O fim da linha, os fins e o começo

suicida

Alguém escreveu num arremedo de rede social, alguém comentou em seguida.

Alguém cometeu suicídio hoje cedo numa estação do trem quase – ou às vezes – subterrâneo metropolitano do Rio (que não é exatamente metropolitano e que chamamos carinhosamente de metrô, embora a recíproca de carinho esteja longe da realidade).

O comentarista: “Desgraçado! Além de covarde, prejudicou um monte de pessoas”.

A breve análise me fez pensar e pensar. Começando pela segunda afirmação. Afinal, atrasos no metrô, no trem ou em qualquer lugar não estão acima da vida humana. Ou não deveriam estar. É um assunto para debate amplo.

Segundo, a condenação por covardia. Definitivamente, não creio que suicidas sejam necessariamente covardes, pelo contrário: é preciso ter muito peito para acabar com esta vida que temos, por mais que o mundo esteja cada vez mais indo para o ralo da extinção, seja pelas guerras intermináveis, a violência, o estupro da natureza e outros delitos notáveis que vão muito além da chamada ameaça comunista ao planeta Terra.

Um dos maiores atores do teatro brasileiro, Walmor Chagas. Kurt Cobain, o gênio do Nirvana.

Robin Williams, o ator impecável de Hollywood. Hart Crane, o poeta fantástico. E a nossa Ana Cristina Cesar?

Talvez Heath Ledger. Talvez Marilyn Monroe. Talvez Ian Curtis. Talvez Jim Morrison. Uma lista telefônica inteira, isso para falar de famosos admiráveis. E os fantásticos anônimos que nunca conhecemos? Gente honrada, sincera, triste, sofrida cujos nomes jamais saberemos.

Talvez por falta de uma única mão amiga num momento crucial. Talvez pela solidão. O desespero. O cansaço de tanto sofrimento numa terra injusta e cruel. Há muitos motivos.

Uma das pessoas mais corajosas que já conheci cometeu suicídio.

Era um garotinho que, perto dos seis ou sete anos de idade, perdeu os pais por motivos diferentes.

Foi internado num colégio interno e, de lá, sem família, sem dinheiro, veio para o Rio acompanhado do irmão mais velho. Dois órfãos lutadores.

O mais novo conseguiu, a muito custo, entrar para a Faculdade Nacional de Medicina, no meio dos anos 1960, só que havia uma ditadura no caminho que detestava jovens comunistas.

O quase médico apanhou, tomou choque elétrico, ficou surdo do ouvido esquerdo com porrada – “NADA DE ESQUERDA PRESTA” -, conseguiu sair vivo do DOPS e, com a ajuda de um empresário judeu, foi para Israel.

Nunca mais voltou ao Brasil. Dezessete anos depois da surdez, duas mulheres depois, três filhos, dez anos no exército israelense atendendo mutilados diariamente por causa dos conflitos bélicos, quarenta e dois anos de idade, olhou para trás, para a frente, para os lados, não viu nada além do fim da linha e disse adeus.

Um ano antes da morte, caiu em lágrimas quando me ouvir falando ao telefone. Na última vez em que havíamos nos visto, eu não sabia falar absolutamente nada, apenas chorava e ria. Era um Brasil de fuscas na rua, de ame-o ou deixe-o (antes que te matem), de noventa milhões em ação, de ossadas desaparecidas e medo, medo, muito medo. Na hora da ligação, era um Brasil de fome, desemprego e estabilidade da moeda por nove meses. Sabedor de que eu era pobre e sem chances de trabalho num mercado desprovido de vagas, 17 anos, ele me prometeu ajuda para começar a estudar numa faculdade. Meses depois, estive em São Paulo para buscar uma quantia em dólares que me permitiu pagar um ano de curso.

Era meu tio, mas podia ter sido meu pai.

Cresci, vivi, sofri, ainda não achei meu lugar no mundo e hoje, neste 07 de dezembro, véspera das passagens de John Lennon e Tom Jobim, acho que jamais acharei.

Em mais de uma vez, tentei a morte. Era garoto, sem rumo, numa família trucidada por uma enorme perda econômica: o pai adoecido com álcool e drogas, a mãe com diversos problemas de saúde. Liguei o gás e voltei a tempo dois minutos depois. A lucidez salvou minha vida e, por isso, cheguei até aqui onde você me lê. Foi coisa de trinta anos atrás.

Anos depois, com meus pais definitivamente fora de combate, eu cuidei deles, os sustentei, fiz o que pude. Tenho trabalhado muito, estudei bastante, escrevi livros. Tiveram anos confortáveis no fim de suas vidas, pouco diante do que realmente mereciam. A meritocracia não funcionou para eles, que foram embora antes do justo e razoável.

Durante anos, subi trilhas de alguns dos pontos mais altos desta Cidade Maravilhosa, cheia de indiferenças, injustiças e escrotidão, mas de uma beleza enorme a ponto de fazer qualquer ateu cogitar a existência de Deus. E várias vezes eu tive medo de, num passo em falso, sem equipamentos, escorregar para a morte. Quando espio da janela do táxi os morros, rio de medo. Foi coisa de trinta anos atrás.

Passei muitas vezes perto das linhas do suicídio, mas estar vivo por não ter sucumbido a elas não faz de mim alguém corajoso ou melhor do que ninguém, quando mais desta triste pessoa no metrô hoje e de tantos outros por aí. Pode ter sido a minha covardia, ou acreditar que as coisas muito difíceis de acontecer positivamente possam ter a sua chance. Toda vida humana merece apreço – e quando cada uma delas termina pelos erros grosseiros dos outros humanos, aí sim eu me sinto um perdedor nato, um nada.

Quem é mais covarde: um suicida ou um crítico de quem sequer conhecia?

O mundo tem julgamentos demais e solidariedade de menos.

Tudo se perde em cinismo, hipocrisia, indiferença e egoísmo, até o dia em que seremos todos inúteis em caixões mortuários ou fornos crematórios. Entre o começo e o fim, tentemos viver nos esgueirando das lendas do grande liberalismo, das grandes festas e da felicidade virtual.

Agora começa o fim da tarde. Tentarei um momento feliz.

A vida é isso: buscar um pedacinho de alegria no meio da terra estrangeira, ou seja, tudo.

@pauloandel

One thought on “O fim da linha, os fins e o começo

  1. Zeh disse:

    Sigamos adiante.

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