Pequenas lembranças em uma tarde de férias

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A tarde quente, quente demais e um tanto vazia, enquanto escuto o vanguard jazz de Anthony Braxton gravado ao vivo em São Paulo. Deixar os pensamentos flutuarem pela música, recordando de coisas e gentes que pareciam tão perto, mas agora estão longe demais no tempo e no espaço.

A história da garota nua que me contaram no hotel do Bairro Peixoto já tem coisa de dez ou doze anos.

O velho moço Alex com sua cara de doido em 2001 e 2002, num e-mail que Zé acabou de enviar. Os amigos abraçados na fotografia, todos jovens e recheados de futuro pela frente.

O jazz remete ao banco de praça na livraria Berinjela, enquanto Maurício parecia profundamente entediado e seu irmão contava as horas para comprar fichas na Miami, a casa de peep show que ficava ao lado da locadora do espaço – a Igreja de Copacabana. Entre os silêncios, conversas sobre o fim do mundo, do bom senso, da civilidade e o que faríamos em caso de fracasso do governo reeleito à base de rolo compressor. Dezoito anos, pois.

A casa bagunçada é um silêncio tirando-se a experimentação de Braxton. A família acabou, as pessoas morreram, as saudades permanecem, agora a cama abriga um outro casal. Dez anos.

À janela, pode-se escutar a vizinha esquizofrênica do andar de cima reclamando contra tudo e todos: a presidenta, a saúde, a segurança, o trabalho do faxineiro, o botão do elevador que não brilha e uma imaginária voz machista sopra num canto: “Essa coroa precisa dum macho pra parar de encher o saco dos outros”. Quinze anos de reclamações.

Descansar até sete da noite e encontrar antigos amigos que não se veem há meses. Promovíamos uma janta mensal em bares e restaurantes diferentes, experimentando todos os cardápios possíveis. Onze anos, senhor!

Outros discos à cabeceira. Dave Brubeck, o cubano Eliades Ochoa, Leonard Cohen – tem gravado muitos álbuns e feito shows, já na casa dos oitenta anos. Eu o conheci há uns vinte e cinco.

Um único tema de Braxton tem setenta minutos. Foi gravado no Sesc em São Paulo. Jazz de alta qualidade. O livro da Márcia Tiburi na página 50. Aquele dos bicheiros alinhados com a ditadura, já lido. Contaram a real de Mariel Mariscott. Trinta e cinco anos se passaram.

Desde que escrevi estas linhas, aproximei-me em alguns passos daquele caminho inevitável para a morte, pensando que ainda é cedo, que há muito para ser feito e que tudo passou em décadas num instante.

Olhar para trás e pensar no que passou, no que devia ter sido mas não foi, no filme queimado, nas noites claras de luar e estrelas benditas. As mãos namoradas, as desilusões juvenis, as risadas em se perceber tão imaturo quando tudo cheirava à personalidade.

O jazz não para no quarto escuro e bagunçada de uma tarde quente demais, sugestiva demais, com pensamentos sendo águias em pleno voo.

A vizinha esquizofrênica calou a boca. Aleluia, irmão!

@pauloandel

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