretagens.

Talvez você tenha olhado de forma até assustada, embora indevidamente: tudo que aconteceu estava muito claro, bastava querer ver e ouvir.

Dia 21 de abril, feriado de Tiradentes, as pessoas estão mais quietas porque vem um grande feriado na republiqueta, a que nos transformaram nos jornais do mundo todo enquanto aqui, de maneira quase psicodélica, as manchetes ainda tentam criar ilusões que não resistem a trinta segundos de raciocínio isento.

De tanto fazer piadas sobre o Paraguai, o Brasil acabou levando um golpe igualzinho.

Os que lutaram contra a farsa estão muito tristes.

Muitos dos que a apoiaram, conscientemente ou não, agora militam pelo silêncio, o silêncio da vergonha, do constrangimento.

Perceberam que algo de muito errado estava acontecendo. Se havia crime, não seria possível combatê-lo com um sindicato de ladrões. Se havia um mar de erros, a solução não passaria por um exército de gente que tem erros em arrobas.

Se havia o mal, não seria possível combater com o pior.

“Olho por olho, dente por dente” não é algo que funcione para as pessoas de bem.

O filme ainda não acabou, mas os espectadores estão com um tremendo gosto de farsa na boca. Muitos parecem maridos traídos, refletindo silenciosamente onde erraram ou, claro, apontando a própria mulher como uma “vagabunda”. Ecos de pensamentos limitados a 45 graus.

As próximas cenas prometem ser cada vez piores.

E deve ser difícil perceber que se foi passado para trás.

Combater corrupção? Que piada. Alguns dos maiores corruptos do Brasil continuarão livres e com mandato, ou disputando eleições.

Meu amigo, minha amiga, você foi vítima de uma tremenda manipulação!

E tudo isso poderia ter sido diferente se o Brasil tivesse se libertado da Casa Grande,  da escravatura, das ilhas nos shoppings, dos livros em vez da TV.

Agora, a gente não se encontra por aqui.

Querelas do Brasil

QUERELAS DO BRASIL

Não importa mais o que vai acontecer no próximo domingo em Brasília.

Independentemente das visões pessoais sobre o que se convencionou chamar de os dois lados da questão, o Brasil está derrotado.

Qualquer pessoa que tenha noções elementares da História do Brasil sabe de antemão que, odiando ou apoiando o atual Governo Federal, a presidenta Dilma não cometeu crime de responsabilidade que a levasse a um processo de impeachment. E se tiver as mesmas noções, sabe da desgraça que pode ser a inauguração de um governo orquestrado pelo sr. Michel Temer.

Mas a derrota não está aí. Ela vai muito além do que se pode chamar de impeachment legal ou golpe, conforme as divergência.

A verdadeira derrota mora no ódio que explodiu de vez entre os brasileiros. Dividido, o pais está desde sempre entre pobres (99%) e ricos (1%). Todo o resto é atendimento à esta proporção.

Acabou a farsa da cordialidade.

O brasileiro médio (dentro dos 1% ou perto) é hipócrita, mesquinho, egoísta, misturando os piores sentimentos do corporativismo yuppie aos defeitos que se poderia ver numa versão deturpada do caboclo. Tem raiva do pobre. Tem raiva do negro, do veado, do cearense e, se pudesse, mandaria explodir todas as favelas para “limpar o Brasil”. Como não pode, torce ardorosamente para que o Governo pare de “sustentar os pobres de merda”.

Aqui trato do brasileiro médio, não o comum.

O médio é o dos shoppings, dos aviões, dos hotéis, da orla “higienizada”, com horror aos trens lotados, aos centros de comércio, às calçadas cheias de crianças pobres e mendigos, ao Nordeste, às palafitas do Norte.

O brasileiro médio da meritocracia bancada pelos pais, mesmo que depois dos 30 ou 40 anos de idade. É preciso ensinar a pescar em vez de dar o peixe, mas se não der certo, papai paga.

O que se considera “culto” e “inteligente” porque acompanha os produtos da Rede Globo-Time-Life, mantendo distância regulamentar de livros e discos.

O brasileiro médio reclama dos altos impostos, mas naturalmente não os paga. A sonegação está aí a perder de vista.

O brasileiro médio pratica a negação de tudo que não lhe convém, e por isso tem sido chamado de fascista. Propaga ódio, extermínio, exclusão. Acredita piamente que o país pode ser resumido à sua vila, praia ou os centros de consumo que tanto admira.

Em nome da ética contra a corrupção, o brasileiro médio aplaude a impunidade de Eduardo Cunha e outros, delicadamente escondidos das manchetes por ora.

Aconteça o que acontecer, o Brasil está derrotado.

Somos menos injustos com boa parte da população miserável do país se olharmos para meio século atrás, é fato. A tecnologia está ao alcance de muitos. A expectativa de vida subiu, é inquestionável.

No entanto, também somos mais agressivos, beligerantes, desrespeitosos, intolerantes e hostis do que em 1966.

A farsa do “gente boa” já era. Cinco minutos de redes sociais e é possível ler e ver coisas que espantariam até membros da SS.

O Brasil não merece o Brazyl.

