Um telefonema carioca

telefone black

O telefone fixo tocou e fui atender. Alguma coisa me lembrou de uma velha canção dos Titãs.

Estava no trabalho e uma das minhas tarefas é coletar, calcular e divulgar um indicador econômico utilizado por milhares de pessoas nesta cidade de mil maravilhas – e mazelas também. Na verdade, o Estado inteiro. Era o motivo da ligação.

Do outro lado, o simpático interlocutor fez suas perguntas, foi respondido e agradeceu as informações que prestei. O indicador que lhe interessava seria atualizado no dia seguinte.

Não era o que ele precisava exatamente mas o caminho já estava pontilhado no sítio eletrônico. Bastava acessar em menos de 24 horas.

Ao final, o que era uma simples ligação telefônica virou, num súbito, uma verdadeira troca de ideias, hoje tão raras num tempo em que as pessoas estão apressadas demais, preocupadas demais, tudo é demais enquanto a vida do convívio e da amabilidade fica de lado, ou simplesmente é descartada sem a menor importância.

O súbito? Em algum momento do “até amanhã” ou “muito obrigado”, alguma expressão talvez ligada à “nossa cidade”.

Foi a senha para imediatamente tratarmos de verbetes como Fayga Ostrower, Lota Soares, o Túnel Novo, a Livraria Berinjela, o Aterro do Flamengo, Fernando Sabino, Rubem Braga, Ruy Castro e outros. Ou teatro, música e artes plásticas em geral.

Uma despedida de trinta segundos transformou-se em quarenta minutos, com direito a marcarmos um dia desses um chope só para falarmos de um Rio de Janeiro admirável que ainda existe, mas hoje mora na exceção – quando os cariocas cansavam e abusavam de fazer amizades em telefonemas ocasionais, conversas fiadas em pé ao balcão de um humílimo botequim, na fila, no ônibus e em todos os lugares onde a arte de apreciar a opinião e o pensamento do outro.

Diante do que vemos por aí, com tanto ódio, discriminação, alienação e rispidez, inegavelmente uma chance rara, raríssima.

O interlocutor virou meu amigo Fernando.

A vida é isso: o velho telefone de mesa ainda reserva boas surpresas nesta velha linda cidade.

@pauloandel

One thought on “Um telefonema carioca

  1. Fernando Freitas disse:

    “Gentileza gera gentileza. ” e o poeta que nos btindava cotidianamente alardeava cidade do Rio do Janeiro afora essa máxima que se perpétuou em marca convocatória de comportamento. Sempre digo que o ser humano tem sim muitas antenas e quando atentamente sintonizadas captam sinais inimagináveis nas cenas diárias com as quais nos deparamos. Saberes dos interlocutores assim permitiu comunicação perfeita e atenta ao que conduzirá a resultados tão singulares e inimagináveis como o autor mencionou. Esse texto, os amigos Paulo e Fernando irão certamente participar de inúmeras conversas como exemplo das imediatas possibilidades que o homem moderno possui para construir um mundo mais igual. Momentos assim , sâo de inesgotáveis agradecimentos. agradecemos.

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