Romano, Vieira, eu e a paz

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Ontem à noite, depois de uma longa temporada, pude me reencontrar com meu amigo Luiz Vieira, atualmente morando em Sergipe e numa turnê de férias pelo Brasil. Ele fez uma breve passagem pelo Rio de Janeiro. Aproveitei o momento para convidar nosso velho amigo de escola Floriano Romano, hoje um artista consagrado.

Tivemos como ponto de reunião a livraria Cultura da Senador Dantas. Em vários momentos ficamos espantados com o tamanho daquela loja, que um dia abrigou o esplendor do Cine Vitória, primeiro com seus filmes infanto-juvenis e, mais tarde, um paraíso da filmografia erótica.

Na última vez em que estivemos os três juntos, o Brasil ainda vivia uma ditadura, a inflação era de 80% ao mês e o melhor futebol do mundo era nosso. Vida que segue.

Com o café da Cultura cheio, rumamos para o Spaghettilândia, decano restaurante nos arredores, símbolo de pratos baratos depois das velhas manifestações políticas, quando isso não significava odiar o oponente.

À mesa, falamos da alegria de uma conversa de bar, do mundo que tem parecido cada vez mais injusto e vil, do egoísmo, da indiferença, de coisas que os garotos dos anos 1980 tanto sonhavam para um país e um mundo melhores. Futebol, política, cotidiano, chopes derrubados indevidamente. E também tivemos uma breve aula do Romano sobre as diferenças entre a arte moderna e a contemporânea. Enfim, de tudo. Mas o importante mesmo foi podermos passar duas horas de excelente conversas e até alguns risos, entrecortando as mazelas do cotidiano.

Uma pena que precisasse ser tão rápido. Era o jeito, mas pudemos aproveitar o melhor de nós como amigos, fraternos camaradas dos tempos de escola, quando ainda tínhamos Elis Regina e até Garrincha.

O final da conta foi antológico: o Vieira saiu correndo para pagar a conta no caixa, enquanto nós o perseguimos para impedir que assumisse a despesa sozinho. Definitivamente, não era uma mesa comum no coração da cidade que tem tantas maravilhas naturais – e muita superficialidade nas relações humanas também, infelizmente.

Na saída, deixamos o Vieirinha na porta da estação Cinelândia. Trocamos nossos abraços fraternais. Depois, eu e Romano pegamos um táxi para o outro lado do Centro. No carro, o que mais falamos era como o Vieira tem uma aura boa, de paz, a mesma dos tempos de criança, algo tão raro nesse mundo de violência, covardias e solidão. E como é bom saber que, passados tantos anos, temos um amigo que nos passa bons sentimentos à primeira vista.

Quando Romano desceu do carro, aí foi a minha vez de pensar sozinho: um dos craques das artes de hoje no Brasil é meu amigo dos tempos de jogo de botão, no corredor de um grande prédio de Copacabana.

Lembrando do belo letreiro em neon no salão do Spaghettilândia, tricolor por sinal, num súbito penso agora em como é bom ter amigos que são boas pessoas de verdade, intelectualizadas, críticas desta sociedade hipócrita em que vivemos.

Foi uma grande noite. No meio da selva de pedra sentimental, meus dois amigos me permitiram voltar no tempo a ponto de ter todo o mundo à frente, em forma de futuro. Os anos passaram, mas ainda estamos muito vivos e isso é bom.

Em nenhum momento falamos de dinheiro, posses e bens, donde se depreende o caráter dos cavalheiros presentes. Gente que faz bem, que emana arte e paz. O mundo anda carente disso.

@pauloandel

2 thoughts on “Romano, Vieira, eu e a paz

  1. Luiz Vieira disse:

    Paulin como eu chamo, me emocionei ao ler a sua descrição sincera de um belo momento que vai perdurar comigo durante o resto de minha vida, esses breves momentos se tornam únicos e mágicos, seguro as minhas lágrimas para não estragar o ambiente alegre dessa noite mineira em que me encontro.
    Agradeço por essa breve felicidade que se tornará eterna.

  2. Romano disse:

    vocês são demais!!! Foi ótimo

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