Que horas ela volta?

que horas ela volta

Durante duas horas, em TV aberta, o Brasil olhou para o quarto de empregada. Depois voltou para sua programação normal. Nas redes sociais, os brasileiros de classe média e alta postaram algumas frases de efeito em “defesa” daquelas mulheres que cuidaram do seu lar desde que se entendem por gente, mas em 2013 reclamaram da Proposta de Emenda à Constituição que deu direitos às empregadas domésticas. O verdadeiro quartinho ficou escondido no mesmo lugar de sempre.

“Que Horas Ela Volta?” no horário nobre da TV teve uma importância política e educacional, mesmo que esta não tenha sido a intenção da emissora. O filme premiado internacionalmente e com uma das apresentadoras e atrizes mais famosas do país como protagonista, fez com que a exibição de um filme nacional virasse um evento. Com tantas questões sociais envolvidas, teve um papel importante na discussão sobre a vida das empregadas domésticas. Faltou tratar da questão racial, sinto informar.

Elas vêm de longe. Do interior dos estados, das regiões mais pobres do país, das periferias das grandes cidades. Acham que elas vêm em busca de um sonho? Não há espaço para sonho na vida de quem teve apenas a força dos braços e pernas para sobreviver. Sustentar a família é a motivação. Dar a eles a chance de quebrar a barreira que as impediu de sonhar.

Em sua grande maioria negras. Muitas mulheres negras abandonadas pelos pais dos filhos. Muitas mulheres negras rejeitadas. Muitas deixaram suas cidades. Muitas deixaram suas famílias.

“É quase da família”. Pode habitar o mesmo teto, mas come em local e horário diferente, só entra em determinados lugares para limpar e arrumar, faz hora extra “de graça”, tem alimentos na geladeira que não estão ao seu alcance. Primeira a acordar e última a dormir. Café pronto. Casa limpa. Comida na mesa. Cama arrumada. Roupa cheirosa. Faz aquilo que ninguém quis fazer. Sobrou para ela. Esse “quase” faz toda a diferença.

Quantas foram abusadas dentro do ambiente de trabalho? Quantas enfrentam mais de 4 horas no trânsito diariamente? Quantas deixaram de acompanhar o crescimento dos próprios filhos e criaram os dos patrões?

Em 2015 eram 1,3 milhões de empregadas domésticas trabalhando com carteira assinada. Apenas 20% do total, formado por 6,4 milhões de trabalhadores. O número pode ter aumentado após a regulamentação dos direitos trabalhistas das domésticas no Senado, em maio do ano passado. A manifestação dos empregadores contra a PEC das domésticas apenas evidenciou o que já acreditávamos: a cultura de Casa Grande e Senzala permanece forte. Por que não queriam dar direitos trabalhistas básicos a elas? Muitos vociferaram que haveria demissão em massa, mas nada disso aconteceu. Era apenas o grito de quem não quer ceder um pouco de seus privilégios.

O filme de Anna Muylaert jogou luzes sobre a questão. Pretendeu falar das milhares de mulheres que migram do nordeste do Brasil para trabalharem em casas de famílias de classe alta no Sudeste e no Sul. Apenas pretendeu. A atuação de Regina Casé merece todos os prêmios. Assim como Camila Márdila (Jéssica) e Karine Teles (Barbara). A qualidade do roteiro e da fotografia não estão em discussão.

O que me intriga é: Onde estão as empregadas negras representadas? O enredo seria diferente, com certeza. Fosse Jéssica negra, assim como as tantas filhas de empregadas domésticas brasileiras, teria o quarto de hóspedes para dormir? Quando a empregada não tem importância na trama, ela é negra. Quando ela é o centro da trama, ela tem a pele clara. Perderam a grande oportunidade de mexer na ferida. Falar do assunto como ele realmente é. Ainda assim os espectadores ficaram chocados com o tratamento da patroa (Barbara) em relação à filha da empregada. “Tão bonita a menina…como fazem assim com ela?” Onde lemos “beleza”, poderíamos ler “pele clara”, ok?

Nos fundos da casa ou do apartamento jaz um cômodo incômodo de dimensões minúsculas. Cabe uma cama de solteiro, que provavelmente teve dificuldade de entrar pela porta. Armário? Um amontoado de roupas. Um porta-retratos, talvez. Nele estará um pouco do que deixou para trás. Foi a forma que encontrou e lhe ofereceram para que sustentasse a vida. Seu nome passou a ser Resignação. Abdicar de quem é, do que ama, de quem queria por perto. Tentar suportar a dor do afastamento. A motivação é a subsistência daquele que está distante. Todo quartinho de empregada tem um pouco de senzala.

Ernesto Xavier

@nestoxavier

http://afrocarioca.blogspot.com.br/

3 thoughts on “Que horas ela volta?

  1. Eudineia disse:

    Com certeza foi uma tentativa razoável de mexer com a questão das relações humanas, mas apenas no aspecto social, deixando o racial mais uma vez embaixo do tapete, depois dizem ser desnecessário o feminismo negro, mas se não nos expressarmos quem falará de nós? A figura da domestica negra não existiu, nem de longe, nem de lado, mais uma vez a invisibilidade, sendo que somos quase unânimes nas novelas como seviçais.E ninguém precebeu esta falha absurda na tentativa de trabalhar com a realidade, mas que demonstra claramente o país racista em que vivemos.
    Somente por isso o filme valeu a pena!

  2. Danilo Anunciação disse:

    Muito bom o texto, mas não concordo com a necessidade de entrar mais a fundo na questão racial, precisamos parar de levantar a bandeira sem necessidade, se a garota fosse negra já estariam falando: “filha de empregada é sempre negra”, no nordeste não existem apenas negros. (.) ponto, fim de assunto.
    Devemos destacar a análise acerca da relação casa grande senzala, foi muito bem feita, essa pseudo relação familiar com a doméstica é realmente um falácia, onde a PEC das domésticas foi o grande passo para o abandono da relação do empregado como parte da família, para dar corpo a uma relação mais profissional, justa e ética.
    Filme muito bom, que nos permite uma infinidade de análises.

    • Ernesto Xavier disse:

      Em nenhum momento desmereci a qualidade do filme. Ali estão questões importante para discussão.
      Porém a questão racial deve ser colocada em pauta sim. 70% das domésticas brasileiras são negras. Existe uma relação direta entre as mucamas da escravidão e as empregadas de hoje. O buraco é MUITO mais embaixo.
      A diretora e a produção tem a liberdade para escolher o caminho que irão seguir, porém é meu dever alertar para questões que são sempre colocadas de lado e exatamente quando se tem uma oportunidade, acaba não sendo falado.
      Belo filme. Já vi 3 vezes. Porém sigo incomodado por não ver retratado aquilo que vemos no dia-a-dia de forma muito mais cruel.
      Quem não é negro ou não se reconhece como tal sempre acha que é desnecessário debater racismo. Só quem sente na pele sabe a importância.
      Racismo mata. Racismo exclui. É um sistema que impede a ascensão de milhões de pessoas e que fere física e mentalmente.

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