Cadáveres e vampiros do futebol carioca (e do Brasil)

moça bonita azul

Para os mais jovens, deve ser difícil de acreditar que, há 25 ou 30 anos, um jogo de estreia do Campeonato Carioca – na verdade, Fluminense – de futebol podia levar 50, 80 ou 100 mil pagantes ao Maracanã. E destaco o Carioca porque foi minha primeira e principal paixão: cresci vibrando com o futebol da minha terra, da minha cidade. E o Rio sem sombra de dúvidas foi a força da gênese do futebol brasileiro em seus apogeus.

É claro que muitas coisas mudaram desde então: os jogos passaram a ser transmitidos ao vivo pela televisão – e os cartolas fizeram tudo para que os torcedores se afastassem dos estádios, priorizando a TV -; a grande massa popular que acompanhava futebol nas arquibancadas e gerais foi, aos poucos, sendo enxotada dos campos de futebol, em troca de uma classe media alta que nunca teve relações de fidelização com o esporte bretão; o aumento da violência; a bagunça dos regulamentos.

Todavia, o Rio ainda conseguiu manter por muitos anos o prestígio de sua competição, muito mais pelo charme do que pelo que era visto em campo: tapetões, acordões, tramoias dos aliados do poder. Fla-Flu ainda é Fla-Flu, Vasco e Flamengo é um jogo que mexe com o imaginário popular. Conseguiu, não consegue mais. Os grandes jogos mexiam com todas as torcidas: secar o rival já era um programão pela certeza da qualidade da disputa. Fazer isso hoje num sofá é travar uma luta inglória contra o sono.

Depois de sucessivas mutilações e fechamentos, sempre reduzindo a capacidade de público e repelindo os aficionados menos abonados em geral, o palco maior do futebol do Rio – o Maracanã – serviu para a derrubada bilionária em nome da Copa do Mundo de 2014. Ai está, oferecendo a cada semana um aspecto visual deprimente. Ou melhor, estava: ficará fechado para os Jogos Olímpicos. Mas basta espiar no YouTube 95% das saídas de bola em boa parte dos jogos entre 2013 e 2015, no outrora Maior do Mundo: aquele vazio deprimente, constrangedor, mostrando a rejeição da plateia que já se cansou de partidas caras e desinteressantes às dez da noite em qualquer dia ou seis e meia da tarde aos domingos, tudo para agradar à grade global.

Antes: os clubes viviam das bilheterias dos jogos. Compre que a torcida garante. No Brasil dos anos 1980, com o advento de patrocinadores e da TV, a troca da fonte de recursos foi feita, pouco importando se o modelo adotado viria a influir na futura formação de público. Somados inúmeros outros fatores, há uma ou duas gerações de torcedores que já foram acostumadas a ver o futebol como um seriado de TV: frio, à distância, com a garantia do sofá confortável. Outro fator de concorrência quase desleal: no público iniciante, infantil, hora de ver os jogos é de tarde – quando Barcelona, Real Madrid e outros estão em campo -, não à quase meia-noite de quarta-feira.

Entre promessas e palavras mofadas como “gestão”, “trabalho”, “projeto” e similares, a verdade é que os clubes de futebol pouco se modernizaram em termos de administração e promoção do seu produto, podendo assim dizer tanto no Rio quanto no Brasil. Salvo casos esparsos de um ou outro debelando dívidas multimilionárias, a maioria está agarrada ao dinheiro da televisão como se esse fosse o verdadeiro petróleo – e é: importante, valioso, mas com décadas contadas. A cada dia que passa, a TV sofre os efeitos da vida computacional – aí estão YouTube e Netflix que não nos deixam mentir. Será que o caminho do futebol é apenas esse? O de ser café ou cana de açúcar da pequena grande tela? E ainda sobre a modernização: que clube oferece a seus torcedores o acesso direto a decisões e participações importantes que não sejam as do voto eleitoral? Acaba sendo muito pouco para cativar o torcedor atual em meio a tanta concorrência. Compre camisa, apoie seu time em horários esdrúxulos, bata palmas para a espanholização promovida pelas cotas de TV, encha o peito com a galera e… faça papel de bobo.

O cenário do futebol carioca não é muito diferente do resto do país. É apenas um pouco pior. Nesta primeira rodada do esgarçado campeonato estadual, cerca de 19 mil torcedores compareceram aos oito jogos – quase metade disso exclusivamente na partida Vasco x Madureira. O total das rendas não chegou a seiscentos mil reais, o salário mensal de alguns profissionais do futebol no Rio. São números constrangedores. É claro que os destemperos da FERJ e os conflitos com Flamengo e Fluminense atrapalham esse desempenho, mas quem disse que antes da querela os números eram melhores? Longe disso. Com exceção, talvez, da Copa do Brasil – que tem sua fórmula atraente – as demais competições do futebol brasileiro só mobilizam grandes torcidas em clássicos regionais – ou se um time estiver fazendo uma excelente campanha no Brasileirão. É pouco.

O que sobrou de agremiações históricas, importantes para a fixação da prática desportiva, hoje relegadas a segundo, terceiro, quarto planos ou mesmo nenhum? Nada. Depois de décadas, o Campo Grande virou notícia porque seu belo – e abandonado – estádio Ítalo Del Cima foi cogitado para reformas emergenciais que pudessem abrigar os times cariocas em 2016. Falou-se de Caio Martins, de uma nova Arena na Ilha. Nada. Ficou como está. Chegamos a fevereiro. Depois do Carnaval, o ano começa de verdade. E tudo é empurrado outra vez com a barriga. Que o velho e querido América não volte à condição de gangorra de divisões. Aqui marquei o futebol do Rio, mas não há grande diferença ao se falar de Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Paraná e mais umas 20 Unidades da Federação.

As esperanças de muitos clubes brasileiros estão depositadas na Liga Rio-Sul-Minas. É uma alternativa para se desbravar outros caminhos e tentar salvar o futebol brasileiro do caos, mas nem de longe pode ser a única. Sem os grandes clubes fortalecidos, pluralizados, e os de pequeno e médio porte razoavelmente estruturados – e formando jogadores, o que sempre foi um dos alicerces do nosso esporte, o final da história pode ser apenas chover no molhado. Os desastrosos 7 a 1 da Alemanha na Copa de 2014 foram um diagnóstico claro da enfermidade do futebol brasileiro. Entregue a coronéis, capitães do mato e deslumbrados de ocasião, ele não dá o menor sinal de ter iniciado qualquer tratamento.

As ruas estão cheias de garotos com as camisas de Messi e Cristiano Ronaldo.

@pauloandel

One thought on “Cadáveres e vampiros do futebol carioca (e do Brasil)

  1. cabraljr disse:

    É o que nos resta: lamentar os tempos áureos e sentir saudade dos estádios antes do povo. Sentar no meio-fio, local predileto de Nelson Rodrigues para as lamúrias e maldizer a perpetuação de rubinhos e euricos à frente de nosso futebol. E ainda tem gente que aplaude a presença de sete mil pagantes no jogo do Vasco. Essa é a nossa realidade… Choremos…

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