O progresso veio, mas a brasilidade está sepultada para sempre.

Voltamos a 1954, com a mesma sociedade indigente de informação e análise crítica, mas nenhuma Bossa Nova, Cinema Novo, TBC, Concretismo, Pelé ou Garrincha voltará para nos redimir.

Nem o Google salva.

E é só.

QUERELAS DO BRASIL

O Brazyl não conhece o Brasil
O Brasil nunca foi ao Brazyl
Tapir, jabuti, liana, alamandra, alialaúde
Piau, ururau, aqui, ataúde
Piá, carioca, porecramecrã
Jobim akarore Jobim-açu
Oh, oh, oh

Pererê, câmara, tororó, olererê
Piriri, ratatá, karatê, olará

O Brazyl não merece o Brasil
O Brazyl ta matando o Brasil
Jereba, saci, caandrades
Cunhãs, ariranha, aranha
Sertões, Guimarães, bachianas, águas
E Marionaíma, ariraribóia,
Na aura das mãos do Jobim-açu
Oh, oh, oh

Jererê, sarará, cururu, olerê
Blablablá, bafafá, sururu, olará

Do Brasil, SOS ao Brasil
Do Brasil, SOS ao Brasil
Do Brasil, SOS ao Brasil

Tinhorão, urutu, sucuri
O Jobim, sabiá, bem-te-vi
Cabuçu, Cordovil, Cachambi, olerê
Madureira, Olaria e Bangu, olará
Cascadura, Água Santa, Acari, olerê
Ipanema e Nova Iguaçu, olará

(Aldir Blanc – Maurício Tapajós)

@pauloandel

Nós, os escrotos

os escrotos negativo

Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais.

A todo custo queremos mudanças, exceto aquelas que façam do Brasil um país na acepção da palavra.

Atendendo aos nossos anseios, fodam-se a democracia, as leis, as regras, a ética e as contradições. Eu não tenho nada “haver” com o problema do outro.

No fim das contas, o que nos incomoda não é a corrupção; afinal, qual de nós já não pecou muito? Essa tal corrupção nos olhos dos outros é refresco.

Inaceitável mesmo é ver um sujeito com cara de pobre, de criado, de empregadinho, mandando nos outros e dizendo o que deve ou não ser feito.

O pobre é nojento.

Ninguém tem culpa de termos miséria nas ruas.

Quem manda serem vagabundos? Se trabalhassem e estudassem não estariam nessa situação.

Imagine gente com a cara destas pessoas mandando no Brasil. Ou andando em avião, meu Deus! Já não basta empestearem o BarraShopping com chinelos de dedo e bermudas velhas?

Pobre só serve para depredar equipamentos públicos porque os traficantem mandam.

Camisas pretas, choques de ordem, prisões sem justificativa, disciplina: é o que precisamos para um país melhor, sem gentalhas, com brasileiros de verdade. Um país de todos, decente e honesto, que nem nos tempos da Revolução: aquilo sim é que era bom. E esses comunistas de merda mentem dizendo que havia tortura nos quartéis, que as piranhas de faculdade foram estupradas, que havia roubalheira. Pilantras! Nunca fomos tão honestos. Havia ordem. Bom mesmo era saber que a censura não deixava passar essas putarias na televisão que a gente vê hoje.

Aqui estamos nessa vergonha, nessa roubalheira sem tamanho, e nada nos resta a não ser restabelecer a ética e a moral que são os pilares do Brasil. Fora PT! Fora, corrupção!

Se for para tirar esses vagabundos e acabar com essa mamata de pobres, que mal tem em usarmos Cunhas, Temeres e Aécios? Se eles tiveram uma manchinha ou outra, não interessa: são homens honrados, de Deus, pela família, gente que tem a humildade de reconhecer que do pó veio e para o pó voltará.

Ainda somos os mesmos.

Ninguém pode ter a cara de pau de comparar nossos favores a esses corruptos do PT. Nossos financiamentos, nossas declarações de renda, tudo é feito dentro do respeito e da ética.

Por que devo dar dinheiro para o Governo? Eu que trabalhei, é do meu suor. Se é para eles roubarem, roubo eu.

Fiz faculdade pública financiada com o dinheiro dos meus impostos (…), quero dizer, meu pai pagou. Ou talvez tenha pago. Dane-se: eu sou especial e o Estado tem obrigação de me dar educação grátis. Eu não sou um qualquer.

Tem que acabar com esses hospitais de pobre. Custa muito dinheiro. Quem quiser que pague seu plano de saúde como eu. Quero dizer, que a empresa paga. Quero dizer, que meu pai paga aos empregados – e eu não sou um empregado qualquer, mas o filho do dono.

Tenho vergonha dessa crise, que é a maior de todos os tempos. Não dá para comparar com os anos 1970, 80 e 90. Onde já se viu essa vergonha de inflação de 1% ao mês? Isso é o fim do mundo.

Tinha que tacar uma bomba nessas favelas. Ia resolver muitos problemas do Brasil. Remover tudo. Eu não tenho culpa de que nasceram pobres. Que aprendam a pescar em vez de ganharem o peixe na boca. Aquele monte de gente preta, ou então esses paraíbas de balcão de botequim.

