Lê?

livros empilhados

As palavras estão por toda parte. Anúncios comerciais, manchetes estrambóticas, matérias com cara de ficção, ensaios, artigos.

Redes sociais em particular, internet em geral, jornais mofados, revistas.

As bancas de jornais são abarrotadas de publicações. Imagine a Livraria da Travessa da Barra, mar concreto de letras – e também de futilidades elementares. Pilhas e pilhas.

Resumo: tem coisa para ser lida por todo lado. Estão sobrando toneladas e hectolitros de palavras nas comunicações.

Metade do dia com os celular em off, você o liga e vem aquele turbilhão de bips com trocentas notificações de whatsapp, foicebúqui e tuíter.

Tem tudo, tudo mesmo, do melhor e do pior.

Pergunta-se: quem lê?

Na acepção clássica da palavra mesmo: percorrer com a visão (palavra, frase, texto), decifrando-o por uma relação estabelecida entre as sequências dos sinais gráficos escritos e os significados próprios de uma língua natural.

É o que a gente faz por aí mesmo?

Modéstia à parte e com a pequeníssima importância que me cabe nesta terra incerta e injusta, tenho lá as minhas duvidazinhas.

Já fui publicado algumas vezes por editoras diferentes. Certa vez, antecipei uma crônica de futebol para um amigo querido, recebendo a seguinte resposta por e-mail: “Cara, esse texto é do Nelson Rodrigues? Eu já li noutro lugar”. Expliquei que não.

Embora meus livros lançados sejam de futebol e quase todos sobre o meu time, o Fluminense, não consigo enxergar absolutamente nada da monumental importância de Nelson, o maior dramaturgo brasileiro, no que eu escrevo. Nunca enxerguei.

Falando nisso, estilo literário: você consegue identificar o jeito de escrever de um autor, de modo a não confundi-lo com outros?

Dois sujeitos começam a discutir numa postagem de Facebook. Um sujeito comentando o escrito do outro sem ter lido…:

– Mas eu não escrevi nada disso do que você está falando! Onde você leu isso?

– O que importa é que você está completamente errado. Você não sabe de nada, brother!

A porradaria verbal come.

Nestes dias de golpismo e rancor, até a grave crise política tem seus dias de Febeapá: o tal procurador camisa preta (esse pessoal gosta, hein?) pediu a prisão de Lula fazendo uma incrível citação onde o homônimo de Engels era… Hegel.

Na semana passada, um capoteiro homônimo foi convocado a depor por vídeo ao juiz Sergio Moro, numa das cenas mais constrangedoras de 2016: o depoimento acabou em segundos, quando o magistrado deu conta da barbeiragem ali feita.

Maluf vai para a televisão e defende a honradez e a dignidade do governo acusado da fraude na merenda.

Paulinho da Força aparece na televisão pedindo a derrubada do Governo. Mais sujo do que pau de galinheiro.

O governador do Rio, chamado de Pezão, posterga os pagamentos do funcionalismo, mas antecipa verbas para concessionárias e grandes empresas do Estado.

Você lê mesmo sobre o que está acontecendo ou apenas faz papel de retransmissão humana das grandes corporações midiáticas?

Você já leu que, durante décadas, a inflação mensal brasileira ultrapassava 30, 40, 50 ou até 70 por cento ao mês?

E que o Maracanã ficou fechado três anos para reformas visando à Copa do Mundo de 2014, e agora é novamente isolado para as intervenções olímpicas? Aproveitando o tema, você já leu coisas que te fizeram pensar sobre o que já foi o Brasil do futebol e o que ele é hoje?

Já parou para ler como acontece uma das nossas maiores tragédias, que é a violência pela disputa do tráfico de drogas?

Você já leu algum relatório trimestral do IBGE sobre o Produto Interno Bruto, simpaticamente chamado por PIB?

Ou o interesse dos grandes jornais a favor do candidato X, do partido Y e da eleição Z?

Já leu poesia, letras de música, pequenas prosas, textos marginais, escritores underground, craques consagrados? Se o tiver feito, como isso é?

Algum filósofo grego – ou quase todos?

Autores traduzidos, bastiões dos países de língua portuguesa, poetas de calçada?

Afinal, você lê o texto ou apenas o significado de cada palavra?

Deixe seu recado após o sinal gráfico.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *