A feiura da alma

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Era feio. Ou sentia-se feio.

Tudo bem: era feio pra caralho!

Por isso, seu desconforto parecia tão visível e explicava algumas de suas atitudes. Uma arrogância e uma prepotência excessivas. Desde cedo, a feiura lhe doía tanto diante do espelho que precisava criar um personagem para se defender. Ser arrogante era quase um instinto de sobrevivência.

Desengonçado, triste, desprovido de qualquer elegância, sentia-se feio demais e temia as gozações dos colegas da escola, da rua, da quermesse, das quais tinha verdadeiro horror. Num mundo de aparências, sua figura lhe parecia repugnante. Tremia até para pegar um mini hot dog numa festa infantil – “Olha o feioso comendo!”

Em mais de uma noite teve pesadelos ao ser apelidado de Frankenstein. Carregou desde sempre o peso do fardo de seu próprio julgamento. As mulheres o desprezavam, inclusive as que ele considerava feias também, porque o mundo das aparências atira futilidades para todos os lados.

Desconfortável dentro de seu próprio corpo, insatisfeito com a exposição de seu próprio rosto, se pudesse andaria de capuz. Dada a impossibilidade, tentou aprimoramentos intelectuais de modo a ser alguém na vida, alguém que pudesse nutrir a admiração de terceiros e compensar as suas agruras internas. Contudo, sabia de sua condição fake: era um sofisticado das orelhas de livros que não lia por completo. Falava de jazz até a terceira página, tentando constranger interlocutores mais modestos, mas sabendo que não poderia enganar profissionais do assunto. Recitava trechos de poemas, citava autores de nomes decorados. Tudo na verdade era um escudo para aliviar seus temores diante de uma constatação inevitável: a de que nada aliviava seu sentimento sobre a própria feiura. Tinha mais vocações do que propriamente talento. No entanto, poderia ir mais adiante se a obsessão a respeito da estética não lhe tomasse as vísceras, fazendo de tudo a bílis da alma.

Com o advento das redes sociais na internet, pensou que sua baixa autoestima temperada com arrogância o elevaria à condição de uma subcelebridade. Ansiava ser visto, lido, admirado, até desejado, mas num segundo tudo desabava diante de sua tristeza mortal. O espelho era seu cadafalso. Não lhe bastava o sonho de dar autógrafos, nem a tolice de querer ser mais importante do que realmente era. Um formador de opinião ou um charlatão da dialética? Não importava: parecer é muito mais importante do que ser, nestes dias de um Brasil em fúria e derrocadas em torno de seus próprios pés.

Não foi feliz, mas fingiu. Discursou de forma imponente mas ninguém percebeu. Disse as piores coisas de pessoas que sequer conhecia, sem se importar com o ridículo que atraía para si. Às vezes pensava: tudo poderia ser diferente se o espelho não lhe fosse tão lancinante à alma. A feiura era sua própria ditadura a torturar-lhe num pau de arara, a aplicar-lhe eletrochoques na personalidade, tornando-lhe pior do que realmente era. O horror de Brilhante Ustra.

Num sábado pela manhã, pensou na própria morte e chorou. As carnes decompostas, os ossos visíveis e pontiagudos diante da podridão, as peles em destruição, a massa disforme ali numa aquarela da derrota. Tudo ainda era longe demais e fazia parte das certezas inevitáveis de cada um, mas seu monodrama tinha um único foco: o triste dia do futuro, esperado para muito longe, seria o juízo final de sua feiura – dentro de um caixão fétido, seria ainda pior do que já era.

Sentado no sofá, chorou por instantes, e depois se recompôs – não podia fraquejar por nada, quanto mais um pensamento triste.

Mas concluiu que nada, absolutamente nada do que fizesse de bom ou ruim serviria para enganar a si mesmo: a feiura era seu talento inequívoco e permanente, o cartão de visitas. Mesmo que pudesse conseguir brilharecos na internet, constranger pessoas humildes e até ser tolerado pelos mais elegantes enquanto confundia empáfia com sapiência, perdendo precioso tempo que poderia utilizar para ser uma pessoa melhor, não havia frases, textos ou ensaios que se sobrepusessem ao que carregava de mais fútil, desimportante e relativo: o sentimento de não se aceitar como um homem comum nesta Terra onde tudo é efêmero. Queria ser o melhor de todos, o senhor supremo, o almirante da vaidade, mas a porta aberta do armário lhe oferecia uma realidade irrefutável: era feio, feio, feio demais, tão feio que era incapaz de pensar que, caso se tornasse uma pessoa melhor, as aparências seriam pequenas diante da realidade. Mesmo com alguns fãs e até amigos, que perdoavam todo o seu armazém de inconveniências.

Ligou o aparelho de som. O rádio tocava o trio de André Marques, John Pattitucci e Brian Blade. Não havia outra pessoa por perto e isso constituiu alívio: o esnobe declamador de jazz não sabia do que se tratava. Sorriu amargamente.

A pior feiura é a que corrói a alma, a ponto de desintegrar o sexo e os princípios básicos da fraternidade. A vida é muito mais do que uma aparência no espelho, ou diante de terceiros na frieza tecnológica da rede mundial de computadores.

@pauloandel.

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