Nunca fomos tão brasileiros

nunca fomos tão brasileiros roxo

A ÚLTIMA vez em que fomos tão brasileiros, eu não sei dizer. Talvez quando um presidente sorriu na televisão e promoveu o preço do quilo do frango a um real. Talvez quando, em plena ditadura, muitos comemoravam que chegasse o dia 15 de novembro no meio de semana, não por causa de eleições, mas para poder aproveitar o feriado. Às vezes somos brasileiros demais quando há festa no Carnaval, nos raros estádios lotados, nas Paradas Gays em São Paulo, na decisão do programa Big Brother Brasil, na final da Copa (não essa última, é claro). Também no Dia de Finados, quando todos parecem consternados demais, ao contrário do resto do ano onde a grande onda é chamar a todos de vagabundos, especialmente os funcionários públicos – e muitos deles próprios assim se definem, numa estranha contradição entre o declamar e o viver.

Temos sido brasileiros demais quando alguém afirmou que o Brasil tem sido um país comunista, com todo o ridículo possível contido nesta sentença. Somos brasileiros demais quando algum fanfarrão prepotente vem com aquela bravata mofada de que nunca se roubou tanto nesse país, supondo que todos os interlocutores sejam suficientemente distraídos ou até mesmo boçais para não saberem expressões como “Coroa Brastel”, “Abi Ackel”, “Ronald Levinsohn”, “Salvatore Cacciola”, “Daniel Dantas”, “Delfin” e outros menos cotados. Somos brasileiros demais quando não sabemos distinguir milhões de bilhões – e então alguém grita: “O DEMAIS É QUANDO JÁ ESQUECEMOS DE CONTAR”.

Ultimamente temos sido muitos brasileiros. Os lamentáveis incidentes que cercam o país de uma ponta a outra não deixam dúvidas: temos um Brasil de muito suor, trabalho, proletariado, trem lotado, amendoim e paçoca, de linha 2 e parador, viajando em pé, esforçado pra caralho e outro, supostamente sofisticado mas sem recheio, supostamente elegante mas brega na essência, delivery, iphônico, excludente, metido a elitista sem qualquer atributo que não seja o dinheiro geralmente herdado, food trucking, sonhando com Miami, almejando os eletrônicos da Fnac – livro pra quê? -, linha 1 (em apenas parte dela e quando necessário), sentado, asséptico. E aí somos brasileiros pra caralho quando a linha 1 dá de cara com a linha 2 numa mesma estação.

Somos brasileiros demais quando achamos que os lobões e rógeres da vida fazem frente a um Tristão de Athayde, a um Nelson Rodrigues – VALHA-ME O DIABO QUEM INSISTE EM IMITAR ESTE HOMEM SEM TER PERDIDO A VIRGINDADE -, a um Paulo Francis. Ou quando caímos na esparrela de que Neymar vai ser maior do que Pelé, ou que Chico Buarque é um vendido. Somos brasileiros demais quando encaramos aquele velho disco do Tom Zé e somos incapazes de perceber toda a denúncia ali contida. Quando rilhamos os dentes contra o comunismo assassino de Cuba e da Venezuela – por favor, os mais letrados não riam! – enquanto o progresso do Brasil está na democracia das garotas de quatorze anos que são retiradas dos barracos porque algum traficante deseja fazer sexo com elas, enquanto os pais morrem de dor e vergonha – e quando se encher, pode colocá-las fazendo programa ou queimá-las vivas em pneus encharcados de gasolina. Somos brasileiros demais quando navegamos na internet e, nas redes sociais, encontramos dezenas de quilômetros de erros de Português, frases sem sentido, discursos verborrágicos continentais, ódio, rancor, inveja, subcelebridades e outros recalcados alimentando toda a tristeza porque jamais serão o que sonhavam, mesmo sem terem feito nada de útil para alimentar o sonho.

Sim, agora lembro a última vez em que fomos brasileiros demais: exatamente ontem. Cinco de maio. Quando o Supremo Tribunal Federal suspendeu temporariamente o mandato do deputado Cosentino, esse mesmo que está afundado até o nariz em transações, digamos, exóticas, fizemos um mar de silêncio. Durante dois anos, muitos de nós gritamos ardorosamente contra a corrupção, a roubalheira, os comunistas, os vermelhos, os que queriam impor uma ditadura (?) ao Brasil e, finalmente, quando veio a grande virada pelo fim de toda a corrupção, houve um constrangimento. Afinal, era uma farsa na qual só os doutorandos em ingenuidade poderiam cair.

Descobrimos que nossos 26 anos de democracia consolidaram uma Câmara dos Deputados com parlamentares sem voto, divididos em bancadas econômicas, completamente alheios às prioridades do Brasil e da maioria do povo, muitas vezes chefiados por velhos coronéis da política nacional, aqueles mesmos que cansamos de ver em sentido figurado nas novelas de Dias Gomes. Depois, quando o grande objetivo era tirar a “corja” do poder – e você acreditou feito um pato -, houve quem aplaudisse seu “bandido predileto”. O problema é que ele é muito mais bandido do que se possa pensar.  E quem decide isso é gente que teve meia tonelada de cocaína dentro de casa sem querer, gente que recebeu um bilhão na mão para vender o pato dos outros – e você também foi um pato -, gente que chega ao ponto de declarar homofobia e ocultar a própria homoafetividade – fundadores de movimentos de direitos gays inclusive.

Tudo isso e muito mais desaguou ontem na sessão de caça à cabeça do deputado Cosentino, este com vasta experiência nas citações criminais. Se não fôssemos brasileiros, mesmo que tudo seja apenas ilusão, teríamos comemorado como se fosse a conquista do hexa, soltado fogos, desfraldado bandeiras, berrado em tabernas. Quem mané panela porra nenhuma! Fizemos foi um silêncio do caralho. Não por causa dos atos, dos homens, de seus crimes, mas por causa desse elemento imprescindível à vida moderna nas grandes regiões metropolitanas brasileiras: a hipocrisia. Um silêncio constrangedor, porque muitos de nós não tiveram coragem de se olhar diante do espelho e gritar: EU SOU UM MERDA! EU DEFENDI UM BANDO DE MERDAS! EU BATI PANELA SEM PASSAR FOME PORQUE SOU UM IDIOTA DOMINADO PELA TV, QUE MANDA EM MIM E NA MINHA FAMÍLIA HÁ MEIO SÉCULO!

E agora o silêncio que pareceu hipocrisia pode ser também covardia. Semana que vem teremos um novo governo, já corrupto em seu cordão umbilical que vem de 30 anos atrás. Os nomes, os delatores e os processos deixam que todos mintam.

Pra frente, Brasil! Se a ponte para o futuro for igual à Rio-Niterói, não faltará espuma de sangue a brilhar enquanto um transeunte numa noite qualquer perto da praça XV, que nada tem a ver com a figura do bailarino homossexual Claudio Werner Polila – o “Jiló”-, há de cantarolar: “Há muito tempo nas águas da Guanabara/ O dragão no mar reapareceu/ Na figura de um bravo feiticeiro/ A quem a história não esqueceu”. E que não desabe por acidente feito o Paulo de Frontin.

Ontem fomos vergonhosamente brasileiros ao extremo. A punição ao deputado Cosentino é nossa carta de alforria. Agora podemos ser uma sociedade escrota de verdade, a valer! Estamos livres para toda sorte de safadezas, pois tudo é lícito: às favas com os escrúpulos!

Todos juntos vamos. Pelo menos não somos todos iguais. Seria estúpido demais. Vivamos o silêncio hipócrita da noite de ontem sem um arranhão sequer da caridade de quem nos detesta.

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