O verdadeiro último dia do ano

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VIVEMOS uma manhã de domingo, cinzenta, de calor moderado. Acabou o ano de 2015, veio um final de semana pela emenda, hoje é um dia de ressaca mental e, com exceção dos estudantes que gozam férias maravilhosas, segunda-feira será dia de trabalhar, ou procurar emprego, e viver o recomeçar na vida na matemática secular de 365 (ou 366) dias, estes geralmente rápidos demais. Muitos trabalhadores também estarão de férias, o que significa ter praias mais cheias e escritórios mais vazios.

Chegou o meio de dezembro e as pessoas estão com seus relógios biológicos botando a língua para fora. Então pedimos arrego, cantamos por um mundo melhor, bebemos drinks e, em algumas oportunidades, os sorrisos felizes das fotografias que vemos não representam a melancolia dos corações imperfeitos. O que parece amor é, na verdade, angústia. Noutros casos, as pessoas mais importantes não estão em qualquer foto.

Depois deste domingo de folga, amanhã teremos a volta ao batente com todas as suas representações: stress, engarrafamentos, arrastões, zumbis de crack, falta de tempo, impessoalidade, terríveis notícias jornalísticas. O país a penar, o Estado a penar e esta bela Guanabara com todas as suas mazelas varridas para debaixo do tapete, porque o que importa são os equipamentos urbanos, a festa olímpica e as aparências.

Tomara que aqui, e em outros lugares do Brasil – do mundo também -, role menos egoísmo e indiferença. Menos violência, menos mortes estúpidas, menos desamor. Que a vida, essa arte do desencontro, contrarie sua própria essência – que as pessoas se encontrem. Mas é claro que isso é apenas um desabafo, porque todos sabemos a distância entre o nosso sonho de paz e a realidade das ruas.

O último dia do ano é hoje. Amanhã voltamos à vida. Por enquanto, o noticiário desta manhã de domingo fala de um policial assassinado com oito tiros numa pizzaria em São Paulo. E de um rapaz que morreu vítima de um raio em Angra dos Reis. O pensamento positivo já começa golpeado, mas vamos tentando.

Quem quer falar de amor? Quem quer mudar, arriscar, investir? Quem quer aprender ou ensinar? Quem quer deixar seu pequeno mundo secreto mais bonito do que ele foi ano passado? Quem quer mais amizades reais e menos likes? Quem quer as boas sensações da vida real em vez dos títulos de capitalização que muitos veem nas religiões? Quem quer o hoje em vez do incerto amanhã? Quem quer palavras materializadas em vez de apenas lançadas ao vento?

Muitas vezes ouvimos na escola: “O homem é um ser gregário”. Tomara que a fantasia tome o lugar da realidade.

Feliz 2016. Sem likes.

@pauloandel

2 thoughts on “O verdadeiro último dia do ano

  1. Roger De Sena disse:

    Mesmo contrariando teu pedido ao final, eu “like”!
    SSTT4!!!!

  2. Paulo-Roberto Andel disse:

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