Espíritos no mundo material

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DUAS garotas chegam a ficar arrepiadas, enquanto olhavam um ovão de Páscoa nas prateleiras intermináveis das Lojas Americanas. Disparou um som potente das caixas perto da seção de música e um senhor, perto de seus sessenta anos, cravejou o clima: “Isso é Led Zeppelin! Jimmy Page!”. Eu, que não sou bobo, aproveitei uma palhinha de “Thank you”.

Nestes dias de crise e tentativas de golpe, tendo a velha Rede Globo como escudo de sempre, um bom lugar para se entender as coisas e pessoas é o shopping center – sim, estamos em crise, há desemprego, mas todos continuam comprando, ainda que alguns o façam exclusivamente por falta de melhores opções intelectuais durante o lazer.

As pessoas olham, compram, apenas admiram, passam como zumbis do comércio pelos corredores refrigerados, pequenos pedintes abordam as mesas da praça de alimentação – ninguém liga.

Num mundo e numa cidade onde dificilmente se vê três cartazes seguidos, páginas de jornais ou postagens do Facebook sem erros de Português, espiar a única loja da Fnac no Rio de Janeiro pode ser uma boa. Livros e discos. A impressão que dá é que os moradores da Barra ficam amontoados na seção de eletrônicos, enquanto os “turistas” ou haoles folheiam páginas e escutam canções – e isso explica muito do Brasil de hoje, creiam.

Olhar os outros depois de um cansativo trabalho em cálculos que ultrapassaram a faixa dos 20 milhões de reais. Hum. Interessante notar que mesmo num estabelecimento dirigido a populares com potencial senso artístico e literário apurado, volta e meia alguém para indevidamente no estreito corredor entre as gôndolas, travando a passagem de terceiros e resmungando quando alguém pede licença. Espíritos no mundo material.

Um monte de discos fora do lugar perto dos fones que permitem as audições. Não custava muito escutar e colocar no lugar, mas sempre haverá um monumental idiota a dizer “Eu deixo para que o funcionário da loja não perca seu emprego. Ele arruma e trabalho”. A pobreza de tal argumento poderia nos fazer crer que o crime é um acontecimento econômico importante: “quando bandidos matam inocentes ou policiais ou qualquer um durante a tentativa de assalto, é um incremento para funerárias, cursos preparatórios para ingresso na PMERJ ou PCRJ; aumenta o consumo de armas e munição, estimula a formação de médicos legistas etc.” – carajo!

Há compensações: antigamente o Barrashopping era era o Olimpo dos deslumbrados e emergentes, loucos para se sentir na fina flor da breguice em Miami. Só que veio a Linha Amarela, a Rocinha passou a ter um PIB maior do que 70% das cidades brasileiras e passou a dar muito Belford Roxo, Nilópolis e Caxias no pedaço (ÓTIMO!). Andar de chinelos no templo das compras virou coisa até normal. Então, os viscondes e barões mandaram fazer o Village Mall, bem ao lado, e pediram asilo político por lá numa loja de joias – livraria não há.

Geraldo Vandré e Novos Bahianos comprados, Dostoievski admirado, a caixa nunca tem troco seja qual for o valor da compra. Os dois discos explicam muito do Brasil de hoje, mas nada igual a você pegar um ônibus refrigerado, devidamente valorizado pelo prefeito, e se deparar com a imagem que ilustra esta página – e aí sim o Braza (aka Fagner Torres) é devidamente dissecado.

Não tem a ver com protesto, revolução, combate à corrupção, reivindicação de direitos, denúncia, absolutamente nada. Não.

Parece mais com certas manchetes de jornais impressos e chamadas na televisão.

Mais do que o entreguismo, o casuísmo, o atendimento a causas pessoais acima da coletiva, está o primordial: um desejo insaciável de ser filhadaputa.

Em suma, gente sem credibilidade, que só grita contra ladrões para defender seus traficantes e lavadores de dinheiro preferidos; que condena em terceiros as práticas que repete constantemente; que ostenta a cada dia o desfraldar da bandeira da hipocrisia. “Só me importam os pilantras deles; dos meus, eu cuido e gosto.”

O crime e a má fé não têm ideologia, mas sim conveniência.

Do outro lado? Caminhando, cantando e seguindo a canção.

@pauloandel

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