Adeus, Cirandinha

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Vão caminhando os dias em passos absurdos, tortos e desconexos. Na véspera de um golpe anunciado, a internet é um pombo-correio: alguém te marca, você corre para ver uma informação e se depara com a perda.

Faleceu o Cirandinha, um dos ícones de Copacabana, ao menos bem depois do Bonino’s. Era uma espécie de xodó dos mais velhos do bairro, que nele reviam momentos da adolescência e até da juventude, levados por seus pais.

Sua fama sempre foi a de uma casa de chá. Por isso, a vida inteira teve a frequência de simpáticas senhoras que, em suas mesas, também pediam waffles. Tinha uma pizza espetacular, salgadinhos fabulosos, todo o cardápio era uma ida às nuvens.

Teve como vizinhos a elegante Casa Barbosa Freitas, a Casa Sloper, o cine Art Copacabana e o impecável Metro Copacabana, com seu letreiro de Broadway e um sistema de ar condicionado tão forte que alguns veteranos são capazes de jurar: ao término de uma sessão e a saída dos frequentadores, muitos sentiam a massa de vento refrescante vinda da sala de exibição do outro lado da rua! (exatamente onde ficava a Sloper).

Seu endereço era Avenida Copacabana 719, onde nasceu em 1957. Eu, que cheguei uma década depois, fui lá muitas vezes, mesmo depois de ter deixado Copacabana como morador para sempre – e digo sempre porque, com os preços aviltantes e muitos imóveis claramente fechados em função da lavagem de dinheiro, dificilmente terei como voltar. De toda forma, a vida é um galpão de jogos de azar.

Em certa oportunidade, em 1992, lá estive num começo da noite de domingo com meu amigo Gomão. Tinha voltado da Barra, um tanto desapontado: a mulher da minha vida naquela época estava namorando um outro sujeito. Pedimos uma pizza, refrigerante e o mundo ficou bem. Já trabalhávamos, ganhávamos pouco, mas era o suficiente para ter momentos de desabafo numa das melhores casas da história de Copacabana. Nada como a passagem das épocas para vermos que as verdades de outrora acabam sendo dissipadas pelo vento – os amores passam, passam, tudo passa. O mundo urrava com passeatas de combate à corrupção. Às vezes é bom envelhecer; noutras oportunidades, não.

Mais de vinte anos depois, entre idas e vindas, o Cirandinha foi o local que escolhi para ir com Marina, minha atual namorada, bem no começo da história. Aquele clima de charme, de antigamente, de mesinhas com toalhas brancas impecáveis, hambúrgueres de fino trato. Na entrada, o balcão estilo americano que logo dava o tom do local.

Os mais apressados vão dizer que o Cirandinha morreu exclusivamente por causa da crise, que é mundial e os oportunistas insistem em apontar como exclusivamente brasileira. Nada disso. Acontece que o restaurante sempre foi elegante, tradicional, delicado, ideal para conversas amenas, moderadas e fraternas. Aos poucos, o tempo foi ceifando a amabilidade, o prazer das conversas educativas, a boa sensação gregária e tudo passou a ser apenas futebol – que adoro – e BBB para atrair clientes em todos os bares, tabernas e restaurantes. A elegância – que não precisa andar de mãos dadas com a riqueza pessoal – deu o fora. Nestes anos todos, vi o público do Cirandinha amadurecendo cada vez mais, a ponto de um dos acontecimentos jovens que lá testemunhei ter sido o encontro de meus colegas de ginásio, da Escola Cícero Penna, em 2007 – quando todos estavam às vésperas dos quarenta anos. Numa reunião, percebemos que formávamos a mesa mais jovem do recinto. O mundo mudou, os adultos tornaram-se idosos, as pessoas passaram a sair menos de casa e tomar chá virou quase uma excentricidade. Pior para os tempos.

O Cirandinha, que sobreviveu a tantos percalços da vida brasileira, não resistiu a 2016, que na verdade é um 2015 que ainda não começou, exceto pela visão de inferno que se avizinha e não parece ter fim no horizonte. Eu queria levar Marina lá outra vez. Não será possível.

Um Cirandinha dali, um Teixeira Heizer de lá, Massas Suprema, Rick’s, a lanchonete de rua das Lojas Americanas na Figueiredo Magalhães, o Cine Condor. A Help, o Coruja Bar. Gordon e seu enorme canguru na porta. Tudo passa.

Ainda bem que o Cine Joia, na galeria dos peixinhos, sobreviveu para contar a história.

Louvadas sejam a Galeria Menescal e a Charutaria Lolló.

Copacabana resiste, sabe-se lá até quando.

@pauloandel

One thought on “Adeus, Cirandinha

  1. Dante Ferman disse:

    Putz! Depois de mais de trinta anos ainda tenho desejo de comer a torta de chocolate to Messer (na Rua Santa Clara ao lado da loja de disco), depois quando mudei pra Sa’ Ferreira tambem comprava no Luculus. Se alguem souber aonde posso comprar a torta ate pago recompensa…

    Da ultima vez que estive no Rio fui a Massa Suprema justamente pra comprar uns pastelzinhos, e burros n’agua! Na Galeria Menescal ja nao tem mais o Monsieur (a unica loja que eu ia la), a porra da loja de brinquedos super caros ainda ta la’! A Casas Santa Clara tambem ja era, a Sloper, a Krause (com o relojo iluminado) na mesma esquina e o Bazar 666, alguem se lembra?),

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