O primeiro dia do primeiro outono do resto de nossas vidas

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NUM SÚBITO o Rio de Janeiro foi tomado por frio, chuva e trem. Nem tanto frio, nem tanta chuva e muito menos trem, porque a Central do Brasil está apinhada numa sexta-feira à noite, a primeira de um outono atrasado depois de seis meses de verão infernal. Os que têm casas comemoram o suposto fim das temperaturas escaldantes. Os mais sofridos não têm intervalo para a dor: se antes um simples banho era um milagre diante da indiferença cotidiana, o inferno continua em se abrigar em calçadas molhadas, vento gélido das madrugadas, fome e tristeza. Pouca gente pensa nisso; afinal, muitos comemoram o impeachment, o fim da corrupção, a volta do privatismo e agora refestelam-se em seus bares, pagando contas com o dinheiro suado da meritocracia hereditária. Abril vai embora, um terço do ano vai embora e o tempo corre em rodas de aço sobre trilhos, em velocidade alucinante. O outono, tempo das folhas ao chão, das sombras, do gris do céu, tudo enquanto os funcionários públicos estão há meses sem salários, os jovens ocupam as escolas e a ciclovia faliu. Ainda bem que a corrupção acabou. Sexta-feira à noite e garotos alucinados pelo crack sorriem pelas ruas desertas do centro da capital, muitos sonhando com sanduíche de queijo, refrigerante, colchão, cobertor, roupas limpas e desenhos animados na TV. Uma linda mulher solitária, despertando mil suspiros e desejos, embarca em abraços funestos que não lhe darão o espírito da paz. Dois homens bons cruzam as ruas do Leme rumo ao Chapéu Mangueira, onde encontrarão suas famílias e terão uma noite de alívio. O escritor e. e. schneider com mil livros e discos por perto, pensando num poema e rindo de um detrator recalcado, conhecido como O Frankenstein das Laranjeiras, desengonçado e feio com sua voz fina – escreverá versos livres. Televisões ligadas à toa em canais alternativos. Dois homens efeminados insistem em negar a própria sexualidade enquanto se entreolham. A sexta-feira dos bares, do chope dourado da felicidade, das paixões passageiras, tudo tão efêmero e indiferente à família mendiga debaixo da marquise do Banco do Brasil na Senador Dantas. O belo caminho do Aterro do Flamengo está deserto, há um silêncio enorme e ninguém consegue avistar o Pão de Açúcar sem a devida reverência. O outono das religiões, dos romances, do vazio diante do sentido da vida. Alguns amigos se encontram e fingem nenhuma solidão diante de uma cidade tão bela e opressora. Um poeta qualquer recita “Oh, vozes que sustentam a interminável mudez/ meu coração é uma arquibancada vazia de um estádio que já não existe/ os jogos que não são orgasmos da alma do futebol/ tudo é distante demais/ somos exilados de nossa terra sentimental/ o estrangeiro é um dar de ombros/ um dia todo seremos uma cidade, um Estado/ mas então será tarde demais para o mundo dos mortos/ celebremos um gol como se fosse uma canção de João/ o Brasil é tenebroso e mesquinho/ não o dos humildes, proletários e mensageiros da verdade/ mas os covardes escondidos em seus condomínios morais/ tudo é tão distante que parece saudade e lembrança/ meu amor que não dorme e sonha/ outros pecados, outras palavras/ o Brasil está morto/ assassinado por seus aristocratas de merda/ e burocratas hipócritas de merda/ um minuto de silêncio pelas criancinhas mortas ao lado do chafariz da praça/ um minuto de amém num outono que acaba de nascer”.

O escritor p. r. andel no quarto de seu pequeno apartamento às vésperas de uma entrevista com o roqueiro Serguei, conversa com sua namorada pelo Whatsapp, espia o noticiário da TV Brasil, repara a enorme bagunça dos milhares de CDs, sorri ao ver Henrique Meireles e Antonio Anastasia em discursos sóbrios, tudo absolutamente contraditório diante do amor que não ousa dizer seu nome. Finge tranquilidade, escuta o barulhinho da chuva à janela, rabisca um possível poema, guarda a carteira falida, desliga a luz do quarto e lembra dos seus tempos de escoteiro.

E esta é a primeira noite do primeiro outono do resto de nossas vidas.

@pauloandel

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