Boas festas para quem?

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Em que fim de mundo é esse em que viemos parar?

O contraste das maravilhas contemporâneas embutidas nas novas tecnologias e nos bens de consumo, contrastadas com um planeta onde boa parte das pessoas não tem água, terra, casa e acesso a condições minimamente razoáveis de vida.

Nesta Terra Brasilis em que se plantando, tudo dá – ou daria -, temos vivido perdas e danos. Há quatro anos, é difícil respirar.

Desabrigados no olho do furacão de uma crise econômica, associados a um governo ilegítimo que repercute em todas as instâncias, enlameados pela cólera que vai do vizinho da rede antissocial ao bandido que, outrora, batia a carteira e agora atira na cara, para destruir. Ou de propostas estapafúrdias como a de há pouco, onde se pretende que boa parte dos brasileiros morra sem ter recebido aposentadoria. Ou da cegueira conveniente que não vê problema entre relações de intimidade explícita entre um multi delatado pela Operação Lava Jato e aquele que, em tese, deveria julgá-lo.

Há muitos Brasis num só. E em vários deles, ninguém tem a menor ideia do que está realmente acontecendo. Boa parte dos brasileiros instalados nas metrópoles e capitais passa por situações humilhantes, trabalhos exploratórios, remunerações indignas e pena até para se deslocar, dado que os transportes de massa geralmente são bosta. Depois de horas em pé num ônibus ou trem lotado, o que resta é tomar um banho e desabar na cama – se cama houver – para algumas horas de sono alucinógeno até começar o maldito dia seguinte, torcendo para que a sexta ou o sábado cheguem logo, de modo que a vida tenha algum mínimo sentido lúdico.

Vender o ticket, contar as moedas, pagar as contas com sorte. Alguns serão entorpecidos pelo mundo da fantasia do Jornal Nacional e só.

Mais uma vez, somos vítimas de uma elite poderosa, mas ignara, incapaz de respeitar o próximo e de qualquer sentimento de nacionalidade, disfarçado com as camisas da CBF, com todo o ridículo contido nisso.

Eu poderia estar feliz porque tenho um emprego razoável, trabalho numa sala confortável e refrigerada, consigo fazer minhas refeições prediletos diariamente, compro alguma parte dos livros e discos que me interessam, vivo bem com minha namorada e rimos muito, meu hobby de escritor alegra algumas pessoas e, até onde penso, estou em boas condições de saúde. É, isso me bastaria se eu fosse um idiota egoísta que só pensasse em mim o tempo inteiro. Mas cresci com a lição de que o homem é um ser gregário; logo, não posso achar normal olhar para a calçada da esquina e ver crianças esfomeadas, abandonadas, drogadas. Nem espiar o que ainda resta das bancas de jornal e ver a estupidez da violência por todos os lados – você pode escolher as versões local, nacional ou estrangeira. Tudo isso enquanto a lista nacional de milionários brasileiros aumenta. Na crise? Pois é.

Não falei nem falarei de gente passando por cima da lei, políticos corruptos, cidadãos corruptos, gente inescrupulosa e mais uma antiga lista telefônica inteira de vícios e defeitos.

Já me senti um verdadeiro brasileiro. Hoje, sou um inquilino do fim do mundo.

O Brasil está cada vez mais podre, vitimado por senhores de engenho do século XXI.

E pelo que se lê pelaí, dar o fora não melhora muito a coisa. Um bombardeiozinho, uma guerra, um atentado, uma explosão racista, outra homofóbica.

Desemprego, muito desemprego. Engraçado como odiavam e comemoravam o “fim do comunismo”, mas agora silenciam diante do evidente perfil falimentar da “livre iniciativa” (que nunca foi livre de verdade).

Cresci ouvindo dizer que éramos um país em desenvolvimento. Já se foram quarenta anos. Quando tudo parecia dizer que daríamos um salto à frente, recuamos trinta anos no tempo. Só falta o AI-5 para estorricar tudo de vez.

Dá para falar de Rio de Janeiro? Estado implodido e a Cidade Maravilhosa com suas bombas explodindo no coração do Centro em plena hora de almoço? Pelo menos parece que a turma das facadas deu no pé. Mas que ninguém se iluda: a barra é pesadíssima.

Boas festas para quem?

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