Blequefráidei na cabeça!

bleque fráidei

Vamos pulando de galho em galho.

Chega o fim do ano e, com ele, as festas de confraternização. Sim, seremos todos melhores, gostamos uns dos outros, abraços generosos, fica faltando apenas certa sinceridade – para com o outro e nós mesmos.

Todo mundo na expectativa do Natal, do Reveillón, dos grandes churrascos, das festas do URRÚ!  e  tudo que sirva de combustível para seguir na estrada do próximo ano. Marcamos datas, metas, renovamos esperanças mesmo que não haja fundamento. Vai mudar. Vai melhorar.

E então o novo ano virá. Vamos esperar o Carnaval. Os feriadões de abril. O Dia dos Namorados. As férias de julho. Quando percebemos, lá se foi mais tempo, que pode ter sido investido, gasto ou mesmo perdido.

Novidade no calendário desta linda Pindorama de barragens assassinas é a blequefrádei. Última sexta-feira de novembro, grandes magazines dão descontos inacreditáveis e você poderá comprar tudo o que quiser com preços absolutamente convidativos.

Descontos de 70 ou 80%. Sobre o preço reajustado em 70 ou 80%.

A crise fica de lado, ninguém consegue se lembrar mais do horror em Paris ou Mariana. Sobre o casal de moradores de rua incendiados no Rio Comprido? Nem pensar!

Podemos ser felizes por alguns instantes, consumindo maravilhosas manufaturas a preço de banana. Crise é o cacete! O que eu tenho a ver com o desemprego dos outros, se tive méritos e lutei pelo meu esforço graças ao meu talento (leia-se também ter sido bancado pelos meus pais)? A culpa é do governo…

É O GOVERNO…

Qualquer governo…

Daqui a pouco o Rio de Janeiro entra em ritmo de verão, tudo ficará mais lindo, as mulheres são lindas (mesmo), a geografia de parte da cidade – a dos cartões postais – é linda (mesmo) e ninguém vai reparar se os outros lados são abandonados, se a violência come solta nas favelas, se o tráfico é interminável no matar e morrer de um monte de gente, especialmente jovens negros – sem contar as meninas arrancadas de casa para a prostituição forçada, o horror, o abandono, os usuários de crack espalhados em pontos específicos parecendo zumbis.

É Natal, é Reveillón, é Carnaval, é feriado! Por aqui, Olimpíadas também.

Vamos para a blequefráidei. Empenhemos nossos esforços monetários porque este é o sentido da vida oca em que nos metemos nas grandes metrópoles do mundo. Vamos assassinar esta maldição de comunismo! Precisamos ser liberais, pero no mucho – dependendo de cada caso. Sociedade é o cacete, concentração de renda é o cacete!

Os empresários de sucesso em belas reuniões vespertinas com lindas assessoras. Os jovens bem criados envolvidos em alguma nova confusão violenta contra gente cronicamente pobre – ou até mesmo a estupidez chamada estupro. Os políticos que se digladiavam ontem agora trocam abraços e sorrisos complacentes. Os homens das igrejas prometendo o céu à vista ou em suaves prestações – louvado seja deux.

Vamos pulando de galho em galho.

Transportes deficitários, criminalidade em alta, a saúde só existe fora dos hospitais públicos. Se você cair na rua, talvez ninguém perceba. Alguns vão ficar olhando o ballet da morte desenhado nas linhas do teu rosto. Pouca gente entende a derrota da vida quando um morador de rua cai na calçada completamente entorpecido por causa do álcool barato, que lhe corrói às vísceras mas é o único companheiro de uma vida com 24 horas de desgraça diária.

O que importa é a blequefráidei!

Antes que você chore, eu te entendo por isso. Caso possa, ofereça uma pequena solidariedade às minhas lágrimas também. Mas não ligue a TV: alguém vai comemorar a eleição de Macri num exercício de colossal ignorância. Por que, seu esquerdopata de merda? Simples: basta buscar no Gúgol as expressões “Rafa Di Zeo”, “La 12” e outras pérolas populares do football argentino.

Acabei de ler que a UERJ – Universidade do Estado do Rio de Janeiro – foi interditada por alguns dias, em função da INSALUBRIDADE. A mesma querida universidade onde estudei, brinquei, fiz amizades, namorei, aprendi (estudar é uma coisa, aprender é outra) e consegui a profissão que me sustenta até hoje, a mesma que bancou a década final de minha família.

Lá, contávamos as moedas para comer um sanduíche de pão, ovo e salada.

Collor ia salvar o mundo, mas não deu certo.

Éramos infelizes, mas ríamos todo dia e, ao contrário de agora, quando se começa a olhar para trás e se vê que o fim está bem mais próximo do que o começo, havia a promessa de futuro – sem blequefráideis. Velhos alunos daquele tempo agora vociferam que privatizar é a solução da universidade. A hipocrisia é quase tudo.

Um jovem garoto gordinho de óculos caminha solitariamente pelas underground streets de Copacabana e não entende absolutamente nada do que vê, o que faz todo sentido neste mundo de indecifrável confusão. Qual será nossa próxima jogada, senhores? O que importa é a blequefráidei, ora.

@pauloandel

 

 

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