Amor 2016

amor 2016

Nestes dias de um janeiro que mal começou e já trouxe todos os seus dissabores com atentados, balas perdidas, mortes estúpidas, o adeus a Bowie, guerras vergonhosas, ódio e intolerância, onde encontrar o amor? Ele está em muitos lugares e, ao mesmo tempo, é escasso em outros. Vive sob escombros e também no luxo. Ah, o amor desperdiçado em infrutíferas conversas inbox, outras mensagens eletrônicas outbox e até em bilhetes escritos à mão. Amor, amor, que se mostra tão derrotado na indiferença que polui cada marquise a servir de palácio da miséria. Amor dos dirigentes de futebol, eventualmente de mãos dadas com comissões e participações, não muito diferente do amor das redações dos jornais, geralmente ligados a causas empresariais particulares. O amor desperdiçado em noites absolutamente entorpecidas, regadas a álcool e drogas, onde volumes, protuberâncias e aparências são muito mais importantes do que qualquer sentimento. Onde foi parar o amor dos motoristas que discutem no trânsito até que um assassina o outro? Certamente não está nos bancos, que oferecem simpatia, ideias, mensagens vitoriosas mas nenhum segundo dedicado ao nobre sentimento humano tão decadente hoje em dia. Shopping conters não têm amor, lojas de grife não têm amor, modernos edifícios corporativos não têm amor. Nos transportes de massa ele é possível: o marido e a mulher de mãos dadas, o menininho descansando no colo de seu pai. Num parque também: uma senhora levando seu querido cão para passear. Noutros cenários, ele ainda é raso: falta certo amor nos cumprimentos feitos ao porteiro, o faxineiro, o vigia, à atendente da lanchonete; ao carteiro que traz boas e más notícias e obrigações financeiras. Falta amor quando existe indiferença e nojo dos moradores de rua por perto, da sentava que aquela garota estúpida de São Paulo mencionou na internet, no estúpido humano que entra no elevador sem cumprimentar ninguém, na incapacidade de se perceber a importância das pessoas mais simples. Que amor explica a morte daquela mulher tão bonita em Niterói, obcecada por um procedimento estético absolutamente desnecessário? Oh, amor: pensando bem, naqueles inboxes frios e distantes da labuta, da prosa livre e da conversa fiada, você existe justamente no que não foi escrito. E vive no coração dos loucos que ainda sonham em mudar o destino de seus times de coração. Na visão de águia dos pilotos que cortam os céus deste mundo, levando gentes e gentes, testemunhando a beleza das nuvens e o mistério das distâncias. Nos pobres bichos abandonados no jardim zoológico da cidade olímpica existe amor. Nos versos livres e herméticos de um poeta desconhecido habita o amor. Agora o Rio acorda para mais um dia de trabalho e o amor, mesmo rarefeito, está no ar. Ele vai sofrer golpes, decepções, indiferença, pilhéria mas estar por aí. Talvez em danças de salão, livros escondidos, olhares distantes, até mesmo em notícias de televisão. Um menininho carrega um pequeno pato de borracha enquanto é puxado pela mão e dá seus passinhos no coração da Guanabara: é amor. Alguém pensa no próximo por breves instantes e ali reside o amor. O rapaz preocupado com o trajeto da namorada até o trabalho, monitorando pelo aplicativo whatsapp, é amor. O mesmo não se pode dizer da morte do rapaz caindo num córrego e deslizando para a morte, nem dos percalços recentes de um fluminense de bem, perdendo três parentes inesperadamente em um mês. O amor que mora num sorriso, num sanduíche, numa cena de desenho animado do passado e em muitas lembranças que talvez expliquem certa melancolia de tudo que possa ter sido escrito aqui, mesmo nos melhores momentos. O amor que sobrevoa Ipanema, espia Madureira e precisa chegar a todos os bairros do mundo. Amor, esperanças ingênuas e a saudade do que não se viveu, como se o horizonte lembrasse o tom das Gerais. Fazer amor fazer sentido, eis o desafio.

@pauloandel

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