Vinte anos de rua

fabiano

Este cidadão mora nas ruas do Centro do Rio há cerca de vinte anos. Desde pelo menos 1996, ele perambula nas cercanias da Praça XV. Dorme sob marquises, em meio a caixas de papelão. Eternamente imundo, chova ou faça sol de bermuda e chinelo.

Uma vez desapareceu por um bom tempo. Uns dois meses depois ressurgiu barbeado, bermuda limpa, careca brilhando. O tempo o fez voltar ao estado “normal” das coisas.

Tem o carinhoso apelido de Fabiano em homenagem a um amigo, praticamente sósia do mendigo.

Certamente não está nas ruas por ter sido atropelado pela falta de dinheiro. Tem alguma espécie de distúrbio mental. Grave. Não é apenas um mendigo. Merecia ser estudado, pois apesar de viver imundo e seminu, parece gozar da mais perfeita saúde.

Parece muito feliz de estar nas ruas. E esse é um dos pontos centrais desse texto. Será que o doidinho estaria mais feliz se estivesse internado em alguma instituição psiquiátrica? Limpo, alimentado, abrigado? Ou se sentiria preso, alijado da sua liberdade, de seu castelo imaginário das ruas?

O que é a felicidade de um homem?

Só ouvi, até hoje falar uma única frase em meio às guimbas de cigarro que fuma:

“Ô amigo, me vê cinquenta centavos? Cinquenta centavos?”

Parênteses: guimba. Pelo amor de Deus, não me venham com bitucas. Essa invasão de termos paulistas no Rio de Janeiro tem de ser contida.

Pois bem, por conta do nascimento da minha filha e de outras circunstâncias, passei quase seis anos morando em Brasília e, portanto, distante do convívio com tão ilustre figuraça do Centro.

Semana passada, para minha felicidade, tava lá o cara. Resolvi passar bem perto dele para ver o que diria.

Surpresa.

“Ô amigo, você tem dois real, dois real?”

Morri de rir. Coerentemente, nesses tempos bicudos, inflacionou o seu pedido.

Gostaria muito de entender como chegou a esta conclusão.

É louco, mas não é maluco.

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