Meu amigo que curte o Bolsonaro é meu amigo?

Esta semana, depois do deputado Jair Bolsonaro homenagear o Coronel Brilhante Ustra em seu voto no impeachment de Tia Dilma, o facebook viveu uma mistura de censura com caça às bruxas. Alguém teve a brilhante – perdão pela piadinha – ideia de visitar a página do deputado e lá viu uma penca de amigos seus que seguem a página e as suas publicações. Resolveu então exigir que essas pessoas parassem de curtir o cidadão e suas ideias extremistas sob pena de cortar relações virtuais com os admiradores do milico.

Essa imposição viralizou. Algo entre vinte e trinta amigos meus exigiram isso dos seus amigos. Como sou do contra, confesso que eu, que detesto o cidadão em questão, cheguei a pensar em curtir a página dele, só para ser do contra. Pelo visto não fui o único. Hoje, antes de escrever este texto, fui, pela primeira vez, visitar a página de Bolsonaro. A página teve, esta semana, um acréscimo de 450% em suas curtidas, com o ápice do crescimento justamente na 3a feira, dia em que o “movimento” pelo expurgo cresceu.

Parabéns aos envolvidos. Que sucesso.

Olhei então os 32 amigos que tenho e que seguem a página. Pessoas próximas, muito próximas e dois ilustres desconhecidos. Meus amigos são meus amigos, curtam o raio que curtirem. Tenho amigos flamenguistas, comunistas, petistas e varios outros istas dos quais discordo totalmente.

O problema que essa manifestação anti Bolsonaro está ajudando a identificar é a presença desses dois ilustres anonimos. Gente que é “amiga no facebook” mas de quem sei muito pouco além do nome.

Dentre os meus quase 700 amigos de facebook, certamente uns cinquenta deles são pessoas com as quais não tenho rigorosamente nada em comum. Gente que me pediu que os adicionasse por me conhecer de alguma ocasião social ou de eventualmente ter lido algum dos textos que publico por aqui, ou nos Panoramas Vascaíno e Tricolor. E que o foi. Acontece que eu não conheço essas pessoas direito. Eu não sei absolutamente nada sobre elas e, ao permitir a sua presença em minha timeline, eu as trouxe pra perto.

Então, o espanto com a quantidade de amigos que curtem Bolsonaro nas timelines das pessoas é apenas um consequência do problema verdadeiro: A de adicionar gente desconhecida a um ambiente que deveria ser, em termos, íntimo. Na ânsia de conseguir curtidas e público para suas elocubrações, tem gente que adiciona qualquer um que peça sua amizade. Eis o resultado: um bando de desconhecidos, seguidores das maiores sandices, que está ali pertinho, acompanhando o que você posta sobre seu trabalho, família, interesses…

É como naquela piadinha da transferência do Facebook pra vida real, na qual o sujeito sai pela rua afora berrando para os desconhecidos “Hoje estou feliz!”, “Olha o meu almoço”. Pois é exatamente isso que você está fazendo. Falando com e para estranhos.

Então, muito mais grave do que o seu “amigo” desconhecido seguir Bolsonaro, é ele seguir você. Sugiro, urgentemente, uma revisão das suas amizades virtuais. Como o Bolsonaro mostrou, elas não são tão amigas quanto parece.

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