Diarreia mental

flora

– “A diarréia incomoda muita gente! Com repoflor, já não incomoda maais…”

– Hã?

– “A diarréia incomoda muita gente! Com repoflor, já não incomoda maais…”

– De onde você tirou isso, Manu? O que que é diarreia?

– Não sei, pai, mas com repoflor não incomoda mais.

– Tá bom, mas onde você ouviu isso?

– Na tv, papai. Já vi um monte de vezes.

Manu não assiste tv desacompanhada. Assistiu este anúncio provavelmente junto com a gente, durante o café da manhã ou almoço, durante os quais assistimos normalmente aos noticiários. À noite, na copa, durante o jantar, a avó assiste a novela.

Engana se quem pensa que estes serezinhos não estão prestando atenção ao que se passa ao seu redor. Desenvolvemos uma capacidade de abstrair os anúncios, o que nos provoca a perigosa situação de não ver e ouvir o que as crianças estão bebendo. A gente tenta amenizar e evitar que ela veja a violência dos fatos, mostrar crimes violentos, atentados, mas a propaganda passa despercebida. Curiosamente, na outra ocasião em que ela comentou de uma propaganda, foi de activia. Provavelmente a figurinha não terá problemas intestinais nunca.

Essa outra ocasião foi mais perigosa. Ela era muito mais nova que hoje e não tínhamos entendido de onde ela tinha tirado aquilo. A resposta veio dias depois. Do youtube. Mais do que controlar a tv, controlo internet. Youtube principalmente. Pra minha surpresa, um vídeo de desenho animado, talvez da Monica, trazia a propaganda, que fazia menção ao fato de que a prisão de ventre tira o apetite sexual. Confesso que não lembro exatamente o que ela disse no dia, mas se referia exatamente ao lado sexual (ou não) da coisa, ainda que ela não entendesse o que aquilo significava. Como as propagandas são feitas por termos de busca ou referência, isso pode acontecer. Um exemplo (fictício): Um frigorífico patrocinar o termo de busca “porco” e a propaganda aparecer num desenho dos três porquinhos, por exemplo. Ao fazer a propaganda, você tem como escolher canais nos quais a propaganda vai aparecer. Mas isso dá um trabalho brutal pra ser feito, de forma na maioria das vezes que a palavra é usada direto mesmo.

Ou seja: necessidade completa de supervisão na internet E tevê. É ingenuidade pensar que só o programa está sendo assistido. Qualquer intervalo, produto, anúncio de outro programa ou filme está sendo gravado pela mente do seu filho. O buraco é muito mais embaixo. Largar seu filho vendo um canalzinho inocente do youtube ou um programinha de tv pode não ter bons resultados.

O preço da liberdade é a eterna vigilância.

Ah, a imagem das flores, deste post, é em homenagem à nossa flora intestinal.

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