Luz

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Em tempos de desesperança, são os alunos paulistas que me trazem algum alento sobre o futuro. Duzentas escolas ocupadas. São milhares de jovens que acreditam na educação como uma forma de evolução, melhoria, ascensão, cidadania, crescimento. São crianças e adolescentes mobilizados, conscientes e dotados do espírito revolucionário, há tanto tempo apagado.

A primeira fagulha de que a juventude brasileira ainda respirava a transformação foi em junho de 2013. Aquelas garotas e garotos que se espalharam pelas ruas do Brasil inteiro reivindicando dignidade foram uma amostra de que não estamos mortos. Ainda há esperança, caros amigos.

Se alguns desses, que hoje se mobilizam, estiverem nos cargos de liderança no futuro, então poderemos acreditar em um lugar melhor para viver. Esse é o medo das lideranças conservadoras atuais. Medo de que esses meninos pobres, porém conscientes, cheguem ao poder de forma legítima.

Manifestações populares lutam por direitos usualmente usurpados. Manifestações burguesas pleiteiam a manutenção de privilégios. Existem por falta de empatia e compaixão. Caso contrário, estariam unidas aos jovens pobres e de classe média baixa que estão se apoderando de um espaço que é deles, para que a força contra o governo paulista fosse ainda maior. Onde estão os alunos das escolas particulares de São Paulo? A escola pública é deles também, mas não sentem dessa forma. Deveriam lutar juntos. Sabemos que os políticos só querem atender as demandas das elites.

Imaginem essas crianças quando forem adultos. Eles vão olhar para trás e verão pelo que lutaram, que ideais os trouxeram até ali e talvez entendam que não haverá outra forma de caminhar, senão por novas estradas. Não podemos perder essa geração. Não podemos. Onde foram parar os jovens de 1992? Quem são hoje os revolucionários de 1968?

O grande medo de quem hoje detém o poder é ter uma massa pensante e com coragem de agir. Os alienados que bradam na internet sem noção do que falam, apenas para espalhar ódio, tornam-se ridículos diante de quem sabe pelo que luta. Estes alienados são fruto da banalização da ignorância que os governantes tanto prezam. São seus eleitores e apoiadores. Os defendem como se fossem seus filhos.

A Educação morre sempre que é tratada como moeda de troca.

Quem se manifesta? Por que manifesta? O que motiva milhares de adolescentes a permanecerem 24 horas por dia em suas escolas? O que motiva aqueles que os apoiam?

É o sentido de pertencimento, de que podem mudar algo que os incomoda diariamente, que o descaso com a coisa pública é o mesmo que feri-los. Quando tomamos consciência de que o “público” se refere a nós e não ao governo, entendemos que cada escola, rua, hospital, ônibus, praça, praia, rio, tudo é nosso. A vigilância é nossa. Nós também somos o bem público.

Aos alunos que ocupam suas escolas unem-se às mulheres que denunciam os abusos sofridos ao longo da vida, aos negros que tomam seus espaços de direito, aos gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros que vivem seu amor, que adotam, se casam e caminham livremente, são os jovens de periferia e seus rolezinhos. É o Brasil que se despe das vestes velhas e assume seu próprio corpo nu e belo.

A suspensão da “reorganização escolar” é a primeira vitória de um movimento legítimo e inédito em nosso país. Quem imaginaria? O povo que ouvia calado as ordens das autoridades, agora os enfrenta de cabeça em pé.

O governador que validou a violência contra estudantes passou a dizer que irá dialogar escola à escola em 2016 para que o processo de “reorganização” seja feito da forma correta (se for). A mudança de postura aconteceu no mesmo dia em que a aprovação de seu governo caiu para apenas 28%. Revisão de conceitos ou jogada de marketing?

Durante 20 anos o partido do atual governador construiu 53 novos presídios, com previsão de mais 20 até o final do mandato. Ao passo que iria, em apenas um ano, fechar 93 escolas e transformá-las em “não-se-sabe-o-que”. Que equação louca, não? Uma escola que foi feita para levar o pobre diretamente para a cadeia, de onde ele irá entrar e sair, em um ciclo que perdurará até o seu fim. Fim este, que costuma ser breve.

A escola precisa de uma reorganização dentro de si mesma. Isso não acontecerá remanejando alunos, unindo ciclos ou fechando espaços. São necessárias mudanças estruturais que visem a formação adequada do indivíduo, da sua transformação em cidadão, da sua visão como ser humano, do seu poder de inserção no mundo. Modernização dos métodos de ensino, humanização dos pensamentos, valorização do professor…é possível? Sim, é.

Quem atira bombas e bate em estudantes e professores mostra que tipo de lição quer dar. Àqueles que estão decidindo os rumos do ensino no maior estado do país fica um aviso:

Estes jovens têm muito a nos ensinar. Calem-se e ouçam. O recado é claro, fácil de compreender. Com menos de duas décadas nas costas, eles sim têm algo a dizer sobre EDUCAÇÃO.

Ernesto Xavier

@nestoxavier

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