Eduardo e Henrique

– Não, Henrique! Ai não!
– Sai fora desse sofá!
– Você não me dá sossego! Me deixa!
– Henrique!

Dona Cândida não estava entendendo mais nada. Eduardo, o vizinho de porta no prédio, sempre lhe pareceu um ótimo partido. Ela o fiscalizava desde que aquele moço bem apessoado veio morar na sua quadra. Secretária aposentada do senado, ela não conseguia deixar de cuidar da vida alheia, para desespero de Abner, seu marido.

– Abner, tem um homem no apartamento dele! Eu nã acredito! Um moço tão bonito…
– Deixa de ser fofoqueira, Cândida! Que homem? Quem que você tá fuxicando ai?
– O Eduardo, nosso vizinho! Eu pensava até em apresentá-lo pra sua neta… Mas ai, apareceu esse tal de Henrique. Que falta de vergonha na cara…
– E quem é Henrique? O que que você tem com isso, Cândida, pelo amor de Deus?
– Pelo visto é o namorado dele. E pelos berros que ele dá é bem atirado. Uma coisa de “sai dai”, “não quero”. Uma pouca vergonha!
– Cândida, você está ficando louca! Pare com isso!
– Parar? Parar como? O seu vizinho está trazendo homens pra casa, Abner! Como é que a gente vai conviver com essa promiscuidade? Isso é um perigo! Sabe-se lá quem é esse Henrique. Vai ver é ladrão e quer roubar as coisas do Eduardo. Vi outro dia no jornal. Isso é cada dia mais comum. Vou interfonar pro Seu Francisco e perguntar se ele viu esse tal entrar ai. Eu ainda não consegui ver a cara desse homem. É muita preocupação meu Deus…
– Cândida, por que você não vai dar um passeio no shopping? Deixa isso pra lá!
– Eu bem que achava aquele abajur da casa dele muito esquisito. É coisa de bicha mesmo. Eu devia ter notado.
– Cândida, chega!!!!
– Vou ligar pra Neli, do 203, e ver o que que ela acha. Vai ver já viu o cidadão ai no corredor…
Ouve!! Ele tá gritando com o Henrique de novo!
– Sai daqui, Henrique! Sai!
– Deixa eu olhar pra ver se o Henrique vai sair.
– Cândida!!! Ah, vou eu pra rua. Vou pro boteco com o Vinicius. Chega. Você enlouqueceu.
– Quem enlouqueceu foi você! Seu vizinho está trazendo homens pra casa! Homens, Abner! Como a gente vai conviver com essa promiscuidade?
– Você não sabe o que se passa ai, Cândida. Pode ser só um amigo. E se fosse algo mais, você não está dizendo que é sempre esse tal de Henrique? Onde está a promiscuidade?
– Me admira você! Sempre foi contra essas coisas! Agora virou defensor de gays? Um homem bonito, bem sucedido! Vivia vindo um monte de mulheres ai. Tinha uma loira lindíssima! Agora é esse Henrique. Pouca vergonha. Eu nem cumprimento mais.

– Abner, ele saiu sozinho!
– bngmmmmmz… hã? O que foi Cândida?
– Ele acabou de sair. Todo arrumado. De terno. Sozinho.
– Você me acordou pra isso, Cândida? Cacete, me deixa dormir…

– Bom dia, enfim
– Tive lá no corredor. Coloquei a orelha na porta. Nada, Abner! Silêncio completo.
– Qual o almoço? Aliás, até que horas você ficou fuxicando o vizinho?
– Nem sei. Estou desesperada. Eu não vi esse homem sair. A porta tá trancada?

Toca o telefone.
– Eduardo, é a Paula! Tá tudo bem ai? Como ele está?
– Destruindo meu sofá. Perai…
– Para, Henrique!!!

(Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com fatos da vida real terá sido mera coincidência)

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