Nos porões

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Neste momento alguns protestam. Talvez nem saibam muito bem o motivo. Sempre foi assim: todos sendo guiados como gado pelo quarto poder. Eles acreditam em tudo que ouvem. Não leem mais do que duas linhas. Dois parágrafos é “textão”. Pensar cansa. Pensar é démodé. A tevê berra. Aceitam sem contextualizar. Contextualizar? O que é isso? “Eu quero ela na rua!”. “Eu quero ele atrás das grades”. Domingo é dia de Fla-Flu político. Ter opinião contrária nos coloca em trincheiras diferentes. A guerra civil está perto de ser declarada…é isso? Para quem vive na periferia, a guerra começou há uns 60 anos. Mas aconteceu na favela. Quem se importa? Vamos beber Veuve Clicquot no camarote da boate e esquecer isso. Na saída é só pegar a chave da Pajero blindada e voltar para casa.

Enquanto isso professores estão sem salários, alunos sem aula, colégio sem merenda, carro da polícia sem combustível, preto levando tiro nos becos, gay tomando porrada na esquina, mulher sendo estuprada e levando a culpa. “Não é problema meu”. O que se passa além dos limites da porta do seu apartamento não lhe importa, não é mesmo?

“O dólar está caro e esse ano vai ficar apertado ir à Nova Iorque. Terei que trocar por Porto de Galinhas. Shit!”

A elite se movimenta quando atingem seus privilégios. Ninguém deu importância para séculos de miséria e servidão. Ninguém levantou do sofá para batalhar por melhor educação pública. O filho estuda no caro colégio de padres, que usufrui da isenção fiscal, mas onde preto e pobre só entra se for pra fazer faxina. Quem tem privilégio é o cotista, dizem.

Enquanto sonho com o exame de DNA que pode me dizer de que lugar da África meus ancestrais vieram, bastam alguns documentos para que brancos ganhem seus passaportes europeus e possam vislumbrar uma vida mais digna acima da Linha do Equador. Uns vieram para “limpar” o sangue brasileiro. Os meus vieram nos porões sem direito a nada. Onde está meu privilégio? Ainda não o achei.

Seguem gritando palavras de ordem na Avenida Atlântica e na Paulista. Os gritos não são ouvidos na Maré ou em Itaquera. E no sertão do Cariri? No Vale do Jequitinhonha? O Brasil não conhece o brasileiro. O Brasil crê que o brasileiro é o mesmo da novela das 21h. O dilema do falso brasileiro da novela é saber se a mocinha estará na praia deserta a sua espera no último capítulo. Não preciso dizer que essa mocinha é branca. O mocinho? Branco também. Só os brancos dizem “eu te amo” no horário nobre. Preto e pobre só bate palma e dá sorriso. É o que resta. Sorrir e aplaudir. Não lhe dão voz para dizer se está realmente gostando. Não lhe dão voz para declarar seu amor…ou ódio.

Aqui da janela não vejo camisas da CBF. Mas na TV eles estão aos montes, tirando selfies com os homens de farda. Tiram foto com qualquer pessoa que porte uma arma: um policial, um militar, o Bolsonaro. É importante registrar o momento. Sem selfie quer dizer que não aconteceu. Põe hashtag pra ter mais likes. É cool ir à micareta e achar que está indo defender o país. Está indo pelo umbigo. Umbigos feitos pelo bisturi das clínicas de cirurgia plástica em abdomens lipoaspirados.

O doente na porta do hospital público não tem forças para ir protestar. Ele teria motivos. Nem o aluno que está passando por mais uma greve foi à rua. Por que será? Talvez porque no dia em que saiu às ruas para lutar por seu direito garantido na Constituição, o Estado veio com cassetete, gás de pimenta e bala de borracha. Ninguém ali está para lutar por ele. Ele sabe disso. Cada um no seu quadrado. “Meu filho estuda no São Bento. Você é um vagabundo que quer tirar a vaga dele com cota”.

Não querem a universalização da educação de qualidade. O barco está afundando. Não querem o SUS funcionando para todos. A água está subindo nos porões. Não querem o pobre no aeroporto, na universidade pública, nas praias de área nobre. A água chegou ao convés. Querem a elite no poder. Querem o FMI, a ponte aérea Rio/São Paulo – Miami, mais cadeias, menos faculdades.

Nessa guerra não há santos ou demônios. Nem mocinhos ou vilões. Estamos todos no mesmo barco. Ok. Uns limpando o convés e outros nas cabines, mas mesmo assim no mesmo barco. Quase todos afundarão. Alguns poderão ter o “privilégio” de serem salvos pelos botes limitados do Titanic. Não é difícil prever quem entrará no bote.

No final vão se juntar apenas para garantir seus privilégios, como sempre fizeram desde Cabral. Para nós estarão ainda reservados os mesmos porões inundados.

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Ernesto Xavier

Encefálica

 

 

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