Quando eu era criança

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Quando eu era criança, diziam que o Brasil era o país do futuro.

Havia uma ditadura imunda mas sem o contraponto das redes antissociais. Fim dos anos 1970.

A corrupção abundava em obras faraônicas mas ninguém noticiava – os jornais às vezes saíam com páginas inteiras em branco, censuradas. Por que você acha que a estação Carioca do metrô é tão grande e até hoje subutilizada? Erro de cálculo?

Para ver a Vila Sésamo na TV a cores novinha (antes, era colocar papel celofane de alguma cor psicodélica para embrulhar a tela), aparecia um cartaz da Censura Federal autorizando a exibição. Ou à noite, a voz em off avisando que Roque Santeiro não ia para o ar – só dez anos depois. Passava até Rock Concert.

Os craques eram de carne, osso e caráter. Estavam nos álbuns de figurinhas. Os times de futebol duravam anos. As carinhas eram coladas nos times de botão. Ir ao Maracanã era um prazer. O Fluminense todo de branco.

Você ligava a rádio e Big Boy muito louco incendiava a audiência com seus hits musicais. Ou Zé Rodrix cantando “soy latinamericano e nunca me engano, nunca me engano”. Grandes canções de Belchior.

Todas as capas dos jornais deram a morte de Juscelino em grandes manchetes. Eu voltava do Hospital de Ipanema depois de uma cirurgia – e lá bebi café com leite pela primeira vez na vida. Muito bom. Em casa, líamos O Pasquim escondido.

Mortes terríveis. A bela garota Cláudia Lessin, irmã de atriz, morta na avenida Niemeyer. Chamavam o cenário do crime de “festinha de embalo”. O bandido Michel Frank fugiu, era filho de rico, morreu assassinado na Suíça por uma disputa de drogas. Aqui, impunidade.

Perdi minha bolsa de estudos porque a diretora da escola, uma simpatizante do fascismo, plantou uma nota vermelha em matemática no meu boletim da sexta série – a única de todo o meu currículo escolar. Arrependeu-se da concessão: eram tempos da inflação de 50% ao mês. E vocês acreditam nessa maior crise de todos os tempos? Depois, formei em Estatística e fiz metade da faculdade de Matemática. Só de sacanagem.

Jogávamos bola na porta do shopping center em Copacabana. Na verdade, com uma bolinha de isopor, para não quebrar nada nem machucar ninguém. Os seguranças fingiam que não viam. Os gols eram esses ferros que impedem carros na calçada. Falando em ferro, o vizinho famoso do prédio era o ex-árbitro Armando Marques. Fazíamos campeonatos de botão debaixo da escada rolante do grande centro comercial.

Nos jornais, o mengão já era o maior de todos os tempos, infalível e imbatível. Na verdade, mais ou menos. Levara de quatro do Palmeiras.

Quando estreou a novela “Água Viva”, achávamos que o mundo era limitado às nossas praias próximas. Era o que se via na tela. Talvez seja assim até hoje, tirando uma ou outra novela ambientada em favelas. Bom, antes era muito difícil ver um pretinho que fosse, mesmo um daqueles que ficava sentado nas areias do Posto Seis, fazendo o céu de teto e com esperança num futuro que jamais viria. Os mais exaltados eram chamados de pivetes. Era uma vida difícil, mas não esse mata-mata de agora, onde a vida não vale um papel amassado. Menos mal que João Gilberto tocava às oito da noite.

Minha mãe fazia tortas, frango, bife, batata frita, pudim. Quando sobrava algum dinheiro, comprávamos uma pizza Bella Blu: tinha tudo de bom, bacon inclusive.

Não havia computador, nem celular e nem século XXI. Mas Gilberto Gil já cantava muito: “o meu caminho inevitável para a morte”.

A maior impressão? Por mais que muita coisa tenha mudado, a essência ainda é a mesma. Ainda somos atrasados demais, ignorantes demais, muitos incapazes de perceber que ajudar o outro é fazer o bem de todos. Somos selvagens demais, hipócritas demais, egocêntricos e egoístas demais. Um subproduto do Tea Party.

A ditadura venceu. Silenciosa, malandra e calhorda, só agora ela mostra publicamente suas garras enlameadas nos Facebooks da vida. Ninguém resiste a trinta segundos de denúncias de corrupção e questionamentos sobre o próprio caráter.

Aqui na rua, hoje é dia de lazer. Tendo algumas crianças pobres brincando com alegria, já me sentirei menos triste. O resto é o tempo que passou, o retumbante fracasso de uma sociedade e a certeza de que boa parte da minha turma leu um monte de livros em vão. Mais do que ler, interpretar era preciso.

@pauloandel

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