A hiperinflação das passeatas

passeatas superfaturadas

Ontem (13/12), como sabido, dezenas de milhares de brasileiros, de forma justa, legal e democrática – o que não quer dizer que seus argumentos também sejam – foram às ruas de cidades brasileiras para pedir o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Como sempre acontece, em eventos desse porte surgem todos os papagaios de pirata que se pode imaginar, tais como defensores da “volta à ditadura”, admiradores do nazifascismo e outras aberrações mentais, aproveitando-se da organização de terceiros para poderem expor seu, digamos, ideário – se não o fizessem, não juntariam cinquenta pessoas num botequim.

Qualquer expectador minimamente íntimo das operações fundamentais de cálculo tem plena certeza de que, desde que o país foi paralisado pela incapacidade da oposição em reconhecer sua derrota eleitoral, este foi o momento mais esvaziado de todos. Por vários motivos que, particularmente, não debaterei aqui, exceto dois que não permitem silêncio: primeiro, a tentativa de virada de mesa em se tentar classificar as chamadas “pedaladas fiscais” como crime de responsabilidade, o que é mais ou menos como tentar enquadrar alguém que pega bala de graça das Lojas Americanas como um traficante do PCC – subversão da Constituição Federal. Em segundo, óbvio, o pedido de impedimento articulado por um presidente da Câmara que, noutras circunstâncias, já teria perdido o mandato e começado a responder pelas questões de evasão fiscal que notoriamente praticou, denunciado internacionalmente, usando o cargo para defender a si mesmo e seus parceiros.

Vamos ao que interessa: mais uma vez, os noticiários colocaram seus tanques informativos na rua, de modo a criar mais um factoide na vida brasileira. Primeiro, a impressão de uma grande manifestação é combustível para a audiência televisiva. Segundo, os principais meios de comunicação do país têm interesse direto na casa: possuem enormes rombos fiscais, o caixa está minguando e, se não houver um governo menos receptivo às generosas ajudas destinadas aos sofridos empresários do setor, a vaca irá para o brejo de verde e amarelo – sem passeatas.

Só que o factoide não deu pé: somadas, em qualquer conjunto que se imagine, as passeatas deste domingo não reuniram nem de perto 100.000 pessoas nas grandes capitais, o que equivale a 0,09% dos 105.542.273 brasileiros que votaram validamente no segundo turno das eleições presidenciais de 2014. Se levarmos em conta apenas os eleitores que votaram no candidato Aécio Neves, cujo partido é o organizador enrustido das passeatas, são 0,19% de um total de 51.041.155. Portanto, o protesto é absolutamente legítimo, embora careça completamente de representatividade popular. A julgar pelos números, Aécio se saiu muito mal.

Deixada essa turbulência para lá, a graça está num detalhe que se torna cada vez mais perceptível: a enorme diferença entre as estimativas da presença de público, quando comparadas nas declarações dos organizadores, dos institutos de pesquisa e da Polícia Militar, como se a exatidão matemática ou mesmo a precisão estatística pudessem oferecer três resultados diferentes de um mesmo universo.

Deu no jornal:

  • Em São Paulo, o Datafolha cravou 40 mil presentes. A PM, 30 mil. Os organizadores, 80 mil;
  • Em Brasília, a PM apontou 6 mil presentes. Os organizadores, 30 mil!
  • Em Belo Horizonte, a PM apontou 3 mil presentes. Os organizadores, 6 mil;
  • Em Porto Alegre, 700 para a PM, 3 mil para os organizadores;
  • Em Recife, os organizadores estimaram entre 500 e 1000 manifestantes;
  • Em Salvador, a PM estimou 500 manifestantes, enquanto os organizadores aferiram 2 mil.

Como se pode perceber, a amplitude das estimativas aqui apresentadas oscila entre 100% e 400%, às vezes, na conta dos próprios organizadores. Matematicamente, é um absurdo completo. Hiperinflação é pouco.

Não é razoável imaginar que as estimativas da PM, e até mesmo do Datafolha, no caso da Pauliceia, possam ter sido enviesadas de modo a favorecer os defensores do atual governo. Contudo, não se conhece as formulações científicas que embasam os resultados divulgados.

A dobra, tripla ou mais construída pelos organizadores do evento Brasil afora não se sustenta em simples inspeção visual.

A televisão, sempre ela, joga as informações controversas e “confia na inteligência do espectador”. Ou o confunde. Divulga fotos em close para fingir aglomerações muito maiores do que as que realmente aconteceram. Ontem, foi obrigada a recuar devido ao enorme ridículo entre as chamadas de matéria e o que se via nas telas – ninguém transmitiu os eventos ininterruptamente.

Então recorreram a um expediente do realismo fantástico: não se tratava de passeatas, mas de um “esquenta” para os novos desdobramentos políticos a seguir. Se a moda pegar por aí, teremos dois ou três réveillons em Copacabana antes de 31 de dezembro e duas passeatas LGBT na Avenida Paulista antes da “oficial”.

Mais adequado, no caso, seria esquentar os números das passeatas, informando o público leitor com correção e fidedignidade. Frios, opacos, eles sugerem a curiosa hiperinflação, chute e a lembrança de um dos maiores males da vida cotidiana brasileira: o superfaturamento.

Nem os dados matemáticos dos combatentes da corrupção escapam.

 

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