Eu não sabia que meu relacionamento era abusivo

Estou meio perdida aqui, confesso.
Bem… vontade de escrever um texto por dia não me falta, falta é coragem mesmo!
Meu foco / assunto principal é o abuso físico e emocional que atinge muuuitas mulheres. E que marcou minha vida.
E , aproveitando o recente acontecimento com um famoso ator global e a palavra BUCETA, vou contar que também fui vítima de abuso e, como eu, várias de nós, mulheres. Todos os dias!

Não acontece apenas com as “faveladas”, como burramente já ouvi! Penso que essas são muito mais fortes e fodonas que muitas doutoras e madames que convivem porta a porta com vocês e comigo…

Ocorre que meu casamento não era essa Coca Cola toda e eu mesma não sabia explicar o motivo. Mas como? Aquele moreno alto, lindo, com um emprego estável, bom pai de família, que fez questão de por nosso primeiro imóvel, comprado antes de casarmos, no nome de nós dois, mesmo tendo dado muito mais que 50% do valor? Quer mais prova de amor do que essa? Impossível!

Eu, que cresci ouvindo da minha mãe que se não casasse estaria incompleta! Que se continuasse a curtir minha vida como eu gostava, seria taxada de puta ou vulgar! Algo que, até dentro de casa, já era meio que dito de forma velada…

Enfim, um dia conto toda essa história bem organizada pra vocês. Hoje minha meta é escrever um texto! Começar!

Vou contar uma breve historinha, algo que era corriqueiro em minha vida! E… foco na palavra BUCETA, por favor.
Bem, meu ex marido era bastante ciumento! E eu imaginava que dava motivos para isso. Afinal, gostava de roupas bonitas. Nunca usei nada curto. Mas mesmo assim, meu vestir era sempre inadequado para ele!

Vou parar de enrolar…

Tinha uns cinco ou seis meses que eu tinha ganho meu segundo bebê.  Durante a gravidez, eu tinha engordado uns vinte quilos. Meu prédio (meus vizinhos) acompanhou o crescimento da barriga (e meu!) e a chegada do bebê!

Neste dia, quando apareci num evento no nosso salão de festas, já bem mais magra, muitos vieram falar algo bem normal para a situação – mas inconveniente para a minha relação: elogiar a minha perda de peso.

No meio da confraternização, um dos vizinhos se aproximou de mim para conversar. Fiquei tensa, pois sabia que teria problemas com isso! Dito e feito! Ele se aproximou e tocou no pezinho do meu filho, que estava no meu colo, e sendo seguro por mim de pé, na frente da minha barriga (é importante que vocês visualizem essa imagem!).
Falou algo sobre meu peso e sobre o bebê e se afastou!

Nesse momento, a figura de R (vamos chamar meu ex assim) se agigantou na minha frente. Bufava ódio!  Parecia possuído. Falou baixo, no meu ouvido, mas parecia gritar…

– Você não viu o q aconteceu agora?
– Não, Meu Deus! O quê?
– Ele botou a mão na sua buceta!

Eu fiquei estarrecida! Primeiro, porque o termo “BUCETA” jamais era usado entre nós! Nem quando esporadicamente fazíamos sexo! Segundo porque… Como é que o meu marido poderia imaginar que um vizinho nosso, na frente de todos, me tocaria daquela forma e que eu não faria ou falaria nada? Como assim?

Eu não tenho como descrever exatamente como me senti! Não tive palavras. Ainda não tenho.

Hoje, me pergunto, por que não chamei imediatamente o tal vizinho e falei na cara dos dois:  “Ô fulano! Meu marido tá achando que você meteu a mão na minha buceta!”…  Ou…

“Olhe aqui, seu retardado! Estou saindo de casa agora, porque não sou mulher de deixar algo absurdo assim acontecer sem que eu mesma tome uma atitude! Não me confunda com a sua mãe!”

O final dessa história foi uma mulher arrasada, indo embora da festa, chorando na frente de todos e, mesmo anos depois, sendo apontada como maluca, pois episódios como esse se tornaram bastante comuns na minha vida.