Acabar com essa vagabundagem do serviço público. Só tem vagabundo encostado. A minha mulher está lá, mas ela trabalha todo dia de 14 às 16 horas. Ela faz a diferença.

A gente tem que acabar com todos os corruptos, mas primeiro vamos exterminar essa merda desse PT, esses comunistas de merda, que querem tomar nossos apartamentos que nem em 1989.

Depois a gente vê o que faz.

Isso é inaceitável.

Chega desses ladrões!

Para acabar com essa corrupção, e daí que o juiz passe por cima da lei? Ele pode, é juiz!

Se o Cunha roubou, o importante é que está com a gente. O Temer também.

Se o Aécio está enrolado, pelo menos está com a gente. Tem que fortalecer.

E qual o problema do Bolsonaro? Ele defende a família, a pátria, os valores. Tem que acabar com esses viadinhos mesmo.

Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais.

Nós, que rimos dessa gente nojenta que quis ocupar o nosso lugar. Quem eles pensam que são? Gente sem nome, sem sobrenome, sem berço, um bando de Silvas, Souzas, Severinos, Marias, Josés.

Nós, os bastiões supremos da ética e da moral por um Brasil melhor.

Espero que, até aqui, tenha sido possível disfarçar toda a nossa hipocrisia.

Queremos nosso Brasil de volta. Cada macaco no seu galho.

Aqui estamos nós, os escrotos.

As sombras de Moro

Colaboração de Felipe Fleury

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Tenho lido, da parte dos detratores do governo, que Sergio Moro, ao liberar o teor das escutas telefônicas interceptadas, tornando pública a conversa entre o ex-presidente Lula e a presidente Dilma, agiu como um grande estrategista.

Muitos desses detratores reconhecem a ilegalidade de sua conduta (outros tantos não, como o próprio Moro), mas enaltecem o seu sentimento republicano de, ao perceber que perderia o controle da investigação, teria agido com o nobre fim de alertar o STF, para onde seria encaminhado o procedimento investigatório contra o ex-presidente após sua nomeação como Ministro de Estado.

Dá para se perceber que, exceto por parcas vozes da direita que reconhecem o excesso da medida, a imensa maioria reconheceu na sua conduta uma verdadeira jogada de mestre contra Lula e o PT. Para essa gente, os fins justificam os meios.

Moro incendiou o país com sua decisão. Uma decisão despropositada, ilegal (porque viola a Lei de Interceptação Telefônica – Lei 9296/96, artigos 8º. e 10º.) e inconstitucional (porque viola a competência do STF para se manifestar em assuntos que digam respeito à presidente da República, notadamente quando identificadas no bojo de investigações criminais).

O juiz de Curitiba, ao cientificar-se do teor da conversa captada, deveria imediatamente lacrar o seu conteúdo e enviá-lo ao STF, instância constitucional competente. Ao contrário, porém, movido por um sentimento de vingança pessoal, abjeto, partidário entregou-o à Rede Globo para divulgação em âmbito nacional.

Moro sabia da ilegalidade de sua conduta. Procurou justificá-la ponderando o interesse público superior à privacidade e à competência privativa da presidente Dilma, fazendo, inclusive, alusão ao caso do presidente norte-americano Nixon. Comparação absolutamente despropositada, diga-se de passagem.

O magistrado considerou apenas o seu sentimento pessoal para entender que o teor daquela conversação seria de relevante interesse público a sobrepujar a mais alta lei deste país, a Constituição da República. Uma decisão subjetiva e sem qualquer amparo legal.

Não há desculpas para a sua decisão, por mais que se deseje encontrá-las em paradigmas do direito internacional. E é por isso que o governo deve agir para responsabilizá-lo pela condução temerária dessa investigação criminal, que começou com um objetivo e foi, ao longo do tempo, transmudando-se para um viés absolutamente parcial, partidário e antidemocrático.

O Brasil não é um tabuleiro de “War” para o juiz Moro exercitar suas estratégias. Um juiz, mais do que todos, deve se ater à legalidade, à ordem jurídica e, sobretudo, à Constituição da República. Condutas temerárias e ilegais como essa, e também como foi a condução coercitiva por ele determinada contra o ex-presidente Lula, podem conflagrar as ruas, e isso é gravíssimo.

O país não pode se sujeitar ao poder arbitrário de um magistrado que exercita seus desejos mais obscuros à revelia das leis e em nome de um clamor social forjado pela imprensa panfletária.

Moro, fã da “Operação Mãos Limpas” – aquela mesma que alçou ao poder na Itália o primeiro-ministro Sílvio Berlusconi, por quase doze anos – precisa tratar de lavar as suas próprias mãos para cuidar de uma investigação tão relevante para os interesses da nação, mas que por sua obra tem se desvirtuado para um instrumento eficaz de combate ao atual governo.

Isso não se chama independência, chama-se subserviência.

Resta saber se o corporativismo da magistratura permitirá que Moro seja punido por seus malfeitos e impedirá que cometa outros. Quem viver, verá.

@FFleury