Hoje, olhando de fora, e muitos anos depois desse acontecimento, eu posso garantir que aquele dia marcou o início de um relacionamento absurdamente abusivo. E que, talvez, se eu tivesse me posicionado de forma incisiva, o curso de toda a minha história seria outra!

Por isso, queridos homens amigos, conversem com suas filhas e deixem claro para elas que o príncipe que elas namoram pode ser o disfarce de um cafajeste covarde! E que se você, pai e marido, nunca tratou a sua filha ou à sua mulher dessa forma, ela jamais deverá permitir que homem algum a trate assim.

E você mulher, se algo parecido estiver acontecendo em sua vida, é bom procurar ajuda. Pois tudo isso vai se agravar.

E tenho dito.

11 thoughts on “Eu não sabia que meu relacionamento era abusivo

  1. Alfredo disse:

    O texto retrata muito bem como uma situação relativamente simples pode ser tornar algo que marca o resto das nossas vidas. Elogio sua coragem em expor suas experiências, para alertar as pessoas sobre as consequências de relacionamentos desta natureza. Como pai de menina, ajuda muito no diálogo com ela, para que esteja sempre preparada. Excelente texto! Parabéns!

    • Dezessete Borboletas disse:

      obrigada Alfredo.
      Converse sempre com a
      sua menina e sempre seja o melhor amigo dela.
      por muitas vezes meu pai(um homem de outra geração) foi contra mim, alegando que eu não poderia responder ao meu marido

  2. Danielle disse:

    Acredito que dividir tal experiência seja a ajuda que muitas pessoas mulheres precisam. Que isso é mais comum do que se pensa e, mais ainda, que seja libertador para muitas outras.

  3. Karla Lourenço de Oliveira disse:

    O relato é autêntico e, infelizmente, muito mais ordinário do que possamos mensurar.
    Denúncias como está podem começar a despertar nas mulheres que passam por isso uma constrangedora reflexao de sua rotina em um relacionamento abusivo que lhe anula e degrada como mulher.

  4. Gleide disse:

    Infelizmente muitos relacionamentos são baseados em atos abusivos como este e muitos acham que o abuso é só qdo tem agressão física, mas a verbal e psicológica, fazem tanto mal quanto.

  5. Cristiane Guimarães disse:

    Na verdade por amor muitas mulheres tentam relevar, pensam que foi uma, duas, três situações isoladas..e que não vai mais acontecer. Infelizmente quando essa característica abusiva aparece em um homem acredito que o primeiro passo seja realmente combater! De frente! De igual pra igual! E não se anular.. É difícil? Muitooooo! Mas só assim existirá uma chance mínima de salvar esse relacionamento.. mas que muitas vezes por mais que a mulher se posicione, e se for de má índole do homem aquela postura abusiva, então o melhor é a mulher se preservar .. se poupar de mais abusos e constragimentos.. e seguir outro rumo em sua vida! Viver é pra ser um ato evolutivo constante em busca da felicidade, e todos nós mulheres merecemos ser felizes e respeitadas! Não se permitam ser abusadas! 😉

  6. Claudia disse:

    Parabéns pela coragem em compartilhar essa história. É importante que se fale sobre relacionamentos abusivos.

  7. Mario disse:

    Creio que esse “ex” não é normal psiquicamente falando. Talvez um psicopata, pois um homem normal jamais se insinuaria para uma mulher tentando tocar sua “buceta”, a não ser que fosse tão psicopata quanto ! Pra mim é uma história inédita !!

  8. Teresa Cristina disse:

    Parabéns, pela coragem de escrever sobre esses abusos que sofreu. Você está ajudando muitas outras vítimas!!

  9. Claudia S. disse:

    Parabéns pelo texto! Ótima iniciativa pra exorcizar essas lembranças da sua vida! É isso aí… escrevendo e dando a volta por cima! Além de ajudar na reflexão sobre o assunto, ainda pode, de quebra, ajudar muitas pessoas que passam pelo mesmo problema. E, infelizmente, com certeza são muitas! Isso acontece todos os dias, em muitos lares, e muitas vezes as pessoas nem se dão conta, lidando como se fosse coisa normal. Isso tem que acabar. Ainda bem que a sociedade já está acordando pra esse problema que é muito recorrente. Parabéns pela coragem e continue escrevendo! Saúde e Paz!

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